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Posts Tagged ‘Poesia’

naquela placa sidérica, azul e inclinada de adrego para a delida vara do anteparo liberta já da onomástica de todas as cores da atonal verborreia de Scriabin – ou de sua tastiera per luce – e daquela obstinada voragem dos sais dos negativos sobre vidro – daqueloutros que sobreviveram entre o abismo dos suicidários marinheiros de Gosport e do mecânico avanço dos ferries para Wightlink: espalhada sobre o zinco numa vaga ideia de mar enferma da dor fantasma do coto do antebraço amputado em Indocuche:

 

muito vale adentro, para nordeste, na nonagésima carga de napalm antes da GBU-43 agora num tempo só nosso – o da Arte da Fuga de um canadiano demente – súbdito ainda da Imperatriz da Índia e debruçado numa partitura eivada de laivos sanguíneos furtados dos olhos raiados sobre o plasma vitrificado (e sua tão acerada opacidade) pela destreza de mãos de Julia Margaret Cameron iluminando Sir John Herschel depois de baptizar 4 luas de Urânio e 7 de Saturno no Cabo da Boa Esperança antes de 1847; no atlas, sob nuca, já uma dor persistente – Margaret aguando o cabelo de prata – anunciando do seu canapé que talvez estivesse (mais uma vez) para acabar o Mundo

 

Alexandre Sarrazola.

Afluentes de Adobe, edições Quarto de Jade, 2018.

 

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TENSE DRILLS

Esta série de poesia-colagem teve como ponto de partida o livro epónimo de gramática inglesa de L. W. Giggins e D. J. Shoebridge (Londres/Hong Kong, Longman, 1970). Algumas frases procedem (mais ou menos textualmente) dos exemplos dados nesse volume, já que o plano primitivo era fazer uma espécie de pseudo-manual ilustrado sobre tempos verbais. A certa altura, presente, pretérito e futuro enovelaram-se e perderam boa parte da função estrutural que tinham no início; a série tomou outro(s) rumo(s), e as imagens e ideias que foram aparecendo pediram-me outras palavras. Forma e espaço foram, desde o começo, considerações importantes – e ritmo e rima (por enviesada que seja em muitos casos) surgiram de modo espontâneo, para complicar estes «exercícios» cujo único interesse prático foi o de me manterem ocupado durante os períodos de confinamento de 2020 a 2021.

A maioria das figuras provém de números avulsos das revistas Paris Match e Life en Español, e o texto foi dactilografado na minha velha Antares 20T Efficiency. Esta ligação física com o passado tornou-se importante para a série e uma parte significativa do prazer de a construir.

Rui Pires Cabral

Tense Drills. Edições do Saguão, 2021

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TASHI DELEK

Entre os dias 12 e 13 de Fevereiro comemora-se na China o Ano Novo, do calendário lunar e solar asiático, tendo esta celebração na região do Tibete a denominação de Losar. Tashi Delek – Feliz Ano Novo, apesar da indiferença geral pela vaga de autoimolações que, desde 2009, têm ocorrido nos Himalaias como protesto face às políticas de descaracterização cultural promovidas pelo governo chinês.

Enquanto fora da China tem havido muita discussão, por parte de bloggers tibetanos sobre as autoimolações, alguns intelectuais chineses preocupam-se pela falta de comentários nos fóruns progressistas online sobre este facto na China. “É o elefante no quarto de que ninguém quer falar”, disse o proeminente escritor Wang Lixiong a Andrew Jacobs do New York Times.

O poema que aqui trazemos foi escrito por um blogger tibetano anónimo em dedicatória ao escritor Choepa Lugyal. Provavelmente foi censurado devido à referência a fogo e chamas ou talvez por causa das sensibilidades políticas recaindo sobre o escritor detido. A tradução deste poema foi realizada a partir da versão em inglês disponibilizada no site High Peaks Pure Heart.

 

A verdade das chamas no caminho difícil

 

Para Me Che que é ignorado

Cercado pelo frio e pelas sombras da escuridão

A chama da verdade arde na tenda de ferro

Mas a chama é tão humilde

Não existem janelas na pequena casa estreita

Não há escala para medir a realidade

Apesar de teres tanta esperança no que está de fora, pedinte!

Ninguém pode apagar a tua sede

Portanto, a única maneira de resolver o teu sofrimento de fome e sede

é de acreditar no karma sem-tolice

se tu meditares no karma da causa e efeito, tu obténs a realização

sem nunca voltar atrás

No entanto, existem sempre lágrimas nos olhos da velha mãe; a amada

mulher engole a tristeza no seu estômago e toca ternamente os cabelos

na cabeça da pequena criança

Consegues ver isso?

A vasta terra solitária

O puro céu azul

Parado num cruzamento

eu estou a beber chá ao lanche

Mas não consigo nem urinar nem defecar

Pensando em ir consultar um médico

Poesia dialética emerge na mente…

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Em cada livro aberto

respira-se o presente

http://www.quartodejade.com/shop_books.php

Podemos aqui citar o comentário espirituoso de Italo Calvino, a quem uma mulher perguntou: «Desejaria que eu lesse nos seus livros somente aquilo de que você está convencido?»

«Respondi: “Não é isso. Dos leitores eu espero que leiam nos meus livros qualquer coisa que eu não soubesse; mas só posso esperar isto daqueles que esperam ler qualquer coisa que eles, por sua vez, não soubessem.”»

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Pedro Burgos e João Paulo Cotrim. Revista Le Cheval sans Tête, volume 5. Editions Amok, 1998.

Uma breve reflexão sobre a narrativa leva-nos ao ponto inicial, de uma certa clarificação, no sentido de estabelecer uma diferença entre a possibilidade, em aberto, que apresenta uma folha em branco e as características de fruição, perante os modelos demarcados por um mercado e sua relação com os géneros e a indústria. O suporte, neste caso a narrativa gráfica, conjura as possibilidades de uma linguagem onde se incluem vários níveis de segmentos em permuta, oscilando permanentemente entre o particular e o referencial.

Da virtude que podemos reconhecer, no seio das narrativas mitológicas, será a de um corpo social interligado, existencialmente, através do imaginário; da fabulação complementada pelo entorno geográfico e sem a necessidade de constatação porque, entre outros factores, não depende da individuação. Poderá dizer-se que, o mito, enquanto verdade absoluta, trata de uma narrativa que se reflecte, posteriormente, em todas as formas de arte características de cada cultura. Apesar desta constatação de um saber pré-conceptual ser muito distinto do nosso mundo actual, já fragmentado e, simultaneamente, dependente de todas as graduações – evolutivas ou involutivas – que contém a deriva civilizacional; é a expressão dessa natureza profundamente criativa – e o simulacro pelo qual se consegue visualizar aquilo que é da ordem do não dizível ou subliminar – que nos aproxima em torno de um conhecimento reconhecível.

Diria que, em relação à narrativa gráfica, estamos perante uma circunscrição de margens poéticas na qual a subjectividade interroga e, paralelamente, se exprime objectivamente através de uma necessidade interior visando reconhecer o essencial. Este essencial, no entanto, não depende apenas da determinação imposta pelos processos conjunturais, sendo, no seu amâgo, um reflexo de capacidades semânticas pela qual a polifonia dos sentidos poderá encontrar a sua tonalidade exterior. Nesse sentido, uma cultura multidisciplinar introduz uma perspectiva relevante, tanto ao fazer eclodir o potencial sintáctico cristalizado nas abordagens de variações formais, como no reconhecimento da riqueza expressiva, subjacente a um suporte essencialmente sequencial. Uma narrativa pode ser independente de uma história – esta enquanto dramatização de uma conjectura. Ou seja, pode existir numa grelha de percepções sem estar dependente de uma formulação literária que, sendo lícita, não é exclusiva; estando esta matiz ligada a uma estrutura mais próxima do romance:

1-O Cenário, onde as personagens se apresentam no espaço/tempo, introduzindo a tensão narrativa na qual vão actuar a partir de um incidente que perturba a ideia de um “equilíbrio” inícial.

2-O Enredo, como expressão de uma dramaturgia, criando a sucessão mais longa da narrativa, ao desenvolver uma dinâmica conflituosa entre os sujeitos interactivos – cujo desfecho encerra o momento final:

3- A Resolução, cujo contraste marca a memória, podendo haver uma epifania – seguramente o retomar de um equilíbrio distinto do inicial.

Susa Monteiro. Revista Venham +5, número 5. Bedeteca de Beja, 2008.

Apesar deste aspecto narrativo comum, o plano existe antes da forma, ou seja, a matriz sequencial pode existir autónoma dos aspectos de casualidade, no sentido em que a consciência também se encontra abrangida por leis de probabilidades na qual as aproximações se dão por saltos e não por aproximação. Na poesia a dramaturgia flui ao longo de uma espiral rítmica, e a sucessão de acções diluem-se para dar lugar a uma sintaxe que perscruta o essencial das formas e dos sentidos. Continuamos no plano da linguagem, da sequencialidade, mas, deste modo, a permuta narrativa encadeia-se através de momentos em série – onde as imagens (visuais ou escritas) se articulam em torno de sinapses evocativas, sem serem subservientes à lógica da intriga ou da acção – menos ainda de um final conclusivo. O espectável é suspenso por uma formulação indirecta, onde o silêncio das contemplações interiores concorre – com o sujeito ou tema – para tornar audível uma ressonância de conteúdos que, naturalmente, podem ser diversos – dependendo mais do tom do que das circunstâncias.

De certa maneira existe uma proximidade narrativa nestas abordagens, porém sem serem idênticas, ao concorrerem no sentido de um vislumbre comum. Na arte moderna, o abstraccionismo permitiu ultrapassar a fronteira plástica da descrição, impressão e expressão, ao emancipar as formas das suas possíveis contenções líricas. Nomeadamente a escultura, antes circunscrita a uma relação de volumes sempre dependentes de uma expressão compacta, abrindo, através do abstracto, para dinâmicas que permitiram leveza e novos registos de composição (a linha passa a ter uma dimensão escultórica – a escultura deixa de representar a forma natural), algo completamente impossível no patamar anterior. A simbiose de uma consciência imaterial tornou, assim, plásticamente possível uma percepção de volumetrias musicais, do mesmo modo que poderíamos considerar a música como sendo uma arquitectura líquida. Estas correspondências, mesmo que num plano aparentemente exterior à banda desenhada, debruçam-se sobre um mesmo carácter de transposições, envolvendo várias dimensões de relacionamento entre tempo e espaço que podem concorrer, também, no plano de uma expressão sequencial.

Cátia Serrão. Bande Dessinée et Abstraction, volume 2. Presses Universitaires de Liège/Collection ACME, 2019.

A banda desenhada abstracta não é fruto de um experimentalismo, sendo apenas a constatação de uma interdependência na qual todas as linguagens se encontram para além das especificidades de cada época e, simultaneamente, como resultado delas. Dentro do campo particular da narrativa gráfica, o abstracto não deixa de corresponder ao princípio da solidariedade icónica, tal como é identificada por Thierry Groensteen no seu livro «Systéme de la bande dessinée» (Paris, Presses Universitaires de France, col. Formas semióticas, 2011) – a montagem, a paginação e o traçado. No entanto, a sua dinâmica sequencial solicita a participação do leitor a um nível semântico de maior subtileza. O plano axiomático das formas traduzem sensações que tanto se podem relacionar por sequências, séries ou infra-narrativas. Neste aspecto, parece-nos que o referencial do leitor é subtraído, nas suas características mais correntes (e literárias) – como a identificação ou a modelação dos sentidos vinculados ao texto – para um grau de silenciamento onde a interpretação reverbera num plano íntimo, no qual tempo e espaço operam uma fusão, emancipando-se de uma postura cognitiva. Apenas uma musicalidade de silêncios, ou, formalmente, como um trecho musical onde apenas o som participa. Sem a necessidade de uma voz narrativa, emprestando sentidos à canção; assumindo os instrumentos as suas modelações através de uma composição fluindo.

A banda desenhada inclui um processo de relacionamentos narrativos onde coexistem vários aspectos, interiores e exteriores à sua prática corrente. Uma folha em branco apresenta um vazio, um oceano de possibilidades com as suas marés fazendo levantar ondas amenas ou grandes tempestades. Todas essas disposições têm a sua expressão, ao tornarem visível, através de uma diferenciação o que parecia estar ausente – mantendo livre e aberto o ritmo de uma arte que navega para reconhecer o mais profundo daquilo que é.

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BROKEN MUSE

Entre as salas vazias, duas asas para a «Broken Muse», «Hell» e «Grief». Mas aqui a memória não é arqueologia.

Depois da edição do livro seminal «Biblioteca dos Rapazes» (Pianola Edições, 2012), os poemas visuais de Rui Pires Cabral transpareceram numa série de publicações onde o universo lírico deste autor se reinventa permanentemente. Ao descer fundo nas melodias secretas que escrutina, num sentir provocativo e reflexivo, de poemas que se complementam visualmente; as suas coreografias ambientais traduzem e aproximam o leitor de uma dimensão semiótica da intimidade que apenas raros poetas conseguem, mesmo através do uso exclusivo da palavra.

«Drawing Rooms», editado em Junho deste ano pela chancela da não (edições), organiza-se em quatro momentos assinalados: «Songs», «Ghots», «Heartaches» e «Mysteries» que desenvolvem um arco consistente cujo palco ecoava já em «Elsewhere/Alhures» (publicado pela mesma editora em 2015) encontrando agora toda uma margem sintética, sem a presença de qualquer poema nos quatro enunciados, onde cada imagem é simplesmente acompanhada por uma legenda, surgindo um «Afterword» no final das 53 páginas que compõem esta edição.

 

 

Livro inóspito, que formalmente adquire uma amplitude sequencial, ao congregar a claustrofobia de um palco encerrado no interior circunscrito de paredes. Individualismo retido nas veias das suas próprias evocações, abre, no entanto, ressonâncias plurais. Sobretudo quando flui por uma revigoração silenciosa, de que os modos apenas são emprestados; despindo e expondo, de forma súbtil, o encontro das harmonias que juntam o livro às visitas interrogativas dos seus atentos leitores.

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Keren Katz e Shahar Sarig.

Trata-se de uma forma criativa híbrida, que combina aspectos da narrativa gráfica e da poesia. A sua linha define-se a partir da sintaxe da banda desenhada – imagens, paineis, balões de texto e outros aspectos, no sentido de produzir uma expressão artística próxima da poesia tradicional.

Desde meados de 2000 que vários artistas poetas, como Matt Madden ou Julie Delporte, começaram a publicar, de forma independente de cada um, referindo-se expressamente ao trabalho que estavam a desenvolver como Comics Poetry. Este termo é aplicado a um campo crescente de trabalhos cujo teor se apresenta fora das definições tradicionais, tanto da banda desenhada como da poesia. Uma simbiose que encontra as suas origens nas iluminuras, romances gráficos, poesia concreta e poetas que combinaram imagens e textos, como Kenneth Patchen (https://en.wikipedia.org/wiki/Kenneth_Patchen).

Alexander Roth, editor da revista Ink Brick – A Journal of Comics Poetry (https://inkbrick.com/), acrescenta: «Eu chamo ao trabalho que realizo e publico “comics poetry”. (…) Ao fim do dia, mais do que qualquer outro praticante, um poeta está apenas a lidar com palavras… Palavras não são estritamente necessárias para uma banda desenhada, mas naturalmente também estão presentes para serem usadas. Vinhetas não são necessárias, mas também estão aí para serem usadas. Da mesma forma que o manancial do poeta contem cada arranjo imaginável, ou manipulação de palavras, o cartonista dispõe de analogias como elementos visuais da página.

À esquerda, August in Pasikuda de Deshan Tannekoon e Isuri Merenchi Hewage. À direita prancha abstract comics de Mark Laliberte (Ink Brick nº8).

Numa época em que as fronteiras estabelecidas pelas definições se vão alargando, diluindo e encontrando novas perspectivas, os modelos que parecem estabelecidos (como se pode verificar nos ensaios incluídos na edição da 5e Couche – Bande Dessinée et Abstraction) antecedem já as formas para variantes nas justaposições. Também neste Journal of Comics Poetry surgem afinidades, ou mesmo colaborações, de narrativas que se inserem no género de Abstract Comics. Uma forma de expressão que combina conceitos de abstracção visual com a sequencialidade inerente a uma banda desenhada.

Estamos no campo mais abrangente das narrativas gráficas do qual participam outras, mais específicas, como as narrativas visuais (se assim podemos incluir os “livros de artista”). Uma permuta de musicalidades na qual a fusão de géneros vai enriquecendo as linguagens, abrindo os debates permanentes em torno dos conceitos, muitas das vezes só em aparente oposição.

Para ler mais sobre Comics Poetry: https://en.wikipedia.org/wiki/Comics_poetry

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O mercado nacional de banda desenhada tem estado tão ativo, e o espaço disponível para falar dele é tão diminuto, que é sempre ingrato fazer escolhas. Por isso, escolhe-se aquilo que talvez menos gente fale.

Como o notável trabalho gráfico de Diniz Conefrey na sua mais recente coletânea de narrativas curtas “Floema dorsal” (Quarto de Jade). “Floema” é o tecido vascular das plantas no qual circula matéria orgânica produzida a partir da fotossíntese, a chamada “seiva elaborada”; por oposição, no “xilema” circulam água e sais minerais (“seiva bruta”). Já “dorsal” implica as costas, onde, nos vertebrados, se desenvolve o sistema nervoso. No trabalho sempre onírico e aqui maioritariamente a preto e branco de Conefrey há essa articulação comunicante entre formas abstratas que evoluem e se interpenetram de forma quase orgânica (“Nas rajadas de um sonho”), ou desequilibram a noção que o leitor tem de abstracto-real (“Impermanência”, “Onde estão as borboletas”).

Texto e cor são aqui elementos raros, o primeiro por vezes estranha-se na sua poética (como no visualmente deslumbrante “Cigarra”), ou surge enquanto contraponto absoluto essencial (“O lugar sem espera”, talvez a melhor sequência, enquanto BD). Já o uso de cor enquanto elemento gráfico é sempre superlativo (“Impermanência”, “Cigarra”), e, apesar da mestria do preto e branco, sentimos muitas vezes a sua falta. Seja como for, o trabalho de Diniz Conefrey transporta sempre para onde nunca sabíamos poder ir.

 João Ramalho Santos, Jornal de Letras de 15/1/2020 

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DA ESCRITA (FRAGMENTOS) 3

Time Lapse Growth. Bill Shut.

Dos mecanismos linguísticos, o melhor que identifico como próprio é, num sentido amplo, o da justaposição. É a relação entre o cinema e a vida: ela, os pássaros. A estranheza e o sentido procedem desse trabalho de montajem que a nossa percepção realiza de modo natural. A metáfora, pelo contrário, é algo que naquilo que escrevo me custa reconhecer. Neste sentido, considero a minha escrita realista, quero dizer literal. O brilho da fulguração sombria de uma metáfora passa em todo o caso por essa literariedade.

Escrever, 2

Os meus livros fazem-se um pouco às cegas, quero dizer que não há um projecto inicial que a escrita vá correspondendo. Cada poema nasce de modo independente, um a um escrevem-se ao longo dos anos. Depois, em algum momento, começo a trabalhar o livro como tal, o que significa ir fazendo-me com ele. O livro está aí, nas linhas que transitam, na rede de recorrências que se vão tecendo, nos fios que o envolve aos livros anteriores.

Pensar é pensar o corpo, pensarmos no mundo – o que significa: estamos, e não estamos. No mundo. O mundo de um poeta, de uma poeta é reduzido; o seu olhar focaliza aspectos limitados, obsessivos, doentes; manifestações ou sintomas de uma disposição de animo. Além disso esse mundo é lento; as transformações (condensações, novas dimensões, descobertas do mesmo – aqui, aquilo -) são lentas, anos para uma rotação, para outro matiz, para o caír na conta. Quem trabalha o poema é pássaro e caracol ao mesmo tempo, leve, e audaz e concentrado, reconcentrado em si, quieto, ensimesmado. A obra responde a qualidades muito precisas da sua percepção e da sua memória; a uma sensibilidade formada por dependências familiares carnudas e em mecanismos associativos irredutíveis. O modo como constroi o seu mundo é a sua contribuição à língua. Penso em Vallejo, em Rosalía, em Lezama, em Jaime Saenz… Para cada um deles a forma é a única possível; e essa forma é pensamento, uma maneira de relacionar-se com os mortos, de ir para a morte.

Olvido García Valdés (traduzido da revista el poeta y su trabajo. Inverno de 2009)

 

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CENTELHA DO LIMBO

Disponível nas livrarias o novo livro de poesia de Diniz Conefrey, Um Fio Atravessa a Noite. No espanto, as mãos das vozes que transintam entre amplitudes de vida, transformando a respiração por dentro. E transforma em quê? A pergunta está deslocada, transforma-se porquê? Porque de súbito renasce a vontade do olhar. Sem aquela luz fugaz dos espectáculos, apenas uma estação inscrita que sente e que se altera pela combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação no veio cortante das palavras. Editado pela Companhia das Ilhas, este azulcobalto de 84 páginas inclui vários poemas por entre diversas inflorescências. Nesta página, apenas o verso final de Centelha do Limbo:

(…)

Mato grosso ondulante, corpos nus;

sentado Ailton pondera palavras

como fruta macia de silabas abertas

por sementes, rio doce sob o vale de aço,

mãos dadas com quem se quer longe

e perto de tudo que fala enrolado

esquinas de saber ou em guarda parada –

copo do corpo tatuagem do espaço

bolsa de tarja larga, fundo caíram os dedos

descendo sozinhos no sonho d’avó

pelo fundo do rio, da espera, tudo recomeçou –

acabou, acabando em nós de folhas virgens

dilaceradas por febres de vozes mansas,

jacarandás chovendo violetas soando –

soando de retorno ao fundo, o mesmo fundo

saindo, uma vez mais, por entre lavores

dos olhos talhados de gretas tremendo

no frio de um rosto suave

sorrindo nos gestos

brandos

que a esperteza calou.

 

 

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