Sem rodeios, vou iniciar este post em tom de provocação. Certos sectores da sociedade laica fazem luxo em menosprezar e denegrir o papel da igreja católica actualmente muitas vezes baseados, não sem uma certa razão, nos muitos momentos negros da história do ocidente – se não de grande parte da humanidade – que a referida instituição protagonizou. Talvez que o maior equivoco encerrado nestas acusações seja o da falta de consciência do papel cultural da igreja, não só relativamente à condição humana, como ao seu papel como patrocinador das artes; naturalmente circunscritas às mensagens que pretende vincular. De resto, a etimologia de igreja – como assembleia dos crentes – não assenta somente as suas premissas numa instituição de valores teocráticos, altamente discutível como qualquer instituição hierárquica, mesmo que republicana e laica, envolvendo sobretudo uma ideologia espiritual religiosa que é o cristianismo do qual – quer se goste ou não – definiu o perfil cultural de todos os povos europeus; continuando a ser um interlocutor válido para além das democracias decadentes, assentes na corrupção política e na pornografia económica.
Defino-me desde já para evitar equívocos. Na realidade tive uma educação católica, religião que já não professo, considerando-me sobretudo como ecuménico; ou seja, acredito que a verdade existe em todas as religiões. Ao contrário dos laicos ou agnósticos não acredito que tudo na vida é política, ou ciência mas sim espiritualidade. Realmente a história da igreja está marcada por muitos momentos sombrios, de mortes inúteis, evangelização forçada e incompreensão, nesse aspecto ela revela o pior que há no ser humano. Tal como a ciência, beatificada nos tempos correntes, que a par com os seus inquestionáveis benefícios, soube também produzir armas de destruição maciça, como a bomba atómica, a utilização bárbara e selvagem de animais para experiências de finalidades duvidosas – se não mesmo criminosas – a implementação de uma indústria farmacêutica terrorista que minou as sociedades através de processamentos químicos, muito para além dos que os barões da droga alguma vez poderão sonhar… O rol seria extenso e inútil para a razão desta entrada que, curiosamente, não pretende expressar uma discussão moral ou ética – da qual todos sairíamos a perder – mas antes apelar à comunhão, ou reunião, se preferirem, de uma obra que me impressionou particularmente.
Trata-se dos vitrais da igreja da paróquia de Nossa Senhora do Carmo, no Alto do Lumiar, assinados com as iniciais N e J e realizados na Oficina Mendes em 17 de Outubro de 1999. Como primeira curiosidade, trata-se de uma obra que eu definiria como uma “banda desenhada monumental” ou talvez como uma “instalação” ou “vitral sequencial”. De resto, as fotografias falam por si, não deixando por isso de recomendar vivamente uma visita directa à igreja em causa que no seu recolhimento natural permite uma vivência directa deste trabalho, quanto a mim único. Aqui, trata-se sobretudo de uma experiência artística, para crentes ou não crentes, em que a grande particularidade sobressai não só do facto dos vitrais estarem dispostos em vinhetas como do seu pendor eminentemente abstracto; algo que não caracteriza de forma particular os temas religiosos – pelo menos os cristãos – como tem o interesse acrescido de vir ao encontro de uma vertente que se encontra em franca exploração na moderna banda desenhada. Todos sabemos como esta “sub-cultura” – a BD, naturalmente – é composta por um público maioritariamente conservador nos seus gostos e leituras; marginais da arte que ironicamente segregam todas as tentativas de emancipação ou experimentação de novas fronteiras, a não ser – evidentemente – todos aqueles efeitos de brilho de rebuçado que a cor realizada em computador trouxe para os universos de fantasias pueris, tão gratas às gerações mais novas.
Pelo contrário, com estes vitrais estamos perante uma partilha que se aprofunda no silêncio, inerente ao interior da igreja, como lugar de recolhimento, meditação e o vislumbre do diálogo, através da arte, do homem com a transcendência da existência. Objectivamente, os vitrais também apresentam elementos naturalistas mas estes não se sobrepõem, antes reafirmam, o movimento abstracto da composição sequencial, conferindo-lhe um pendor de movimento que se dilui na composição geral. Se partirmos do pressuposto de que o expressionismo foi o diálogo do homem com Deus – ou a Natureza – o mundo actual, laico e “científico”, é sem dúvida alguma, a relação do homem com uma tecnologia que ele próprio inventou; um monólogo psicótico e neurótico impregnado de desejos e ambições irresolúveis que fomentou uma arte cada vez mais elitista e intelectualizada, fora do âmbito da nossa essência mais natural. Pelo contrário, estes vitrais demonstram como a igreja é, de facto, as pessoas, para além das hierarquias, da história, dos sistemas, conseguindo sobrepor uma série de registos num sentido verdadeiramente ecuménico: dialoga a arte entre o vitral, o abstracto, a banda desenhada a par com a espiritualidade ou o simples olhar contemplativo que nos preenche ao sentir uma emoção.
Não queria terminar esta entrada, sem deixar de mencionar um curto texto de José Tolentino Mendonça que, quanto a mim, vem tanto a propósito da luz que faz reflectir estes vitrais, como do período de Advento que atravessamos, para além das bandeiras de afirmação questionáveis ou da fantasia consumista emanada cândidamente a partir da Lapónia:
«A especificidade da experiência cristã não é traduzível num enunciado de ideias-fortes, nem num pensamento, embora estes existam. O que o cristianismo representa é uma pessoa em carne e osso, da qual se faz a mais genérica e incisiva das proclamações: «Eis o Homem!» Qualquer filosofia cristã, por mais inspiradora que seja, não se pode sobrepor à autobiografia. É uma «história do homem» que o cristianismo se propõe testemunhar, explicitando a forma como essa história radical se cruza com a nossa. Decisivas são, portanto, as implicações biográficas e autobiográficas. Não temos de seguir uma ideia, temos de ser! O cristianismo, como recorda um recente e notável escrito de Christoph Theobald, é uma questão de estilo.
Jesus Cristo, sendo verdadeiramente homem, abre o homem à possibilidade de Deus. Reconfigura, assim, o nosso plano histórico. Rasga o finito ao infinito, abrindo portas no coração de cada homem para uma história muito maior. Potencia uma vida humana onde aquilo que pensamos serem coisas relativas, como o amor, a justiça, o bem e a beleza, podem ser vividas em absoluto ou como patamares do absoluto.
Não se trata de uma reforma de comportamento, pois Jesus não foi um moralista nem um ideólogo, nem sequer fundou uma escola de sabedoria. O que fez foi inscrever na história a possibilidade do divino. O seu anúncio é o Reino de Deus. E essa proximidade representa o grande abalo, o sobressalto que ele trouxe. O divino é o elemento mais transformador e insurrecto da história.»




