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Posts Tagged ‘Brasil’

Na Companhia das Letras, de São Paulo, André Toral – quanto a mim um dos mais interessantes autores de narrativa gráfica do Brasil – elaborou um livro sóbrio que alia à irreverencia do seu desenho expressivo-naturalista o registo do quotidiano de uma guerra sul americana. Estavam as nações das Terras Baixas Tropicais a prepararem-se para este evento e, na mesma altura, a Guerra Civil na América do Norte aproximava-se do seu enlace federalista. Muito poderia ser dito e reflectido a partir deste tema, das guerras, das nações e dos homens que são consumidos e mastigados; pela história ou pela antropologia. No entanto esta é uma entrada de divulgação e, para já, o tempo não permite um maior comentário sobre este tema acutilante. Fica só a nota de que, tal como é habitual, este exercício em banda desenhada não deixa de tomar uma perspectiva nacionalista ou, eventualmente, até mesmo moral, do ponto de vista político… Qual será o olhar de um paraguaio sobre este evento?

Com base numa cuidadosa pesquisa histórica, André Toral traz de volta as rotinas dos campos militares do Paraguai, dos campos de batalha e dos salões luxuosos da corte no Rio de Janeiro. E leva para as frentes de combate dois baianos, um carioca e um paraguaio: a história dessas personagens revela os impulsos e as motivações dos homens de carne e osso que fizeram a guerra. A sua crueza só rivaliza com a permanente nota de ironia em que estas narrativas estão envoltas. Finalmente, Adeus, Chamigo Brasileiro – Uma História da Guerra do Paraguai  vem trazer um cenário contextual abrangente aos quadros de Cándido López que eu vira, em 2009, na capital argentina de Buenos Aires; depois de passar pelo Uruguai… País que também participaria nesta guerra… Um livro muito recomendável, para quem goste de história a ser retratada de maneira envolvente em banda desenhada.

Para fechar, o livro de André Toral inclui uma breve resenha histórica, iconográfica e cronológica da Guerra do Paraguai.

Do Brasil, outro livro: Estórias Gerais, publicado pela Conrad Editora, São Paulo 2007 e que consegue traduzir-se num documento consistente para a perpetuação desta obra no futuro. Estas narrativas já nasceram como um clássico da banda desenhada brasileira, não somente pelo seu tema e cenário, referentes à realidade e à mitologia do sertão mineiro; como também por celebrar o feliz encontro de um dos argumentistas mais brilhantes com um mestre do traço e da arte gráfica brasileira: Wellington Srbek e Flavio Colin.

Apesar de ser uma intensa novela gráfica, parece-nos que o seu “modelo” narrativo excessivamente tipificado, retira alguma sobriedade e imaginação ao excelente trabalho de Colin. Recorde-se, por exemplo, a magistral narrativa  Mulher-Diaba no Rastro de Lampião, em parceria com o argumentista Ataíde Braz que, até talvez por ser posterior, demonstra uma irrepreensível síntese gráfica de expressão equilibrada; dando um sentido original às suas claras influências vindas do autor norte americano Milton Caniff.

Este clássico da banda desenhada brasileira é uma cuidadosa edição, com uma história especial a cores; introdução de Wellington Srbek e depoimento de Flavio Colin.

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23 de Dezembro 2011

Montevideu

Apanhámos o ferry de Buenos Aires para Colónia de Sacramento e, daí, o autocarro para Montevideu. Duas horas e meia através de uma paisagem muito parecida com o Ribatejo, quase plana, muito verde, e bem povoada de gado. Pouco tempo permanecemos na capital do Uruguai. Caminhámos ao longo das Avenidas Colónia e 18 de Julho para logo regressarmos ao inferno do terminal rodoviário de Tres Cruces, onde embarcámos no ónibus para Porto Alegre. Viagem de doze horas e meia, quase sempre nocturna, com Orionte do nosso lado esquerdo (a única constelação que consigo identificar, e que julgava confinada ao hemisfério norte, pelo menos nesta altura do ano…). Paragem para receber alguns passageiros em Punta del Este, a elegante estância balnear uruguaia que acolhe vedetas da novela brasileira mais a Shakira e todo o jet-set latino-americano. Entrámos pouco depois na extensa pampa gaúcha, prolongando o cenário anterior praticamente sem alterações, a não ser algumas palmeiras mais exóticas e os vários braços de água da Lagoa dos Patos.

Porto Alegre

Chegámos à capital do estado federal do Rio Grande do Sul com o solstício de verão, num dia particularmente abrasador (o mais quente do ano, como viemos depois a saber). Instalámo-nos num hotel da zona burguesa de Moinhos de Vento e fomos até ao shopping: ambiente europeizado, cheio de peruas e dondocas, mas com ar condicionado que nos soube muito bem. À noite, num bar da Cidade Baixa, ouvindo o samba e bebendo cerveja na companhia do ilustrador Nik Neves, da estilista Paloma Coronel e outros amigos de ocasião.

Florianópolis e ilha de Santa Catarina (ou a décima ilha dos Açores, como se diz por aqui…)

À primeira vista, a capital do estado federal de Santa Catarina não é assim muito atraente. Só no centro histórico, em torno do edifício do mercado, se descobrem alguns prédios e jardins com traçado mais característico; o resto são caixotes com janelas, construídos sem grande critério e tapando a vista sobre a baía. Boa parte da ilha é atravessada por vias rápidas, mas subsistem alguns locais admiráveis nas zonas ribeirinhas (incluindo junto às duas grandes lagoas do lado oriental). Visitámos as povoações de Santo António de Lisboa e Ribeirão da Ilha, pouco mais que uma fiada de casas em estilo açoriano, e fomos a banhos na Praia Mole, por entre surfistas e golfinhos.

Natal subtropical

A nota mais dissonante é mesmo a do calor, com tudo o que isso implica em termos de vestuário (calções e camisola de alças, ou mesmo tronco nu, no caso dos homens) e exuberância da vegetação circundante (jacarandás, mimosas, flamboyants e outras árvores no auge da floração). De resto, o movimento nas ruas é intenso, as lojas de mercadorias baratas (vindas de Foz do Iguaçú?) estão repletas, muitas delas têm animadores à porta que, munidos de um microfone, vão apregoando as vantagens desta ou daquela promoção. Jingle Bells nos altifalantes, presépios em tamanho natural nos jardins, motoristas de ónibus com o gorro do Papai Noel, shows de mascarados e maratonas evangélicas. Depois do 25, diz-se, tudo ficará mais calmo…

Texto – Daniel Lopes e fotografias de Ana Magalhães

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Esta mostra reúne uma selecção de material de desenho, ilustração, fotografia, som, vídeo, música e texto produzido ao longo de duas semanas na Amazónia por uma equipa de 25 pessoas com formação em artes, ciências e humanidades. Uma viagem com muitos riscos, até de lápis, levada a cabo pelo Grupo do Risco.

Entre 26 de Dezembro de 2009 e 9 de Janeiro deste ano, ilustradores, fotógrafos, designers, médicos, professores e jornalistas registaram de forma livre e espontânea, dia e noite, as suas impressões acerca da Amazónia, ora a bordo do barco-residência Dorinha, em percursos exploratórios em canoas, ora em caminhadas pela floresta, nas margens do Rio Solimões e do Rio Negro.

A expedição Amazónia 2010 partiu ao encontro do ecossistema com maior biodiversidade na Terra: ali vivem 3000 espécies de peixes, 1500 aves e mais de 50 000 de plantas com flor. Os seus participantes foram inspirados pela Viagem Philosofica pelas Capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuyabá (1783-1792), então liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira e que deu origem a uma intensa produção de desenhos científicos.

“Trabalhámos em cadernos de campo, de pé, em cima do joelho, em mesas improvisadas, com lápis e pincéis nas mochilas, lupas, binóculos, lanternas e cantil. Em grupo, por vezes sozinhos. […] A julgar pelos resultados, parece ninguém ter visto a mesma Amazónia, cada um desenhou a sua”, pode ler-se no catálogo da exposição, que estará à venda na loja do Pavilhão do Conhecimento.

A mostra é composta por cadernos de campo realizados no terreno pelos ilustradores, reproduções de uma selecção de desenhos, fotografias captadas por três fotógrafos e o projecto multimédia Amazónia 2010, produzido a partir de textos, imagens e sons do local e que será apresentado em formato digital (vídeo) com animação 2D e 3D e banda sonora de João Lucas.

http://www.vimeo.com/8883505

EXPEDIÇÃO AMAZÓNIA EXPOSIÇÃO estará patente ao público no Pavilhão do Conhecimento até 13 de Janeiro de 2011 e posteriormente disponível para itinerância.

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Na sequência da minha recente entrevista a um blog brasileiro, surgiu a iniciativa de trocarmos publicações de banda desenhada relativas aos autores dos nossos países. Apesar de partilhar-mos uma língua comum, nem sempre se consegue a proximidade desejável para se conhecer as respectivas produções, actuais ou históricas que se vão realizando em cada um dos lados do oceano que nos separa. Dessa iniciativa, permitida pelas comunicações via internet, volto a encontrar um autor brasileiro cujas histórias curtas, publicadas na extinta revista Animal, tinham para mim uma dinâmica com desenvoltura. Sobretudo naquilo que eu entendo como uma narrativa de interesse alargado e adulta. A par dos «Pesadelos Paraguaios», sequências de poucas páginas, intrigantes, sobre um conflito quase desconhecido no ocidente; lembro-me ainda mais, com grande nitidez, dessas outras sequências que abordavam a conduta de um piloto japonês, durante a segunda guerra mundial. Este, fugia de forma total aos cânones de comportamento de que são conhecidos os soldados nipónicos, durante este conflito. Almejando, este piloto, a sua sobrevivência pessoal em clara ruptura com a imagem estereotipada dos heróicos combatentes, ao serviço do imperador, do país do sol nascente. Sempre achei esta tónica muito particular que, para mim, revestia este autor com uma perspicácia muito sui generis na escolha dos seus temas. Indiscutivelmente acompanhados de um desenho desenvolto, aparentemente simples na estilização mas produzindo um forte efeito de sobriedade narrativa e um certo inconformismo formal.

Furukawa, O Herói. Revista Animal nº 12. Setembro de 1990

O nome de André Toral ficara-me, assim, desses idos finais dos anos 80, até o reencontrar nestas trocas de livros com o Matheus Moura, com o acrescido interesse pessoal de que o livro Os Brasileiros (2009, Conrad Editora) se reporta a narrativas sobre os indígenas desse país. Este álbum de 88 páginas reúne sete histórias que Toral criou entre 1991 e 2008, desenvolvendo-se, grosso modo, as várias narrativas de forma cronológica; desde os primeiros contactos com os europeus no século XVI, até aos dias de hoje. Talvez que aqui importe informar que André Toral, nascido em São Paulo em 1958, é Historiador e antropólogo e de que além de banda desenhada, produz livros e artigos sobre temas relacionados à Antropologia e à História da Arte, como os três volumes de Arte e Sociedade no Brasil, em co-autoria com Aracy Amaral. Esta breve nota poderia induzir em erro de que Os Brasileiros se trata de um livro com uma visão histórica dos índios retratados, o que realmente não acontece e Toral deixa isso bem claro no breve texto explicativo que acompanha esta edição.

O Brasileiro, 2008

No entanto, poderá tornar mais esclarecedor o assumido pendor amoral de que se revestem as suas narrativas em banda desenhada, tanto neste caso como das suas outras produções. O contexto histórico ou a ética nunca são factores preponderantes nas decisões das suas personagens, estando as suas acções fortemente vinculadas a um instinto de sobrevivência cujas razões tendem a ser do foro individualista; independentemente das repercussões que possam a vir tomar. Dado tanto mais interessante, já que não impede uma abordagem rigorosa nos enquadramentos cénicos, nem tão pouco da verosimilhança que consegue incutir aos seus actores. Conferindo-lhes a um tempo um destacado perfil psicológico, dentro das suas características de força ou fraqueza.

O Negócio do Sertão, 1991

Contudo, quanto a mim, a visão que André Toral nos dá dos indígenas é de um posicionamento algo periférico, já que estes se apresentam como contrapontos das outras personagens, os ocidentais. Como diz o autor, é verdade que em todas as histórias os índios se posicionam diante dos acontecimentos e tomam as suas decisões. No entanto, não posso concordar que estas não lhes sejam de certa forma impostas, já que advêm dos contextos criados pelos intervenientes ocidentais. Aliás, é curioso (e provavelmente prudente) como em nenhuma das histórias Toral nos apresente os índios dentro do seu quadro sociológico próprio e fora do contexto de ambivalências, com as suas personagens errantes e não nativas… Se, por um lado, a sua narrativa torna mais legível, para o leitor mediano, a individualidade dos indígenas, face a uma trama de enredos plurais, étnicos e  continentais; por outro, não deixa de ser vagamente omisso, relativamente a dados fulcrais em relação à própria estrutura identitária da natureza dessas culturas, fora do âmbito das acções que se possam tornar reconhecíveis, no contexto do racionalismo kartziano.

Páginas 22 e 23 de Fawcett. Desenhos de Flavio Colin e argumento de André Diniz

Mesmo assim, nem essa constatação tira o valor substancial de que está revestido este trabalho, sobretudo em histórias como «O Negócio do Sertão» ou «O Caso dos Xis», narrativas de apurado nível onde toda a grande capacidade de André Toral é revelada, como um autor completo que expressa de forma quase perfeita o seu talento gráfico, com uma indiscutível capacidade como argumentista. Existe qualquer coisa neste livro, para além da óbvia presença dos índios, que me remete para o trabalho daquele que para mim é o mais importante autor de banda desenhada brasileiro, Flávio Colin que com o argumento de André Diniz realizaram a história «Fawcett»; sobre o caso verídico do estranho coronel Inglês desaparecido durante uma expedição, na procura de uma civilização maior nas selvas amazónicas. O curioso desta narrativa está em se desenvolver precisamente no ponto em que se perde a informação sobre o coronel e os seus parcos acompanhantes. Assim como na narrativa de Toral, tudo é verdade excepto toda a trama da acção que foi inventada. Por vezes, o efeito entre ambos é muito similar, existindo necessariamente uma tonalidade diferenciada.

A Mulher do Morto, 1999

A presença dos índios não deixa de estar ligada a uma conflitualidade latente, daí que eu ache que poderá ser muito discutível o retirar simplesmente o papel das “vítimas da história”, como afirma Toral, se bem que entenda que é mais objectivo descartar um papel paternalista nesta questão. Ainda há poucos anos, perguntei a uma imigrante brasileira o que pensava sobre os índios, ao que me respondeu, sem rodeios, que se tratavam de selvagens violadores! Quanto a mim, não tenho qualquer orgulho de pertencer a uma nação que os ajudou a exterminar ou escravizar; em movimentos e processos históricos como os bandeirantes (a que se refere a história «O Negócio do Sertão»), com a intenção de caçar literalmente vidas humanas ou a redefinir territórios alheios, em competição com outras potências europeias. Uma nota menos positiva neste livro, relaciona-se com as sequências em que André Toral trabalhou a cor, com aguarela. A mesma impressão, de colorido sem pendor narrativo, tivera igualmente quando folheei o seu livro «Adeus, Chamingo Brasileiro – Uma História da Guerra do Paraguai». Nitidamente que esta não é uma boa solução para o seu trabalho, retirando até alguma densidade que a sua narrativa possui em troco de uma ambiência algo pardacenta. Assim como a opção, inestética graficamente, em tornar a direcção das falas dos balões, demasiado bojudas e irregulares. Por fim, deixo um link onde este livro poderá ser adquirido na internet. Os Brasileiros não é só um excelente trabalho de um nome maior da banda desenhada brasileira, como é também um convite acessível para melhor conhecer o rosto de uma cultura que ainda se encontra viva e, da qual, também nós portugueses podemos ter acesso à sua expressão, através da visita às Galerias da Amazónia; no Museu Nacional de Etnologia em Lisboa.

 

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