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Posts Tagged ‘Poesia’

Um beijo, um destino que se abre lento enquanto cada passo assegura a perda que se acende dos nódulos de um corpo em livro que se desdobra e encerra tudo sem nada ter escrito.

As ruas são muito largas, como folhas caducas. Estendo então os dedos e guardo em mim essa condição vagarosa de passo incerto, constante na sua alocução interior. Como companheiro apenas um copo transparente.

A mesa roda enquanto o poema se desfaz e então acendo mais um cigarro. Uma prática tão banal como a diluição no centro deste ritmo percussivo. A língua toca o céu da boca procurando as imagens no seu interior. São estrelas que se desfazem dentro da noite.

Recuo na minha fragilidade e a bebida de cana inunda um coração descoberto na palidez do amanhecer. Enquanto as rosas abrem em tranquilidade demorada, sem espaço para crescer a fome que vem do interior dos dias gastos como cigarros que se acendem num lume de paixão.

Encerrada na brevidade desta sorte, um arcanjo solitário observa, ao fundo de um corredor de veios sombrios, esperando até chegar o tempo em que se lhe ilumine o rosto. Fogo laranja de vida que se consumiu arrastando toda esta pulsação.

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O TEATRO DO TEMPO

«Registos, marcas, relatos. Rastos, memórias, vestígios. Subitamente, caminha-se sobre os mortos, num espaço tecido de tempos que se sobrepõem e combinam: esse espaço temporaliza-se, estratifica-se, e o que está à vista evoca uma outra rede de imagens, apenas lembradas de cor, nas quais se foi fixando uma relação com o tempo que Walter Benjamin resumiu lapidarmente em «Sobre o conceito da História» (1942), ao afirmar que «fomos esperados sobre esta Terra» (Benjamin 2010: 10). Mas saber que é assim, e que nos foi dada «como a todas as gerações que nos precederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito» (ibid.), é certamente menos forte do que ver que é assim. Porque então é como se o tempo nos olhasse nos olhos e nos interpelasse, de tal modo nos sentimos sob um efeito de vertigem: literalmente, o espaço desdobra-se — e o tempo amplia-se à nossa volta.»

O Cinema da Poesia. Rosa Maria Martelo, 2012.

 

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FILL IN THE BLANKS

Em cada imagem está o que conseguimos ver. Uma conversa finita porque discorre no discurso de referências pessoais. Mas também o potencial do infinito que será a palavra única, a assinatura da imagem. Descentrada do saber de cada um. Partilhável na intimidade do tender para o que transcende.

Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio, obrigada! A voz no timbre mecânico sincopado e reconhecível em aeroportos, comboios, plataformas do metro, centros comerciais, supermercados. Grandes superfícies, onde ecoam as vozes que ora indicam, encaminham ou até nos aconselham a ter cuidado com diversos perigos.

Imagino um passeio no deserto: Atenção, cuidado com o lacrau, pode ser mau. Ou atenção ao escorpião, pode estar aqui ou não.

Atenção ao intervalo entre escrever e viver. Atenção ao intervalo entre emoção e razão. Obrigada!

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ECOS

Suspensão. O sentimento da criança que na praia deserta recebia a memória de outras eras, através da luminosidade diáfana e do som ritmado das águas evanescentes. A fragilidade do corpo em aromas de sal, no ventre anguloso as ardósias desfeitas pelo ar embriagado, evocando um passado tangível de histórias recorrentes. Nostalgia aberta, planando com os elementos, evocativa de uma voz multicolor disposta à emoção. Na terra, as raízes da existência em canto soltando a planura agreste. A voz emergindo em voo de ave afastando-se da sombra, antes de regressar. Um manto liquído aberto pelo mar penteando nervuras. Um dia marcado, em final de estação.

Na zona escondiamo-nos entre corridas sem que soubessemos olhar para além das intuições, rasgando, na bruma matinal, a frescura da água na planta dos pés. Nas arribas permaneciam os veios de sulcos em paisagens minusculas, antes de se sonharem apartamentos sobre a quietude do mar. A quietude desse rumor, suspenso, na vibração da voz que a criança lança para o espaço sem limite, vogando em acordes de flauta sensitiva. Declamação interdependente que retorna do vazio, inspirando uma consciência primordial.

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O sulco que, na anatomia da tarde, rasgou por Coyacán para desaguar em San Angel.

 

Altar alegórico para o dia dos mortos. As cores magmáticas saindo directamente dos tubos de guache.

Choveu esta tarde? Em frente, na casa amarela, já a noite das palavras tinha iniciado a espiral que atravessa as grades. Rio Chico, Tizapán.

A artéria das palavras atravessa, tombando como luz, pelas telhas vítreas inundando a casa etérea.

 

Dedicatória a Luis Verdejo e aos seus poemas da mão esquerda. Ceramista, escultor, pintor imprivisível dos espaços partilhados.

 

 

 

 

 

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Um livro pode sempre ter outro nome, outra capa. Outra mão que o conduza, fundo, para dentro do mistério de que se resolve o mundo. No coração de agave reune-se um ciclo de poemas aludindo ao corpo transgressor vivenciando um México inflectido. Através da raíz da sua forma, expirando os conteúdos em verso num livrinho fixando esses mundos que, do olhar, encontram uma expressão no interior vago e inquieto da poesia. São nove poemas em caligrama pendular, editados pela Douda Correria, convidando, desde já, para a sua apresentação – no dia 25 de Maio pelas 22 horas no bar A Barraca – com a presença dos poetas oficiantes (Nuno Moura, Diniz Conefrey, Maria João Worm); falando e lendo das janelas que se abrem neste outro tempo, neste outro espaço a aurora memorial.

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CONFIDENCIAS

reading

«Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.

Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem-um leão a dormir!»

 Almada Negreiros, A invenção do dia claro.

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