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Posts Tagged ‘Banda Desenhada Abstracta’

This post is part of Aarnoud Rommens essay «‘Deep’ Time in Times of Precarity: Experimental Comics as ‘Dark Matter’». In this editing we only publish the section regarding the book Meteorologies, without the notes included in the original text, and it will be presented divided in two parts.

Diniz Conefrey’s Meteorologies is an abstract comic in small format published in 2016, in limited print run, issued by the author’s minor, independent Portuguese publishing house. The comic consists of four stories or episodes, with the titles “Membrana Fóssil” (Fossil Membrane), “Pequenos Mundos” (Small Worlds), “A Matéria do Vento” (Wind Substance), and “Tornado a Casa” (Home Tornado). Though wordless, the comic uses common narrative techniques while evacuating recognisable shapes and figures. Yet, this does not mean that Meteorologies does not tell a story. Like other abstract comics, it can be read as a reflection on the medium itself, as a “formal drama” as Andrei Molotiu puts it in the introduction to the anthology Abstract Comics: “Panel rhythm, page layout, the sequential potential of colour and the panel-to-panel play of abstract shapes have all been exploited to create potent formal dramas and narrative arcs.” This certainly holds for Meteorologies. Furthermore, the comic couples the architecture of panel and page breakdown with distinctive changes in drawing styles to reflect on time and rhythm. The shifting style of the drawings, the panel sequencing, and page layout occasion a reflection on multiple, interwoven temporalities: the duration and varying cadences of reading, the speed, and intensities of drawing, as well as the relation between historical, human-scale time and deep, anti-human, geological time.

Except for the three-panel pages in the opening story “Fossil Membrane,” the individual pages establish a regular two-step beat. In fact, the facing pages are like a large white ground against which four smaller canvasses are placed, thus making the 4-step beat into the ground cadence of the comic. Seemingly ending in a ‘fade-out,’ Meteorologies invites us to read left to right, end to beginning, downside-up, transversally, back to front, and so on, as each image seems to echo the other. The sequentiality typical of alphanumerical decoding — the way one usually reads comics — contends with the modularity of serial recombination occasioned by visual motifs. Meteorologies is expressly presented as a constellation of images.

Throughout the comic there are conspicuous shifts in pacing. At specific intervals, the drawings overflow their grid-cell, expanding and contracting, slowing down and accelerating. Such moments of intensity break up the flow, but calm is eventually restored in a sea of white, the blank page. Meteorologies thus explores the intimacy of reading time whose duration is unpredictable given the resistance abstraction poses to legibility. But it is this resistance that makes the comic so interesting. Its images a kind of Rorschach test, the comic sets loose the demon of visual analogy through its associative potential. Of course, the titles push the associative logic in a certain direction: Meteorologies, “Fossil Membrane,” “Small Worlds,” “Wind Substance,” and “Home Tornado” belong to acertain register that makes the chain of associations less arbitrary. Like words in a poem, they invite the daemon of analogy, leading to infinite visual-verbal associations. Furthermore, this also ensures that the comic is not just a self-reflexive work, a style exercise. It also speaks directly to our historical moment.

The drawings conjure up scientific imagery, intimating a link with — amongst many others — geology, climate maps, microscopy, palaeontology, stratigraphy, sound waves, billowing clouds, blood circulation, seismographic records or even the million years old, inhuman beauty of mineral stones, as explored by Roger Caillois in The Writing of Stones, for instance. The comic appropriates the plethora of today’s “informational images” circulating in mass media, touching on the fields of bio-technology, medicine, astronomy, climate maps and charts indicating climate change, the weather report, and so on. As such, Meteorologies embeds itself in the history of scientific imagery, those images not studied in art history and usually not read in aesthetic terms, but which nonetheless constitute a vast quantity in overall image production. Similarly, Meteorologies inscribes itself in discussions of the Anthropocene, whose visual rhetoric depends on these kinds of images as proof to command belief. The work is radically anti-human: there are no characters, the temporal and spatial coordinates where the ‘story’ unfolds are unfathomable. If Meteorologies is a mapping, it might map on the microscopic as well as the astronomical scale.

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Um tema será sempre um ponto inicial para se poder falar. Neste caso a conversa poderá até prescindir de palavras porque o tema pode existir para além de uma história contada, sujeita à tirania da intriga, sem deixar no entanto de conter as suas dramaturgias. Uma narrativa que não conta por palavras, assumindo-se através da sua sequencialidade pelo fluxo de imagens exprimindo-se como um trecho musical, cuja interpretação depende da composição e sonoridade dos instrumentos, independente de uma narrativa vocal imprimindo-lhe um sentido ou valor sintáctico. Porém, não se trata de experimentar conceitos alheios mas antes de valorizar uma dimensão atemporal da narrativa gráfica cuja relação fisiológica estará mais próxima da imaterialidade dos sonhos, das sensações – enquanto observadas sem interferência – ou da pura contemplação dos elementos, sejam eles orgânicos ou plásticos.

Ao leitor, em diálogo, será proposta uma interpretação activa, através de estímulos visuais em que o seu envolvimento participe dos diversos graus e possibilidades de leitura – reinventando e tomando como particular aquilo que numa narrativa convencional é chamado a identificar ou a descodificar. O campo fica assim aberto, exposto no equilíbrio dos ambientes criados em sucessão, pelo autor, no sentido de tocar as percepções mais inusitadas do leitor, contornando para isso as referências literárias ou qualquer teatralidade que leve a uma identificação imediata, através de personagens ou arquitecturas humanas. Apenas um tema e a liquidez do gesto, através dos materiais, entrando pelo espaço-tempo sequencial das pranchas, fazendo emergir ressonâncias cromáticas que cabe apenas ao leitor definir, no plano dos seus conteúdos, pessoais ou formais, mais íntimos.

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O compositor e trompetista Jon Hassel é um criador visionário de um estilo de musica à qual chamou Quarto Mundo, descrevendo-o como “clássico café-colorido” – um híbrido de musica misteriosa que se desdobra entre a polaridade do antigo e do digital; compondo e improvisando o Oriente e o Ocidente. Nas duas últimas décadas os seus registos construíram um estilo único de trompete vocal (desenvolvido através de estudos com o mestre Indiano de canto Pandit Pran Nath) inspirando uma geração de colaboradores como Brian Eno, Peter Gabriel, Kronos Quartet e Ry Cooder.

Jon Hassel colaborou em gravações de músicos reconhecidos, bandas sonoras, teatro-dança e programas de televisão. O seu disco Fascionoma, de 1999, produzido por Ry Cooder com o mestre de flauta bansi Ronu Majumdar e o pianista de jazz Jacky Terrasson, inspirou uma nova geração de musicos europeus, especialmente trompetistas como Arve Henriksen, Erik Truffaz, Paolo Fresu e Nils Petter Molvaer; todos reconhecendo a influência de Hassel, liderando para lá do centro gravitacional de Miles Davis.

Em 2005, Jon Hassel iniciou uma tournée com a sua nova banda, os Maarifa Street, tocando para novas audiências europeias da Noruega a Madrid, tendo passado em 2013 por Lisboa, onde actuou no Teatro Maria Matos sob o tema Sketches of the Mediterranean: Celebrating Gil Evans. Em paralelo com novos concertos e gravações, mais recentemente, Hassel intensificou o seu trabalho através da publicação do livro The North and South of You. Parte desse trabalho foi realizado numa série de conversas públicas com o seu colaborador musical de à 25 anos, Brian Eno. Ambos têm inspirado profundamente todo o sentido narrativo, cromático e temático das imagens que tenho tido oportunidade de concretizar. Com especial relevo para o livro Meteorologias (Edições Quarto de Jade, 2016), criado directamente dos fluxos musicais que Jon Hassel me tem suscitado; acompanhando os gestos que tomam forma em folhas de papel debruçadas sobre a planura do estirador.

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Capa

Meteorologias is the most recent book by Quarto de Jade Editions. Having a 18,2 x 13,4 cm dimension it contains 164 pages with four abstract telluric sequences by Diniz Conefrey and an introduction, in English and Portuguese by Aarnoud Rommens:

«In its lyrical freehand, Meteorologias draws us into its silent experimentation with time, duration, and rhythm. Its form—the shifting style of the drawings, the panel sequencing, and page layout—occasions a reflection on multiple, interwoven temporalities: the duration and varying cadences of reading, the speed and intensities of drawing, as well as the relation between historical, human-scale time and deep, anti-human, geological time.» (…)

(…)  «Thus, first of all, Meteorologias explores the intimacy of reading time whose duration is unpredictable given the resistance abstraction poses to legibility. However, the comic is not just a self-reflexive work. It also speaks to the pressing issues of today. It is here that the few words—the titles of the four parts—become important in generating figures of thought that have a bearing on our historical moment. Like words in a poem they invite the daemon of analogy, leading to infinite visual-verbal associations.» (…)

It’s avaiable in our on-line shop through this link.

Fossil Membrane - Membrana Fóssil.

Fossil Membrane – Membrana Fóssil.

 

The Wind's Substance - A Matéria do Vento.

The Wind’s Substance – A Matéria do Vento.

 

Small Worlds - Pequenos Mundos.

Small Worlds – Pequenos Mundos.

 

Hurricane Home - Tornado a Casa.

Hurricane Home – Tornado a Casa.

 

Meteorologias é o novo livro das Edições Quarto de Jade. Com um formato de 18,2 x 13,4 cm contem quatro sequências telúricas, abstractas, de Diniz Conefrey e um prefácio, em Inglês e Português, de Aarnoud Rommens:

«Na sua lírica fluidez, Meteorologias envolve-nos numa experimentação silenciosa com o tempo, a duração e o ritmo. A sua forma – o estilo mutável dos desenhos, a sequenciação das vinhetas e a composição das páginas – suscita uma reflexão sobre temporalidades múltiplas que se entrelaçam: a duração e as cadências variáveis da leitura, a velocidade e as intensidades do desenho, bem como a relação entre o tempo histórico, de escala humana, e o profundo e anti-humano tempo geológico.» (…)

(…) «Assim, antes de mais, Meteorologias explora a intimidade do tempo de leitura, cuja duração é imprevisível dada a resistência que a abstracção opõe à legibilidade. Contudo, esta banda desenhada não é um trabalho meramente auto-reflexivo. Alude também aos grandes problemas do nosso tempo. É aqui que as escassas palavras – os títulos das quatro partes – se tornam importantes, suscitando imagens mentais que remetem para o momento histórico em curso. Assim como as palavras de um poema, esses títulos apelam ao daimon da analogia, permitindo inúmeras associações verbais-visuais.» (…)

Este livro encontra-se disponível na nossa loja on-line, através deste link.

 

 

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Equinocio

Equinócio é um caderno de 50 páginas, elaborado copiosamente à mão, num processo em que mesmo as imagens elaboradas através de meios mecânicos têm uma individualidade própria; como uma pincelada é única. O texto repete-se e as imagens em sequência, nos 5 exemplares, seguem uma mesma narrativa, cuja interpretação visual é alterada, particularmente, em cada caderno. Como se cada um fosse uma interpretação musical de uma mesma pauta, cuja índole poética assenta num texto; uma visão interior de seres-pássaros, esvoaçantes, sem conseguirem voar, cruzando os passeios de uma cidade longínqua e da palma de cada mão.

equinocio a

À esquerda sequência do caderno 3 de 5. À direita imagem do caderno 4 de 5.

As sombras sequenciais deste caderno, de poesia visual, são estátuas em movimento ao mesmo tempo que música congelada fluindo improvisadamente. Anotações minuciosas que destacam os rasgos momentâneos, frisando o irrepetível no repetível.

equinocio b

À esquerda imagem do caderno 2 de 5. À direita, a mesma imagem, do caderno 5 de 5.

Um texto, num caderno de imagens que provoca os métodos de reprodução, questionando-os, respirando de forma única para lá das tiragens, das gravuras, da tipografia ou dos processos mais modernos; sem os recusar, transformando-se de dentro para fora com a rapidez plácida do autor copista, derramando múltiplos numa sucessão circunscrita.

equinocio c

À esquerda sequência do caderno 1 de 5. À direita, a mesma sequência, do caderno 5 de 5.

Uma visão é uma imagem que habita o corpo do texto. A linha de um equinócio contendo as margens da vida exterior, na inquietude permanente do poema, uma interpretação em sons de perpétua harmonia por desvelar: «(…) Entre estes pássaros vibrantes recolhe-se uma luminosidade, profunda e misteriosa que os faz girar em círculos de nós cegos, vacilando os seus rostos sobre o ar denso e pesaroso das máquinas em combustão. (…)» Tudo o que tem tempo, tem música. Tudo o que se move contém dança. No espaço das páginas suspendem-se as imagens deste caderno, da autoria de Diniz Conefrey, realizado durante Maio e Junho de 2015.

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Conrad 1

Um amigo poeta dizia-me que todas as obras são autobiográficas. Recolho-me sobre esta afirmação, não somente no seu sentido exclusivo enquanto relato pessoal, assumindo a multiplicidade que poderá conter essa circunstancia. Como interprete não revejo somente uma vivência particular – se bem que inerente – contemplo e assimilo uma experiência do mundo, devolvendo-a através de uma linguagem particular a qual reflecte o meu movimento expressivo como autor. Inicia-se pois um caminho complexo para dar forma, de conteúdo envolto em “textura”, a imagens relacionadas sequencialmente por um fio narrativo que acolhe na sombra dos seus múltiplos níveis o magma de uma vivência; suas memórias, sonhos e afirmações.

Ao mundo prestamos contas através das nossas justificações mas aqui caberia simplesmente enunciar, mesmo que de forma breve, um novo trabalho de banda desenhada cuja edição se deseja para um futuro não muito longínquo. Trata-se da livre adaptação do livro de Joseph Conrad, cujo título no original se apresenta como Youth and other stories (1902) e que nas traduções nacionais terá ficado pela juventude ou mocidade, dependendo das editoras. Trabalhei o argumento para esta narrativa a partir da edição da Assírio & Alvim (com tradução de Aníbal Fernandes) pondo de lado a ilustração desta obra; absorvendo antes os seus pressupostos narrativos ao encontro das ressonâncias, dentro do universo particular em que a palavra suscita uma visão (talvez única) no seu leitor individual.

Conrad 2

A luz difusa tende a tornar-se mais reveladora do que a claridade ofuscante, assim como um ponto de vista pode ser mais justo do que uma lei. Desta forma parti para as 74 pranchas, a preto e branco, em Julho de 2012 tendo terminado toda a sequência em Fevereiro de 2014. Uma viagem de enlevos, não raras vezes dolorosos, cuja premissa orgânica – enquanto narrativa visual – assenta na concretização rítmica entre o plano representativo do desenho naturalista em contraponto com o abstracto. Se o primeiro assume a época em que a obra original foi escrita, o segundo insinua-se enquanto preposição infranarrativa visual; conferindo ao ritmo literário, sempre presente, uma musicalidade poética que procura reflectir de forma semântica o intimismo da acção subjacente à tirania da intriga.

Esta proposta, como outras que tenho vindo a desenvolver no campo da narrativa visual, afasta-se (no sentido de encontrar matizes individuais e estruturalmente mais densas) daquilo que são os cânones correntes, claramente nomeados na seguinte passagem de Herberto Helder no seu livro Photomaton & Vox: «Uma fluente iconografia erótica invade o texto quotidiano – vestuário, publicidade, banda desenhada, produtos de beleza, decoração, etc – e inaugura uma atmosfera difusa, mais intensa, de íntima vibração.» Contudo, não deixo de me assumir como um formalista, enquanto interprete consciente de um ofício que está para além da minha originalidade pessoal. O tempo, a experiência e centenas de outros trabalhos mais válidos, no campo da narrativa gráfica, conformam um diálogo que não deve ser descurado através da simplicidade e da facilidade latente; muitas vezes impostas pelas modas dos vanguardismos circunstanciais.

Conrad 3

Na medida em que a banda desenhada abstracta se apresenta, unilateralmente, como um forma válida por si, seria importante questionar os seus atributos para além da sua formulação estética. A criação de formas plásticas, mesmo que coerentes, produzem necessariamente narrativas quando sequencializadas? O esvaziamento da casualidade, dentro da lógica da acção, permite que os efeitos de série abstractos convertam o espaço em tempo, reflectindo um escansão rítmico visual? Quanto a mim julgo que a grande maioria destes trabalhos se apresentam como um sub-género no qual a apropriação do suporte resulta na suspensão temporal da narrativa dando primazia ao jogo das formas, estáticas entre si, apesar de directamente relacionáveis. Por ser, no entanto, um campo extremamente válido de grande pertinência orgânica e semântica – sobretudo ao nível do ritmo, configuração e efeitos de série intimista – conjugo neste novo trabalho de banda desenhada uma narrativa que tem como personagem um navio. A sua viagem não será somente descrita pela sua dramaturgia única; talvez que, para além disso, tudo se torne reconhecível através dessa pulsação decorrente entre as representações narrativas interiores (subjectivas) e exteriores (objectivas).

Citando o poeta, uma vez mais: «A relação criada deve obedecer a regras sensíveis de ritmo, nexo, sintaxe – de legibilidade enfim. Vê-se pois como a escultura, antes votada ao culto da natureza e do homem, na sua metáfora representativa, se entrega agora à realização de formas autónomas, preocupada em instaurar um espaço multiplamente formulado. Um clima espacial, um ambiente.»

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A Matéria do Vento.

Neste momento estamos a preparar uma nova edição, em livro, da chancela Quarto de Jade que terá como título Meteorologias. Já anunciado aquando da publicação de Os Labirintos da Água, este novo trabalho de Diniz Conefrey apresenta quatro narrativas gráficas abstractas, a preto e branco; propondo-se uma abordagem (ou renovação) de leitura e interpretação a partir da subjectividade de imagens rítmicas não figurativas. Poderemos percepcionar o tempo exterior como uma linha recta no entanto, não será descabido afirmar que o tempo interior, e os seus afectos, pautam-se por um movimento circular, na ordem dos eventos cíclicos.

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Alfabeto Árabe de Gabriele Mandel Khân. Edição Mondadori Arte.

Na aurora da humanidade os registos visuais mostravam, simultaneamente, representação e sentido, numa inequívoca sobreposição de desenho e palavra. Os pictogramas apresentam-se, deste modo, envolvidos a uma só voz com desenho e significado. Com a posterior graduação visual, no sentido de fixar um código de linguagem fonética, os símbolos desenhados que representam o texto escrito separam-se definitivamente das representações puramente visuais; sejam elas pinturas ou ilustrações. Deste modo, na longa jornada da comunicação, palavra e imagem irão apresentar-se como dois pólos distintos que se complementam com frequência, sem nunca se voltarem a encontrar numa raiz única e inseparável. Mesmo no caso dos caligramas otomanos, do século XVI, a relação do desenho, figurado pela caligrafia árabe, é indirecta e tem um valor mais compósito do que semântico. Porém, os valores da “musicalidade” que estas expressões apresentam, ou o desenvolvimento de uma semiótica abstractizante, a partir da relação de símbolos sociais, números e consoantes – como no caso do antigo Peru. Ou do mais puro impulso de arte “moderna”, presente na expressão artística de vários continentes que não o europeu, afirmam um leque abrangente (e diversificado) de matizes comunicativas cuja expressão orgânica se encontra para além dessa fissura normativa que constitui a separação entre palavra e imagem.

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Jardim Subaquático. Paul Klee, 1939.

Foi preciso chegar ao século XIX para a arte europeia encontrar essas matizes, que a libertaram dos fastidiosos cânones de representações naturalistas e descritivas; sobretudo através da pintura cubista de Picasso, com as suas reflexões a partir da arte africana ou de Wassily Kandinsky e a sua proposição de formas rítmicas e cromáticas em paralelo com a música. Também a banda desenhada viria a encontrar a sua forma nesse século, conjuntamente com o cinema e a fotografia. Neste caso, estas artes espelham nitidamente as alterações sócio-económicas introduzidas pela revolução industrial e a proliferação de grandes centros urbanos. Estas artes amplamente desprezadas, no seu início, pelas elites sociais e aristocráticas, pois tinham um amplo eco junto ao grande público; no advento dos sistemas políticos com base na democracia. Todas elas têm percorrido uma trajectória de emancipação discursiva, com a banda desenhada ainda muito subserviente da representação dos códigos gráficos naturalistas que desenvolveu, sobretudo nestas últimas quatro décadas. As fronteiras têm vindo a ser alargadas, paulatinamente, com o diálogo e a contaminação que vai sendo preponderante entre as mais diversas áreas.

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Tornado a Casa.

Fruto da massificação social, no entanto – para o bem e para o mal – a banda desenhada já não é inteiramente refém de um publico alargado que lhe presta “homenagem”; tendo-se aberto caminho para quem a pense (e sinta) antes de a alimentar nos seus pressupostos mais primários. O surgimento recente de uma vertente abstracta, na banda desenhada, reflecte mais uma procura no desdobrar das suas matizes narrativas do que na reafirmação daquilo que já lhe é próprio.

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