Eis uma volta inequívoca da poesia, neste dia com luz de chumbo e chuva que se desprende, melancolicamente, das nuvens cegas, errantes ao vento da sua pureza sem memória. Com capa de Maria João Worm, a editora Língua Morta acrescenta ao seu já respeitável catálogo talvez um dos títulos mais envolvente. «Breve ensaio sobre a potência» revela-nos, na sua profundidade, uma clara sabedoria de um poeta não menos obscuro, com o nome de Rui Costa, que rasga a partir de um Génesis imaculado, as sombras que se interligam até ao devir da existência do indivíduo criador e o seu (nosso) mundo circundante… Merecia este pequeno livro – em aspecto – a grandeza maior que estas pobres linhas apenas conseguem indiciar, num apelo a que uma tão densa poesia encontre a atenção dos nossos sentidos crónicamente distraídos.
1
a luz é a metáfora do verbo,
a matéria escura. ilumina
as paredes da água, é como
um vidro com as imagens
do avesso. o animal furtivo
que instaura a violência,
a mãe ao redor do silêncio.
12
todo o homem tende à condição
que o nega. desliza com a pele
que lhe sucumbe o rosto, a luz
já refeita da hirsuta queda. sai
ao centro da roda e surpreende-se
por só saber chorar. arrendonda-se,
sabe bem que toda a recta é cruel.
31
E assim ensaiamos o livro entre a
treva e a luz, o coração despedaçado
rasgando novos arquipélagos. São
colmeias brancas que nos coram as
palavras, pedras, constelações de risos
e de limos que transportamos na penumbra.
A poesia não sabe o quanto te devemos.
