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Posts Tagged ‘Edições Quarto de Jade’

naquela placa sidérica, azul e inclinada de adrego para a delida vara do anteparo liberta já da onomástica de todas as cores da atonal verborreia de Scriabin – ou de sua tastiera per luce – e daquela obstinada voragem dos sais dos negativos sobre vidro – daqueloutros que sobreviveram entre o abismo dos suicidários marinheiros de Gosport e do mecânico avanço dos ferries para Wightlink: espalhada sobre o zinco numa vaga ideia de mar enferma da dor fantasma do coto do antebraço amputado em Indocuche:

 

muito vale adentro, para nordeste, na nonagésima carga de napalm antes da GBU-43 agora num tempo só nosso – o da Arte da Fuga de um canadiano demente – súbdito ainda da Imperatriz da Índia e debruçado numa partitura eivada de laivos sanguíneos furtados dos olhos raiados sobre o plasma vitrificado (e sua tão acerada opacidade) pela destreza de mãos de Julia Margaret Cameron iluminando Sir John Herschel depois de baptizar 4 luas de Urânio e 7 de Saturno no Cabo da Boa Esperança antes de 1847; no atlas, sob nuca, já uma dor persistente – Margaret aguando o cabelo de prata – anunciando do seu canapé que talvez estivesse (mais uma vez) para acabar o Mundo

 

Alexandre Sarrazola.

Afluentes de Adobe, edições Quarto de Jade, 2018.

 

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Transcrevemos aqui, parcialmente, uma entrada de João Ramalho-Santos sobre o livro Nagual, editado pela Quarto de Jade, em 2017. O post original pode ser consultado no blog Sequências Rebeldes, com data de 5 de Agosto de 2017.

Numa cultura obcecada com quem é quem e fez o quê quando, as questões de autoria são prementes, sobretudo quando se trata de algo visto como positivo. Em arte esse reconhecimento parece óbvio e necessário, fora exceções como Banksy, e deixando de lado criações colectivas. Pelo menos até nos lembrarmos que muitos trabalhos clássicos (da arquitetura, à poesia e textos místico-religiosos) são colectivos, com uma ligação a nomes (a existir) muitas vezes ténue, feita para nos “proteger” de ter de considerar obras fundadoras como anónimas, órfãs de autor. As histórias entrelaçadas que compõem Nagual jogam com esta ideia.

Nagual inspira-se nas pinturas murais de Teotihuacan, a grande cidade-estado multiétnica do México pré-colombiano, que teve grande pujança em meados do primeiro milénio, entrando posteriormente em declínio. Utilizando um preto e branco de contraste vibrante e com poucas zonas de sombra (dadas pelo texto), nas seis narrativas que compõem Nagual assistimos aos vários passos da criação de um mundo, até desembocar nas criaturas que o tentam interpretar, com lendas e gravuras. Usando uma mescla hipnótica de formas geométricas e representações estilizadas de elementos mitológicos (serpentes emplumadas, jaguares, aves, árvores, coiotes, humanos) directamente inspiradas na arte pré-colombiana, glosa-se o nascimento de céu, estrelas, montanhas, rios, canções, violências, medos. Que levam a reflexões clássicas, das tentativas de interpretar os mistérios da existência, à fúria quanto às suas limitações e inevitável fim. E com o conceito de nagual enquanto transmutação (física ou psicológica) de ser humano em animal pairando sobre cada ser que se introduz na narrativa.

Nagual prolonga uma linha de exploração gráfica e conceptual que vem do notável Livro dos dias (também sobre o México pré-colombiano) mas também, num certo sentido, do abstrato Meteorologias (em que “anónima” era a temática). Mas quem encontrar o livro sem esse contexto (e/ou num futuro distante, quiçá pós-apocalíptico…) pode não ter acesso a esta informação. Encarará Nagual como hoje se admiram tapeçarias, cerâmicas, esculturas e pinturas nos mais variados contextos, cujas autorias se foram sumindo no tempo. Terá de construir em volta a sua própria mitologia.

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No final de três anos um novo livro de narrativa gráfica, da autoria de Diniz Conefrey, encontra-se pronto e em fase de pós-produção. Durante esta fase, na qual ainda decorre o trabalho de edição, quisemos partilhar com os nossos leitores uma conversa com o autor, além de divulgar algumas das imagens que farão parte desta nova publicação. O argumento foi escrito, inicialmente, no verão de 2017. Dois anos depois, com os ambientes e personagens definidos gráficamente, começaram a ser concretizadas as pranchas para o livro. Área de apontamentos é o título para esta entrevista, acompanhada por várias imagens que, painel a painel, servem de introdução a este novo trabalho.

Para ver no site Quarto de Jade, através deste link: http://www.quartodejade.com/gallery_exhibitions.php?id_authors=1

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Boas festas. Subimos a única Lua. Esta é recortada em papel, um aparo preso a um fio de prumo de palavras que se acertam. Pulsar de recriação recebendo os gestos atentos de leitores improváveis.

Os olhos tocam as folhas temperadas pelas cores e os livros imaginados tomam a sua forma para habitar a casa dos outros.

Tempo sem pregas, sentir o caminho no canto possível de um novo ano: suspensa manhã sobreposta, a respiração nas voltas listradas de uma casca de caracol.

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Fotografia: Museu Bordalo Pinheiro

Agradecemos a todos os que estiveram presentes, assim como aqueles que, sabendo do evento, não puderam comparecer. Seja por razões de ordem particular ou por quaisquer outras. Na passada sexta feira, com a participação do escritor Alexandre Sarrazola, confluimos pelo diálogo em torno das edições Quarto de Jade, no Museu Bordalo Pinheiro, onde estamos a expor livros e originais até dia 7 de Janeiro.

Assumimos, nestes dez anos, os livros que fazemos como entidades organicamente coerentes ao se apresentarem na sua individualidade, aparentando-se não como sucedâneos mas vozes de um corpo comum. Um pouco como uma pequena floresta que se vai ordenando pelas suas características naturais, encontrando o seu equilíbrio. Por isso nunca partimos de uma estratégia editorial à priori ou de um modelo gráfico uniformizado. Para nós, cada livro obedece ao ritmo das suas particularidades temporais e processuais, para finalmente amadurecer e tomar forma ficando disponível aos seus leitores.

Ao longo deste tempo podemos reconhecer duas vertentes nos livros que publicamos: O livro como objecto e a narrativa gráfica como ensaio. Naturalmente, um livro por si só já é um objecto. No entanto, estes tomam uma forma particular no caso dos exemplares de Maria João Worm: nos três primeiros livros é pedido ao leitor que não se limite a ler mas que intervenha no livro gestualmente, abrindo-o, por exemplo, num desdobrável de folha única; noutro caso, em harmónio também podendo ser folheado ou o convite de transformar a publicação através de recorte, para dar forma a quatro cubos que se desdobram por três imagens, acompanhando o ritmo de um pequeno poema. Nos restantes, mesmo no caso da forma regular das páginas que se folheiam, os livros desta autora têm sempre uma intervenção original ou particular. Tanto no manuseamento táctil através da colagem de estampas, bem como por intervenções directas de monotipias ou pequenas ilustrações particularizando cada exemplar, dentro da tiragem dessa edição.

Fotografia: José Frade/EGEAC

Dentro desta linha, na qual cada livro que fazemos e publicamos tem a sua individualidade própria, o trabalho de Diniz Conefrey apresenta-se com frequência no campo da narrativa gráfica. Correntemente denominada por banda desenhada, desde sempre tivemos a impressão que esta linguagem pode ser tudo o que fizermos dela. Até porque a sua riqueza reside na circunstância de se tratar de uma forma de arte híbrida – balanceando entre os princípios da narrativa escrita e da narração visual – surgindo aos leitores com mais enfâse na simbiose entre ambas mas tendo como possibilidade linguística abordagens de maior ambiguidade estética.

Nesse sentido, procuramos na narratividade um contraponto ao modelo mais corrente, sujeito à “tirania da intriga”, ligado a uma estrutura próxima do romance: há um equilíbrio inicial, um incidente incitante que rompe esse equilíbrio, um conflito e, no final, o retomar de um novo equilíbrio. Se tivermos em conta que no universo musical, por exemplo no jazz moderno, um tema tem as suas ressonâncias próprias mesmo que não inclua “letras”, então, mesmo imagens que não sejam figurativas desencadeando uma dramaturgia sequencial poderão estar a confluir para uma diegese cuja matiz se desenvolve noutro campo mais próximo a uma meta-linguagem. Daí o interesse no abstraccionismo, enquanto expressão concreta de modelação narrativa, ou o diálogo desta com a figuração naturalista. Podendo apresentar-se, também, em complementariedade com a palavra escrita – ou não. Estas zonas levantam, quanto a nós, aspectos inerentes à narrativa gráfica mais próximas das nuances intimistas e temporais presentes em poemas que, ao não contar, se desenrolam como uma espiral em suspensão. Nesse sentido poderíamos dizer que um poema é uma imagem que fala, e uma imagem um poema silencioso.

Para nós um livro é uma expansão delicada, reflectindo um olhar de vivência por horas de trabalho solitário para finalmente tocar, através da partilha, quem o queira receber num espaço de encontro comum.

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Esta sexta-feira, 12 de novembro, pelas 18h30, no Museu Bordalo Pinheiro, haverá uma conversa em torno da chancela editorial Quarto de Jade, que este ano comemora o seu décimo aniversário, com a participação do escritor Alexandre Sarrazola e dos autores Maria João Worm e Diniz Conefrey.

Durante este evento será incluida uma apresentação do livro “Tu És os Meus Olhos”, a última publicação da autoria de Maria João Worm.

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A exposição que vamos apresentar no Museu Bordalo Pinheiro, com início a 13 de Outubro de 2021, insere-se no âmbito comemorativo dos dez anos de existência do selo editorial Quarto de Jade, complementando a exibição Entre Mundos, que decorreu entre Maio e Junho na Livraria-Galeria Tinta nos Nervos.

Se na primeira mostra, desta colaboração entre a Livraria e o Museu, a incidência foi no trabalho gráfico individual dos autores Maria João Worm e Diniz Conefrey, agora a exposição Ouvido Interno – orgão do qual resulta o logótipo da Quarto de Jade – circunscreve-se exclusivamente a originais ou livros que foram publicados na chancela editorial que ambos partilham.

Ficam desde já convidados a visitarem esta resenha da nossa deriva editorial. Em complemento, disponibilizamos o link para a exposição A Flor da Pele no nosso site: http://www.quartodejade.com/gallery_exhibitions.php?id_authors=1

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Este novo livro de Maria João Worm para as Edições Quarto de Jade aborda a passagem, o tempo, a possibilidade, o breve respirar da individualidade que se alimenta e se dá em alimento, segundo a contínua sequência da vida. É como um pestanejo entre mundos, onde circulam fantasmas, que se reinventam através das histórias. Tu és os meus olhos apresenta-se com capa dura, 100 páginas num formato de 21,7 cm x 27,5 cm numa edição de 60 exemplares.

Pergunta Aguk o pequeno inuit que ficou preso no enredo da história que contaram acerca dele: – Para quê, querido Neto, me queres libertar de um papel que conheço e onde me fixaram para me colocares noutro? O Neto diz-lhe: -Entre dois pontos fixos, ocorre a esperança, a breve possibilidade de acertar o gesto particular reconhecendo o que é comum. Então seremos como asas de borboleta sobrevoando o padrão.

Este livro encontra-se disponível através da loja do nosso site: http://www.quartodejade.com/shop_books.php

 

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Na sua linha editorial o selo Quarto de Jade respira uma vontade poética ao publicar narrativas, dando forma a imagens sequenciais, enquanto linguagem de fusão, além da simbiose entre texto e imagem. Nesse sentido tem realizado as suas edições em duas vertentes: o livro como objecto e a narrativa gráfica como ensaio.

Partirmos para a auto-edição aconteceu-nos nem sempre por desejo imediato. O facto de não haver editora interessada, fez-nos indo avançando por conta própria. A Quarto de Jade levou-nos a publicar o que nos é próprio, com o devido respeito por cada edição, cada uma sentida como única, não havendo uma ideia pré definida de colecção, sendo que a linha editorial reside na nossa liberdade de expressão. Assim, cada livro luta com o seu orçamento e é pensado na melhor forma de se apresentar, para ser integro em forma e conteúdo. Não tanto o “como deve ser” para o mercado mas o que cada livro pede para ser feito.

Continuaremos a partilhar as nossas publicações ou trabalhos visuais que, além do site Quarto de Jade, podem ser encontrados nas seguintes livrarias:

Baobá

Letra Livre

Dr Kartoon (Coimbra)

Mundo Fantasma (Porto)

Tigre de Papel

Poesia Incompleta

Tinta nos Nervos

Paralelo W

Snob

Flâneur (Porto)

Nouvelle Librarie Française

Almedina Rato

Leituria

Stet

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Hoje entrou na gráfica o novo livro sequencial de Maria João Worm. Deste tempo todo, já que as edições Quarto de Jade assinalam, desde Abril, dez anos de publicações, apresenta-se um novo título que deverá estar disponível em meados de Agosto.

«Se se acorda mais cedo que o dia, fica-se à espera do tempo. Cumprimentam-se os fantasmas já limpos do sangue e dos fluidos, como bebés que voltam para serem entregues às mães. Fino fio que nos cabe em revelação, onde avança sempre a construção do céu. Linhas de crochet que ancoram em velhas toalhas de mesa, algumas sem nódoas de sonhos, imaculadamente tristes.

Assim. Digo. Avança a vida.» https://mjworm.wordpress.com/

 

 

 

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