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Posts Tagged ‘Ilustração’

A escolha de um nome é como um movimento interno que pretende determinar, numa súmula, os conteúdos emocionais sensíveis à razão. Fazendo parte também de uma expressão editorial, o nome Quarto de Jade encerra em si uma floresta de jade e um “crystal cabinet” segundo um poema de William Blake.

Se acabou sendo um quarto é um quarto com vista ampla, numa divisão que é também uma partilha. O jade define os seus contornos, de verdes leitosos e polidos, com seus veios gramaticais, representando os valores que se ligam a uma natureza primordial. Como a barra vertical do site, à esquerda do monitor, que é a raíz comum donde deriva a linguagem própria que define a individualidade de cada autor. Por isso existe, além deste blog e do site Quarto de Jade, uma página no facebook cujo princípio é o de partilhar os bastidores das nossas edições: https://www.facebook.com/quartodejade/

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O rio que nasce de uma árvore e entrou passarinho dentro do café. Delicadeza do gesto procurando repor no espaço aberto o pânico das asas a bater numa sucessão multicolor. Tudo vibra nesse momento, resgatando a monotonia dos gestos previsíveis. O rio voando em torno das cabeças enquanto estas olham pensando na melhor forma de devolver o fulgor à vida certa, sem barreiras, para longe do espaço encerrado onde habitam as palavras que nos prendem ao vago torpor. Enquanto isso, incendiada pela luz ofuscante, uma bola jaz quieta, perdida no meio do areal. Objecto facetado em azul transparente, reflectindo a luz vibrante, indiferente a qualquer cor. Porém, é a sombra que lhe devolve esse momento rasante de breve fulgor. Frágil o corpo, carregando a tensão em violência no centro de um medo ancestralmente venoso, entrou na água ofuscante de cristais cintilando enquanto os olhos deslizaram pelo horizonte em veludo de metal transparente.

 

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Ilustração de Maria João Worm para a Raia, 2017.

«Estas imagens (século XVIII) destinavam-se a um público pouco letrado e podemos vê-las como um fenómeno parente da banda desenhada onde a imagem «faz passar» o texto; no entanto pode ser que se tratasse de um fenómeno inverso. A imagem não sendo ainda de leitura fácil para esse público que se amparava a um texto. Por outro lado, parece certo que o papel do texto não seria somente o de trazer uma precisão, sendo também uma caução ainda necessária para que a imagem fosse de alguma forma autenticada e aceite.»

L’illustration – Histoire d’un Art. Michel Melot. Skira, 1984.

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Página do Códice Fejérvary-Mayer e prancha de Dino Battaglia. Apesar de se identificarem alguns processos narrativos similares entre ambas as linguagens (como os eventos res gestae), os seus níveis cognitivos derivam de planos distintos.

Preconizando um quadro reflexivo, relacionado com o movimento natural para a identificação das suas raízes, não raras vezes são colocados os códices pictográficos, do México antigo, como antecedentes da moderna banda desenhada. Em casos mais extremos serão até assumidos como sendo já banda desenhada. Este pressuposto aponta já para a turbulência das imagens na era da informação global, assumindo aspectos reivindicativos de síntese, baseada na relação sensorial que o imediatismo das sociedades tecnológicas induzem como prática de vida. A linguagem, tal como a História, existe num fluxo de abertura permanente, no sentido que a sua interpretação está exposta às mutações do pensamento que as observa, no tempo e no espaço cada vez mais distante do objecto inicial. Podemos acumular todo um índice de referências, por exemplo, sobre a idade média. No entanto já não nos é inteiramente acessível saber o que sentiam, directamente, as pessoas que viveram nesse período, apenas restando as pistas de como o seu mundo podia – ou devia – ser precepcionado.

Página do Códice Zouche-Nuttal com indicação, no canto inferior direito, do sentido de leitura.

Nessa medida sabemos que no México central foi desenvolvida uma escrita pictográfica que incluía, simultaneamente, códigos fonéticos, topónimos, símbolos ideográficos, tanto descritivos como abstractos  com a capacidade de fixar um discurso tanto de homónimos como de sinónimos. No entanto, os conteúdos – e mesmo a ambiguidade – resultante dessa sobreposição não dependia da intenção de um “escritor” (no caso um tlacuilo, termo nahua que contém o duplo significado de escriba-pintor) sendo antes de mais o reflexo de um quadro cultural onde os símbolos partilháveis, apesar da sua flutuação, assumiam valores canónicos. No corpo social mesoamericano o conceito de estado centralizado não chegou a tomar uma expressão e, apesar da linearidade da contagem temporal, os seus ciclos tenderam para uma regulação circular do tempo. Desse modo, podemos observar que da época de Teotihuacan – cerca de 300 d.C. – até à cidade do México – 1520 d.C. – práticamente não se observam alterações tecnológicas de fundo.

Reconstituição de uma página do Códice Borgia por Gisele Díaz e Alan Rogers. Dover Publications, 1993.

Se de um ponto de vista aparente podemos estabelecer uma relação entre as imagens sintéticas e sua disposição num códice com as páginas de uma banda desenhada, ao nível superlativo tal comparação enferma de uma sustentabilidade estrutural. Como em qualquer outra parte do mundo, um habitante de uma cidade-estado mesoamericana teria presente a sua condição na hierarquia social. No entanto, aquilo a que chamamos “consciência de classe” estaria inteiramente arredado da sua percepção. Esta última formulação, como sabemos, deriva das transformações sentidas na Europa após a revolução industrial, sendo um conceito introduzido pela reflexão marxista no século XIX e que, entre outros aspectos, aponta para o controlo dos meios de produção sentidos em consequência do antropoceno. Estamos portanto muito longe dos códices e do seu contexto social cuja relação objectiva com a natureza dependia do inconsciente colectivo e não das escolhas permitidas pela individuação.

Ou se voit que les japonais ont aussi leur homme au long nez. Imagem de Épinal.

Caberia aqui mencionar que, do ponto de vista processual, palavra e imagem encontram-se fundidos nos códices pictográficos mexicanos, existindo uma consubstancialidade entre o signo e aquilo que designa. Por seu lado, na banda desenhada opera-se uma sincronia que advém da separação entre estas mesmas duas componentes. Enquanto os códices como linguagem são um registo arquétipo a banda desenhada é um sucedâneo da separação entre palavra e imagem – com a qual ainda se debate – sendo que a sua pré-história é identificável ao tempo dos Cris (estampas com legendas, vendidas na rua, entre o século XVI e XVII), na integração do texto em imagens dos cartazes durante o século XIX e nas imagens de Épinal. Narrativa e sequencialidade não são apanágio exclusivo da banda desenhada, estes podem ser reconhecidos antes e depois da sua formalização por Topffer, em vários campos de expressão linguística, plástica e mesmo audio-visual.

Duas páginas do Códice Florentino que incluem sequências narrativas. Outras páginas incluem apenas uma ou duas ilustrações, também inseridas em vinhetas.

Em termos de conceito e contextualização os códices pictográficos não devem ser vistos de uma forma empírica, correndo-se o risco de uma extrapolação política alheia ao objecto e seu significado primordial. Mencionando apenas um aspecto, as páginas em acordeão de um códice poderiam ser consultadas em simultâneo, permitindo facilmente a esta estrutura uma transgressão da leitura linear. Possivelmente as referências eram cruzadas e podiam ser lidas alternadamente. Como consequência da invasão do México, no século XVI, é introduzida na linguagem dos tlacuilos dois aspectos que estavam completamente ausentes: o desenho em perspectiva e a narrativa gráfica. Apesar de muitos códices pós-coloniais serem já elaborados com a primeira alteração, o exemplo mais significativo encontra-se na obra compilada por Sahagún, o Códice Florentino, com a participação de informantes indígenas. A par do texto alfabético, surgem pequenas sequências enquadradas por vinhetas que referem acontecimentos e que são independentes, por complementaridade, ao texto central. Da escrita pictográfica, os tlacuilos são agora solicitados a essa expressão, em pequenas narrativas, cujas ilustrações descrevem uma acção da qual eles próprios estão separados, assumindo-se como observadores de uma realidade da qual já não participam. Quanto aos códices pictográficos, no seu aspecto original, continuam a existir até ao século XVIII.

O mapa de Teozacoalco foi pintado por artistas indígenas em resposta ao questionário das Relações Geográficas do governo de Nova Espanha, no final do século XVI. Do lado esquerdo figura a lista de governantes Mixtecas.

De uma maneira geral haverá pouca gente que tenha presente o contexto que reafirma a clara diferenciação entre uma linguagem arquétipo – os códices – e uma linguagem híbrida – a banda desenhada. Como consequência do novo estatuto social, grande parte dos códices mesoamericanos foram destruídos. No entanto, a continuidade desta linguagem manteve-se mediante a necessidade imposta aos povos indígenas no sentido de provarem a propriedade de terras e as suas filiações políticas através de Lienzos, guardando conteúdos narrativos em tiras ou mapas territoriais. As genealogias também foram valorizadas, tendo em conta que o processo de transposição legal fez com que as instituições ocidentais – como os tribunais – recaissem sobre os antigos centros administrativos indígenas.

O Diário de Jules Renard lido por Fred. Bertrand Editora, 1989.

Actualmente já não existem códices pictográficos e, certamente, estes nunca fizeram parte integrante da história da banda desenhada. A sua realização situa-se no campo da semântica e, por extensão, da história da ilustração. Assim como os hieróglifos fazem parte do campo da escrita fonética, apesar da aparente facilidade com que se podem invocar as proximidades electivas. Podemos ver, de forma cada vez mais clara, que a linha identitária da narrativa gráfica ou banda desenhada se situa entre o século XVIII e XIX, resultando de várias mutações sociais, estéticas e tecnológicas mas que encontra uma clara matiz na intensa concorrência que caracterizou os jornais no início do século XX. Entretanto, as suas questões para o futuro prendem-se mais com a dicotomia latente entre poesia e literatura, no sentido das tensões permanentes entre a dessubjectivação da linguagem realizada no plano da expressão absoluta e o romance enquanto prioridade editorial.

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SETEMBRO

 

“Outro dia”, que não este, pode ter sido ou vir a ser. Que liberdade boa há em “outro dia”. E também dá a justeza do lugar do tempo presente… só ele fica definido pelo outro. Tem em si o princípio narrativo do que pode ser exemplar, como “naquele tempo”. Embora “naquele tempo” se apresente o passado da história. “Noutro dia”, que não este, já me parece referir-se ao passado mas nada nele sugere isso, apenas se define como outro, num outro lugar?

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Só há um carvalho no meio do prado e os bois ocupam toda a sombra das suas folhas.
Cabisbaixos, fazem cornos ao sol.
Estariam bem se não fossem as moscas.
Mas hoje, na verdade, elas devoram.
Agrestes e em grande número, as negras colam-se como placas de fuligem aos olhos, às narinas, inclusive às comissuras dos lábios, enquanto as verdes preferem sorver uma escoriação mais recente.
Quando um boi sacode o seu avental de couro ou bate com o casco na terra seca, a nuvem de moscas desloca-se, murmurante. Dir-se-ia que fermentam.
Faz tanto calor que as velhas, às portas, farejam a trovoada e põem-se a gracejar:
– Vamos ter fogo-de-artifício! – exclamam elas.
Ao fundo, uma primeira lança luminosa rasga o céu, sem ruído. Cai uma gota de chuva.
Os bois, precavidos, erguem a cabeça, deslocam-se até à beira do carvalho e sopram pacientemente.
Sabem que estão a chegar as moscas boas que vêm expulsar as más.
A princípio escassas, uma a uma, depois em magote, todas juntas, precipitam-se do céu destroçado sobre o inimigo que vai cedendo aos poucos, abrindo clareiras e bate em retirada.
Daí a pouco os bois, todos a escorrer desde focinho achatado até à cauda infatigável, bamboleiam-se de satisfação sob o enxame vitorioso das moscas de água.

Jules Renard, Histórias Naturais. Ilustração de Maria João Worm, tradução de Carlos Pombo. Edições Quarto de Jade, 2015.

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ECOS

Suspensão. O sentimento da criança que na praia deserta recebia a memória de outras eras, através da luminosidade diáfana e do som ritmado das águas evanescentes. A fragilidade do corpo em aromas de sal, no ventre anguloso as ardósias desfeitas pelo ar embriagado, evocando um passado tangível de histórias recorrentes. Nostalgia aberta, planando com os elementos, evocativa de uma voz multicolor disposta à emoção. Na terra, as raízes da existência em canto soltando a planura agreste. A voz emergindo em voo de ave afastando-se da sombra, antes de regressar. Um manto liquído aberto pelo mar penteando nervuras. Um dia marcado, em final de estação.

Na zona escondiamo-nos entre corridas sem que soubessemos olhar para além das intuições, rasgando, na bruma matinal, a frescura da água na planta dos pés. Nas arribas permaneciam os veios de sulcos em paisagens minusculas, antes de se sonharem apartamentos sobre a quietude do mar. A quietude desse rumor, suspenso, na vibração da voz que a criança lança para o espaço sem limite, vogando em acordes de flauta sensitiva. Declamação interdependente que retorna do vazio, inspirando uma consciência primordial.

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