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Posts Tagged ‘Poesia’

A escolha de um nome é como um movimento interno que pretende determinar, numa súmula, os conteúdos emocionais sensíveis à razão. Fazendo parte também de uma expressão editorial, o nome Quarto de Jade encerra em si uma floresta de jade e um “crystal cabinet” segundo um poema de William Blake.

Se acabou sendo um quarto é um quarto com vista ampla, numa divisão que é também uma partilha. O jade define os seus contornos, de verdes leitosos e polidos, com seus veios gramaticais, representando os valores que se ligam a uma natureza primordial. Como a barra vertical do site, à esquerda do monitor, que é a raíz comum donde deriva a linguagem própria que define a individualidade de cada autor. Por isso existe, além deste blog e do site Quarto de Jade, uma página no facebook cujo princípio é o de partilhar os bastidores das nossas edições: https://www.facebook.com/quartodejade/

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O rio que nasce de uma árvore e entrou passarinho dentro do café. Delicadeza do gesto procurando repor no espaço aberto o pânico das asas a bater numa sucessão multicolor. Tudo vibra nesse momento, resgatando a monotonia dos gestos previsíveis. O rio voando em torno das cabeças enquanto estas olham pensando na melhor forma de devolver o fulgor à vida certa, sem barreiras, para longe do espaço encerrado onde habitam as palavras que nos prendem ao vago torpor. Enquanto isso, incendiada pela luz ofuscante, uma bola jaz quieta, perdida no meio do areal. Objecto facetado em azul transparente, reflectindo a luz vibrante, indiferente a qualquer cor. Porém, é a sombra que lhe devolve esse momento rasante de breve fulgor. Frágil o corpo, carregando a tensão em violência no centro de um medo ancestralmente venoso, entrou na água ofuscante de cristais cintilando enquanto os olhos deslizaram pelo horizonte em veludo de metal transparente.

 

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Um beijo, um destino que se abre lento enquanto cada passo assegura a perda que se acende dos nódulos de um corpo em livro que se desdobra e encerra tudo sem nada ter escrito.

As ruas são muito largas, como folhas caducas. Estendo então os dedos e guardo em mim essa condição vagarosa de passo incerto, constante na sua alocução interior. Como companheiro apenas um copo transparente.

A mesa roda enquanto o poema se desfaz e então acendo mais um cigarro. Uma prática tão banal como a diluição no centro deste ritmo percussivo. A língua toca o céu da boca procurando as imagens no seu interior. São estrelas que se desfazem dentro da noite.

Recuo na minha fragilidade e a bebida de cana inunda um coração descoberto na palidez do amanhecer. Enquanto as rosas abrem em tranquilidade demorada, sem espaço para crescer a fome que vem do interior dos dias gastos como cigarros que se acendem num lume de paixão.

Encerrada na brevidade desta sorte, um arcanjo solitário observa, ao fundo de um corredor de veios sombrios, esperando até chegar o tempo em que se lhe ilumine o rosto. Fogo laranja de vida que se consumiu arrastando toda esta pulsação.

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O TEATRO DO TEMPO

«Registos, marcas, relatos. Rastos, memórias, vestígios. Subitamente, caminha-se sobre os mortos, num espaço tecido de tempos que se sobrepõem e combinam: esse espaço temporaliza-se, estratifica-se, e o que está à vista evoca uma outra rede de imagens, apenas lembradas de cor, nas quais se foi fixando uma relação com o tempo que Walter Benjamin resumiu lapidarmente em «Sobre o conceito da História» (1942), ao afirmar que «fomos esperados sobre esta Terra» (Benjamin 2010: 10). Mas saber que é assim, e que nos foi dada «como a todas as gerações que nos precederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito» (ibid.), é certamente menos forte do que ver que é assim. Porque então é como se o tempo nos olhasse nos olhos e nos interpelasse, de tal modo nos sentimos sob um efeito de vertigem: literalmente, o espaço desdobra-se — e o tempo amplia-se à nossa volta.»

O Cinema da Poesia. Rosa Maria Martelo, 2012.

 

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FILL IN THE BLANKS

Em cada imagem está o que conseguimos ver. Uma conversa finita porque discorre no discurso de referências pessoais. Mas também o potencial do infinito que será a palavra única, a assinatura da imagem. Descentrada do saber de cada um. Partilhável na intimidade do tender para o que transcende.

Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio, obrigada! A voz no timbre mecânico sincopado e reconhecível em aeroportos, comboios, plataformas do metro, centros comerciais, supermercados. Grandes superfícies, onde ecoam as vozes que ora indicam, encaminham ou até nos aconselham a ter cuidado com diversos perigos.

Imagino um passeio no deserto: Atenção, cuidado com o lacrau, pode ser mau. Ou atenção ao escorpião, pode estar aqui ou não.

Atenção ao intervalo entre escrever e viver. Atenção ao intervalo entre emoção e razão. Obrigada!

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ECOS

Suspensão. O sentimento da criança que na praia deserta recebia a memória de outras eras, através da luminosidade diáfana e do som ritmado das águas evanescentes. A fragilidade do corpo em aromas de sal, no ventre anguloso as ardósias desfeitas pelo ar embriagado, evocando um passado tangível de histórias recorrentes. Nostalgia aberta, planando com os elementos, evocativa de uma voz multicolor disposta à emoção. Na terra, as raízes da existência em canto soltando a planura agreste. A voz emergindo em voo de ave afastando-se da sombra, antes de regressar. Um manto liquído aberto pelo mar penteando nervuras. Um dia marcado, em final de estação.

Na zona escondiamo-nos entre corridas sem que soubessemos olhar para além das intuições, rasgando, na bruma matinal, a frescura da água na planta dos pés. Nas arribas permaneciam os veios de sulcos em paisagens minusculas, antes de se sonharem apartamentos sobre a quietude do mar. A quietude desse rumor, suspenso, na vibração da voz que a criança lança para o espaço sem limite, vogando em acordes de flauta sensitiva. Declamação interdependente que retorna do vazio, inspirando uma consciência primordial.

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O sulco que, na anatomia da tarde, rasgou por Coyacán para desaguar em San Angel.

 

Altar alegórico para o dia dos mortos. As cores magmáticas saindo directamente dos tubos de guache.

Choveu esta tarde? Em frente, na casa amarela, já a noite das palavras tinha iniciado a espiral que atravessa as grades. Rio Chico, Tizapán.

A artéria das palavras atravessa, tombando como luz, pelas telhas vítreas inundando a casa etérea.

 

Dedicatória a Luis Verdejo e aos seus poemas da mão esquerda. Ceramista, escultor, pintor imprivisível dos espaços partilhados.

 

 

 

 

 

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