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Posts Tagged ‘História’

 

Página do Códice Fejérvary-Mayer e prancha de Dino Battaglia. Apesar de se identificarem alguns processos narrativos similares entre ambas as linguagens (como os eventos res gestae), os seus níveis cognitivos derivam de planos distintos.

Preconizando um quadro reflexivo, relacionado com o movimento natural para a identificação das suas raízes, não raras vezes são colocados os códices pictográficos, do México antigo, como antecedentes da moderna banda desenhada. Em casos mais extremos serão até assumidos como sendo já banda desenhada. Este pressuposto aponta já para a turbulência das imagens na era da informação global, assumindo aspectos reivindicativos de síntese, baseada na relação sensorial que o imediatismo das sociedades tecnológicas induzem como prática de vida. A linguagem, tal como a História, existe num fluxo de abertura permanente, no sentido que a sua interpretação está exposta às mutações do pensamento que as observa, no tempo e no espaço cada vez mais distante do objecto inicial. Podemos acumular todo um índice de referências, por exemplo, sobre a idade média. No entanto já não nos é inteiramente acessível saber o que sentiam, directamente, as pessoas que viveram nesse período, apenas restando as pistas de como o seu mundo podia – ou devia – ser precepcionado.

Página do Códice Zouche-Nuttal com indicação, no canto inferior direito, do sentido de leitura.

Nessa medida sabemos que no México central foi desenvolvida uma escrita pictográfica que incluía, simultaneamente, códigos fonéticos, topónimos, símbolos ideográficos, tanto descritivos como abstractos  com a capacidade de fixar um discurso tanto de homónimos como de sinónimos. No entanto, os conteúdos – e mesmo a ambiguidade – resultante dessa sobreposição não dependia da intenção de um “escritor” (no caso um tlacuilo, termo nahua que contém o duplo significado de escriba-pintor) sendo antes de mais o reflexo de um quadro cultural onde os símbolos partilháveis, apesar da sua flutuação, assumiam valores canónicos. No corpo social mesoamericano o conceito de estado centralizado não chegou a tomar uma expressão e, apesar da linearidade da contagem temporal, os seus ciclos tenderam para uma regulação circular do tempo. Desse modo, podemos observar que da época de Teotihuacan – cerca de 300 d.C. – até à cidade do México – 1520 d.C. – práticamente não se observam alterações tecnológicas de fundo.

Reconstituição de uma página do Códice Borgia por Gisele Díaz e Alan Rogers. Dover Publications, 1993.

Se de um ponto de vista aparente podemos estabelecer uma relação entre as imagens sintéticas e sua disposição num códice com as páginas de uma banda desenhada, ao nível superlativo tal comparação enferma de uma sustentabilidade estrutural. Como em qualquer outra parte do mundo, um habitante de uma cidade-estado mesoamericana teria presente a sua condição na hierarquia social. No entanto, aquilo a que chamamos “consciência de classe” estaria inteiramente arredado da sua percepção. Esta última formulação, como sabemos, deriva das transformações sentidas na Europa após a revolução industrial, sendo um conceito introduzido pela reflexão marxista no século XIX e que, entre outros aspectos, aponta para o controlo dos meios de produção sentidos em consequência do antropoceno. Estamos portanto muito longe dos códices e do seu contexto social cuja relação objectiva com a natureza dependia do inconsciente colectivo e não das escolhas permitidas pela individuação.

Ou se voit que les japonais ont aussi leur homme au long nez. Imagem de Épinal.

Caberia aqui mencionar que, do ponto de vista processual, palavra e imagem encontram-se fundidos nos códices pictográficos mexicanos, existindo uma consubstancialidade entre o signo e aquilo que designa. Por seu lado, na banda desenhada opera-se uma sincronia que advém da separação entre estas mesmas duas componentes. Enquanto os códices como linguagem são um registo arquétipo a banda desenhada é um sucedâneo da separação entre palavra e imagem – com a qual ainda se debate – sendo que a sua pré-história é identificável ao tempo dos Cris (estampas com legendas, vendidas na rua, entre o século XVI e XVII), na integração do texto em imagens dos cartazes durante o século XIX e nas imagens de Épinal. Narrativa e sequencialidade não são apanágio exclusivo da banda desenhada, estes podem ser reconhecidos antes e depois da sua formalização por Topffer, em vários campos de expressão linguística, plástica e mesmo audio-visual.

Duas páginas do Códice Florentino que incluem sequências narrativas. Outras páginas incluem apenas uma ou duas ilustrações, também inseridas em vinhetas.

Em termos de conceito e contextualização os códices pictográficos não devem ser vistos de uma forma empírica, correndo-se o risco de uma extrapolação política alheia ao objecto e seu significado primordial. Mencionando apenas um aspecto, as páginas em acordeão de um códice poderiam ser consultadas em simultâneo, permitindo facilmente a esta estrutura uma transgressão da leitura linear. Possivelmente as referências eram cruzadas e podiam ser lidas alternadamente. Como consequência da invasão do México, no século XVI, é introduzida na linguagem dos tlacuilos dois aspectos que estavam completamente ausentes: o desenho em perspectiva e a narrativa gráfica. Apesar de muitos códices pós-coloniais serem já elaborados com a primeira alteração, o exemplo mais significativo encontra-se na obra compilada por Sahagún, o Códice Florentino, com a participação de informantes indígenas. A par do texto alfabético, surgem pequenas sequências enquadradas por vinhetas que referem acontecimentos e que são independentes, por complementaridade, ao texto central. Da escrita pictográfica, os tlacuilos são agora solicitados a essa expressão, em pequenas narrativas, cujas ilustrações descrevem uma acção da qual eles próprios estão separados, assumindo-se como observadores de uma realidade da qual já não participam. Quanto aos códices pictográficos, no seu aspecto original, continuam a existir até ao século XVIII.

O mapa de Teozacoalco foi pintado por artistas indígenas em resposta ao questionário das Relações Geográficas do governo de Nova Espanha, no final do século XVI. Do lado esquerdo figura a lista de governantes Mixtecas.

De uma maneira geral haverá pouca gente que tenha presente o contexto que reafirma a clara diferenciação entre uma linguagem arquétipo – os códices – e uma linguagem híbrida – a banda desenhada. Como consequência do novo estatuto social, grande parte dos códices mesoamericanos foram destruídos. No entanto, a continuidade desta linguagem manteve-se mediante a necessidade imposta aos povos indígenas no sentido de provarem a propriedade de terras e as suas filiações políticas através de Lienzos, guardando conteúdos narrativos em tiras ou mapas territoriais. As genealogias também foram valorizadas, tendo em conta que o processo de transposição legal fez com que as instituições ocidentais – como os tribunais – recaissem sobre os antigos centros administrativos indígenas.

O Diário de Jules Renard lido por Fred. Bertrand Editora, 1989.

Actualmente já não existem códices pictográficos e, certamente, estes nunca fizeram parte integrante da história da banda desenhada. A sua realização situa-se no campo da semântica e, por extensão, da história da ilustração. Assim como os hieróglifos fazem parte do campo da escrita fonética, apesar da aparente facilidade com que se podem invocar as proximidades electivas. Podemos ver, de forma cada vez mais clara, que a linha identitária da narrativa gráfica ou banda desenhada se situa entre o século XVIII e XIX, resultando de várias mutações sociais, estéticas e tecnológicas mas que encontra uma clara matiz na intensa concorrência que caracterizou os jornais no início do século XX. Entretanto, as suas questões para o futuro prendem-se mais com a dicotomia latente entre poesia e literatura, no sentido das tensões permanentes entre a dessubjectivação da linguagem realizada no plano da expressão absoluta e o romance enquanto prioridade editorial.

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Na Companhia das Letras, de São Paulo, André Toral – quanto a mim um dos mais interessantes autores de narrativa gráfica do Brasil – elaborou um livro sóbrio que alia à irreverencia do seu desenho expressivo-naturalista o registo do quotidiano de uma guerra sul americana. Estavam as nações das Terras Baixas Tropicais a prepararem-se para este evento e, na mesma altura, a Guerra Civil na América do Norte aproximava-se do seu enlace federalista. Muito poderia ser dito e reflectido a partir deste tema, das guerras, das nações e dos homens que são consumidos e mastigados; pela história ou pela antropologia. No entanto esta é uma entrada de divulgação e, para já, o tempo não permite um maior comentário sobre este tema acutilante. Fica só a nota de que, tal como é habitual, este exercício em banda desenhada não deixa de tomar uma perspectiva nacionalista ou, eventualmente, até mesmo moral, do ponto de vista político… Qual será o olhar de um paraguaio sobre este evento?

Com base numa cuidadosa pesquisa histórica, André Toral traz de volta as rotinas dos campos militares do Paraguai, dos campos de batalha e dos salões luxuosos da corte no Rio de Janeiro. E leva para as frentes de combate dois baianos, um carioca e um paraguaio: a história dessas personagens revela os impulsos e as motivações dos homens de carne e osso que fizeram a guerra. A sua crueza só rivaliza com a permanente nota de ironia em que estas narrativas estão envoltas. Finalmente, Adeus, Chamigo Brasileiro – Uma História da Guerra do Paraguai  vem trazer um cenário contextual abrangente aos quadros de Cándido López que eu vira, em 2009, na capital argentina de Buenos Aires; depois de passar pelo Uruguai… País que também participaria nesta guerra… Um livro muito recomendável, para quem goste de história a ser retratada de maneira envolvente em banda desenhada.

Para fechar, o livro de André Toral inclui uma breve resenha histórica, iconográfica e cronológica da Guerra do Paraguai.

Do Brasil, outro livro: Estórias Gerais, publicado pela Conrad Editora, São Paulo 2007 e que consegue traduzir-se num documento consistente para a perpetuação desta obra no futuro. Estas narrativas já nasceram como um clássico da banda desenhada brasileira, não somente pelo seu tema e cenário, referentes à realidade e à mitologia do sertão mineiro; como também por celebrar o feliz encontro de um dos argumentistas mais brilhantes com um mestre do traço e da arte gráfica brasileira: Wellington Srbek e Flavio Colin.

Apesar de ser uma intensa novela gráfica, parece-nos que o seu “modelo” narrativo excessivamente tipificado, retira alguma sobriedade e imaginação ao excelente trabalho de Colin. Recorde-se, por exemplo, a magistral narrativa  Mulher-Diaba no Rastro de Lampião, em parceria com o argumentista Ataíde Braz que, até talvez por ser posterior, demonstra uma irrepreensível síntese gráfica de expressão equilibrada; dando um sentido original às suas claras influências vindas do autor norte americano Milton Caniff.

Este clássico da banda desenhada brasileira é uma cuidadosa edição, com uma história especial a cores; introdução de Wellington Srbek e depoimento de Flavio Colin.

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Apesar de considerar que Cosey não é um desenhador muito talentoso, sem dúvida que desenvolveu um estilo gráfico narrativo particularmente eficaz – de síntese – na qual o desenho, a cor e a paginação criam uma linguagem coerente e harmónica para que nos possa contar as histórias de sensibilidade humanista que caracterizam, sem dúvida, o seu rico universo. Naturalmente, este universo intimista – mesmo que dentro de códigos vincadamente comerciais da banda desenhada europeia – tem como as suas mais profundas raízes a proximidade com outro autor Suíço, conhecido como Derib que soube desenvolver uma série muito consistente das realidades humanas e culturais durante a colonização da América do Norte. Enquanto Buddy Longway trazia aos adolescentes a consciência de aspectos como a ecologia, a miscigenação e o respeito pelo outro, nesta entrada, Jonathan de Cosey é uma mera desculpa para actualizar um tema que também ele trouxe à consciência dos jovens leitores europeus: o Tibete.

Unificado pela primeira vez no século VII pelo rei Songtsän Gampo, de 1640 a 1950 o governo deste país foi, por diversas vezes, nominalmente encabeçado pelos Dalai Lamas – uma linhagem de líderes políticos espirituais tidos como emanações do buda da compaixão. Durante boa parte deste período a administração tibetana também esteve subordinada ao último império chinês, a dinastia Qing. Em 1913, com o advento da república chinesa, o 13º Dalai Lama expulsou os representantes chineses da região. Embora a expulsão tenha sido vista como uma afirmação da autonomia do Tibete, esta independência não foi aceite pelo governo da China nem tão pouco recebeu o reconhecimento diplomático internacional e, depois da segunda guerra mundial, a soberania da China sobre o Tibete não foi questionada pela Organização das Nações Unidas… Como em muitas outras histórias que assistimos, de genocídio cultural, Mao Tse Tung não teve problemas em, na década de 50, trazer o “progresso” e o mundo moderno ao tecto do mundo, com a já habitual carga de extrema violência e arrogância, própria das grandes potências mundiais.

Em 1959, conjuntamente com um grupo de líderes tibetanos e seus seguidores, o 14º Dalai Lama fugiu para a Índia onde instalou o Governo do Tibete no Exílio, em Dharamsala. Estaríamos a falar apenas sobre mais um dos muitos episódios negros dos labirintos da história, não fora, neste caso, o de se evidenciar uma das mais profundas questões da nefasta representação da humanidade no palco da Terra. Na realidade, o Tibete fora no seu passado uma região de povos violentos e brutais que foi pacificado de forma única e original através do budismo; o que só por si lhe conferia uma autoridade que nenhuma outra nação do mundo conseguira, até essa altura. Nós, os portugueses, ficamos muito orgulhosos da nossa história, ao termos introduzido a espingarda num Japão completamente dilacerado pelas guerras civis. Um dos primeiros embaixadores ocidentais a chegar aos Himalaias, levou consigo um revólver para com isso afirmar o notável êxito da tecnologia europeia. Ao contrário dos japoneses, sempre muito sérios, o Dalai Lama riu-se abertamente, diante um instrumento tão ridículo como inútil, que só servia para tirar vidas, fossem elas humanas ou outras. Naturalmente, o Tibete pagou bem caro o compreensível desprezo de sua santidade quando se deu a invasão chinesa em 1950. No entanto, a coerência e a integridade espiritual prevaleceram – e prevalecem – com o testemunho dado pelo actual Dalai Lama que recusou inteiramente a oposição armada a um dos regimes mais autoritários à escala global e com a qual todas as grandes potencias pactuam como um invejado parceiro económico… Ficam, obviamente, muitas questões e contradições por responder: Porque é que os Estados Unidos da América e Israel insistem num embargo desumano a Cuba, enquanto todos pactuamos com um regime que bem pode apresentar uma bandeira tingida de sangue?

A fronteira do Tibete a laranja, com as zonas actualmente inseridas em provincias chinesas. Os pontos a vermelho indicam onde ocorreram as auto-imulações de 2009 a 2012

A diplomacia continua a debitar discursos moralistas sobre a democracia e os direitos humanos, enquanto desde Fevereiro de 2009, até ao corrente ano, 17 tibetanos se auto-imolaram pelo fogo num protesto gritante contra a opressão brutal de que são alvo, tendo 12 destas pessoas morrido. Não apareceu no telejornal mas é verdade, tão verdade como as imagens que todos se devem recordar, aquando da guerra do Vietnam e do monge budista que nessa altura tomou a mesma iniciativa, como protesto claro contra os jogos de xadrez da guerra fria. Assim, nesta perspectiva civilizacional, o nosso ex-primeiro ministro declinou encontrar-se com o Dalai Lama, após protestos claros do embaixador chinês e, apesar de outros apoios mais ou menos claros à causa tibetana, sabemos quem no fim irá pagar a factura. É que sofremos de um problema endémico do qual o budismo  já teve consciência há muito tempo, encerrados que estamos no primitivismo espiritual, sociológico e político que é o dualismo – a esquerda e a direita na política; o bem e o mal com as respectivas recompensas de céu ou inferno; as compensações sociais e psicológicas para fomentar o sucesso ou o anonimato – podia até não ser muito grave, se toda esta dicotomia civilizacional não resultasse num  manto subtil que vela a hipocrisia e o cinismo. Afinal, como repetidamente as grandes nações, democráticas ou não, nos têm ensinado, o problema não é infringir os princípios éticos, o problema é ser apanhado.

O espaço azul entre as nuvens é o quadro de Claude Monet mais acarinhado pelo coronel Stampford Westmacott, de quem Cosey nos conta, sobre a bizarra mansão inglesa que este lorde construiu numa zona remota do Tibete, com a mão de obra amiga e disciplinada dos seus velhos companheiros do Regimento 12. Estes não voltarão a rever a sua Inglaterra, pois o barco que tomaram em Bombaim nunca chegará ao seu destino. Tão pouco ficará habitado o palácio do coronel, cuja ultima visão será precisamente aquela que coroa a sua colecção particular de pintura… mas agora real. A banda desenhada pode ser tão virtual como a Internet, na carne somos o resultado de uma globalização que o ocidente iniciou no século VI; cada vez mais presas da esquizofrenia abstracta da economia e dos mercados, enquanto nos damos ao luxo de perder uma firme oportunidade de olhar para dentro de nós próprios, como indivíduos – e da nossa historiografia, como colectivo. Amanhã, talvez também não te recebam… pelo menos, não podes dizer que não sabias porquê…

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Já há muito que queria ter escrito uma entrada chamando a atenção para o brilhante autor de narrativas gráficas que é o italiano Sergio Toppi. Não me alongarei neste post mas não queria deixar de referir um dos seus excelentes títulos, editado pela Mosquito em França: La Légende de Potosi. História de plena desenvoltura narrativa, Toppi transporta-nos à América do Sul, sobretudo aos Andes, para transformar um facto histórico – a exploração das minas de Potosi, no Perú – num conto que nos remete, de certa forma, para a densidade que por exemplo também transparece na cinematografia do realizador alemão Werner Herzog. A elaboração cuidada, focada no realce dos aspectos dinâmicos da paginação da prancha, evoca uma tendência que se equilibra de forma espantosa dentro de um cinetismo ilustrativo que nunca resvala para os códigos exteriores à banda desenhada. São momentos firmemente estabelecidos que resultam numa capacidade inovadora e consequente de trazer para o terreno da narrativa gráfica uma maturidade raramente vista em outros autores congéneres.

As histórias de Toppi estão sempre envoltas no mistério e na magia subsequente à condição humana, sem resvalar para os estereótipos na interpretação ou visão das culturas que nos são alheias. Existe a ambição, a procura sem tréguas, sempre envolvidas pelos enigmas, dos homens ou da natureza. No final, somos sempre surpreendidos pelos destinos, ora cruéis ou avassaladores, na rudeza que reconhecemos a partir da realidade e nunca envoltos pelas fantasias ou inverosimilhança. Apesar de grande parte do seu trabalho ser a preto e branco, La Légende de Potosi mostra como este sóbrio autor italiano sabe complementar o seu traço de  maturidade depurada com cores, que tanto valorizam os desenhos como acrescentam identidades e ambientes às ressonâncias de conteúdo da leitura. Comprei este livro, editado em Junho de 2003, na livraria Dr Kartoon, durante o Festival Internacional da Amadora, em 2010. Além desta livraria de Coimbra, também a Nouvelle Librarie Frainçaise em Lisboa disponibiliza títulos deste autor, nascido em Milão em 1932.

Sergio Toppi iniciou-se trabalhando para o cinema de animação, tendo posteriormente trabalhado com regularidade na imprensa infantil italiana. Nos anos 70 ele fará parte integrante da evolução da narrativa gráfica transalpina, fazendo-se notar em França pela sua participação na História de França em BD; seguindo-se a série Um Homem uma Aventura, que entre nós nos chegou em edição Brasileira. Nos anos 80 Toppi vai desenvolver nas mais importantes revistas italianas um estilo profundamente original e inovador. A sua obra está editada em Francês pela editora Mosquito, com a qual colabora desde 1997. Topi expôs em Paris durante o mês de Janeiro de 2007 na estação de metro Pyramides e, em 2008, uma grande exposição foi organizada em sua honra no Festival de Angoulême. Gostaria de recomendar, vivamente, a todos aqueles que se interessam por banda desenhada, a leitura, releitura ou descoberta deste autor ímpar e consequente.

Complementarmente, referindo-nos ao tema de fundo de La Légende de Potosi, gostaríamos de fazer uma ressalva, para melhor se poder entender no quadro histórico este trabalho, o livro de Massimo Livi Bacci, publicado em Português pelas Edições 70: A Conquista – A Destruição dos Índios Americanos. Este é um livro essencial para se conhecer os contornos, não só deste trabalho de Toppi mas de como se revestiu a invasão do continente americano; com muitos dos aspectos que estão na raiz do inicio do processo da globalização de mercados, iniciativa privada e desmantelamento cultural que, segundo alguns historiadores, a exploração das minas de Potosi são o ponto inicial desta etapa histórica, sociológica e económica que agora nos envolve a todos nós.

Diniz Conefrey

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Este verão proporcionou-me voltar a comprar um livro de banda desenhada com o entusiasmado gosto pela descoberta, sentimento que usualmente já não nutro, pela maioria esmagadora dos livros publicados nesta área. Desde logo, a capa do Último dos Moicanos seria com certeza reflexo de uma interpretação que traria notas, de certo modo empolgantes, no sentido gráfico da luz e da plasticidade. Além de que o sentido das formas reflectiam, de uma forma densa, um rosto que traduz uma certa ideia do “outro” inimigo; naquilo que aparentava ser uma expressão de um antigo código sócio-cultural, violentamente distinto, em certos aspectos, do nosso. J. Fenimore Cooper não era propriamente um escritor. Da sua vasta experiência como marinheiro, iria acabar por escrever porque achava que o sabia fazer melhor do que outros, já publicados e, possivelmente, teria intensa experiência de vida naquilo que de mais dramático, as aventuras podem conter. Norte Americano de nascença, viveu entre 1789 e 1851, sendo a sua obra mais conhecida, precisamente, O Último dos Moicanos. A adaptação livre, e bem, para banda desenhada é da autoria da dupla francesa Catmalu e Cromwell, passando-se a acção, naturalmente, no mesmo enquadramento histórico que o livro original. De facto, esta história desenrola-se durante a guerra dos sete anos, geograficamente situada entre o actual Canadá e os Estados Unidos, no seio do conflito imperial dominante, da Europa do século XVIII, neste caso entre a França e a Inglaterra. Neste território, esta guerra é mais conhecida pela Guerra dos Franceses e dos Índios (1754 – 1760). O próprio nome encerra em si já as premissas de que se revestiu este conflito, realçando o aspecto praticamente inédito de uma tão estreita relação entre colonizadores e indígenas. Realmente, este relacionamento inédito advém tão-somente de uma questão de estratégia, face à perspectiva territorial. Ao contrário dos Ingleses, a França não se dedicou na ocupação de terras, para intensificar a produção agrícola. Pelo contrário, fixaram-se em vários pontos ao longo da costa ou perto dos rios interiores e daí, comerciavam com as nações nativas, sobretudo povos Algonkinos; desenvolvendo um lucrativo comércio de peles, provocando, possivelmente, uma das primeiras hecatombes ecológicas, nas densas florestas da América do Norte. Contudo, a relação com os Ameríndios não era só comercial. De facto, os franceses, também conhecidos como Correur du Bois, assimilaram a cultura Nativa, vestindo-se como eles, casando com as suas filhas, caçando e comendo com eles; no fundo adoptando o estilo de vida indígena. Seria, de certa forma, uma relação mais equilibrada do que a implantada pelos Ingleses, que pressupunha uma nítida apropriação territorial.

O Último dos Moicanos centra-se, portanto, durante o ano de 1757, ano em que o expoente máximo da preponderância militar francesa se faz sentir; numa guerra ganha inevitavelmente, pela coroa Inglesa. Mais precisamente, a acção remete-nos para o cerco ao forte britânico William Henry, junto ao lago George, no teatro de operações da região de Nova Yorque. Um dado inicial que gostaria de refutar, prende-se com o sistema de alianças vivido durante este conflito. De facto, tanto Fenimore como os autores da livre adaptação, referem os Iroqueses como aliados dos franceses. Curiosamente, da abrangente influência que a França dispunha entre as nações nativas, a única que nunca esteve a seu lado foi a Confederação Iroquesa. Aliados tradicionais dos Ingleses, tentaram contudo manter uma certa neutralidade, durante as sucessivas guerras que Ingleses e Franceses travaram, no sentido de controlar a América do Norte. Esta sua posição de estreitas relações com a coroa Britânica, ditou, poucos anos depois, um desfecho amargo; já que com a independência dos Estados Unidos, os colonos americanos foram extremamente duros e violentos com a Confederação Iroquesa, retirando-lhe o papel de preponderância, no plano das relações políticas e sócio-culturais da região dos grandes lagos.

A interpretação plástica de Cromwell, para captar o silêncio das paisagens, sussurrando intensamente a força letal e violenta que, dentro dos bosques se movimenta, é das mais acutilantes no dramatismo da sua expressão. Sempre fui de opinião que faltava textura, literalmente, nos trabalhos de banda desenhada; demasiado asséptico com a luz, na maioria esmagadora das vezes. Os ambientes gráficos traduzem tudo o que a acção literária de Filmore necessita, ao multiplicar a sucessão de acções. Nesta BD, o ambiente comprimido deixa o espaço de acontecimentos diversos para se centrar numa acção mais linear, mas toda ela envolta nas tramas centrais do livro original; encontrando mesmo uma excelente resposta telúrica para o final, quase esperado, deste livro. Esta obra só perde por ser um híbrido, em que tenta mesclar de forma assumida, várias vertentes como a literária, a cinematográfica e, finalmente, a gráfica. Os separadores são soberbos mas creio que prescindiriam da identificação dos autores das frases, aliás, referidos novamente (e bem) na fonte de citações. Os capítulos, com as suas formas de capa, resultam tão mal como os planos de página inteira, tendo uma relação cinética evidente. A princípio não gostei das legendas, mas é sempre difícil uma solução mecanográfica que tenha um desenho que se integre plenamente nas imagens. A solução apresentada só se torna demasiado desconfortável, quando o texto assume extensões mais literárias. Um dos grandes equívocos seria porventura achar que, mesmo numa adaptação livre, não se poderia prescindir dessa dicotomia de reafirmação entre texto e imagem. Mas, de facto, por vezes, esta complementaridade demasiado directa poderá tomar um aspecto quase redutor e não se chega a perceber, se neste caso, esta poderia ser uma forma narrativa desejável.

Como no caso das páginas que ilustram a perseguição final, em que à decoupage silenciosa e abrupta das acções, necessitasse verdadeiramente de ser acompanhado por tão longa extensão de texto; secundarizando a organicidade da própria acção, relatada tão completamente, através das imagens. De sublinhar, pelo contrário, toda a sequência que se passa na taberna, The Last Chance, talvez o exemplo mais acabado de toda a excelência desta obra, um pouco perdida na sua definição entre as várias pontes que, felizmente, consegue lançar. Este livro trouxe consigo uma leitura que me fez novamente acreditar que ainda há muitas boas razões para se fazer banda desenhada. Neste caso, esta surge com a chancela Noctambule, da editora francesa Soleil e está disponível, com um excelente formato, nas livrarias da Fnac.

Diniz Conefrey

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Na sequência da minha recente entrevista a um blog brasileiro, surgiu a iniciativa de trocarmos publicações de banda desenhada relativas aos autores dos nossos países. Apesar de partilhar-mos uma língua comum, nem sempre se consegue a proximidade desejável para se conhecer as respectivas produções, actuais ou históricas que se vão realizando em cada um dos lados do oceano que nos separa. Dessa iniciativa, permitida pelas comunicações via internet, volto a encontrar um autor brasileiro cujas histórias curtas, publicadas na extinta revista Animal, tinham para mim uma dinâmica com desenvoltura. Sobretudo naquilo que eu entendo como uma narrativa de interesse alargado e adulta. A par dos «Pesadelos Paraguaios», sequências de poucas páginas, intrigantes, sobre um conflito quase desconhecido no ocidente; lembro-me ainda mais, com grande nitidez, dessas outras sequências que abordavam a conduta de um piloto japonês, durante a segunda guerra mundial. Este, fugia de forma total aos cânones de comportamento de que são conhecidos os soldados nipónicos, durante este conflito. Almejando, este piloto, a sua sobrevivência pessoal em clara ruptura com a imagem estereotipada dos heróicos combatentes, ao serviço do imperador, do país do sol nascente. Sempre achei esta tónica muito particular que, para mim, revestia este autor com uma perspicácia muito sui generis na escolha dos seus temas. Indiscutivelmente acompanhados de um desenho desenvolto, aparentemente simples na estilização mas produzindo um forte efeito de sobriedade narrativa e um certo inconformismo formal.

Furukawa, O Herói. Revista Animal nº 12. Setembro de 1990

O nome de André Toral ficara-me, assim, desses idos finais dos anos 80, até o reencontrar nestas trocas de livros com o Matheus Moura, com o acrescido interesse pessoal de que o livro Os Brasileiros (2009, Conrad Editora) se reporta a narrativas sobre os indígenas desse país. Este álbum de 88 páginas reúne sete histórias que Toral criou entre 1991 e 2008, desenvolvendo-se, grosso modo, as várias narrativas de forma cronológica; desde os primeiros contactos com os europeus no século XVI, até aos dias de hoje. Talvez que aqui importe informar que André Toral, nascido em São Paulo em 1958, é Historiador e antropólogo e de que além de banda desenhada, produz livros e artigos sobre temas relacionados à Antropologia e à História da Arte, como os três volumes de Arte e Sociedade no Brasil, em co-autoria com Aracy Amaral. Esta breve nota poderia induzir em erro de que Os Brasileiros se trata de um livro com uma visão histórica dos índios retratados, o que realmente não acontece e Toral deixa isso bem claro no breve texto explicativo que acompanha esta edição.

O Brasileiro, 2008

No entanto, poderá tornar mais esclarecedor o assumido pendor amoral de que se revestem as suas narrativas em banda desenhada, tanto neste caso como das suas outras produções. O contexto histórico ou a ética nunca são factores preponderantes nas decisões das suas personagens, estando as suas acções fortemente vinculadas a um instinto de sobrevivência cujas razões tendem a ser do foro individualista; independentemente das repercussões que possam a vir tomar. Dado tanto mais interessante, já que não impede uma abordagem rigorosa nos enquadramentos cénicos, nem tão pouco da verosimilhança que consegue incutir aos seus actores. Conferindo-lhes a um tempo um destacado perfil psicológico, dentro das suas características de força ou fraqueza.

O Negócio do Sertão, 1991

Contudo, quanto a mim, a visão que André Toral nos dá dos indígenas é de um posicionamento algo periférico, já que estes se apresentam como contrapontos das outras personagens, os ocidentais. Como diz o autor, é verdade que em todas as histórias os índios se posicionam diante dos acontecimentos e tomam as suas decisões. No entanto, não posso concordar que estas não lhes sejam de certa forma impostas, já que advêm dos contextos criados pelos intervenientes ocidentais. Aliás, é curioso (e provavelmente prudente) como em nenhuma das histórias Toral nos apresente os índios dentro do seu quadro sociológico próprio e fora do contexto de ambivalências, com as suas personagens errantes e não nativas… Se, por um lado, a sua narrativa torna mais legível, para o leitor mediano, a individualidade dos indígenas, face a uma trama de enredos plurais, étnicos e  continentais; por outro, não deixa de ser vagamente omisso, relativamente a dados fulcrais em relação à própria estrutura identitária da natureza dessas culturas, fora do âmbito das acções que se possam tornar reconhecíveis, no contexto do racionalismo kartziano.

Páginas 22 e 23 de Fawcett. Desenhos de Flavio Colin e argumento de André Diniz

Mesmo assim, nem essa constatação tira o valor substancial de que está revestido este trabalho, sobretudo em histórias como «O Negócio do Sertão» ou «O Caso dos Xis», narrativas de apurado nível onde toda a grande capacidade de André Toral é revelada, como um autor completo que expressa de forma quase perfeita o seu talento gráfico, com uma indiscutível capacidade como argumentista. Existe qualquer coisa neste livro, para além da óbvia presença dos índios, que me remete para o trabalho daquele que para mim é o mais importante autor de banda desenhada brasileiro, Flávio Colin que com o argumento de André Diniz realizaram a história «Fawcett»; sobre o caso verídico do estranho coronel Inglês desaparecido durante uma expedição, na procura de uma civilização maior nas selvas amazónicas. O curioso desta narrativa está em se desenvolver precisamente no ponto em que se perde a informação sobre o coronel e os seus parcos acompanhantes. Assim como na narrativa de Toral, tudo é verdade excepto toda a trama da acção que foi inventada. Por vezes, o efeito entre ambos é muito similar, existindo necessariamente uma tonalidade diferenciada.

A Mulher do Morto, 1999

A presença dos índios não deixa de estar ligada a uma conflitualidade latente, daí que eu ache que poderá ser muito discutível o retirar simplesmente o papel das “vítimas da história”, como afirma Toral, se bem que entenda que é mais objectivo descartar um papel paternalista nesta questão. Ainda há poucos anos, perguntei a uma imigrante brasileira o que pensava sobre os índios, ao que me respondeu, sem rodeios, que se tratavam de selvagens violadores! Quanto a mim, não tenho qualquer orgulho de pertencer a uma nação que os ajudou a exterminar ou escravizar; em movimentos e processos históricos como os bandeirantes (a que se refere a história «O Negócio do Sertão»), com a intenção de caçar literalmente vidas humanas ou a redefinir territórios alheios, em competição com outras potências europeias. Uma nota menos positiva neste livro, relaciona-se com as sequências em que André Toral trabalhou a cor, com aguarela. A mesma impressão, de colorido sem pendor narrativo, tivera igualmente quando folheei o seu livro «Adeus, Chamingo Brasileiro – Uma História da Guerra do Paraguai». Nitidamente que esta não é uma boa solução para o seu trabalho, retirando até alguma densidade que a sua narrativa possui em troco de uma ambiência algo pardacenta. Assim como a opção, inestética graficamente, em tornar a direcção das falas dos balões, demasiado bojudas e irregulares. Por fim, deixo um link onde este livro poderá ser adquirido na internet. Os Brasileiros não é só um excelente trabalho de um nome maior da banda desenhada brasileira, como é também um convite acessível para melhor conhecer o rosto de uma cultura que ainda se encontra viva e, da qual, também nós portugueses podemos ter acesso à sua expressão, através da visita às Galerias da Amazónia; no Museu Nacional de Etnologia em Lisboa.

 

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seattle-11

Sinto que existe em cada ser uma noite que reclama uma verdade profunda, um lugar de reencontro dentro de um tempo sem memória, onde o olhar se cruza com a consciência do mistério. Desenhar traz consigo também essa noite de silêncio que se estende por sobre folhas de papel, registando os afectos dos lugares que habitam o coração.

Desde muito cedo que o violento encontro entre o ocidente e o continente americano, ocupam um lugar destacado na minha consciência e reflexão social; eu próprio, um espectador actuante de um presente que se desenrola sobre as teias do passado.

No final dos anos 80, saía um artigo de duas páginas, salvo erro no Diário de Notícias, sobre um aspecto dessa história sangrenta, decorrida nos Estados Unidos da América do Norte, onde se incluía um texto cujo teor  era atribuído ao “chefe” Seattle (Si’ahl ou Seathl) em resposta à proposta das autoridades Norte Americanas no sentido de adquirirem os territórios do líder nativo.

A minha primeira impressão, ao ler esse texto, foi uma experiência avassaladora, como quando se ouve um tema musical e se sente um arrepio intenso que vibra pelo corpo, num sentido ascendente de energia pura. Nesse preciso instante, tornou-se claro que queria realizar esse texto numa banda desenhada, que surgiu com a mesma urgência que a verdade reconhecida por mim através das palavras do “chefe” Seattle.

Tinha começado há pouco tempo a trabalhar com ecolines e, assim, as 6 primeiras pranchas surgiram numa única sessão nocturna de completo improviso e descoberta, em que as cores se espalhavam, saídas directamente dos frascos, criando o mesmo arrepio sentido na primeira leitura das palavras do chefe Ameríndio. A consciência gráfica de que os blocos de texto provavelmente seriam demasiado extensos, para o leitor habitual, não impediu que eu mantivesse integral a clarividência das palavras, acabando por não optar por um resumo empobrecedor. Numa altura em que tinha já feito várias experiências, de bandas desenhadas baseadas na estrutura de temas musicais, incluí, agora com um tempo de realização mais alongado, duas pranchas sem texto. Pretendendo assim pontuar ambientalmente o reinício de um texto que, segundo o artigo no jornal, teria sido uma carta. Nas 4 pranchas finais, assumi a interpretação através de diversos materiais, que para mim melhor expressavam graficamente o conteúdo das frases.

No ano seguinte, iniciei uma colaboração com o fanzine Dossier Top Secret de Almada e, nessa altura, propus ao Victor Borges publicar uma versão a preto e branco dessa sequência, a que chamei simplesmente Seattle. Refiz então as 6 primeiras pranchas com uma técnica mista, para obter efeitos contrastantes a preto e branco quando estas pranchas fossem fotocopiadas; refazendo algumas vinhetas menos conseguidas, da primeira versão. São os originais dessa segunda versão que agora aparecem no site Quarto de Jade e, depois de fotocopiadas, serviram como base para a publicação no fanzine referido anteriormente. À excepção da nona prancha, que teve alguma intervenção sobre a fotocópia, todas as pranchas seguintes foram reproduzidas directamente dos originais. Nessa edição a inserção de texto foi realizada por mim de uma forma pouco cuidada e a qualidade final, das fotocópias do fanzine, era muito fraca. Por isso, foi com muita satisfação que em finais de 2008 surgiu a possibilidade de editar essa sequência agora a cores, na revista literária Letra en Ruta, publicada simultaneamente no México e nos Estados Unidos; apesar dos constrangimentos da paginação terem disperso a sequência, entre cortada por páginas de texto.

Ao incluir esta banda desenhada no Quarto de Jade, pareceu-me que poderia fazer alguma justiça, apresentando de forma unitária este trabalho, cujo texto mantém a acutilância de uma sabedoria intemporal; se não mesmo uma profunda reflexão, para muitos dos disparates causados pelo nosso pretenso mundo moderno e contraditório.

De forma um tanto inesperada, quando procurei a versão em Inglês do eloquente discurso do “chefe” Seattle na internet, deparei com várias informações, inicialmente surpreendentes, mas que no entanto trouxeram a veracidade da história de um texto, que é considerado por muitos ambientalistas como uma carta de princípios universais. O facto é que em relação ao discurso proferido pelo “chefe” Seattle, em Janeiro de 1854, não existe qualquer transcrição literal; havendo sim quatro versões, em segunda mão, das quais a primeira aparece no Seattle Sunday Star, em 29 de Outubro de 1887, numa coluna da autoria do Dr. Henry A. Smith. Nesta, o autor torna muito claro que a sua versão não é uma cópia exacta, mas o melhor que ele conseguiu reunir, a partir das notas que terá tirado na altura. Existe uma indecisão, quanto ao argumento histórico, acerca de em qual dialecto nativo terá o “chefe” Seattle falado, Duwamish ou Suquamish. De qualquer forma, existe um consenso de que o discurso foi traduzido, já que o “chefe” Seattle nunca aprendeu a falar Inglês.

Esta versão está publicada em língua Portuguesa, num pequeno livro, pela Casa do Sul Editora, com o título: «A Noite do Índio». Edição essa acompanhada de breves notas interessantes, sobre o contexto e outras versões do famoso discurso. No entanto, deva-se referir que esta tradução não faz justiça completa ao texto original, tanto na sua forma como inclusivamente no seu conteúdo. Faltando-lhe particularmente rigor na transcrição coloquial levando a algumas interpretações lacónicas ou acrescentos omissos no texto original. Sendo que a alteração mais relevante e confrangedora é a transformação radical do final do texto, subvertendo definitivamente o sentido do mesmo, num momento decisivo. Uma melhor tradução deste discurso, pode ser encontrada no livro «O Sopro das Vozes», editado pela Assírio & Alvim. Só que aqui, infelizmente, trata-se de um resumo dos momentos que o tradutor elegeu como os mais significativos e não o texto na sua versão integral. A versão em inglês pode ser consultada no site da tribo Suquamish: http://www.suquamish.nsn.us

A tribo Duwamish faz parte da população Nativa Americana do oeste do Estado de Washington e são o povo indígena da Seattle metropolitana. Os Suquamish são um povo do sul da Salish Coast, etnicamente relacionados com os Duwamish. Os Suquamish falam um dialecto de Lushootseed, que pertence à família linguística Salishan. Como muitas das tribos da Costa Noroeste, os Suquamish dependem da pesca de rios locais e construíam longas casas de madeira para se protegerem, nos húmidos Invernos, a oeste das Montanhas Cascade. Estando por isso mais próximos, culturalmente, das tribos do Pacífico Norte, do que das etnias das planícies, tal como eu interpretei a partir do artigo que li no Diário de Notícias. Apesar dos povos de Puget Sound Salish não estarem organizados acima do nível de aldeias individuais, os Suquamish tinham uma localização central em Puget Sound e dois membros desta tribo vieram a ser reconhecidos, pela região, como grandes líderes. Um foi Kitsap, que liderou uma coligação de tribos de Puget Sound contra tribos Cowichan da Ilha de Vancouver por volta de 1825. Outro foi Seattle, filho de Schweabe, que foi um grande orador pacifista durante os tempos turbulentos do século XIX. Apesar de ambos serem referidos como “chefe”, esta é uma atribuição ocidental; tal designação não era usada pelos Índios de Puget Sound.

A segunda versão existente da oratória de Seattle foi escrita pelo académico William Arrowsmith, em finais dos anos 60. Esta foi uma tentativa de colocar o texto segundo padrões de discurso corrente, em vez do estilo mais floreado e victoriano do Dr. Smith.

A terceira versão é a mais conhecida de todas, sendo aquela a que eu tive acesso, através do artigo publicado no Diário de Notícias, e a partir da qual realizei a primeira versão da narrativa gráfica Seattle. Na realidade, esta versão foi escrita pelo professor Texano Ted Perry, como parte de um argumento cinematográfico. Os produtores do filme usaram de alguma liberdade literária, alterando o discurso (só 10% do texto “original” foi usado e algumas passagens foram proferidas com um sentido diametralmente oposto) fazendo dele uma carta ao presidente Franklin Pierce, que tem sido reeditada com frequência. Nunca tal carta existiu ou foi alguma vez escrita pelo, ou a partir, do “chefe” Seattle.

A quarta versão apareceu numa exposição durante a Expo’74 em Spokane, Washington e é uma curta edição do argumento cinematográfico do Dr. Perry.

Segundo Jerry L. Clark, que integra a equipa dos Arquivos Nacionais Norte Americanos, não existe qualquer prova histórica do discurso, referindo inclusivamente com bases documentais, as sérias dúvidas acerca da precisão das reminiscências do Dr. Smith em 1887, trinta e dois anos após o alegado episódio, retirando-lhe pois qualquer força moral ou validade. Baseando-se nos pressupostos dos registos burocráticos da história, nomeadamente daquela que é determinada por funcionários administrativos, das nações que se impõem como vencedoras.

Civilização é sobretudo uma questão de imposição linguística e territorial, não sendo de surpreender que quem conta a história são os vencedores dos conflitos. A relevância dos factos não estará tanto se hoje em dia fará alguma diferença o discurso em questão ter sido originado pelo “chefe” Seattle em 1854, ou com o Dr. Smith em 1887. Talvez que o fundamental seja o reconhecimento de uma constatação profunda que não depende de indivíduos específicos, ou dos arquivos que registam os protocolos da civilização.

Mas de todas estas constatações não se diluiu o impulso que me fez realizar esta banda desenhada. Matéria activa e transformadora, o potencial deste discurso encontrou um novo eco ao despoletar um trabalho conjunto com a Maria João Worm, no sentido de trabalharmos uma versão do discurso de Seattle; agora numa sequência em que desenhos a lápis serão posteriormente trabalhados em linogravura, a preto e branco. Digamos que esta é uma semente inicial que há muito germinava, numa procura de tornar expressão visual uma narrativa baseada em textos dos povos nativos da América do Norte. Trabalhamos assim pensando num projecto maior que encerra, num livro de banda desenhada, uma Planície Pintada. Nesta, quatro histórias, delimitadas por um número de referência destas culturas, envolvendo aspectos da sua mitologia, narrativa de vida comunitária; uma visão messiânica só possível de encontrar quando os espíritos comungam com a natureza e, finalmente, o discurso de um homem face à barbárie da transformação imposta e não desejável. Planície Pintada é também uma espécie de narrativa semiótica, num estado muito próximo ao da tradição oral, que procura unir o sentido profundo que carrega, num tempo e espaço particular, tendendo para uma expressão de espírito universal. Talvez que essa seja a verdadeira História , aquela que percorre o tempo da memória e se recria continuadamente sem um rosto definido, expondo uma verdade na sua revelação.

Diniz Conefrey

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