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Posts Tagged ‘Abstract Comics’

Ao desenhar uma imagem figurativa o autor reproduz uma ideia subjectiva e abstracta, partindo daquilo que observa, enquanto uma imagem não-figurativa é uma impressão concreta da mundivivência criativa do autor. Seja qual for o estilo de representação cuja forma seja reconhecível, o autor não reproduz senão um fragmento do mundo em que vive: nenhuma imagem pode representar o Universo real, pois está sempre dependente da subjectividade (plástica e social) imanente da ordem explícita – a aparência (ou a aparência num dado momento da época).

Paralelamente, a imagem não-figurativa convoca uma completude para além do que é fragmentário, um sentimento ou uma noção concreta e objectiva de ordem implícita – o indivizível (ou uma aproximação ao absoluto). Tudo está relacionado pelo processo de movimento constante – «Folding and Unfolding» – no qual a ordem explícita advem da ordem implícita. Por isso a «Não Localidade», na representação de uma imagem concreta, assume níveis abrangentes de ressonância constitutiva que, no caso de uma imagem figurativa (no fundo abstracta e subjectiva) as valências são necessáriamente fragmentárias.

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Capa desta primeira edição e, à direita, página da sequência The box (do poema Tones), Sarah Frágil e S. K. Camilo

Publicado pelo Selo Risco Impresso, em Novembro de 2021, este primeiro volume da colecção Autofagia inclui cerca de 390 páginas abrindo-se a mais uma possibilidade de diálogo entre «quadrinhos e abstração». Desde a apresentação de Poemas/Processo, do final dos anos 60, onde vários códigos da banda desenhada foram integrados, por autores brasileiros de Poesia Visual, no sentido de valorizar a superação de estruturas fixas no contexto das suas propostas criativas, passando pela colaboração de vários autores de diversos países, no campo da banda desenhada abstracta, esta edição apresenta ainda, no seu final, vários ensaios sobre abstracção e sequencialidade.

Stereotipiae. Antoine-Toussaint Casanova.

Se enunciados de leitura, como este, são relevantes no debate de preposições em torno das possibilidades da narrativa gráfica abstracta, enquanto género, parece-nos plausível manter em aberto um horizonte de ressonâncias no leitor, tanto como espaço de concretização sem formas descritivas ou, porque não, em contraponto, no sentido de fusão e hibridez, com estas. De Portugal participam, neste volume, Bruno Borges, Diniz Conefrey, João Sequeira e Pedro Moura além de Cátia Serrão.

Contacto para os editores Vizette Priscila Seidel e Guilherme E. Silveira: seloriscoimpresso@gmail.com

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Casa – Corpo. Dentro, as lâminas de papel. Um espelho, luminosidade febril… Rastos de vibração, sopro delicado. Tempo, por dentro e por fora, nas paredes desamparadas do corpo. Aí, no silêncio, o olhar macio tacteando as formas, as côres, abrindo-se súbitas as lamelas em gestos respirados.

Confluência do plano, um gradiante de sombras acordadas traçando levas bruscas no destino. Regressar ao ponto. Aquele ponto, imersão, contexto suspenso entre a fluência da escala – os nós – arquitectura de amplitudes, segmentos de emoção. O observador é o observado.

Um espectro radiante no ciclo de um dia.

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Enfant au Cerf-Volant. Arpad Szenes, 1932. Fundação Arpad Szenes e Vieira da Silva.

Apesar da mundivivência humana definir, cada vez mais, o seu campo de identidade através das tensões políticas geradas no seio de uma urbanidade em expansão – alimentando um macro-sistema de valores económicos e sociais, disputados por várias tradições e canais de comunicação – não deixa de ser observável, num plano abrangente, a interdependência que nos constitui de cariz orgânico defendido, inclusivamente, por vários campos da ciência. Poucos terão presente a continuidade do caminho iniciado pelo cubismo, ao fragmentar as formas e permitir os recursos formais de um abstraccionismo puro, reflectindo também no seu processo inovações da ciência como, por exemplo, as teorias atómicas da matéria e novos conceitos de espaço, tempo e energia dasafiando as teorias aceites desde o tempo de Newton. Seria relevante salientar a Teoria da Relatividade de Einstein – de 1905 – desmontando a crença, mantida por muito tempo, na qual quantidades básicas de medida seriam absolutas e invariáveis, ao demonstrar que estas dependiam da posição relativa do observador. Além disso, ele também indicou que os objectos são constituídos por energia, onde “a massa de um corpo é medida pela energia que contém.” Como todas as propostas renovadoras, estas abordagens tiveram reflexos óbvios no campo das artes, sentindo-se a sua repercursão, só muito mais tarde, na sociedade em geral.

Nesse sentido o abstraccionismo trouxe um movimento de investigação para o centro da obra criada, enquanto visão intimista de relação interdisciplinar, propondo resgatar a autonomia das formas e das cores em relação a um processo descritivo e literário subjacente a um referencial de aparências – fosse ele baseado nos efeitos contemplativos da luminosidade ou dos sentimentos valorizados pela interpretação expressionista. Nessa correlação poética, na qual a representação pura se expande num sentido metalinguístico, ascende uma profusão de vertentes que vão reflectir-se tanto no campo dos ideais sociais, na reconfiguração da ressonância plástica e gráfica (ao sobrepôr várias disciplinas, até então separadas), a intermediação dos espaços e o pensamento crítico para além da descentralização cultural, sobretudo após a segunda guerra mundial. Evitando um mero enunciado temporal, em que as suas fases mais consistentes se alicerçaram numa estrutura de pensamento para além da obra em si – numa similitude orgânica com a arte abstracta dita primitiva – o abstaccionismo mantém, actualmente, uma virtude informal na ordem da apreensão mais vasta dos sentidos, através de um diálogo que não é da ordem do espectável. Sentir é mais relevante do que representar, mesmo no âmbito da fragmentação suscitada pelos princípios niilistas de uma “cultura social”, onde a sobreposição de valores acrescentou há fluição de ideias, através de expressões estabelecidas desafiando as categorias anteriores. Exemplo disso são as instalações, a land-art, os abstract comics ou o lançar problemas verbais ou matemáticos através da arte conceptual.

Construção Linear nº4. Naum Gabo, 1962. Detroit Institute of Arts.

Tendemos a assumir que a narrativa é de ordem literária, histórica ou filosófica, mas de facto encontramo-nos num campo cuja semântica provém de uma semióptica poética, cuja sintaxe se encontra espartilhada pelos valores políticos e sociais vigentes de uma determinada época. Ou seja, habitualmente a sociedade está sempre atrasada em relação ao que é determinante e – paradoxalmente – o que é determinante já foi experienciado. Einstein e a sua teoria são um ícone da ciência moderna, no entanto durante décadas, a sua abordagem não encontrou uma conformidade unificadora com a sua contraparte académica, descrevendo os elementos mais pequenos do universo, a física quântica. David Bohm (1917-1992), um dos físicos norte-americanos mais proeminente do século XX demonstrou como as duas teorias podem estar unificadas e como o tempo linear, associado às sensações derivadas do espaço tridimensional, constituem um obstáculo para entender a realidade. Para isso, Bohm percebeu que à medida cartesiana da nossa realidade manifesta falta a indagação transdisciplinar. Para esse processo de entendimento de um todo, no qual estamos inseridos, concorre um diálogo íntimo entre a ciência, a espiritualidade e a arte. A ordem explícita do nosso mundo depende da ordem ímplicita na qual, qualquer ponto do universo contém o universo inteiro. No potencial quântico a unificação advém da “Não Localidade”, observando-se entre duas partículas relacionadas entre si, mesmo estando muito afastadas, uma reacção em simultâneo quando uma delas sofre alterações. Esta circunstância refuta o princípio de Einstein, no qual nada é mais rápido do que a velocidade da luz. O simples acto de observar um electrão muda o seu comportamento, desta forma colocam-se não só questões no patamar da experimentação do foro científico como acresce a indagação, de âmbito mais lato, sobre o que é a consciência.

O que a Teoria da Relatividade e a Física Quântica têm em comum é o Todo Indivizível, noção que tanto as tradições espírituais como a ciência conseguem debater, aproximando-se quando não se encontram sujeitas aos dogmas e preconceitos. Para ambas tudo está relacionado pelo processo de movimento constante, dobrando-se e, simultâneamente, desdobrando-se nas várias dimensões onde, os seres humanos apenas têm a percepção limitada de uma delas. A consciência, ou os seus níveis de reflexão, participam também, naturalmente, do campo da criação artística, onde não raras vezes a intuição e a subjectividade se mostram mais reveladoras do que as tendências temporais. Sobretudo quando a indagação interior se modela pela ressonância de um diálogo transversal, escapando ao campo da gravidade dos géneros e dos princípios políticos. O observador é o observado, nesse sentido a arte abstracta mantém a pertinência de uma linguagem que fala, para além do autor, através de um código implícito ao qual não é estranho o princípio da consciência não ser da ordem local mas universal. Um desdobramento em que o gesto é ele próprio “pensamento” e cujas matizes já se encontravam inscritas numa relação de foro numinoso, antes de se tornar processual. Todos os dispositivos tecnológicos actuais, com os quais lidamos quotidianamente, têm como princípio de funcionamento a física quântica. A teoria quântica foi estabelecida em 1900. Por volta de 1925 Heisenberg cria a mecânica quântica, seguido pela interpretação de Niels Bohr ao fazer prevalecer a Teoria do Campo Quântico. Einstein e a Conferência de Copenhaga relegaram ao descrédito o paper de David Bohm, «Hidden Variables» (Brasil, 1952), no qual emerge a noção de unidade entre as duas teorias separadas, propostas pela ortodoxia da ciência. Numa reunião de físicos proeminentes, Oppenheimer (responsável pelo projecto “Manhattan”) terá afirmado: -«Se não podemos refutar a proposta de Bohm, o melhor é não falar dela.»

Shuster in Madrid. Mark Staff Brandl. Abstract Comics. Fantagraphics Books, 2009.

Quantos anos de debate serão necessários até que surjam processos de legitimação impessoal, permitindo que se tornem correntes os princípios, sobretudo aqueles que são cientificamente comprovados – além de outros aspectos – propostos por David Bohm? A fragmentação parece ser uma eventualidade própria na relação do ser humano perante um dimensão tão abstracta como o Tempo. Já que o nosso perfil psicológico reconhece formas, sensações, percepções e volições apenas como estados transitórios de consciência. No imaginário popular que Steve Ditko criou para a narrativa gráfica «Strange Tales» (1965) as viagens efectuadas, através de várias dimensões imateriais, apresentam um vocabulário visual em que elementos gráficos surgem como tendo uma vida própria, levando esta sequência a lembrar as aventuras dos dois quadrados de El Lissitzky. Renunciando a qualquer estranheza, os Abstract Comics lidam com a estrutura fundamental que caracteriza a linguagem da banda desenhada: composição do dinamismo gráfico e ressonância estética através da interacção entre sequencialidade e o lay-out da página. Por debaixo de qualquer composição naturalista existem formas, geométricas ou abstractas, que determinam a sua qualidade semântica. Também poderiamos constatar que, nas últimas décadas, as distinções entre arte abstracta e representação têm vindo a dissolver-se. Em relação a todos estes aspectos, mantendo-se uma corrente de abertura de espírito, poderemos estar próximos de um tempo em que a distinção entre estas duas formas de arte cesse em ser um assunto por si.

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Pedro Burgos e João Paulo Cotrim. Revista Le Cheval sans Tête, volume 5. Editions Amok, 1998.

Uma breve reflexão sobre a narrativa leva-nos ao ponto inicial, de uma certa clarificação, no sentido de estabelecer uma diferença entre a possibilidade, em aberto, que apresenta uma folha em branco e as características de fruição, perante os modelos demarcados por um mercado e sua relação com os géneros e a indústria. O suporte, neste caso a narrativa gráfica, conjura as possibilidades de uma linguagem onde se incluem vários níveis de segmentos em permuta, oscilando permanentemente entre o particular e o referencial.

Da virtude que podemos reconhecer, no seio das narrativas mitológicas, será a de um corpo social interligado, existencialmente, através do imaginário; da fabulação complementada pelo entorno geográfico e sem a necessidade de constatação porque, entre outros factores, não depende da individuação. Poderá dizer-se que, o mito, enquanto verdade absoluta, trata de uma narrativa que se reflecte, posteriormente, em todas as formas de arte características de cada cultura. Apesar desta constatação de um saber pré-conceptual ser muito distinto do nosso mundo actual, já fragmentado e, simultaneamente, dependente de todas as graduações – evolutivas ou involutivas – que contém a deriva civilizacional; é a expressão dessa natureza profundamente criativa – e o simulacro pelo qual se consegue visualizar aquilo que é da ordem do não dizível ou subliminar – que nos aproxima em torno de um conhecimento reconhecível.

Diria que, em relação à narrativa gráfica, estamos perante uma circunscrição de margens poéticas na qual a subjectividade interroga e, paralelamente, se exprime objectivamente através de uma necessidade interior visando reconhecer o essencial. Este essencial, no entanto, não depende apenas da determinação imposta pelos processos conjunturais, sendo, no seu amâgo, um reflexo de capacidades semânticas pela qual a polifonia dos sentidos poderá encontrar a sua tonalidade exterior. Nesse sentido, uma cultura multidisciplinar introduz uma perspectiva relevante, tanto ao fazer eclodir o potencial sintáctico cristalizado nas abordagens de variações formais, como no reconhecimento da riqueza expressiva, subjacente a um suporte essencialmente sequencial. Uma narrativa pode ser independente de uma história – esta enquanto dramatização de uma conjectura. Ou seja, pode existir numa grelha de percepções sem estar dependente de uma formulação literária que, sendo lícita, não é exclusiva; estando esta matiz ligada a uma estrutura mais próxima do romance:

1-O Cenário, onde as personagens se apresentam no espaço/tempo, introduzindo a tensão narrativa na qual vão actuar a partir de um incidente que perturba a ideia de um “equilíbrio” inícial.

2-O Enredo, como expressão de uma dramaturgia, criando a sucessão mais longa da narrativa, ao desenvolver uma dinâmica conflituosa entre os sujeitos interactivos – cujo desfecho encerra o momento final:

3- A Resolução, cujo contraste marca a memória, podendo haver uma epifania – seguramente o retomar de um equilíbrio distinto do inicial.

Susa Monteiro. Revista Venham +5, número 5. Bedeteca de Beja, 2008.

Apesar deste aspecto narrativo comum, o plano existe antes da forma, ou seja, a matriz sequencial pode existir autónoma dos aspectos de casualidade, no sentido em que a consciência também se encontra abrangida por leis de probabilidades na qual as aproximações se dão por saltos e não por aproximação. Na poesia a dramaturgia flui ao longo de uma espiral rítmica, e a sucessão de acções diluem-se para dar lugar a uma sintaxe que perscruta o essencial das formas e dos sentidos. Continuamos no plano da linguagem, da sequencialidade, mas, deste modo, a permuta narrativa encadeia-se através de momentos em série – onde as imagens (visuais ou escritas) se articulam em torno de sinapses evocativas, sem serem subservientes à lógica da intriga ou da acção – menos ainda de um final conclusivo. O espectável é suspenso por uma formulação indirecta, onde o silêncio das contemplações interiores concorre – com o sujeito ou tema – para tornar audível uma ressonância de conteúdos que, naturalmente, podem ser diversos – dependendo mais do tom do que das circunstâncias.

De certa maneira existe uma proximidade narrativa nestas abordagens, porém sem serem idênticas, ao concorrerem no sentido de um vislumbre comum. Na arte moderna, o abstraccionismo permitiu ultrapassar a fronteira plástica da descrição, impressão e expressão, ao emancipar as formas das suas possíveis contenções líricas. Nomeadamente a escultura, antes circunscrita a uma relação de volumes sempre dependentes de uma expressão compacta, abrindo, através do abstracto, para dinâmicas que permitiram leveza e novos registos de composição (a linha passa a ter uma dimensão escultórica – a escultura deixa de representar a forma natural), algo completamente impossível no patamar anterior. A simbiose de uma consciência imaterial tornou, assim, plásticamente possível uma percepção de volumetrias musicais, do mesmo modo que poderíamos considerar a música como sendo uma arquitectura líquida. Estas correspondências, mesmo que num plano aparentemente exterior à banda desenhada, debruçam-se sobre um mesmo carácter de transposições, envolvendo várias dimensões de relacionamento entre tempo e espaço que podem concorrer, também, no plano de uma expressão sequencial.

Cátia Serrão. Bande Dessinée et Abstraction, volume 2. Presses Universitaires de Liège/Collection ACME, 2019.

A banda desenhada abstracta não é fruto de um experimentalismo, sendo apenas a constatação de uma interdependência na qual todas as linguagens se encontram para além das especificidades de cada época e, simultaneamente, como resultado delas. Dentro do campo particular da narrativa gráfica, o abstracto não deixa de corresponder ao princípio da solidariedade icónica, tal como é identificada por Thierry Groensteen no seu livro «Systéme de la bande dessinée» (Paris, Presses Universitaires de France, col. Formas semióticas, 2011) – a montagem, a paginação e o traçado. No entanto, a sua dinâmica sequencial solicita a participação do leitor a um nível semântico de maior subtileza. O plano axiomático das formas traduzem sensações que tanto se podem relacionar por sequências, séries ou infra-narrativas. Neste aspecto, parece-nos que o referencial do leitor é subtraído, nas suas características mais correntes (e literárias) – como a identificação ou a modelação dos sentidos vinculados ao texto – para um grau de silenciamento onde a interpretação reverbera num plano íntimo, no qual tempo e espaço operam uma fusão, emancipando-se de uma postura cognitiva. Apenas uma musicalidade de silêncios, ou, formalmente, como um trecho musical onde apenas o som participa. Sem a necessidade de uma voz narrativa, emprestando sentidos à canção; assumindo os instrumentos as suas modelações através de uma composição fluindo.

A banda desenhada inclui um processo de relacionamentos narrativos onde coexistem vários aspectos, interiores e exteriores à sua prática corrente. Uma folha em branco apresenta um vazio, um oceano de possibilidades com as suas marés fazendo levantar ondas amenas ou grandes tempestades. Todas essas disposições têm a sua expressão, ao tornarem visível, através de uma diferenciação o que parecia estar ausente – mantendo livre e aberto o ritmo de uma arte que navega para reconhecer o mais profundo daquilo que é.

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Keren Katz e Shahar Sarig.

Trata-se de uma forma criativa híbrida, que combina aspectos da narrativa gráfica e da poesia. A sua linha define-se a partir da sintaxe da banda desenhada – imagens, paineis, balões de texto e outros aspectos, no sentido de produzir uma expressão artística próxima da poesia tradicional.

Desde meados de 2000 que vários artistas poetas, como Matt Madden ou Julie Delporte, começaram a publicar, de forma independente de cada um, referindo-se expressamente ao trabalho que estavam a desenvolver como Comics Poetry. Este termo é aplicado a um campo crescente de trabalhos cujo teor se apresenta fora das definições tradicionais, tanto da banda desenhada como da poesia. Uma simbiose que encontra as suas origens nas iluminuras, romances gráficos, poesia concreta e poetas que combinaram imagens e textos, como Kenneth Patchen (https://en.wikipedia.org/wiki/Kenneth_Patchen).

Alexander Roth, editor da revista Ink Brick – A Journal of Comics Poetry (https://inkbrick.com/), acrescenta: «Eu chamo ao trabalho que realizo e publico “comics poetry”. (…) Ao fim do dia, mais do que qualquer outro praticante, um poeta está apenas a lidar com palavras… Palavras não são estritamente necessárias para uma banda desenhada, mas naturalmente também estão presentes para serem usadas. Vinhetas não são necessárias, mas também estão aí para serem usadas. Da mesma forma que o manancial do poeta contem cada arranjo imaginável, ou manipulação de palavras, o cartonista dispõe de analogias como elementos visuais da página.

À esquerda, August in Pasikuda de Deshan Tannekoon e Isuri Merenchi Hewage. À direita prancha abstract comics de Mark Laliberte (Ink Brick nº8).

Numa época em que as fronteiras estabelecidas pelas definições se vão alargando, diluindo e encontrando novas perspectivas, os modelos que parecem estabelecidos (como se pode verificar nos ensaios incluídos na edição da 5e Couche – Bande Dessinée et Abstraction) antecedem já as formas para variantes nas justaposições. Também neste Journal of Comics Poetry surgem afinidades, ou mesmo colaborações, de narrativas que se inserem no género de Abstract Comics. Uma forma de expressão que combina conceitos de abstracção visual com a sequencialidade inerente a uma banda desenhada.

Estamos no campo mais abrangente das narrativas gráficas do qual participam outras, mais específicas, como as narrativas visuais (se assim podemos incluir os “livros de artista”). Uma permuta de musicalidades na qual a fusão de géneros vai enriquecendo as linguagens, abrindo os debates permanentes em torno dos conceitos, muitas das vezes só em aparente oposição.

Para ler mais sobre Comics Poetry: https://en.wikipedia.org/wiki/Comics_poetry

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O mercado nacional de banda desenhada tem estado tão ativo, e o espaço disponível para falar dele é tão diminuto, que é sempre ingrato fazer escolhas. Por isso, escolhe-se aquilo que talvez menos gente fale.

Como o notável trabalho gráfico de Diniz Conefrey na sua mais recente coletânea de narrativas curtas “Floema dorsal” (Quarto de Jade). “Floema” é o tecido vascular das plantas no qual circula matéria orgânica produzida a partir da fotossíntese, a chamada “seiva elaborada”; por oposição, no “xilema” circulam água e sais minerais (“seiva bruta”). Já “dorsal” implica as costas, onde, nos vertebrados, se desenvolve o sistema nervoso. No trabalho sempre onírico e aqui maioritariamente a preto e branco de Conefrey há essa articulação comunicante entre formas abstratas que evoluem e se interpenetram de forma quase orgânica (“Nas rajadas de um sonho”), ou desequilibram a noção que o leitor tem de abstracto-real (“Impermanência”, “Onde estão as borboletas”).

Texto e cor são aqui elementos raros, o primeiro por vezes estranha-se na sua poética (como no visualmente deslumbrante “Cigarra”), ou surge enquanto contraponto absoluto essencial (“O lugar sem espera”, talvez a melhor sequência, enquanto BD). Já o uso de cor enquanto elemento gráfico é sempre superlativo (“Impermanência”, “Cigarra”), e, apesar da mestria do preto e branco, sentimos muitas vezes a sua falta. Seja como for, o trabalho de Diniz Conefrey transporta sempre para onde nunca sabíamos poder ir.

 João Ramalho Santos, Jornal de Letras de 15/1/2020 

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No próximo sábado, dia 25 de Janeiro, pelas 16H30, faremos a apresentação do livro Floema Dorsal, de Diniz Conefrey, na livraria Tinta nos Nervos – Rua da Esperança 39, em Santos.

Um convite a todos para participarem numa conversa em redor de um livro que ensaia diversas abordagens de justaposição entre banda desenhada abstracta e figurativa. A sequencialidade pode não estar dependente de uma intriga, ou mesmo da presença humana, como já havia sido proposto no livro Meteorologias em 2016. Ao contrário deste último, a tónica, neste novo livro, assenta na abordagem rítmica de fluxos temporais representados, maioritariamente, por formas volumétricas. Recordaremos as origens que levaram ao desenvolvimento destas narrativas, que se desenvolvem como temas musicais, na sua relação formal e intuitiva, realçando o “sentir” como condição cognitiva através de uma expressão não planeada de acontecimentos visuais em progressão, modelando uma escala de tempo. O que poderá emergir se, de manhã, abrirmos a janela e um outro olhar convocar aquilo que habitualmente não estamos atentos a ver?

A conversa contará com a presença do autor, de Maria João Worm, co-editora da Quarto de Jade e artista colaboradora em Floema Dorsal, além de Mariana Pinto dos Santos, historiadora de arte e editora.

 

 

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Em Abril de 2011 as edições Quarto de Jade publicaram o seu primeiro título, Os Animais Domésticos da autoria de Maria João Worm. Oito anos volvidos apresentamos um novo livro, Floema Dorsal de Diniz Conefrey, um ensaio de 236 páginas que conjuga banda desenhada abstracta e figurativa, no qual se incluem três narrativas a preto e branco e duas a cores: Nas rajadas de um sono, Impermanência, Onde estão as borboletas, Cigarra, O lugar sem espera. As três primeiras sequências são inteiramente visuais, terminando com duas histórias complementadas por narração escrita. O tema Cigarra foi escrito e desenhado conjuntamente com Maria João Worm. Esta edição encontra-se disponível para venda no nosso site: http://www.quartodejade.com/shop_books.php

Na rajadas de um sono

O autor deste livro é um lisboeta que tem na Cidade do México uma morada sentimental. Adicionou à formação autodidacta o curso de desenho, na Sociedade Nacional de Belas Artes. Durante vários anos participa, como ilustrador e autor de narrativas gráficas, em jornais, revistas e editoras a par de ter efectuado alguns cursos de formação.  Além das exposições que incluíram os seus originais, tanto em Portugal como na Bélgica, França e Brasil, foi bolseiro do Estado mexicano em 2005, 2007 e 2015. Criou, com Maria João Worm, a chancela Quarto de Jade onde publica alguns livros da sua autoria, assim como na Pianola Editores, Douda Correria e revista Cão Celeste.

Impermanência

Onde estão as borboletas

Cigarra

O lugar sem espera

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Well, we didn’t received, yet, a copy of this colossal compilation edited by Aarnoud Rommens and with the collaboration of Benoît Crucifix, Björn-Olav Dozo, Erwin Dejasse & Pablo Turnes. But we share the photo and the text that Paul Gravett mention in is facebook page, just for general information. From our little corner, this book have the participation of Cátia Serrão, Pedro Moura and myself, with the abstract sequence O arco da noite branca donne in Mexico City some years ago.

«From Alberto Breccia’s Lovecraftian nightmares and Jack Kirby’s cosmic ‘Krackle’ to Yokoyama Yuichi’s geometric intensities, this madly interesting, thought-provoking and challenging collection arrived today. ABSTRACTION AND COMICS comes in a slipcase containing two volumes of over 440-pages each, 888 in all, brimming with essays and artworks by 52 contributors, including aetens, Erwin Dejasse, Hugo Frey, SimJan Bon Grennan, Gene Kannenberg Jr, Pascal Lefèvre, Ilan Manouach, Gert Meesters, Pedro Moura and Barbara Postema, all enquiring into what abstraction can offer to comics. Writings and images are published in their original languages, the majority in English (nine of the essays are in French). It’s just been published by Belgian mavericks La 5e Couche (5c) and Presses Universitaires de Liège, co-ordinated by ACME Comics Research Group in Liège. The cunning Op-Art, eye-test covers are by Martin Vitaliti (the sources look to me like John Buscema 1970s romance comic books?). The 9th Art in all its forms always hides surprises in its past and still offers so many more to come…»

O arco da noite branca

This is not a book about abstract comics. Instead, it combines original, new comics and multiple texts to explore what abstraction can offer to comics, and what comics can do for abstraction. By doing so, Comics and Abstraction occasions a critical engagement with issues such as ‘high’ versus ‘low’ art; art history and comics studies; literature, poetry, drawing and writing; highbrow, lowbrow, nobrow, and so on. “Comics and Abstraction” generates a space of contradiction where the essays and images stand in a relation of tension. Some of the included texts are more historically-oriented, some take a decidedly semiotic approach, while others are more concerned with formal features. This multiplicity is echoed by the markedly different aesthetics of the comics, which do not necessarily ‘illustrate’ the theoretical frames of the essays. It is ultimately up to the reader to create the meaningful paths that connect abstraction and comics.’ 36 euros, available from https://5c.be/5c_catalogue.html and http://www.presses.uliege.be/jcms/c_21487/acme-4

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