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Posts Tagged ‘Gravura’

O vôo da cigarra. Maria João Worm 2021.

Em plena época de desmaterialização das imagens e do livro, a Prado e o CPS – Centro Português de Serigrafia – convidaram escritores a reflectir, em parceria com ilustradores, sobre a relação entre a arte e o artesão, sobre técnicas e tecnologias,  querendo tocar em aspectos que passam pelo acesso democrático à arte ou esta no seu âmbito mais convencional. Nesta edição, com o título de Impressões, os editores tiveram como objectivo central olhar e repensar diversas técnicas artísticas de impressão utilizadas no século XXI, algumas das quais seculares e com grande expressão histórica na produção artística. Nomeadamente a serigrafia, a litografia, a gravura em relevo – com uma linogravura de Maria João Worm acompanhando um texto de Mário de Carvalho – a gravura em profundidade e a impressão digital. Depois da anterior parceria para o livro Guia Ler e Ver Lisboa, o CPS e a Prado juntaram-se, uma vez mais, para apresentarem em conjunto uma nova edição, desta feita, no contexto da celebração dos trinta e cinco anos do CPS.

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Gravura

Alice não tinha regressado, do outro lado do espelho, e já duas árvores apontavam, persistentes, o céu que se acomodava por entre o espaço vazio das copas afastadas. Inundados da luz de ontem, os dias iam e vinham como cadeiras de baloiço; uma raiz, um livro, um momento que desliza por sobre o mar sem velas. Apagou-se então o passado e, como um reflexo no espelho da terra, ficou apenas o momento como um pássaro inclinado dentro da melodia. O coração petiz, subindo o rio para dentro da imagem. Linogravura de Maria João Worm, Setembro de 2001.

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    Curadoria: Ana Ruivo, de 13 de Dezembro 2012 a 17 de Fevereiro 2013.

casa das histórias

A Fonte das Palavras é o nome do projecto concebido por Maria João Worm para a Casa das Histórias Paula Rego. Teve como ponto de partida o contexto editorial ficcionado que a artista tem desenvolvido no seu trabalho, através do qual cria quadros biográficos diversos dando corpo a escritores e tradutores pela apresentação dos seus trabalhos. Cruza os seus percursos individuais na cidade norte-americana de Boston, intencionalmente escolhida como palco experimental deste encontro pela sua importância no panorama literário.

casa das histórias 2

A partir dos poemas Contemplação e Entre os Braços das Senhorinhas organizam-se dois momentos. De exterioridade, o primeiro. De introspecção, o segundo. Através de doze gravuras, dez apresentadas em caixas de luz e, entre estas, três com um caracter mais objectual sobre plintos, implica-se de forma directa o espectador na sua significação. É preciso andar pela sala, aproximar-se o público das obras, para que estas se iluminem e se deixem ver.

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Estes e outros poemas ficaram registados numa edição de autor realizada em colaboração com o Centro Português de Serigrafia e a Casa das Histórias Paula Rego, corporizando mais uma etapa deste projecto. Mas é da palavra ausente que se dá conta na segunda sala deste percurso, convocada através da apresentação de um conjunto de matrizes de gravuras. Neste contexto, as gravuras de Maria João Worm desvinculadas da escrita, autonomizam-se. E existem, por agora, enquanto matriz, como contrário de uma imagem final, recomposta como inverso.

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São gráficas e delicadas as imagens que se descobrem, para lá da densidade do suporte escavado e repetidamente tintado. Incorporam memórias várias da ilustração, da gravura e do desenho publicitário do princípio de século, da iconografia do conto para a infância, com traços de geografias distantes. Mas são sobretudo ontológicas, radiográficas, matéria sensível de reflexão e pensamento sobre o que se sente e observa no mundo. Matéria de invenção sobre o que deveras se sente. Ou talvez não…

 

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A Casa Roque Gameiro encontra-se na rua 1º de Dezembro da cidade de Amadora e acolhe, durante o FIBDA deste ano – de 27 de Outubro a 10 de Novembro – uma exposição multifacetada de Maria João Worm. Uma gralha solta nunca virá na errata apresenta desenhos preparatórios, as linogravuras originais do livro premiado pelo DGLB em 2011 Os Animais Domésticos e uma retrospectiva que vai da gravura à aguarela, passando por um oratório que acolhe o encanto do espírito livre dos animais. Alguns destes trabalhos expostos encontram-se para venda. Em si, a Casa Roque Gameiro merece uma visita atenta, para quem não conhece este edifício patrimonial; agora duplamente enriquecida por uma exposição que contraria as angustias de um tempo de valores profundamente questionáveis.

«Nasci. Ainda ando por aqui. Gosto de pássaros, de cantar e assobiar.
Desconfiei da escola, acho que podia ter aprendido mais. Mas não sabia como. Sei que o que se desenha de cada vez, não se repete. Não acredito que a técnica seja uma competição de apuro. É difícil ser-se o que se é sem manhas, e no entanto a arte vive do espectáculo. Tenho muito respeito por quem trabalha nesta profissão. Sinceramente gosto de pássaros, de cantar e assobiar.»

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O ouvido interno como logotipo das edições Quarto de Jade

Sentimos que, para além dos grandes sistemas, existe um sonho por realizar, um equilíbrio instável, volátil e desejadamente transfigurador. Já não é a dúvida desta existência submersa num jogo de espelhos, sem que se adivinhem as direcções mais óbvias; aquelas que as “grandes maiorias” seguem, escravizando os sentidos à sua incapacidade de se relacionarem com os movimentos próprios de uma existência na primeira pessoa. Dessa consciência, que se ergue para além das normas que estipulam a mais vulgar das sobrevivências, conseguimos dar um primeiro passo, traduzindo uma vontade de realização através de uma etiqueta editorial; assumindo-se como extensão da presença virtual do site e do blog. Agora, Quarto de Jade materializa-se, também, numa proposta capaz de se encontrar com os livros de que se enamora.

O primeiro título que publicamos amadureceu no final dos anos 90 e encontrou finalmente o seu espaço de concretização. Os Animais Domésticos, da autoria de Maria João Worm, é um livro objecto, muito dentro da linha de uma publicação anterior – Electrodomésticos Classificados – mas com novas fronteiras por descobrir, já que a ilustração contemporânea desta autora se exprime através de uma transcendência irredutível, sobretudo nos tempos que correm, em que a formatização parece ser, estranhamente, a palavra de ordem.

Contudo, nada mais pertinente de que escutar-mos aquilo que a Maria João Worm pensa sobre esta primeira edição:

«Este livro foi feito a partir de uma série de gravuras que fiz em 1998. Há muito que tinha pensado reuni-las e fazer uma publicação. Agora, olho para as imagens e para os textos e sei que eles foram feitos com toda a liberdade que parece que ainda é visitada pela Sra. Ingenuidade (aquela que faz limpezas nas cabeças que ainda não têm muito pó).»

O que resultou é um livro que quer mostrar esse tempo em que se deixa acontecer, sem querer mais do que fazer do corpo o lugar táctil e sensível que permite construir sem a finalidade artificiosa.

Não é um livro apenas para crianças, não é um livro para quem se deixa cristalizar e não cresce, seja lá o que isso queira exactamente dizer. Este objecto final é uma visita a uma experiência anterior, acumulou tempo, desdobra-se no espaço e tem finalmente um corpo próprio.

«Enquanto livro de autor, e por tudo o que me leva a pensar hoje conscientemente, na minha estante ideal, arrumava-o junto aos livros de arte.»

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seattle-11

Sinto que existe em cada ser uma noite que reclama uma verdade profunda, um lugar de reencontro dentro de um tempo sem memória, onde o olhar se cruza com a consciência do mistério. Desenhar traz consigo também essa noite de silêncio que se estende por sobre folhas de papel, registando os afectos dos lugares que habitam o coração.

Desde muito cedo que o violento encontro entre o ocidente e o continente americano, ocupam um lugar destacado na minha consciência e reflexão social; eu próprio um espectador actuante de um presente que se desenrola sobre as teias do passado.

No final dos anos 80, saía um artigo de duas páginas, salvo erro no Diário de Notícias, sobre um aspecto dessa história sangrenta, decorrida nos Estados Unidos da América do Norte, onde se incluía um texto cujo teor  era atribuído ao “chefe” Seattle (Si’ahl ou Seathl) em resposta à proposta das autoridades Norte Americanas no sentido de adquirirem os territórios do líder nativo. O seu teor existencialista, de carácter ecológico, fez despoletar a necessidade de tornar esse texto numa narrativa gráfica.

No ano seguinte, iniciei uma colaboração com o fanzine Dossier Top Secret de Almada e, nessa altura, propus publicar uma versão a preto e branco dessa sequência, a que chamei simplesmente Seattle. Refiz então as 6 primeiras pranchas com uma técnica mista, para obter efeitos contrastantes a preto e branco quando estas pranchas fossem fotocopiadas; refazendo algumas vinhetas menos conseguidas, da primeira versão. São os originais dessa segunda versão que agora aparecem no site Quarto de Jade e, depois de fotocopiadas, serviram como base para a publicação no fanzine referido anteriormente. À excepção da nona prancha, que teve alguma intervenção sobre a fotocópia, todas as pranchas seguintes foram reproduzidas directamente dos originais. Nessa edição a inserção de texto foi realizada por mim de uma forma pouco cuidada e a qualidade final, das fotocópias do fanzine, era muito fraca. Por isso, foi com muita satisfação que em finais de 2008 surgiu a possibilidade de editar essa sequência agora a cores, na revista literária Letra en Ruta, publicada simultaneamente no México e nos Estados Unidos; apesar dos constrangimentos da paginação terem disperso a sequência, entre cortada por páginas de texto.

De forma um tanto inesperada, quando procurei a versão em Inglês do eloquente discurso do “chefe” Seattle na internet, deparei com várias informações, inicialmente surpreendentes, mas que no entanto trouxeram a veracidade da história de um texto, que é considerado por muitos ambientalistas como uma carta de princípios universais. O facto é que em relação ao discurso proferido pelo “chefe” Seattle, em Janeiro de 1854, não existe qualquer transcrição literal; havendo sim quatro versões, em segunda mão, das quais a primeira aparece no Seattle Sunday Star, em 29 de Outubro de 1887, numa coluna da autoria do Dr. Henry A. Smith. Nesta, o autor torna muito claro que a sua versão não é uma cópia exacta, mas o melhor que ele conseguiu reunir, a partir das notas que terá tirado na altura. Existe a duvida, quanto ao argumento histórico, acerca de qual dialecto nativo se exprimia o “chefe” Seattle, Duwamish ou Suquamish? De qualquer forma, existe um consenso de que as declarações foram traduzidas, já que o “chefe” Seathl nunca aprendeu a falar Inglês.

Esta versão está publicada em língua Portuguesa, num pequeno livro, pela Casa do Sul Editora, com o título: «A Noite do Índio». Edição essa acompanhada de breves notas sobre o contexto e outras versões do famoso “discurso”. No entanto, deva-se referir que esta tradução não faz justiça completa ao texto original, tanto na sua forma como inclusivamente no seu conteúdo. Faltando-lhe particularmente rigor na transcrição coloquial levando a algumas interpretações lacónicas ou acrescentos omissos no texto original. Sendo que a alteração mais relevante é a transformação radical do final do texto, subvertendo definitivamente o sentido do mesmo, num momento decisivo. Uma tradução deste “discurso” pode ser também encontrada no livro «O Sopro das Vozes», editado pela Assírio & Alvim. Só que aqui, infelizmente, trata-se de um resumo dos momentos que o tradutor elegeu como os mais significativos e não o texto na sua versão integral. A versão em inglês pode ser consultada no site da tribo Suquamish: http://www.suquamish.nsn.us

A tribo Duwamish faz parte da população Nativa Americana do oeste do Estado de Washington e são o povo indígena da Seattle metropolitana. Os Suquamish são um povo do sul da Salish Coast, etnicamente relacionados com os Duwamish. Os Suquamish falam um dialecto de Lushootseed, que pertence à família linguística Salishan. Como muitas das tribos da Costa Noroeste, os Suquamish dependem da pesca de rios locais e construíam longas casas de madeira para se protegerem, nos húmidos Invernos, a oeste das Montanhas Cascade. Estando por isso mais próximos, culturalmente, das tribos do Pacífico Norte, do que das etnias das planícies, tal como eu interpretei a partir do artigo que li no Diário de Notícias. Apesar dos povos de Puget Sound Salish não estarem organizados acima do nível de aldeias individuais, os Suquamish tinham uma localização central em Puget Sound e dois membros desta tribo vieram a ser reconhecidos, pela região, como grandes líderes. Um foi Kitsap, que liderou uma coligação de tribos de Puget Sound contra tribos Cowichan da Ilha de Vancouver por volta de 1825. Outro foi Seathl, filho de Schweabe, que foi um grande orador pacifista durante os tempos turbulentos do século XIX. Apesar de ambos serem referidos como “chefe”, esta é uma atribuição ocidental; tal designação não era usada pelos Índios de Puget Sound.

A segunda versão existente da oratória de Seattle foi escrita pelo académico William Arrowsmith, em finais dos anos 60. Esta foi uma tentativa de colocar o texto segundo padrões de discurso corrente, em vez do estilo vitoriano do Dr. Smith.

A terceira versão é a mais conhecida de todas, sendo aquela a que tive acesso, através do artigo publicado no Diário de Notícias, e a partir da qual realizei a primeira versão da narrativa gráfica Seattle. Na realidade, esta versão foi escrita pelo professor Texano Ted Perry, como parte de um argumento cinematográfico. Os produtores do filme usaram de alguma liberdade literária, alterando o discurso (só 10% do texto “original” foi usado e algumas passagens foram proferidas com um sentido diametralmente oposto) fazendo dele uma carta ao presidente Franklin Pierce, que tem sido reeditada com frequência. Nunca tal carta existiu ou foi alguma vez escrita pelo, ou a partir, do “chefe” Seattle.

A quarta versão apareceu numa exposição durante a Expo’74 em Spokane, Washington e é uma curta edição do argumento cinematográfico do Dr. Perry.

Segundo Jerry L. Clark, que integra a equipa dos Arquivos Nacionais Norte Americanos, não existe qualquer prova histórica do discurso, referindo inclusivamente com bases documentais, as sérias dúvidas acerca da precisão das reminiscências do Dr. Smith em 1887, trinta e dois anos após o alegado episódio, retirando-lhe pois qualquer força moral ou validade. Baseando-se nos pressupostos dos registos burocráticos da história, nomeadamente daquela que é determinada por funcionários administrativos, das nações que se impõem como vencedoras.

Civilização é sobretudo uma questão de imposição linguística e territorial, não sendo de surpreender que quem conta a história são os vencedores dos conflitos. A relevância dos factos não estará tanto se hoje em dia fará alguma diferença o discurso em questão ter sido originado pelo “chefe” Seattle em 1854, ou com o Dr. Smith em 1887. Talvez que o fundamental seja o reconhecimento de uma constatação profunda que não depende de indivíduos específicos ou dos arquivos que registam os protocolos da civilização.

Mas de todas estas constatações não se diluiu o impulso que me fez realizar esta banda desenhada. Matéria activa e transformadora, o potencial deste discurso encontrou um novo eco ao despoletar um trabalho conjunto com a Maria João Worm, no sentido de trabalharmos uma versão do “discurso” de Seattle; agora numa sequência em que desenhos a lápis serão posteriormente trabalhados em linogravura, a preto e branco. Digamos que esta é uma semente inicial que há muito germinava, numa procura de tornar expressão visual uma narrativa baseada em textos dos povos nativos da América do Norte. Trabalhamos assim pensando num projecto maior que encerra, num livro de banda desenhada, uma Planície Pintada. Nesta, quatro histórias assumindo um número de referência para estas culturas, envolvendo aspectos da sua mitologia, um sonho ou uma história do quoatidiano ao “discurso” de Seathl elaborado pelo Dr. Smith. Planície Pintada é também uma espécie de narrativa semiótica, num estado muito próximo ao da tradição oral, que procura unir o sentido profundo que carrega, num tempo e espaço particular, tendendo para uma expressão de espírito universal. Talvez que essa seja a verdadeira História, aquela que percorre o tempo da memória e se vai recriando em continuidade.

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