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Posts Tagged ‘Banda Desenhada Abstracta’

O compositor e trompetista Jon Hassel é um criador visionário de um estilo de musica à qual chamou Quarto Mundo, descrevendo-o como “clássico café-colorido” – um híbrido de musica misteriosa que se desdobra entre a polaridade do antigo e do digital; compondo e improvisando o Oriente e o Ocidente. Nas duas últimas décadas os seus registos construíram um estilo único de trompete vocal (desenvolvido através de estudos com o mestre Indiano de canto Pandit Pran Nath) inspirando uma geração de colaboradores como Brian Eno, Peter Gabriel, Kronos Quartet e Ry Cooder.

Jon Hassel colaborou em gravações de músicos reconhecidos, bandas sonoras, teatro-dança e programas de televisão. O seu disco Fascionoma, de 1999, produzido por Ry Cooder com o mestre de flauta bansi Ronu Majumdar e o pianista de jazz Jacky Terrasson, inspirou uma nova geração de musicos europeus, especialmente trompetistas como Arve Henriksen, Erik Truffaz, Paolo Fresu e Nils Petter Molvaer; todos reconhecendo a influência de Hassel, liderando para lá do centro gravitacional de Miles Davis.

Em 2005, Jon Hassel iniciou uma tournée com a sua nova banda, os Maarifa Street, tocando para novas audiências europeias da Noruega a Madrid, tendo passado em 2013 por Lisboa, onde actuou no Teatro Maria Matos sob o tema Sketches of the Mediterranean: Celebrating Gil Evans. Em paralelo com novos concertos e gravações, mais recentemente, Hassel intensificou o seu trabalho através da publicação do livro The North and South of You. Parte desse trabalho foi realizado numa série de conversas públicas com o seu colaborador musical de à 25 anos, Brian Eno. Ambos têm inspirado profundamente todo o sentido narrativo, cromático e temático das imagens que tenho tido oportunidade de concretizar. Com especial relevo para o livro Meteorologias (Edições Quarto de Jade, 2016), criado directamente dos fluxos musicais que Jon Hassel me tem suscitado; acompanhando os gestos que tomam forma em folhas de papel debruçadas sobre a planura do estirador.

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Capa

Meteorologias is the most recent book by Quarto de Jade Editions. Having a 18,2 x 13,4 cm dimension it contains 164 pages with four abstract telluric sequences by Diniz Conefrey and an introduction, in English and Portuguese by Aarnoud Rommens:

«In its lyrical freehand, Meteorologias draws us into its silent experimentation with time, duration, and rhythm. Its form—the shifting style of the drawings, the panel sequencing, and page layout—occasions a reflection on multiple, interwoven temporalities: the duration and varying cadences of reading, the speed and intensities of drawing, as well as the relation between historical, human-scale time and deep, anti-human, geological time.» (…)

(…)  «Thus, first of all, Meteorologias explores the intimacy of reading time whose duration is unpredictable given the resistance abstraction poses to legibility. However, the comic is not just a self-reflexive work. It also speaks to the pressing issues of today. It is here that the few words—the titles of the four parts—become important in generating figures of thought that have a bearing on our historical moment. Like words in a poem they invite the daemon of analogy, leading to infinite visual-verbal associations.» (…)

It’s avaiable in our on-line shop through this link.

Fossil Membrane - Membrana Fóssil.

Fossil Membrane – Membrana Fóssil.

 

The Wind's Substance - A Matéria do Vento.

The Wind’s Substance – A Matéria do Vento.

 

Small Worlds - Pequenos Mundos.

Small Worlds – Pequenos Mundos.

 

Hurricane Home - Tornado a Casa.

Hurricane Home – Tornado a Casa.

 

Meteorologias é o novo livro das Edições Quarto de Jade. Com um formato de 18,2 x 13,4 cm contem quatro sequências telúricas, abstractas, de Diniz Conefrey e um prefácio, em Inglês e Português, de Aarnoud Rommens:

«Na sua lírica fluidez, Meteorologias envolve-nos numa experimentação silenciosa com o tempo, a duração e o ritmo. A sua forma – o estilo mutável dos desenhos, a sequenciação das vinhetas e a composição das páginas – suscita uma reflexão sobre temporalidades múltiplas que se entrelaçam: a duração e as cadências variáveis da leitura, a velocidade e as intensidades do desenho, bem como a relação entre o tempo histórico, de escala humana, e o profundo e anti-humano tempo geológico.» (…)

(…) «Assim, antes de mais, Meteorologias explora a intimidade do tempo de leitura, cuja duração é imprevisível dada a resistência que a abstracção opõe à legibilidade. Contudo, esta banda desenhada não é um trabalho meramente auto-reflexivo. Alude também aos grandes problemas do nosso tempo. É aqui que as escassas palavras – os títulos das quatro partes – se tornam importantes, suscitando imagens mentais que remetem para o momento histórico em curso. Assim como as palavras de um poema, esses títulos apelam ao daimon da analogia, permitindo inúmeras associações verbais-visuais.» (…)

Este livro encontra-se disponível na nossa loja on-line, através deste link.

 

 

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Equinocio

Equinócio é um caderno de 50 páginas, elaborado copiosamente à mão, num processo em que mesmo as imagens elaboradas com meios mecânicos têm uma individualidade própria; como uma pincelada é única. O texto repete-se e as imagens em sequência, ao longo dos 5 exemplares, seguem uma mesma orgânica narrativa, cuja interpretação visual é transfigurada, particularmente, em cada caderno. Como se cada um fosse uma interpretação musical de um registo assente numa matriz, cuja índole poética assenta num texto; uma visão interior de seres-pássaros, esvoaçantes, sem conseguirem voar, cruzando os passeios de uma cidade longínqua e da palma de cada mão.

equinocio a

À esquerda sequência do caderno 3 de 5. À direita imagem do caderno 4 de 5.

As sombras sequenciais deste caderno, de poesia visual, são estátuas em movimento temporal ao mesmo tempo que música congelada por entre o frémito irrequieto das improvisações. Das anotações minuciosas que destacam a sensibilidade, dos rasgos momentâneos que frisam, rudemente, o irrepetível no repetível.

equinocio b

À esquerda imagem do caderno 2 de 5. À direita, a mesma imagem, do caderno 5 de 5.

Um texto, num caderno de imagens que provoca os métodos de reprodução, questionando-os, respirando de forma única para lá das tiragens, das gravuras, da tipografia ou dos processos mais modernos; sem os recusar, transformando-se de dentro para fora com a rapidez plácida do autor copista, derramando múltiplos numa sucessão circunscrita.

equinocio c

À esquerda sequência do caderno 1 de 5. À direita, a mesma sequência, do caderno 5 de 5.

Uma visão é uma imagem que se desprende do corpo do texto. O corpo do equinócio pontuando as margens do tempo exterior, naturalmente sacralizado, na inquietude permanente do poema, uma interpretação do terror em sons de perpétua harmonia por desvelar: “(…) Entre estes pássaros vibrantes recolhe-se uma luminosidade, profunda e misteriosa que os faz girar em círculos de nós cegos, vacilando os seus rostos sobre o ar denso e pesaroso das máquinas em combustão. (…)” Tudo o que tem tempo, tem música. Tudo o que se move contém dança. No espaço suspendem-se as imagens deste caderno, da autoria de Diniz Conefrey, realizado durante Maio e Junho de 2015.

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Conrad 1

Um amigo poeta dizia-me que todas as obras são autobiográficas. Recolho-me sobre esta afirmação, não somente no seu sentido exclusivo enquanto relato pessoal, assumindo a multiplicidade que poderá conter essa circunstancia. Como interprete não revejo somente uma vivência particular – se bem que inerente – contemplo e assimilo uma experiência do mundo, devolvendo-a através de uma linguagem particular a qual reflecte o meu movimento expressivo como autor. Inicia-se pois um caminho complexo para dar forma, de conteúdo envolto em “textura”, a imagens relacionadas sequencialmente por um fio narrativo que acolhe na sombra dos seus múltiplos níveis o magma de uma vivência; suas memórias, sonhos e afirmações.

Ao mundo prestamos contas através das nossas justificações mas aqui caberia simplesmente enunciar, mesmo que de forma breve, um novo trabalho de banda desenhada cuja edição se deseja para um futuro não muito longínquo, através da chancela Quarto de Jade. Trata-se da livre adaptação do livro de Joseph Conrad, cujo título no original se apresenta como Youth and other stories (1902) e que nas traduções nacionais terá ficado pela juventude ou mocidade, dependendo das editoras. Trabalhei o argumento para esta narrativa a partir da edição da Assírio & Alvim (com tradução de Aníbal Fernandes) pondo de lado a ilustração desta obra; absorvendo antes os seus pressupostos narrativos ao encontro das ressonâncias, dentro do universo particular em que a palavra suscita uma visão (talvez única) no seu leitor individual.

Conrad 2

A luz difusa tende a tornar-se mais reveladora do que a claridade ofuscante, assim como um ponto de vista pode ser mais justo do que uma lei. Desta forma parti para as 74 pranchas, a preto e branco, em Julho de 2012 tendo terminado toda a sequência em Fevereiro de 2014. Uma viagem de enlevos, não raras vezes dolorosos, cuja premissa orgânica – enquanto narrativa visual – assenta na concretização rítmica entre o plano representativo do desenho naturalista em contraponto com o abstracto. Se o primeiro assume a época em que a obra original foi escrita, o segundo insinua-se enquanto preposição infranarrativa visual; conferindo ao ritmo literário, sempre presente, uma musicalidade poética que procura reflectir de forma semântica o intimismo da acção subjacente à tirania da intriga.

Esta proposta, como outras que tenho vindo a desenvolver no campo da narrativa visual, afasta-se (no sentido de encontrar matizes individuais e estruturalmente mais densas) daquilo que são os cânones correntes, claramente nomeados na seguinte passagem de Herberto Helder no seu livro Photomaton & Vox: «Uma fluente iconografia erótica invade o texto quotidiano – vestuário, publicidade, banda desenhada, produtos de beleza, decoração, etc – e inaugura uma atmosfera difusa, mais intensa, de íntima vibração.» Contudo, não deixo de me assumir como um formalista, enquanto interprete consciente de um ofício que está para além da minha originalidade pessoal. O tempo, a experiência e centenas de outros trabalhos mais válidos, no campo da narrativa gráfica, conformam um diálogo que não deve ser descurado através da simplicidade e da facilidade latente; muitas vezes impostas pelas modas dos vanguardismos circunstanciais.

Conrad 3

Na medida em que a banda desenhada abstracta se apresenta, unilateralmente, como um forma válida por si, seria importante questionar os seus atributos para além da sua formulação estética. A criação de formas plásticas, mesmo que coerentes, produzem necessariamente narrativas quando sequencializadas? O esvaziamento da casualidade, dentro da lógica da acção, permite que os efeitos de série abstractos convertam o espaço em tempo, reflectindo um escansão rítmico visual? Quanto a mim julgo que a grande maioria destes trabalhos se apresentam como um sub-género no qual a apropriação do suporte resulta na suspensão temporal da narrativa dando primazia ao jogo das formas, estáticas entre si, apesar de directamente relacionáveis. Por ser, no entanto, um campo extremamente válido de grande pertinência orgânica e semântica – sobretudo ao nível do ritmo, configuração e efeitos de série intimista – conjugo neste novo trabalho de banda desenhada uma narrativa que tem como personagem um navio. A sua viagem não será somente descrita pela sua dramaturgia única; talvez que, para além disso, tudo se torne reconhecível através dessa pulsação decorrente entre as representações narrativas interiores (subjectivas) e exteriores (objectivas).

Citando o poeta, uma vez mais: «A relação criada deve obedecer a regras sensíveis de ritmo, nexo, sintaxe – de legibilidade enfim. Vê-se pois como a escultura, antes votada ao culto da natureza e do homem, na sua metáfora representativa, se entrega agora à realização de formas autónomas, preocupada em instaurar um espaço multiplamente formulado. Um clima espacial, um ambiente.»

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1 abstract

A Matéria do Vento.

Neste momento estamos a preparar uma nova edição, em livro, da chancela Quarto de Jade que terá como título Meteorologias. Já anunciado aquando da publicação de Os Labirintos da Água, este novo trabalho de Diniz Conefrey apresenta quatro narrativas gráficas abstractas, a preto e branco; propondo-se uma abordagem (ou renovação) de leitura e interpretação a partir da subjectividade de imagens rítmicas não figurativas. Poderemos percepcionar o tempo exterior como uma linha recta no entanto, não será descabido afirmar que o tempo interior, e os seus afectos, pautam-se por um movimento circular, na ordem dos eventos cíclicos.

2 abstract

Alfabeto Árabe de Gabriele Mandel Khân. Edição Mondadori Arte.

Na aurora da humanidade os registos visuais mostravam, simultaneamente, representação e sentido, numa inequívoca sobreposição de desenho e palavra. Os pictogramas apresentam-se, deste modo, envolvidos a uma só voz com desenho e significado. Com a posterior graduação visual, no sentido de fixar um código de linguagem fonética, os símbolos desenhados que representam o texto escrito separam-se definitivamente das representações puramente visuais; sejam elas pinturas ou ilustrações. Deste modo, na longa jornada da comunicação, palavra e imagem irão apresentar-se como dois pólos distintos que se complementam com frequência, sem nunca se voltarem a encontrar numa raiz única e inseparável. Mesmo no caso dos caligramas otomanos, do século XVI, a relação do desenho, figurado pela caligrafia árabe, é indirecta e tem um valor mais compósito do que semântico. Porém, os valores da “musicalidade” que estas expressões apresentam, ou o desenvolvimento de uma semiótica abstractizante, a partir da relação de símbolos sociais, números e consoantes – como no caso do antigo Peru. Ou do mais puro impulso de arte “moderna”, presente na expressão artística de vários continentes que não o europeu, afirmam um leque abrangente (e diversificado) de matizes comunicativas cuja expressão orgânica se encontra para além dessa fissura normativa que constitui a separação entre palavra e imagem.

3 abstract

Jardim Subaquático. Paul Klee, 1939.

Foi preciso chegar ao século XIX para a arte europeia encontrar essas matizes, que a libertaram dos fastidiosos cânones de representações naturalistas e descritivas; sobretudo através da pintura cubista de Picasso, com as suas reflexões a partir da arte africana ou de Wassily Kandinsky e a sua proposição de formas rítmicas e cromáticas em paralelo com a música. Também a banda desenhada viria a encontrar a sua forma nesse século, conjuntamente com o cinema e a fotografia. Neste caso, estas artes espelham nitidamente as alterações sócio-económicas introduzidas pela revolução industrial e a proliferação de grandes centros urbanos. Estas artes amplamente desprezadas, no seu início, pelas elites sociais e aristocráticas, pois tinham um amplo eco junto ao grande público; no advento dos sistemas políticos com base na democracia. Todas elas têm percorrido uma trajectória de emancipação discursiva, com a banda desenhada ainda muito subserviente da representação dos códigos gráficos naturalistas que desenvolveu, sobretudo nestas últimas quatro décadas. As fronteiras têm vindo a ser alargadas, paulatinamente, com o diálogo e a contaminação que vai sendo preponderante entre as mais diversas áreas.

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Tornado a Casa.

Fruto da massificação social, no entanto – para o bem e para o mal – a banda desenhada já não é inteiramente refém de um publico alargado que lhe presta “homenagem”; tendo-se aberto caminho para quem a pense (e sinta) antes de a alimentar nos seus pressupostos mais primários. O surgimento recente de uma vertente abstracta, na banda desenhada, reflecte mais uma procura no desdobrar das suas matizes narrativas do que na reafirmação daquilo que já lhe é próprio.

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Transcrevemos neste post o artigo de João Ramalho dos Santos (tal como aparece no site), publicado originalmente no Jornal de Letras, em Dezembro de 2013, sobre a mais recente edição do Quarto de Jade; Os Labirintos da Água da autoria de Diniz Conefrey.

Aquele que dá a vida

“Aquele que dá a vida” (de “Os passos em volta”) e “(uma ilha em sketches)” (de “Photomaton & Vox”) já eram conhecidos (Íman, 2001), mas surgem aqui numa edição com qualidade superior. A novidade é “A máquina de emaranhar paisagens” (adaptado de “Poesia Toda”). Três textos distintos, violentos, com elementos que migram do telúrico concreto ao abstracto cósmico.

“Aquele que dá a vida” é uma surpreendente adaptação “clássica” de uma história de superação e vingança, na qual um homem é confrontado com obstáculos. Uma vida rural dura, um touro. E, claro, o pior de todos, a inveja mesquinha de outros homens. Com a componente realista e simbólica a interpenetrarem-se, destaca-se o modo preciso como o desenho define espaços e gere o tempo, prolongando-o em momentos cruciais, encurtando-o nas transições; e utilizando cor e luz de um modo excelente para criar ligações e contrastes, definir estados de espírito.

Uma ilha em sketches

Mantendo os mesmos temas, mas muito mais liberta (a vários níveis) a experiência de “(uma ilha em sketches)” é brilhante, propondo uma BD muda  colocada a seguir ao texto integral em prosa que adapta. O leitor tem pois direito a duas abordagens, nas quais virtuosismos distintos dão corpo a um mesmo território. As palavras adornam o retrato da vida dura e pobre dos ilhéus; mas, ao contrário daquilo que tende a suceder em abordagens deste género, não oferecem qualquer redenção. A ilha em forma de cão sentado é amorfa nas suas paisagens abruptas; os habitantes inanes, derrotados, preguiçosos. Ou, pior ainda, a caminho. A sua vida é dura? Pois paciência; pouco fazem para o contrariar, têm o que merecem. Mantendo uma narratividade clara (o texto lido imediatamente antes “ouve-se” nos desenhos mudos que se seguem) as planificações e o uso magnífico da cor dão o mesmo tom de beleza horrível, oferecendo uma qualidade figurativa que o sujeito não parece merecer; dando da ilha e seus habitantes um retrato diferente, mas igual. Com uma resignação e sentimento de inexorabilidade a que o protagonista de “Aquele que dá a vida” nunca cede, “(uma ilha em sketches)” é  uma das mais belas e cruéis BDs portuguesas.

A máquina de emaranhar paisagens

Por último, no mais recente “A máquina de emaranhar paisagens” completa-se uma viagem, do particular ao cósmico. Com cores mais frias a BD assume aqui contornos de pintura narrativa, com Conefrey a utilizar várias técnicas, da fotografia trabalhada ao abstracto, para ilustrar com elementos comuns (mas grafismos distintos) sequências das mesmas palavras, unidas (emaranhadas) em frases que mutam constantemente, retornando ao Génesis antes de partir para uma nova variante. Palavras e desenhos compartilham aqui um equilíbrio agitado entre criação e destruição que nunca se sabe para que lado irá cair. Diferente dos registos anteriores há, no entanto, uma evolução lógica, no sentido em que as imagens, tanto figuras humanas como motivos abstractos, são depurações de representações anteriores.

Movendo-se numa direcção clara que parece interessar ao seu autor “Os labirintos da água” é um dos grandes livros recentes, com uma das melhores histórias de sempre. Tal como o poeta que o inspirou, merece o privilégio de recusar prémios.

Os labirintos da água. Argumento e desenhos de Diniz Conefrey, adaptando três textos de Herberto Helder. Quarto de Jade, 112 pp., 18 Euros. www.quartodejade.com

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nuvem 1

Traços densos sulcam o papel, tão unidos que formam uma pasta de espessura sem falhas. Cristais microscópicos de lápis faíscam, dão à superfície negra o fulgor de certos minérios.

 

nuvem 2

Gestos de um ritual perto do fim: braços que pendem, para equilibrar a marcha, pernas flectidas torneando os rochedos, dificilmente, a caminho da água.

 

Nas cabeças humanas o fogo é mais intenso, as chamas mais altas, e a disposição das cores (sobrepostas com fúria) esconde tons indecifráveis.

Nas cabeças humanas o fogo é mais intenso, as chamas mais altas, e a disposição das cores (sobrepostas com fúria) esconde tons indecifráveis.

 

nuvem 4

Aproximo, afasto a lupa (várias vezes), tentando surpreendê-los. Não consigo. Um incêndio uniforme paira a dois ou três metros do chão, e conduz os corpos (já carbonizados? apenas com sede?) à gota azul da lagoa.

 

nuvem 6

Na primeira zona de areia (parte inferior do desenho), grãos com a altura, a rugosidade, dos penedos (castanho-rubro-arroxeado). A seguir, um pouco por toda a parte, gramíneas emaranhando-se ao acaso.

 

nuvem 5

Na zona superior do desenho, aves pairam sobre as dunas. Cores que se opõem à violência do resto (a nesga de zinco, muito longe, não as perturba). Substâncias claras; talvez um esboço de nuvens.

 

nuvem 8

Ao reunir os papéis de família (poucos e dispersos), descubro algumas notas sobre o povoamento (junto ao mar).

 

nuvem 7

Mantêm graficamente a continuidade dos raios que se despenham contra o fundo do papel muito áspero: ziguezagues rodeiam os nódulos chamuscados de amarelo e abrem estrias nas colunas.

 

nuvem 9

Nas últimas linhas, decifro ainda estas frases: o litoral instável sob os nossos pés; as dunas prontas a mover-se; basta um golpe de vento.

 

SAM_0667

Poisa a lupa, cansado.

Texto: Excertos de Finisterra, paisagem e povoamento. Carlos de Oliveira. Assírio & Alvim, 2003.

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