Uma questão que talvez um dia eu consiga reunir as condições para desenvolver com alguma profundidade, prende-se com o meu interesse pelas culturas Pré-colombianas. Para um conhecedor mediano, torna-se evidente o facto de que estes povos desenvolveram linguagens artísticas abstractas, ou abstractizantes, em grande profusão (particularmente nos Andes mas não só) muitos séculos antes desta forma de arte surgir no ocidente. Como sabemos, só por meados do século XX, os artistas europeus começam a dar os primeiros passos no sentido de se libertarem dos constrangimentos gerais das representações naturalistas, algo que no outro lado do Atlântico já teria acontecido, até de forma institucional, nos primeiros séculos depois de Cristo.
O projecto que desenvolvo neste momento, Nagual, apoia-se na arte de Teotihuacan, do México central e pretende valorizar esses aspectos dentro de uma lógica gramatical bi-dimensional híbrida, entre o desenho simbólico, abstracto e naturalista. Um aspecto que a abstracção pode trazer à banda desenhada será o de criar códigos que a libertem das grilhetas cinematográficas formais, com o seu permanente estigma de representação descritiva/naturalista ou caricatural. A ideia não será um excessivo apego às linguagens pictóricas mas a consciência que os campos de plasticidade são bastante mais abrangentes do que aqueles que a banda desenhada tem conseguido produzir, ao longo da sua curta história.
No ano passado ofereceram-me um pequeno caderno Moleskine com vinhetas para realizar story-boards. Resolvi começar por fazer, de forma improvisada, uma sequência em BD inteiramente abstracta, com o mote sugerido pela série de trabalhos do pintor Wassily Kandinsky, realizados em 1922, Pequenos Mundos I-VI. Fui realizando este improviso sempre que me deslocava de metro, partindo de valorizações cinéticas em relação ao desenvolvimento de ambiências abstractas narrativas. Infelizmente, o caderno com esta primeira abordagem, ainda incompleta, foi-me roubado na Argentina, ficando perdidas algumas ideias que são irrecuperáveis…
No entanto não desisti. De regresso comprei um novo caderno, voltando a abordar esta temática, agora de forma mais disciplinada e menos prosaica. Convido-vos portanto a lerem esta sequência, inteiramente abstracta, mantendo o mesmo título do caderno roubado: Pequenos Mundos, no site Quarto de Jade, que completei há muito pouco tempo. Acho que este trabalho traz consigo as premissas de uma vertente que pretendo desenvolver no futuro e que estão ainda por explorar. A propósito da Antologia Abstract Comics de Andrei Molotiu, existem já diálogos muito interessantes na blogoesfera Norte Americana, sobre este aspecto na banda desenhada que, sem dúvida, envergonham as abordagens primárias dos universos persistentes que continuam a inundar o mundo da BD.
Diniz Conefrey




Olá, Diniz,
Tenho acompanhado com grande interesse estes teus posts. Uma vez que faz parte dos meus programas de ensino da banda desenhada algumas experiências com a banda desenhada abstracta, gostava de te informar que estes posts (e o fabuloso pdf que disponibilizas) serão matéria de leitura, reflexão e eventualmente plágio da parte dos meus estudantes. Mas é por uma boa causa!
Sem me esticar muito, esta discussão unir-se-ia de um modo muito produtivo com aquela do historiador Georges Didi-Huberman sobre a existência do “abstracto” na arte grega clássica (sobretudo o modo como integravam os padrões dos mármores. v. sobretudo “L’Image ouvert”) e outros períodos, ou a forma como o antropólogo David Lewis-Williams discute a origem da criação de imagens (inclusive padrões abstractos) nos humanos pré-históricos (em “The Mind in the Cave”). Marcamos um dia destes, algures, uma discussão sobre este assunto… (nas “conf”?).
Abraços,
Pedro
Pedro, obrigado pelo teu comentário. Sem dúvida que esta questão seria muito boa para ser discutida nas “conf” (espero que vão para a frente em Setembro…) ou até mesmo à volta de um café… Também sem me adiantar muito (até porque não conheço os autores que mencionas), diria de uma forma simplista e muito direccionada para o senso comum que na pré-história (provavelmente em todo o mundo) existiu uma abordagem ideográfica abstratizante precedendo o advento da escrita… Mais tarde (e não só com as culturas clássicas europeias), a utilização de padrões abstractos decorativos pode ser visto como uma primeira aproximação à abstracção. O que eu gostaria um dia de conseguir realçar é que nesse mesmo período, nas Américas, o abstraccionismo está já incutido como forma de expressão corrente, não só decorativa como representativa. Até com justaposição de linguagens, como o abstracto-geométrico, abstracto-naturalista ou o concreto: abstraccionismo total… Ficamos combinados para voltar ao assunto.
Abraço
Diniz
Muito, muito interessante. E terão os cadernos, com a sua forma, a sequência de páginas, alguma influência no resultado?…
Sim, sem dúvida. Nesta fase em que sobretudo procuro as formas (ou temas) abstractos para conjugar narrativamente, de forma improvisada, é essencial dispor de uma grelha fixa e um formato reduzido que mantenha a possibilidade de uma rapidez na concretização. Nesta fase, digamos, exploratória, parece-me importante não me perder demasiado nas possibilidades de formato e paginação. Estes cadernos permitem uma maior focagem, até começar a construir ideias mais abrangentes que incluam outros tipos de pressupostos.
dentro do meu desconhecimento acerca da matéria, gostei bastante do que vi e vou pesquisar um pouco sobre o assunto aqui na net, para uma futura discussão aí em casa
OK, está combinado!