15 de Dezembro de 2011
Eis mais umas impressões de dias passados…
Cusco (onde se fuma pouco, porque o ar rarefeito mal dá para acender um cigarro…)
A antiga capital do império Inca é hoje uma cidade dividida. Uma metade está destinada aos turistas ocidentais, com lojas sofisticadas, restaurantes caros, hotéis de charme, programas de caminhadas pelo vale sagrado. A outra metade, peruana e quechua, é a dos mercados, dos vendedores ambulantes, do chinfrim das buzinas, dos tubos de escape a pedir reciclagem, dos bairros pobres galgando os morros. A nível oficial a fronteira está bem vincada, com os turistas estrangeiros a pagarem mais pelo acesso aos museus e sítios arqueológicos. Mas, aos poucos, vai-se aprendendo a contornar esta dualidade e a sentir mais de perto o pulsar da vida local. A tarefa é facilitada pelo facto de tudo depender, em maior ou menor grau, da própria indústria turística, havendo diversos serviços alternativos à disposição do viajante.
As ruínas da fortaleza de Sacsayhuamán, num ponto mais elevado à saída da cidade (3700 m), são um exemplo do notável trabalho de cantaria inca, com grandes blocos diorito impecavelmente talhados e boleados, dando a impressão de serem feitos de borracha. Várias peças curiosas no Museu Inca e no Museu Histórico Regional, destacando-se as múmias em posição fetal, algumas delas inseridas em grandes vasos funerários. O ouro, esse, desapareceu quase todo…
Ollantaytambo
A cerca de oitenta quilómetros a noroeste de Cusco, viagem num táxi colectivo através do vale sagrado. Região seca e com temperaturas amenas, onde, segundo se diz, é raro nevar. O recinto arqueológico de Ollantaytambo é amplo e, sob vários aspectos, mais admirável que o de Sacsay Huamán. Não porque o trabalho da pedra seja melhor, mas porque há mais coisas para ver: casas e templos, sobretudo, mas também escadarias, pequenas pontes e condutas de água. No regresso, ainda houve tempo para visitar as intrigantes ruínas de Moray, uma série de socalcos que começam por ter a forma de um anfiteatro e depois, na parte mais funda, mergulham na terra criando um estranho poço de círculos concêntricos. Admite-se ter sido uma estufa ou um laboratório de agricultura. É um local recôndito e, por isso mesmo, quase deserto.
Machu Picchu
Retrato em negativo: o custo total da visita, incluindo viagem de comboio de Poroy a Águas Calientes, transportes adicionais e ingressos, rondará os 170 euros por pessoa (mas é possível reduzir, se se optar por apanhar o comboio em Ollantaytambo); e as hordas de turistas abundam, mesmo em época baixa (embora o local comece a esvaziar a partir das três da tarde). Depois de Ollantaytambo, os carris acompanham o curso do rio Urubamba. Os cactos e eucaliptos desaparecem, a vegetação torna-se mais densa, surgem grandes fetos e árvores frondosas, das quais pendem umas coisas parecidas com lianas, prenunciando a selva amazónica. Apesar de localizado a 2900 metros de altitude, o sítio arqueológico de Machu Picchu está já numa zona húmida. Toda a orografia circundante é esmagadora, com uma primeira linha formada por morros afilados do tipo Pão de Açúcar e uma retaguarda composta por cumes ainda mais altos, imersos nas nuvens. O horizonte é relativamente estreito: para onde quer que se olhe, não se deverá alcançar mais do que quinze ou vinte quilómetros. Mas o céu é imenso e multiforme, abrindo inúmeras perspectivas. As ruínas propriamente ditas constituem uma camada recente que dá a esta fantástica construção natural o seu último retoque, transformando um produto do acaso num projecto.
Daniel Lopes (texto e desenhos)



