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Posts Tagged ‘Novela Gráfica’

Esta entrada surge, como um comentário alargado, em relação a algumas das questões levantadas durante um seminário, cuja terceira sessão foi apresentada na bedeteca dos Olivais sobre o tema Super-heróis – Ética e utopia.

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A próxima sessão deste seminário terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Anfiteatro III), no dia 15 de Fevereiro, com o tema Política e desencantamento.

Iniciava estes tópicos pegando na pergunta final de Helder Mendes que, ao terminar a sua dissertação, perguntava “o que teria acontecido se Adão e Eva nunca tivessem sido expulsos do paraíso?” No quadro do contexto metafórico que este evento nuclear implica, na narrativa bíblica, conviria clarificar que a proposição que leva a tal ocorrência se prende à manifestação do desejo nos seres humanos. E o desejo aqui reveste-se sobretudo de uma analogia com o conhecimento, enquanto consciência de domínio insatisfeito do espaço que habitam e que, se não fossem expulsos dele nunca teria existido a História nem todas as circunstâncias das suas deambulações. Se isso não tivesse acontecido, se o casal do Génesis permanece-se no paraíso, então, muito seguramente, viveríamos num eterno presente, sem a necessidade de confrontos e registos.

Seja como for, e ainda no campo que esta questão possa levantar, poderemos sair do plano estritamente metafórico do Génesis reformulando a pergunta, no contexto das relações da espécie humana, onde ainda existem povos indígenas com uma vivência pristina, ligada à natureza, que os agentes da nossa civilização tecnocrata não descansam antes de os empurrar para fora dessa condição – tanto pela “necessidade” da sua assimilação cultural como pela ocupação e apropriação dos bens naturais que fazem parte das suas áreas ecológicas. Recordo-me de ter assistido, na televisão, a uma entrevista (que se debruçava sobre o tema da utopia) e que o entrevistado (alguém docente, salvo erro, de uma universidade do Porto) apresentava a ideia de que, quando os indígenas do Brasil viram pela primeira vez caravelas, desconheciam o que eram… Pois não dispunham de um nível de pensamento que pudesse formular uma utopia. A armadilha desta formulação não reside apenas na continuidade de preconceitos de “leitura”, baseados na ausência de conhecimento factual, sistematicamente aplicados em relação ao contacto dos europeus com outros grupos culturais, nomeadamente os da América.

Nesse aspecto, a História, do ponto de vista social, tende a ser uma mentira inusitada que, repetida exaustivamente, se transforma numa verdade. Talvez fosse mais relevante mencionar que, tal como analisa Filipe Verde no livro «O homem livre» (Angelous Novos, Editora. Coimbra, 2008), o quadro mitológico dos Bororo do Brasil permitia-lhes um pensamento fora do quadro dos cânones psíquicos freudianos, nomeadamente com a superação do complexo de Édipo. Aqui caberia relembrar que a existência de vida no planeta Terra trata-se, de facto, de uma utopia em todo o universo conhecido – que não é pouco – onde não existe qualquer sinal de outro sistema solar que contenha um planeta com água e dependente dos ciclos da chuva para a fertilidade necessária à existência de vida. De resto, todas as utopias, enquanto formulações humanas, ideológicas ou sociais, encerram necessariamente um potencial de terror e violência como a História o tem demonstrado; pois baseiam-se em conceitos idílicos que prevêem resultados positivos, através da imaginação de um sistema unilateral, sem ter presente uma clara consciência da natureza humana. Dessa forma, podemos entender mais claramente, que todas as construções humanas sejam eutópicas, tentando resgatar-se na sua inquietude – e tensões latentes – através de utopias ou, justificando-se através de distopias.

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Watchmen, de Alan More e Dave Gibbons. Outro livro com enfoque nesta sessão foi Miraclemen, também escrito por Alan More, tendo com ele participado vários desenhadores.

Não vou aqui estender-me no género de narrativas que apresentam os super-heróis na banda desenhada. Nunca as achei, ou senti, como sendo relevantes dentro da linguagem da narrativa gráfica, sobretudo pelos pressupostos plásticos e os modos temáticos que veiculam; apesar de ter lido uma das obras que era mencionada na apresentação da bedeteca. De facto, tal como foi referido durante a sessão, depois de Watchmen todas as séries de super-heróis deixaram de fazer sentido e os tópicos que levantam, com mais ou menos consistência, levam à situação académica de permitir um discurso analítico e prolixo sobre algo tão vulgar como uma pastilha elástica. Citar a República de Platão (tal como a mitologia grega ou aspectos da filosofia de Nietzsche) enquadra-se reconhecivelmente nas premissas do universo imaginário criado através das narrativas de super-heróis. No entanto, num tempo de reflexão urgente seria de relembrar a oposição no mundo clássico entre Platão e os mobilistas. Estes últimos mais próximos a conceitos nucleares semelhantes a outras culturas e regiões do mundo, onde prevalece a sabedoria e a consciência da natureza impermanente do mundo. O sábio não é alguém que acumula informação, livros ou conceitos, como o conhecimento do mundo actual, herdado da parcialidade de um sector, inscrito no pensamento grego da antiguidade. Nesse sentido, Platão é como um super-herói obstinado, pois não reconhece a mais elementar das circunstâncias: a justiça não existe, tanto na natureza como na sociedade humana. E nesta, a principal causa de sofrimento baseia-se nos graus de intensidade, individuais ou colectivos, entre apego e a aversão.

Para ilustrar um pouco estes pontos, retornava a um exemplo de ética e justiça elementar que se passou numa comunidade indígena, no norte do México. Um jovem, durante uma rixa de maus fígados, assassinou um homem deixando viúva a sua mulher e órfão o seu filho menor. A deliberação do conselho comunitário foi a de impor ao jovem assassino uma pena que o obrigava a ter que trabalhar para sustentar a família do homem assassinado. Como no México vigoram, paralelamente, as leis comunitárias e as leis federais, esta última – por se tratar de um crime grave – lançou o assassino na prisão retirando-lhe qualquer possibilidade que não fosse o castigo “exemplar” que, além da sua inutilidade, como sabemos, acaba por permitir a corrupção integral, através da elevada concentração de indivíduos responsáveis por actos ou práticas ilegais.

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Desenho de Vincent Fortemps.

Voltando um pouco atrás, os homens que vinham nas caravelas que os índios do Brasil supostamente não reconheciam, eram movidos também pelos conceitos herdados da antiguidade clássica. Criadores da utopia global que, na sua prática, revelou-se um movimento economicista baseado na insatisfação e depradação dos recursos humanos e naturais. Todos sabemos quais foram os resultados. O que ainda não sabemos é como reverter este fluxo, encontrando novos paradigmas que passem transversalmente por todas as actividades humanas. A tendência de arrumar a informação acumulada em gavetas não ajuda a este pressuposto. A banda desenhada é uma linguagem e nesse sentido a questão dos géneros só interessa a uma industria que vive da estigmatização do público, confortavelmente assente numa “crítica” especializada. Julgo, porém, que esta tem dificuldade em dispor de uma abordagem metodológica conceptual assim como lhe falta a sintaxe necessária para explanar um discurso inequivoco sobre aquilo que à narrativa gráfica é fundamental. Um exemplo muito simples desta circunstância pode ser constatado através da utilização frequente do termo “realista” para designar uma certa forma de desenho. Realista porque vem da realeza? Realista porque é a realidade? A representação naturalista assumiu durante séculos o seu papel de aparência reconhecível, sendo que muitas das vezes não consegue uma reflexão profunda da “realidade”, projectada por outras formas semi-ópticas, como o expressionismo, a caricatura ou mesmo o abstraccionismo, entre outras.

Os géneros alimentam a parcialização idiossincrática do mercado, fomentando a competição e o reconhecimento institucional, do qual é criada a tipologia académica enquistada por valores cumulativos. Quanto a mim, um livro ou é bom ou é indiferente. Ou seja, ou nos apresenta aquilo que é matéria de reflexão da vida através da sua formulação plástica, ou então, mesmo que coloque equações susceptíveis de pensamento é inútil, inclusivamente na forma em que cristaliza o seu imaginário.

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Ilustração de Dave McKean.

A produção industrial excessiva, dependente do consumo de necessidades induzidas por um sistema de bem estar material, acaba por ser um reflexo de um sistema político democrático cuja ferramenta de gestão (e absorção) dos vários grupos de interesse está sempre dependente de uma mesma economia, criadora de excessos e desperdício. Todos somos conscientes que este sistema não é sustentável e que todos no mundo querem ter acesso a este nível de vida. Nesta era centrada numa espécie humana que deixou de dialogar com a natureza, para passar a dialogar com uma tecnologia que ela própria inventou, as questões de ética acabam por ser detalhes de circunstância que alimentam o poder normativo dos meios ou sistemas que fixam a informação. A ética, o bem e o mal, são mediadores permanentes que registamos e que tendemos a fixar nas múltiplas formas das nossas narrativas, pessoais ou colectivas. Talvez que a amoralidade fosse o único tópico a ter em consideração, no sentido de mitigar a tendência mais comum para o reconhecimento de uma vertente moral ou imoral, inscritas nas acções humanas. Neste ponto seria interessante realçar que a mecânica quântica rege-se por pacotes de energia, ou seja que esta se dá por saltos e não por aproximações. Que existe uma consciência primordial e que esta não decorre do cérebro humano e da sua consciência local. O que nos torna responsáveis, enquanto parte interdependente e interconectada, na realização de um equilíbrio reconhecível cujas premissas são, inegavelmente, opostas ao sistema sócio-económico que nos rege.

Longe das conceptualizações de um “eterno retorno”, muitas vezes identificado na identidade de várias expressões culturais humanas, seria interessante relembrar que, no que diz respeito ao mundo moderno o paradigma é sempre “viver melhor”, e que para os povos indígenas da América a posição sempre foi a de “viver bem”. Neste último ponto, a única questão com relevância é a de sabermos se vamos optar, no futuro, por encontrar um equilíbrio sustentável, assente no diálogo inter-cultural; implicando a recusa ou a reformulação de muitos dos nossos conceitos e sistemas. Ou se, enquanto super-espécie dominadora, vamos continuar resolutos na delapidação da única utopia que conhecemos, o planeta terra, para manter os vícios de uma civilização tecnocrata que apenas defende a liberdade da sua prisão económica.

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Judea é uma adaptação livre da novela «Mocidade», de Joseph Conrad, para narrativa gráfica da autoria de Diniz Conefrey, recentemente editada por Pianola Editores. Este livro tem um formato de 19 x 27 cm, 84 páginas a preto e branco numa tiragem de 400 exemplares. Encontra-se disponível para venda na internet através deste link.

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«Do livro para esta novela gráfica, a matéria é a mesma, o fogo é o mesmo, mas nesta outra aproximação o mar engole a representação do indivíduo, embora ele seja também a vaga que permite a vida. A tonalidade central nesta leitura já não é a mocidade nem toda a sua energia, que confronta e supera os males do mundo. Toda a substância, neste outro olhar, volta-se para o imponderável através da descrição dos eventos abertos aos sentidos, pulsando a narrativa em contraponto entre a imagem de acção exterior e um sentido visual abstracto; como expressão subjectiva de uma realidade interior. O narrador já não é Marlow, descrevendo os seus dias de mocidade, mas uma voz omnisciente que acompanha o leitor através da trágica viagem de um velho navio, procurando alcançar o Oriente.»

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5 - O colibri à esquerda

Toma-se com esta edição, que conjuga texto e imagem, uma perspectiva que propõe, através da vivencia particular de uma personagem, reflectir a leitura de um mundo, mesmo que este nos seja alheio e distante no tempo. O gosto pela interpretação também passa por assumir uma consciencia de que nem todos os aspectos, mesmo que semelhantes na aparencia, são inteiramente realizaveis na evocação de um corpo social e cultural já distante. Como sucedaneo de um longo caminho de comunicação semiótica encontra-se, também, esta infima proposta que apresenta uma visão de um passado através dos instrumentos que a narrativa gráfica moderna disponibiliza. Para mostrar uma parte do seu interior reconhecível, fica o convite para a exposição virtual Relatos do Livro dos Dias, no site Quarto de Jade que, com a colaboração da Pianola Editores publicaram o livro agora disponivel na loja do mesmo site.

O livro

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Os livros não são como os filmes, da mesma maneira não o são outros tipos de publicações que sequencializam com sintaxes diferenciadas textos e imagens. Caberia aqui uma breve nota a propósito das minhas ultimas duas colaborações na revista Intervalo nº5 e nº6. Esta é uma revista que se propõe pensar a actualidade, não sendo de estranhar que cada número apresente uma temática para criar um corpo de reflexão. Os seus editores partem da convicção de que a subordinação a estratégias de sucesso e de imposição de imagens e modelos não é uma fatalidade. Como tal, não visam de modo nenhum concorrer para a acumulação de saber pronto a consumir. Recusam o espaço-tempo do consenso, as suas estratégias comunicativas e as visões totalizadoras. Assim, pretendem desencadear novos ritmos que se afirmem como brechas na edificação tendencialmente hegemónica da cultura. Afirmam o abrandamento de velocidade, a pausa e a incerteza, enquanto modos de resistência às exigências de circulação e comunicação. Atravessar, pela análise e a crítica, as fronteiras entre tipos de discursos e entre estes e as actividades a que se referem. Desenvolver a relação com o heterogéneo, a intempestividade, a dissonância. Acentuar a interrupção, os vazios que se abrem nos enunciados e não são apenas da ordem das distâncias exigidas pela atenção aos outros, mas sim do excesso de significação que intensifica e infinitiza.

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Com uma ilustração de Maria João Worm, colaboro na Intervalo nº5, de 2012, com o texto A casa das flores. Dissertação poética que busca na memória recente a minha experiência em carne viva na Cidade do México. As borboletas têm o tamanho de uma mão aberta e as deambulações ao sabor do mezcal fundem passado e presente de uma vivência repleta dos imponderáveis das contradições; espaços, pessoas… ressonâncias de memória afectiva. Para o nº6, saído à poucos dias, volto a um trabalho realizado na mesma cidade e que espera por ser finalizado. Do romance gráfico Nagual, sobre a qual já tive a oportunidade de publicar um post neste blogue, é publicado neste último numero da Intervalo o capítulo Lugar do Coração, uma banda desenhada de 11 páginas com o texto revisto para se apresentar como uma narrativa “independente”, do corpo que constitui este projecto iniciado em 2007. Um segundo capítulo, O Segredo, está disponível em PDF no site Quarto de Jade; enquanto a narrativa original se mantem suspensa no fio do tempo por acordar. Para mais informações sobre a Intervalo, fica aqui o link da editora O Homem do Saco, para consulta.

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Mesmo durante a estação das chuvas há dias em que as nuvens se recolhem e o intenso calor latente, nos poros da imensa Cidade do México, comunga do mesmo clima veraneante que se faz sentir em Lisboa, no outro lado do Atlântico. Em 2007 choveu mais do que o habitual, com os relâmpagos tão próximos que pareciam reverberar na nuca, após se anunciarem aos ouvidos. Tlaloc ecoa pelos ares, a água e a terra que se amam violentamente, enquanto a cidade se recolhe e espera por dias assim, brilhantes e macios como as cores das flores de jacarandá, e uma vontade imensa de sair pela rua fora. San Angel é um simpático bairro que fica a sul, na imensidão da populosa  metrópole mestiça. Neste, Rio Chico é uma rua que já foi um rio. Agora, é uma “ilha” perfeita, até para os jovens estudantes, com ou sem uniforme, dependendo das idades. Enquanto as aulas decorrem, taxistas solitários vêm encostar aos passeios tranquilos, dormindo ou namorando, enquanto não se esgota a frescura calma da manhã. Rasgando esta quietude quase bucólica, muito perto estendem-se, paralelamente, as mega avenidas Revolución e Insurgientes.

Sigo mais para sul desta última, o calor pardacento no tráfego das multidões; dos carros, camiões e micros que dão cor ao fundo inacabado dos edifícios, construídos ou em construção. O ar da cidade está impregnado por um odor permanente de tortilhas; de milho cálido tão denso como os passeios sujos e cinzentos, pontilhados por bancas de jornais, revistas e comidas. A UNAM, a universidade estatal, é como uma pequena cidade dentro dessa outra. Com supermercado, autocarros, bicicletas de aluguer e múltiplos sectores para as diversas áreas de estudo. Dirijo-me ao edifício da biblioteca, através de um passeio coberto e muito movimentado, onde jovens vendem livros, DVD’s, CD’s, artesanato… tudo sobre mantas estendidas no chão ou em mesas repletas, a preços de ocasião. Aqui, o campo universitário é uma vasta área relvada com profusão de árvores, por entre as várias praças com os seus edifícios departamentais. Por todo o lado circulam, descansam ou tocam, uma multidão de estudantes serenos na sua intensidade latente.

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O edifício da biblioteca destaca-se como uma montanha de imagens, por estar completamente decorado, em cada uma das suas faces, vibrando em narrativa a história do país. Desde as raízes pré-hispânicas, passando pela convulsiva revolução até à modernidade tecnológica. Espaço e tempo, invólucro da informação inscrita à espera de uma sabedoria que a resgate das estantes e a torne uma vez mais viva, em múltiplos frisos de continuidade.

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Quanto a mim, trazia uma vontade de narrativa gráfica assente na procura de uma antiga crença mesoamericana, de poder xamânico e de transformação. Uma crença que continua viva no México moderno e em que a identidade da alma humana se manifesta através da forma de uma espécie de animal; tendo este um carácter espiritual, protector ou mágico. Apenas encontrei catalogados dois livros que se referiam a este conceito: o Nahual. Que deriva do termo nahuatl, nahualli, querendo dizer “lo que es mi vestidura o piel”, referindo-se à capacidade do nahual em se metamorfosear fisicamente numa criatura do reino animal. Este termo também transpira a noite e aos caminhos cruzados, necromancia, segredos e malícia. Nagual é o termo derivativo moderno para o idioma castelhano do México, com o sentido de feiticeiro ou truque.

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Mas nesta imensa biblioteca, as referências andavam perdidas. Na secção onde deveria estar uma das publicações esta estava a ser reorganizada, não sendo acessível ao público. Quanto ao outro título, ou estaria requisitado ou já não constava do acervo bibliotecário. Mesmo assim, tive acesso a dois grandes volumes sobre a pintura mural teotihuacana, que iria constituir toda a gramática gráfica para a novela que me propunha fazer. Teotihuacan é a cidade do meu coração, um espaço cosmológico desenhado por sóbrios volumes horizontais, do qual se destacam, verticalmente, as montanhas mitológicas piramidais. A escala arquitectónica é supra humana, todas as suas linhas e volumes conduzem a uma presença existencial de sentido superior, colectivo e impessoal. As pinturas murais não representam monarcas ou heróis culturais. Cores intensas fazem vibrar decorações semi-abstractas habitadas por animais, reais ou mitológicos. Sacerdotes em procissão ou homens comuns imersos nas fábulas canções do mundo natural. Os deuses são árvores que tal como as flores derramam as suas lágrimas de fertilidade por sobre a terra. Os jaguares e os coiotes, adornados de plumas, reflectem na sua selvagem natureza animal a “branca consciência da florescência”, que espelha a conjugação de uma entidade humana palpável e o seu duplo nahual.

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Diniz Conefrey

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