Estamos tão habituados a olhar a vida como “especialistas”, rotundamente afectados pelo olhar crítico e politicamente correcto que raras vezes deixamos que os afectos dos sentidos sejam dominados pelo coração, em sincera concordata com a razão da inteligência. Talvez que essa seja a liberdade de não andarmos a transportar apenas uma parte do cérebro, nos equívocos dos universos metodológicos e encontrar, na profunda orgânica natural da vida, os espantos que fazem vibrar as cordas sensoriais, para além das condições a que irremediavelmente nos deixamos prender. Esta não é uma entrada, portanto, de cariz biográfica. Nem tão pouco uma recensão ou crítica que se pretenda esclarecida ou esclarecedora de uma obra e suas componentes. Sim, nem tão pouco uma história no sentido do detalhe cronológico e momentos decisivos que culminem no entendimento de uma contextualização maior. Trata-se, antes de mais nada, de um olhar de afectos tão arredados de um meio enquistado nos seus mecanismos e indissolúveis redundâncias. De certa maneira, arriscaria dizer, que a vivência no “mundo da banda desenhada” é humanamente empobrecedora e toldada pelas suas repetidas incongruências internas. Aqui, pelo contrário, não se trata de defender uma posição mas de tentar despir as roupagens mais pesadas e ter um olhar genuíno entre pares que cruzam olhares, apelando sobretudo para a relativa inocência do espectador que, consciente dos mecanismos processuais, consegue encontrar na emoção um sentido maior de expressão, na totalidade do objecto visado.
Raras vezes um encontro com um trabalho de banda desenhada foi tão estimulante e intenso como aquele que senti com o trabalho do Relvas na revista Tintin. Lembro-me, de uma forma vívida e clara, das hilariantes tardes de leitura conjunta dos sketches de duas páginas em que um Espião Acácio estimulava um humor penetrante, inteligente e irónico poucas vezes visto através de um desenho desenvolto e perspicaz que tiveram a circunstancia única de me fazer chorar de tanto rir! Estímulo de excepção, naquilo que era mais comum, de um mundo que apelava aos sentidos da continuação, dentro do entretenimento causado pelas deambulações dos personagens. Dentro deste tempo nuclear, escuso-me a seguir uma ordem cronológica, já que o impacto maior foi sem duvida aquela que considero a primeira novela gráfica da BD portuguesa, com personagens de autentico conteúdo vivencial e demarcado perfil psicológico – no sentido de conferir um peso consistente à sua realidade – que senti na narrativa L123. É curioso, porque na altura a presença dos trabalhos que saíam na revista não implicava necessariamente o seguir ininterrupto das histórias. Assim, para mim, L123 tinha uma ressonância forte e algo misteriosa no seu jogo de manchas a negro. Aliás, creio não ter lido seguida nenhuma história do Relvas nesta revista, assim como de muitos outros autores que por aí passaram e de, no entanto, eles terem tido um acrescido impacto no meu interesse pela BD. Sentia até uma estimulante introspecção nessas leituras lacunares, onde dialogava a imaginação e a racionalidade no sentido de pensar em como seriam as continuações, ou o que é que se teria passado nos capítulos ou trechos que eu perdera anteriormente. Julgo mesmo que foi com o trabalho do Relvas, nessa altura, que eu me apercebi da riqueza interior que um percurso como autor de banda desenhada poderia ter. Não só passava do humor refinado e desconcertante para as crónicas urbanas do L123 (que li completamente mais tarde, aquando da edição em livro pelo Salão do Porto), como ainda tenho muito presente a sua adaptação literária da Viagem ao Centro da Terra de Jules Vernes, história que suscitou a minha única tentativa de desenhar apartir do traço de um autor português… Em si, esta adaptação não continha elementos muito relevantes ou reveladores do trabalho do Relvas, no entanto o seu contexto gráfico e narrativo possuía uma sobriedade e um equilíbrio simples, quase subliminar, que me suscitaram uma vontade intrínseca de ascender a esse patamar de serenidade sequencial.
Para mim, o tremendo do belo no convencional advém mais de uma intuição do que não é exposto. Como acontece ao traduzir em gramática sequencial as qualidades processuais do foro literário, até mesmo num registo gráfico naturalista. Assim não é de espantar que eu considere A Torre de D. Ramires, do Eduardo Teixeira Coelho, a obra prima da banda desenhada portuguesa. Se bem que esta não assente as suas premissas estruturais na simplicidade e despojamento que encontrei nessa outra adaptação literária do Fernando Relvas. Com ele, sentia sim que a banda desenhada, através do seu autor, era todo um mundo. Até aí os autores viviam da sua expressão estigmatizada, com a referência “máxima”, contrariando este sistema, de Jean Graton ou Moebius; sem dúvida tendo tido um papel marcante mas que com o tempo se revelou uma experiência algo balofa e pirotécnica, em comparação com a expressão madura e arriscada do próprio Relvas. E dessa vida vinham muitas outras vidas, tendo sido injustamente e de forma superficial, rotulado como alguém com “facilidade no desenho”. Equivoco maior, proporcionado pela extrema falta de formação, das cabeças que pensam e opinam sobre a prática do desenho, dentro da banda desenhada, algo que de momento não me pretendo debruçar… A imagem que se me impõe neste momento é a da passagem pela ficção científica, que no caso do Relvas expressava já a densidade e o cuidado posto no tema, fora dos atributos algo circenses a que este género, infelizmente, sempre esteve muito vinculado dentro do universo da BD. Rosa Delta Sem Saída já fazia acreditar numa narrativa gráfica, adulta e depurada de maneirismos, e confirmava, tal como as BD’s passadas no Algarve que um autor tem vida própria e que não é um criador de géneros estanques. Mas alguém que reflecte uma experiência independente, conseguindo ultrapassar as biografias dos nossos sentidos romantizados, e a visão estereotipada que decorre de um mero sucedâneo das nossas observações.
Não será de estranhar que se assuma aqui um “tempo mítico”, em contraponto às dissecações científicas e parciais, incapazes de explicar a essência ou o todo. Encontrando este discurso, o seu exemplo proverbial, quando algures tentei contactar o Relvas para reproduzir uma das suas sequências do Espião Acácio, num qualquer malfadado fanzine. Disseram-me então, que o autor vivia num parque de campismo, sem telefone nem morada fixa. Depois disso, recordo-me desse outro tempo, em que eu ainda era aprendiz da arte sequencial, trabalhava como paquete, após ter desistido de uma via académica e existia o Sete com uma vivência também ela feita de banda desenhada. Neste jornal, o Relvas deu continuidade à sua expressão singular, naquele que foi, quanto a mim, o seu momento mais controverso, talvez justificável pela mudança de meio, da revista para o jornal. Sentia que existia no trabalho do autor, de então, uma quase dispersão na procura, enfatizada em diversas experiências de traço, cor e temáticas que não pareciam fazer justiça a um trabalho consequente. Acho que nessa altura ele perdeu uma certa unidade orgânica, mesmo quando o humor continuava acutilante ou a narrativa mantinha a sua precisão intencional; os sintomas de uma afirmação pelo lado rebelde e underground, nunca me fizeram sentir mais do que um Relvas em estado panfletário. Hoje consigo perceber que muitas dessas experiências, um tanto “psicadélicas”, mas sem ácidos e provavelmente com muitas cervejas, foram estruturalmente muito importantes para trabalhos maduros e desenvoltos, como encontro na série on-line dos Kriks. Ou talvez que essa tenha sido uma forma de exorcizar algum do formalismo que o autor trazia das suas experiências anteriores e que nesse momento sentiu necessidade de uma ruptura congénita, digamos.
Para mim foi o exemplo do autor em desintegração, que eu amava e odiava, sem perceber muito bem o porquê de tanto mangenta ou a necessidade de tantas observações escritas, enfatizando aquilo que me parecia óbvio. Agora compreendo este efeito, quase como uma expressão a la John Coltrane, uma certa intenção de ruptura, zangada na sua procura visceral e sem barreiras. Talvez daí títulos tão sugestivos como Nunca Beijes a Sombra do teu Destino ou punks que telefonam para casa a dizer que não vão lanchar… Admito simultaneamente uma coragem intrínseca em muitos trabalhos que vi nessa altura e que pareciam displicentes, incongruentes com uma certa imagem que até então tinha construído, daquele que para mim era o paradigma do autor de banda desenhada. Muitos de nós, autores de banda desenhada, desenvolvemos o nosso trabalho, raros serão os que fazem um percurso tão completo, apesar de nos serem dadas todas as benesses e referências em compêndio. Stuart de Carvalhais foi um desses raros casos que encontra através dessa ponte imaterial o que se exprime tanto na vivência como no trabalho do Relvas, mesmo que nos anos seguintes tenha assistido, na minha opinião pessoal, a uma decadência gráfica da qual poucos teriam conseguido sair. Recordo encontrá-lo no Espaço Ágora, à beira rio, conversas tardias, entre cervejas e as referências há vida morada num barco atracado ao cais; o ondular das águas na inquietude jamais serena… Uma presença cheia e segura, sem preconceitos ou afectações. Um quadro de uma presença quase niilista de si mesma mas com muita coisa sincera ainda para tomar forma, a partir dos seus conteúdos naturais. Carlos Starkiller vem daqueles tempos, entre a revista Lx Comics e o início da Bedeteca de Lisboa, senti-a como uma extensão da dispersão da fase Sete, com alguns laivos expressivos bem conseguidos mas devo confessar que não guardei o livro. Curiosamente, nem o próprio Relvas é pessoa para manter uma biblioteca, acreditando mais no valor transeunte da leitura.
Continuando sem rigor cronológico, reencontrei-me com o trabalho do Relvas, primeiro com O Rei dos Búzios, na revista Sábado e mais tarde sobretudo com os originais de Çufo, aquando de um Festival da Amadora. Para muita pena minha, ambos carecem, de formas distintas, de uma conclusão peremptória e desenvolta nos respectivos argumentos e histórias que são contados. Enquanto O Rei dos Búzios, se dilui de forma frustrante e arrevesada, Çufo termina abrupta e laconicamente, mantendo-se, em ambos os casos, a pairar uma ressonância veemente daquilo que poderia vir a ser. Seria escusado falar das profundas dificuldades inerentes ao processo de se poder desenvolver de forma consequente e madura um trabalho de banda desenhada. Todos sabemos que as circunstancias pendentes e pouco sólidas fazem desta actividade um atravessar o fio da navalha onde se pode ter tudo e a um momento seguinte nada! Estamos expostos, como poucos, às vicissitudes dos directores das publicações, dos organismos institucionais e daqueles que assumem papeis orientadores ou tutelares. Não raras as vezes com alguma sobranceria e arrogância, além mesmo de uma profunda apatia humanista… situação que se vai mantendo, sendo muitas vezes incontornável. Sempre me fez muita confusão porque é que nunca acontece, por exemplo, as editoras irem ao encontro de um autor e esperar-se que o movimento seja sempre contrário. Não incluo aqui as encomendas das câmaras municipais, no sentido de alindarem a freguesia com banda desenhada… Para mim, é uma incógnita sem resposta que esse movimento não tenha surgido para a publicação do Espião Acácio. Ou como pôde esta comunidade dar-se ao luxo de perder um dos autores mais originais e prometedores de uma banda desenhada que não tem fronteiras, como no caso aviltante do Renato Abreu!!! No fundo, somos tudo aquilo que condenamos. A existência não é proporcional às capacidades intrínsecas mas a uma série de circunstâncias, sendo estas quase sempre aleatórias; rodeados de amigos no “sucesso” e francamente isolados sempre que as portas se deixam de abrir. Não temos que ser dóceis e o Relvas nunca o foi, nesse sentido também ele é um símbolo raro daqueles que são apolíticos e conscientes da sua própria experiência, para o bem ou para o mal. Naturalmente, isso tem uma factura, que se insiste em cobrar aos vivos com as devidas reduções estando estes mortos.
Recordo-me do comentário de um outro autor, que para o caso pouco interessa quem foi, aquando da presença da BD portuguesa em Angoulême, tendo dito que o Relvas era “um bom português”. Senti que havia naquela afirmação um cinismo moldado por uma maldade velada, sendo para mim certo como se pode viver tão distraidamente aquilo que melhor os outros têm para dar e no caso do Relvas é, felizmente, muito mais do que ser português, mas essa é uma história que poucos entendem… Talvez por isso venha a propósito recordar o encontro no O’ Gillians, agora a viver em Almoçageme, lá para as bandas de Sintra, julgo que numa fase em que vendia desenhos feitos de forma muito rápida, parecendo pouco sentidos e cheios de uma vontade de sobrevivência, reconhecendo-o agora mais pela sua presença inclinada para com os detalhes e uma certa aculturação que adivinhava já um percurso de extradição, depois da sua passagem breve por Coimbra, incluído na equipa da livraria DR Kartoon, ao tempo da malograda passagem por Portugal da editora e livreira Belga Fany Denaier. Salvo erro, depois de uma passagem, com estadia, por Espanha, volto a reencontrar o Relvas, desta feita através da internet, estando ele agora a viver na Croácia. Todo este mergulho no abismo do percurso deste autor assiste neste momento, uma vez mais, quanto a mim, a uma franca revitalização e reencontro fundamental com a sua arte. Foi aliás, isso mesmo que me fez despoletar a escrita deste post no reconhecimento de uma vitalidade sempre presente deste autor ímpar. Até na circunstancia da forma do(s) seu(s) blog(ues), não como uma súmula de notícias pontuais e lacónicas que na esmagadora das vezes apresenta este suporte por parte de outros criadores.
Relvas tem muitas das suas produções recentes disponíveis para serem lidas em computador, podendo estas serem encomendadas na versão impressa. Destacaria sobretudo as tiras que fazem parte da sequência Kriks, com argumento de Nina Govedarica em que o desenhador desenvolve um corpo gráfico melancólico cheio de ritmos entre claros e escuros, assumindo um desenho depurado e singular; complementando de forma perfeita o argumento que transpõe com clareza a vida de insectos que todos nós humanos levamos, no caminho da sobrevivência. Não fosse já essa uma pérola no imenso espólio aberto pelos caminhos deste autor, encontramos RO, um projecto cujas páginas de pesquisa e análise se encontram ao dispor dos navegantes do ciber espaço. Como inclusivamente, se mostra receptivo a comentários ou sugestões sobre a contextualização desta história, que se passa em Macau e no Japão do século XVII. As pranchas já existentes para este projecto apresentam-se como do melhor que tenho visto em BD ultimamente. A montagem das sequências contêm em si um ritmo irrepreensível numa narrativa de desenhos e sombras balanceadas por um ténue equilíbrio, produzindo um alquimia que nos faz sentir os sons, mesmo que estes só ecoem dentro das nossas cabeças. Não seria somente justo mas urgente que um editor mais sensível dêsse corpo impresso a este trabalho que reflecte toda a mestria acumulada por um percurso difícil mas seriamente consequente.
Arriscaria dizer que poucas vezes me emociono tanto com os trabalhos dos meus colegas, mas aqui continuo a um tempo mítico e o trabalho do Relvas adquire desde sempre um lugar que não é da esfera do partilhavel, por ser um autor completo, por ser unico na sua expressão e por fazer representar nos leitores toda aquela aura que a realidade tende a frisar através do abismo para o qual o autor se lançou.
Diniz Conefrey








