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Posts Tagged ‘América do Norte’

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Fotografia de Foster a trabalhar na página 559, então com o Príncipe Valente na América.

Longe vão os anos do meu primeiro contacto com os clássicos da banda desenhada, nomeadamente com as histórias do Príncipe Valente, publicadas pela editorial Presença; nesse caso a preto e branco. Aliás, como muitas destas séries, nacionais ou não, com o tempo sempre me pareceram que elas fazem mais sentido (a nível de coerência gráfica e narrativa) quando reproduzidas a preto e branco e não no seu registo de publicação original. Isto porque se tratou de uma época (e de um género) cuja expressão radicava, indiscutivelmente, numa abordagem narrativa a  partir do desenho naturalista, em que o papel das cores (ou da coloração) era secundária e trivial; quase que apenas para “encher o olho”.  Temos em Portugal casos dessa abordagem, como por exemplo o trabalho de Eduardo Teixeira Coelho que (quanto a mim bem) foi reeditado pela editorial Futura a preto e branco. Aliás, veja-se para o efeito a total incapacidade dos nossos autores clássicos, que continuam a publicar, em abordar a cor nos seus trabalhos. De tal maneira que, quando o Festival da Amadora expôs, algumas edições atrás, pranchas originais do seu acervo, me surpreendeu pela positiva, uma página com caravelas do José Ruy a preto e branco; quando o mesmo tipo de abordagem, com cor, nas edições publicadas são extremamente desinteressantes e ineptas.

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Mas o que gostaria de comentar aqui é a excelente edição da Fantagraphics Books, de Seattle, do trabalho original de Prince Valiant. Não pela apologia do facto em si mas porque me suscitou um interesse particular o volume 6 desta edição, que abrange as pranchas realizadas entre 1947 e 1948 com o interesse particular de se tratar da passagem desta personagem pela América e o nascimento do seu filho; este último facto algo muito apartado do universo das narrativas gráficas, clássicas ou contemporâneas. Destaco, de imediato, a expressividade do formato desta edição (36,2 x 26,5 cm) que remete para uma escala de visonamento algo deslumbrante, induzindo uma relação de cinemascope; experiência só por si invulgar num tempo em que os formatos tendem a diminuir substancialmente com o advento das novelas gráficas e a aproximação à literatura. Muito bem cuidado a todos os níveis, este volume apresenta uma interessante introdução sobre a experiência de vida de Hall Foster na região dos Grandes Lagos; nomeadamente as suas aventuras de juventude no seio de uma natureza aparentemente inacessível e afastada da vida urbana e, claro, a sua relação com os povos indígenas dessas regiões. A seguir, o editor tem o cuidado de convidar, para uma entrevista, a Dr Christine Ballengee-Morris (uma professora do Ohio State University, também ela de ascendência indígena – Cherokee) para comentar as suas impressões sobre os povos das Primeiras Nações que Foster caracteriza neste volume. Curiosamente, pareceu-me que a pertinência desta entrevista incide mais no papel e carácter da mulher de Val, Aleta, tornando-se mais discutíveis algumas das conclusões que se podem inferir por parte da respeitabilidade (e coerência etno-histórica) da abordagem dos indígenas, por parte de Hall Foster.

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Ilustração de Richard Hook, para a Osprey Publishing, com indígenas Algonquinos e outras tribos referenciadas na narrativa de Princípe Valente.

Indiscutivelmente, Foster passa ao lado dos chavões comuns e degradantes a que os indígenas americanos foram sujeitos (e em alguns casos ainda são) por parte das visões maniqueístas, divulgadas tanto na banda desenhada como no cinema. No entanto, não consegue (ou não pode, devido ao contexto sócio-cultural abrangente) deixar de cristalizar a sua narrativa no pressuposto de estigmas centrais, propagados “genéticamente” através de interpretações parciais de dados históricos que se tornaram, com o passar do tempo, em dados narrativos enquistados. O “outro”, nestas aventuras, não é um selvagem perigoso mas continua a afirmar (ou a confundir) os códigos de religiosidade com a superstição; tornada em vantagem política por parte da indiscutível superioridade do homem branco ocidental. Outro aspecto curioso, que sobressai da entrevista é que, por parte dos interlocutores da mesma, assinala-se como dado positivo o “facto” de Hall Foster não representar os indígenas (neste caso tribos Algonquinas) como “índios” da planície (imagem recorrente para representar os indígenas norte americanos, sejam quais forem as suas etnias…).

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A representação dos indígenas Algonquinos, segundo Hall Foster.

Tirando alguns aspectos, parece-me que este dado não é de todo correcto e Foster continua a usufruir de uma “legitimidade”, no que diz respeito à caracterização de época, que é tão falsa e errónea para os indígenas, como o é para os próprios ocidentais. Aliás, todo o universo imagético das aventuras do Príncipe Valente baseia-se numa visão do romantismo que caracteriza a idade média de forma quase espectacular e muito afastada dos dados históricos; nas indumentárias, caracterização de cenários, etc. Vikings com capacetes de cornos ou asas estão mais próximos das fantasias de opereta do que da realidade. Entre muitos aspectos que tornam, no entanto, esta entrevista muito interessante (nomeadamente no que se refere aos estereótipos) sobressai o dado de que o termo squaw, universalmente usado e aceite como a definição de “mulher” por parte dos indígenas, não passa de um termo profundamente depreciativo. Na realidade, a sua origem está na corrupção francesa da palavra Iroquesa otsiskwa, que se refere ao “orgão sexual das mulheres”. Parece que o termo se vulgarizou com a indução à prostituição das mulheres indígenas, por parte dos detentores de armazéns que vendiam mantimentos em áreas remotas. «(…) Não andamos por aí a chamar às mulheres brancas “vagina”, mas eles não tinham a mesma sensibilidade em relação às mulheres nativas. (…)».

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Uma das mais conseguidas vinhetas desta narrativa no “Novo Mundo”. Note-se o tratamento das nuvens no céu a cor, sem contorno de traço.

Hall Foster é um exímio ilustrador naturalista, com uma composição assente em códigos estritamente clássicos, não consegue no entanto, alcançar a densidade que, por exemplo, podemos encontrar nas narrativas de um Eduardo Teixeira Coelho.  Curiosamente, a sua aproximação equilibrada entre a representação do detalhe e do gráfico permiti-lhe construir pranchas de um sensualidade semântica; despido dos “ruídos” que são próprios à realidade. Nesse sentido, sempre me pareceu desprovido de sentido chamar-se a este género de histórias “realistas”. No entanto, a sua força maior, quanto a mim, reside nas expressões faciais que em determinados momentos conseguem sobrepor-se e evidenciar uma maturidade que, de resto, resvala para a inconsequência juvenil.

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Momento invulgar de intimidade, para os cânones da época, em que Val seduz Aleta sexualmente.

O trabalho de cor, previamente anotado por Foster e finalizado pelos coloristas, é bastante instável. O uso excessivo de amarelos compromete seriamente o equilíbrio e a sobriedade narrativa. Os lábios pintados de vermelho forte introduzem um artifício desnecessário. Algumas pranchas conseguem, no entanto, uma harmonia ambiental que complementa, efectivamente, a narrativa desenhada e escrita. Talvez que as melhores soluções estejam nos apontamentos de nuvens e paisagens que, não estando definidos em desenho contornado a preto, incluem uma mancha de cor bem conseguida na composição geral. Além de outras pessoas, também a minha mulher comentou estas aventuras como sendo uma tele novela. É possível, não vou arriscar ilações de uma série que decorreu durante tanto tempo… 30 anos, salvo erro! Poderia afirmar que, ao lado de outros ícones estafados e bem conhecidos, existe aqui uma preocupação que, apesar de questionável em muitos aspectos, palpita de uma vida que podemos reconhecer. Ou seja, próximos de uma realidade que inclui o quotidiano. Val é emotivo, gabarolas, fanfarrão; a barba cresce-lhe e, como todos os homens de “bem”, só pensa em “trabalhar”.

Que dizer de outras personagens, de outras histórias também clássicas, que são uma mistura de natural com boneco; repórteres que nunca escreveram um artigo, sem sexualidade nem opiniões e que a única coisa que representam é o inconsciente colectivo de um ocidente etno-centrico e decadente?

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Observations of Climate Change from Indigenous Alaskans

Personal interviews with Alaska Natives in the Yukon River Basin
provide unique insights on climate change and its impacts, helping
develop adaptation strategies for these local communities.

The USGS coordinated interviews with Yup’ik hunters and elders in the
villages of St. Mary’s and Pitka’s Point, Alaska, to document their
observations of climate change. They expressed concerns ranging from
safety, such as unpredictable weather patterns and dangerous ice
conditions, to changes in plants and animals as well as decreased
availability of firewood.

“Many climate change studies are conducted on a large scale, and there
is a great deal of uncertainty regarding how climate change will
impact specific regions,” said USGS social scientist Nicole
Herman-Mercer. “This study helps address that uncertainty and really
understand climate change as a socioeconomic issue by talking directly
to those with traditional and personal environmental knowledge.”

By integrating scientific studies with indigenous observation, these
multiple forms of knowledge allow for a more comprehensive
understanding of the complex challenges posed by climate change. The
indigenous knowledge encompasses observations, lessons and stories
about the environment that have been handed down for generations,
providing a long history of environmental knowledge. These
observations can also help uncover new areas for scientists to study.

The Arctic and Subarctic are of particular interest because these high
latitudes are among the world’s first locations to begin experiencing
climate change.

The most common statement by interview participants was about warmer
temperature in recent years. It was observed to be warmer in all
seasons, though most notably in the winter months. In previous
generations, winter temperatures dropped to 40 degrees Celsius below
freezing, while in present times temperatures only reach 25 C or 30 C
below freezing. Moreover, in the rare case that temperatures did drop
as low as they had in the past, it was a brief cold spell, in contrast
to historic month-long cold spells.

The considerable thinning of ice on the Yukon and Andreafsky Rivers in
recent years was the topic of several interviews. Thin river ice is a
significant issue because winter travel is mainly achieved by using
the frozen rivers as a transportation route via snow machines or sled
dogs. Thinning ice shortens the winter travel season, making it more
difficult to trade goods between villages, visit friends and
relatives, or reach traditional hunting grounds. One interview
participant also discussed how the Andreafsky River, on whose banks
their village lies, no longer freezes in certain spots, and  several
people have drowned after falling through the resulting holes in the
ice.

The unpredictability of weather conditions was another issue of
concern, especially since these communities rely on activities such as
hunting, fishing and gathering wild foods for their way of life. One
does not want to “get caught out in the country” when the weather
suddenly changes.

Vegetation patterns were also observed to be shifting due to the
changes in seasonal weather patterns, and this leads to increased
difficulty in subsistence activities. Interviews showed the
unpredictability from year to year on whether vegetation, particularly
salmonberries, could be relied upon. Those interviewed spoke of a
change in the range of species of mammals (moose and beaver) as well
as a decrease in the number of some bird species (ptarmigan). This is
of special concern because of the important role these animals play in
the subsistence diets of Alaska Natives. Many also rely on hunting or
trapping for their livelihoods.

Participants also discussed lower spring snowmelt flows on the
Andreafsky and Yukon Rivers, meaning less logs are flowing down the
river. This hampers people’s ability to collect logs for firewood and
building materials, placing a strain on an already economically
depressed region through increased heating costs and reliance on
expensive fossil fuels.

An article on this topic was published in the journal, Human
Organization. The full article with additional quotes and observations
from indigenous people is available online.

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Este verão proporcionou-me voltar a comprar um livro de banda desenhada com o entusiasmado gosto pela descoberta, sentimento que usualmente já não nutro, pela maioria esmagadora dos livros publicados nesta área. Desde logo, a capa do Último dos Moicanos seria com certeza reflexo de uma interpretação que traria notas, de certo modo empolgantes, no sentido gráfico da luz e da plasticidade. Além de que o sentido das formas reflectiam, de uma forma densa, um rosto que traduz uma certa ideia do “outro” inimigo; naquilo que aparentava ser uma expressão de um antigo código sócio-cultural, violentamente distinto, em certos aspectos, do nosso. J. Fenimore Cooper não era propriamente um escritor. Da sua vasta experiência como marinheiro, iria acabar por escrever porque achava que o sabia fazer melhor do que outros, já publicados e, possivelmente, teria intensa experiência de vida naquilo que de mais dramático, as aventuras podem conter. Norte Americano de nascença, viveu entre 1789 e 1851, sendo a sua obra mais conhecida, precisamente, O Último dos Moicanos. A adaptação livre, e bem, para banda desenhada é da autoria da dupla francesa Catmalu e Cromwell, passando-se a acção, naturalmente, no mesmo enquadramento histórico que o livro original. De facto, esta história desenrola-se durante a guerra dos sete anos, geograficamente situada entre o actual Canadá e os Estados Unidos, no seio do conflito imperial dominante, da Europa do século XVIII, neste caso entre a França e a Inglaterra. Neste território, esta guerra é mais conhecida pela Guerra dos Franceses e dos Índios (1754 – 1760). O próprio nome encerra em si já as premissas de que se revestiu este conflito, realçando o aspecto praticamente inédito de uma tão estreita relação entre colonizadores e indígenas. Realmente, este relacionamento inédito advém tão-somente de uma questão de estratégia, face à perspectiva territorial. Ao contrário dos Ingleses, a França não se dedicou na ocupação de terras, para intensificar a produção agrícola. Pelo contrário, fixaram-se em vários pontos ao longo da costa ou perto dos rios interiores e daí, comerciavam com as nações nativas, sobretudo povos Algonkinos; desenvolvendo um lucrativo comércio de peles, provocando, possivelmente, uma das primeiras hecatombes ecológicas, nas densas florestas da América do Norte. Contudo, a relação com os Ameríndios não era só comercial. De facto, os franceses, também conhecidos como Correur du Bois, assimilaram a cultura Nativa, vestindo-se como eles, casando com as suas filhas, caçando e comendo com eles; no fundo adoptando o estilo de vida indígena. Seria, de certa forma, uma relação mais equilibrada do que a implantada pelos Ingleses, que pressupunha uma nítida apropriação territorial.

O Último dos Moicanos centra-se, portanto, durante o ano de 1757, ano em que o expoente máximo da preponderância militar francesa se faz sentir; numa guerra ganha inevitavelmente, pela coroa Inglesa. Mais precisamente, a acção remete-nos para o cerco ao forte britânico William Henry, junto ao lago George, no teatro de operações da região de Nova Yorque. Um dado inicial que gostaria de refutar, prende-se com o sistema de alianças vivido durante este conflito. De facto, tanto Fenimore como os autores da livre adaptação, referem os Iroqueses como aliados dos franceses. Curiosamente, da abrangente influência que a França dispunha entre as nações nativas, a única que nunca esteve a seu lado foi a Confederação Iroquesa. Aliados tradicionais dos Ingleses, tentaram contudo manter uma certa neutralidade, durante as sucessivas guerras que Ingleses e Franceses travaram, no sentido de controlar a América do Norte. Esta sua posição de estreitas relações com a coroa Britânica, ditou, poucos anos depois, um desfecho amargo; já que com a independência dos Estados Unidos, os colonos americanos foram extremamente duros e violentos com a Confederação Iroquesa, retirando-lhe o papel de preponderância, no plano das relações políticas e sócio-culturais da região dos grandes lagos.

A interpretação plástica de Cromwell, para captar o silêncio das paisagens, sussurrando intensamente a força letal e violenta que, dentro dos bosques se movimenta, é das mais acutilantes no dramatismo da sua expressão. Sempre fui de opinião que faltava textura, literalmente, nos trabalhos de banda desenhada; demasiado asséptico com a luz, na maioria esmagadora das vezes. Os ambientes gráficos traduzem tudo o que a acção literária de Filmore necessita, ao multiplicar a sucessão de acções. Nesta BD, o ambiente comprimido deixa o espaço de acontecimentos diversos para se centrar numa acção mais linear, mas toda ela envolta nas tramas centrais do livro original; encontrando mesmo uma excelente resposta telúrica para o final, quase esperado, deste livro. Esta obra só perde por ser um híbrido, em que tenta mesclar de forma assumida, várias vertentes como a literária, a cinematográfica e, finalmente, a gráfica. Os separadores são soberbos mas creio que prescindiriam da identificação dos autores das frases, aliás, referidos novamente (e bem) na fonte de citações. Os capítulos, com as suas formas de capa, resultam tão mal como os planos de página inteira, tendo uma relação cinética evidente. A princípio não gostei das legendas, mas é sempre difícil uma solução mecanográfica que tenha um desenho que se integre plenamente nas imagens. A solução apresentada só se torna demasiado desconfortável, quando o texto assume extensões mais literárias. Um dos grandes equívocos seria porventura achar que, mesmo numa adaptação livre, não se poderia prescindir dessa dicotomia de reafirmação entre texto e imagem. Mas, de facto, por vezes, esta complementaridade demasiado directa poderá tomar um aspecto quase redutor e não se chega a perceber, se neste caso, esta poderia ser uma forma narrativa desejável.

Como no caso das páginas que ilustram a perseguição final, em que à decoupage silenciosa e abrupta das acções, necessitasse verdadeiramente de ser acompanhado por tão longa extensão de texto; secundarizando a organicidade da própria acção, relatada tão completamente, através das imagens. De sublinhar, pelo contrário, toda a sequência que se passa na taberna “The Last Chance”, talvez o exemplo mais acabado de toda a excelência desta obra, um pouco perdida na sua definição entre as várias pontes que, felizmente, consegue lançar. Este livro trouxe consigo uma leitura que me fez novamente acreditar que ainda há muitas boas razões para se fazer banda desenhada. Neste caso, esta surge com a chancela Noctambule, da editora francesa Soleil e está disponível, com um excelente formato, nas livrarias da Fnac.

Diniz Conefrey

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Sinto que existe em cada ser uma noite que reclama uma verdade profunda, um lugar de reencontro dentro de um tempo sem memória, onde o olhar se cruza com a consciência de um mistério, exposto na sua revelação. Desenhar, traz consigo também essa noite de silêncio que se estende por sobre folhas de papel, registando a memória afectiva dos lugares que habitam o coração.

Desde muito cedo que o violento encontro entre o ocidente e o continente americano, ocupam um lugar destacado na minha consciência e reflexão existencial; eu próprio, um espectador actuante de um presente que se desenrola sobre as teias do passado.

No final dos anos 80, saía um artigo de duas páginas, salvo erro no Diário de Notícias, sobre um aspecto dessa história sangrenta, decorrida nos Estados Unidos da América do Norte, onde se incluía um texto cujo teor  era atribuído ao “chefe” Ameríndio Seattle, em resposta à proposta das autoridades Norte Americanas no sentido de adquirirem os territórios do líder nativo.

A minha primeira impressão, ao ler esse texto, foi uma experiência avassaladora, como quando se ouve um tema musical e se sente um arrepio intenso que vibra pelo corpo, num sentido ascendente de energia pura. Nesse preciso instante, tornou-se claro que queria realizar esse texto numa banda desenhada, que surgiu com a mesma urgência que a verdade reconhecida por mim através das palavras do “chefe” Seattle.

Tinha começado há pouco tempo a trabalhar com ecolines e, assim, as 6 primeiras pranchas surgiram numa única sessão nocturna de completo improviso e descoberta, em que as cores se espalhavam, saídas directamente dos frascos, criando o mesmo arrepio sentido na primeira leitura das palavras do chefe Ameríndio. A consciência gráfica de que os blocos de texto provavelmente seriam demasiado extensos, para o leitor habitual, não impediu que eu mantivesse integral a clarividência das palavras, acabando por não optar por um resumo empobrecedor. Numa altura em que tinha já feito várias experiências, de bandas desenhadas baseadas na estrutura de temas musicais, incluí, agora com um tempo de realização mais alongado, duas pranchas sem texto. Pretendendo assim pontuar ambientalmente o reinício de um texto que, segundo o artigo no jornal, teria sido uma carta. Nas 4 pranchas finais, assumi a interpretação através de diversos materiais, que para mim melhor expressavam graficamente o conteúdo das frases.

No ano seguinte, iniciei uma colaboração com o fanzine Dossier Top Secret de Almada e, nessa altura, propus ao Victor Borges publicar uma versão a preto e branco dessa sequência, a que chamei simplesmente Seattle. Refiz então as 6 primeiras pranchas com uma técnica mista, para obter efeitos contrastantes a preto e branco quando estas pranchas fossem fotocopiadas; refazendo algumas vinhetas menos bem conseguidas, da primeira versão. São os originais dessa segunda versão que agora aparecem no site Quarto de Jade e, que depois de fotocopiadas, serviram como base para a publicação no fanzine referido anteriormente. À excepção da nona prancha, que teve alguma intervenção sobre a fotocópia, todas as pranchas seguintes foram reproduzidas directamente dos originais. Nessa edição, a inserção de texto foi realizada por mim de uma forma pouco cuidada e a qualidade final, das fotocópias do fanzine, era muito fraca. Por isso, foi com muita satisfação que em finais de 2008 surgiu a possibilidade de editar essa sequência agora a cores, na revista literária Letra en Ruta, publicada simultaneamente no México e nos Estados Unidos; apesar dos constrangimentos da paginação terem disperso a sequência gráfica, entre cortada por páginas de texto.

Ao incluir esta banda desenhada no Quarto de Jade, pareceu-me que poderia fazer alguma justiça, apresentando de forma unitária este trabalho, cujo texto mantém a acutilância de uma sabedoria intemporal; se não mesmo uma profunda reflexão, para muitos dos disparates causados pelo nosso pretenso mundo moderno e claramente contraditório.

De forma um tanto inesperada, quando procurei a versão em Inglês do eloquente discurso do “chefe” Seattle na internet, deparei com várias informações, inicialmente surpreendentes, mas que no entanto trouxeram a veracidade da história de um texto, que é considerado por muitos ambientalistas como uma carta de princípios universais. O facto é que em relação ao discurso proferido pelo “chefe” Seattle, em Janeiro de 1854, não existe qualquer transcrição literal; havendo sim quatro versões, em segunda mão, das quais a primeira aparece no Seattle Sunday Star, em 29 de Outubro de 1887, numa coluna da autoria do Dr. Henry A. Smith. Nesta, o autor torna muito claro que a sua versão não é uma cópia exacta, mas o melhor que ele conseguiu reunir, a partir das notas que terá tirado na altura. Existe uma indecisão, quanto ao argumento histórico, acerca de em qual dialecto nativo terá o “chefe” Seattle falado, Duwamish ou Suquamish. De qualquer forma, existe um consenso de que o discurso foi traduzido, já que o “chefe” Seattle nunca aprendeu a falar Inglês.

Esta versão está publicada em língua Portuguesa, num pequeno livro, pela Casa do Sul Editora, com o título: A Noite do Índio. Edição essa acompanhada de umas breves notas interessantes, sobre o contexto e outras versões do famoso discurso. No entanto, deva-se referir que esta tradução não faz justiça completa ao texto original, tanto na sua forma como inclusivamente no seu conteúdo. Faltando-lhe particularmente rigor na transcrição coloquial levando a algumas interpretações lacónicas ou acrescentos omissos no texto original. Sendo que a alteração mais relevante e confrangedora é a transformação radical do final do texto, subvertendo definitivamente o sentido do mesmo, num momento decisivo. Uma melhor tradução deste eloquente discurso, pode ser encontrada no livro O Sopro das Vozes, editado pela Assírio & Alvim. Só que aqui, infelizmente, trata-se de um resumo dos momentos que o tradutor elegeu como os mais significativos e não o texto na sua versão integral. A versão em inglês pode ser consultada com propriedade, no site da tribo Suquamish: http://www.suquamish.nsn.us

A tribo Duwamish faz parte da população Nativa Americana do oeste do Estado de Washington e são o povo indígena da Seattle metropolitana. Os Suquamish são um povo do sul da Salish Coast, etnicamente relacionados com os Duwamish. Os Suquamish falam um dialecto de Lushootseed, que pertence à família linguística Salishan. Como muitas das tribos da Costa Noroeste, os Suquamish dependem da pesca de rios locais e construíam longas casas de madeira para se protegerem, nos húmidos Invernos, a oeste das Montanhas Cascade. Estando por isso mais próximos, culturalmente, das tribos do Pacífico Norte, do que das etnias das planícies, tal como eu interpretei a partir do artigo que li no Diário de Notícias. Apesar dos povos de Puget Sound Salish não estarem organizados acima do nível de aldeias individuais, os Suquamish tinham uma localização central em Puget Sound e dois membros desta tribo vieram a ser reconhecidos, pela região, como grandes líderes. Um foi Kitsap, que liderou uma coligação de tribos de Puget Sound contra tribos Cowichan da Ilha de Vancouver por volta de 1825. Outro foi Seattle, filho de Schweabe, que foi um grande orador pacifista durante os tempos turbulentos do século XIX. Apesar de ambos serem referidos como “chefe”, esta é uma atribuição ocidental; tal designação não era usada pelos Índios de Puget Sound.

A segunda versão existente da oratória de Seattle foi escrita pelo poeta William Arrowsmith, em finais dos anos 60. Esta foi uma tentativa de colocar o texto segundo padrões de discurso corrente, em vez do estilo mais floreado e victoriano do Dr. Smith. Além desta modernização, esta é muito semelhante à primeira versão.

A terceira versão é talvez a mais amplamente conhecida de todas, sendo aquela a que eu tive acesso, através do artigo publicado no Diário de Notícias, e a partir da qual realizei a primeira versão da narrativa gráfica Seattle. Na realidade, esta versão foi escrita pelo professor Texano Ted Perry, como parte de um argumento cinematográfico. Os produtores do filme usaram de alguma liberdade literária, alterando o discurso (só 10% do texto “original” foi usado e algumas passagens foram proferidas com um sentido diametralmente oposto) e fazendo dele uma carta ao presidente Franklin Pierce, que tem sido reeditada com frequência. Nunca tal carta existiu ou foi alguma vez escrita pelo, ou a partir, do “chefe” Seattle.

A quarta versão apareceu numa exposição durante a Expo’74 em Spokane, Washington e é uma curta edição do argumento cinematográfico do Dr. Perry.

Segundo Jerry L. Clark, que integra a equipa dos Arquivos Nacionais Norte Americanos, não existe qualquer prova histórica do discurso, referindo inclusivamente com bases documentais, as sérias dúvidas acerca da precisão das reminiscências do Dr. Smith em 1887, trinta e dois anos após o alegado episódio, retirando-lhe pois qualquer força moral ou validade. Baseando-se nos pressupostos dos registos burocráticos da história, nomeadamente daquela que é determinada por funcionários administrativos, das nações que se impõem como vencedoras.

Civilização é sobretudo uma questão de imposição linguística e territorial, não sendo de surpreender que quem conta a história são os vencedores dos conflitos. A relevância dos factos não estará tanto se hoje em dia fará alguma diferença o discurso em questão ter sido originado pelo “chefe” Seattle em 1855, ou com o Dr. Smith em 1887. Talvez que o fundamental seja o reconhecimento de uma constatação profunda que não depende de indivíduos específicos, ou dos arquivos que registam os protocolos da civilização.

Mas de todas estas constatações não se diluiu o impulso que me fez realizar, inicialmente, esta banda desenhada. Matéria activa e transformadora, o potencial inerente deste discurso encontrou um novo eco ao despoletar um trabalho conjunto com a Maria João Worm, no sentido de trabalharmos a primeira versão do discurso de Seattle; agora numa sequência em que os meus desenhos a lápis serão posteriormente trabalhados pela João na técnica de linogravura, a preto e branco. Digamos que esta, é uma semente inicial que há muito germinava, numa procura de tornar expressão visual uma narrativa baseada em textos dos povos nativos da América do Norte. Trabalhamos assim, pensando num projecto maior que encerra, num livro de banda desenhada, uma Planície Pintada. Nesta, quatro histórias, delimitadas por um número de referência primordial no seio destas culturas ameríndias, que envolvem aspectos da sua mitologia, narrativa de vida comunitária; uma visão messiânica só possível de encontrar quando os espíritos comungam com a natureza e, finalmente, o discurso sábio e eloquente de um homem, face à barbárie da transformação imposta e não desejável. Planície Pintada é também uma espécie de narrativa semiótica, num estado muito próximo ao da tradição oral, que une de forma imaculada a verosimilhança com o sentido profundo que carrega, num tempo e espaços particulares, tendo finalmente uma expressão de espírito universal. Talvez que essa seja a verdadeira História , aquela que percorre o tempo da memória e se recria continuadamente sem um rosto definido, expondo misteriosamente uma verdade na sua revelação.

Diniz Conefrey

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