13 de Dezembro de 2011
Confesso que a caneta de desenhar me tem pesado nas mãos, e as inúmeras tarefas burocráticas que temos sido chamados a cumprir em tão poucos dias também não foram propriamente inspiradoras. Por isso recorro ao texto para vos deixar algumas primeiras impressões, necessariamente incompletas e provavelmente enganadoras, mas seguindo de perto uma sugestão de Lévi-Strauss, para quem os relances passageiros de uma cidade ou região constituíam um bom exercício da atenção, permitindo até apreender aspectos relevantes da realidade observada que poderiam não se desvendar facilmente com permanências mais prolongadas.
Buenos Aires
À primeira vista, uma eminente capital cultural, recheada de livrarias, de teatros e grandes cafés. Na emblemática Avenida 9 de Julho, uma fotografia gigantesca de Ernesto Sábato (recentemente falecido) cobrindo todo um edifício e sem qualquer legenda. Na Avenida Corrientes, um painel da Associación de Artistas de Banda Dibujada. Nas bancas dos quiosques, para além dos jornais, das revistas cor-de-rosa, da pornografia (incluindo muita pornografia gay), brochuras de psicologia, romances de George Orwell e, inclusivamente, ensaios de Michel Foucault (Vigilar y Castigar, Historia de la Sexualidad). É caso para dizer ― recordando o comentário de Eduardo Prado Coelho a propósito daquelas senhoras que, na noite de Paris, frequentavam certos parques onde podiam experimentar o gangbang ― que ainda não atingimos este patamar civilizacional…
Santiago
Comparando com a zona de Buenos Aires, o Chile parece mais seco, vêem-se mais palmeiras e cactos. As ruas de Santiago são largas, algumas delas reservadas ao trânsito pedonal e, mesmo assim, estão a abarrotar. Muitos grupos caminhando, muita venda ambulante, muita azáfama, em suma, um bom local para o homem da multidão de Poe. O Rio Mapocho, nesta época do ano, é simplesmente um eflúvio de água castanha. Na margem norte, o mercado central e, continuando para oriente, a zona boémia da Belavista, onde as casas, quase todas térreas, aparecem decoradas com grafitti e pinturas. É neste ponto que a imensa metrópole assume o aspecto de uma vila atravessada por uma estrada nacional. Do cimo do morro de San Cristóbal, a vista panorâmica para recordar, com smog.
Valparaíso
Consta que Hugo Pratt, que fez do Pacífico a personagem central de uma das suas melhores histórias, apenas vislumbrou esse oceano a partir daqui. Várias colinas forradas com casas coloridas, às quais se acede através dos famosos ascensores que, no entanto, praticamente deixaram de funcionar: chegaram a ser trinta e três, há cinco anos seriam ainda uns doze, hoje já só dois se mantêm activos. Óptima vista para a baía, mas com o Pacífico ensombrado por alguns vasos de guerra. Tomámos um colectivo, atravessámos Vina del Mar (muito parecido com Estoril-Cascais) e continuámos até à zona mais remota e menos urbanizada de Concón, onde visitámos a praia de La Boca (uma espécie de Guincho, com ondas altas e surfistas e tudo).
Daniel Lopes



