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Sinto que existe em cada ser uma noite que reclama uma verdade profunda, um lugar de reencontro dentro de um tempo sem memória, onde o olhar se cruza com a consciência de um mistério, exposto na sua revelação. Desenhar, traz consigo também essa noite de silêncio que se estende por sobre folhas de papel, registando a memória afectiva dos lugares que habitam o coração.

Desde muito cedo que o violento encontro entre o ocidente e o continente americano, ocupam um lugar destacado na minha consciência e reflexão social; eu próprio, um espectador actuante de um presente que se desenrola sobre as teias do passado.

No final dos anos 80, saía um artigo de duas páginas, salvo erro no Diário de Notícias, sobre um aspecto dessa história sangrenta, decorrida nos Estados Unidos da América do Norte, onde se incluía um texto cujo teor  era atribuído ao “chefe” Ameríndio Seattle, em resposta à proposta das autoridades Norte Americanas no sentido de adquirirem os territórios do líder nativo.

A minha primeira impressão, ao ler esse texto, foi uma experiência avassaladora, como quando se ouve um tema musical e se sente um arrepio intenso que vibra pelo corpo, num sentido ascendente de energia pura. Nesse preciso instante, tornou-se claro que queria realizar esse texto numa banda desenhada, que surgiu com a mesma urgência que a verdade reconhecida por mim através das palavras do “chefe” Seattle.

Tinha começado há pouco tempo a trabalhar com ecolines e, assim, as 6 primeiras pranchas surgiram numa única sessão nocturna de completo improviso e descoberta, em que as cores se espalhavam, saídas directamente dos frascos, criando o mesmo arrepio sentido na primeira leitura das palavras do chefe Ameríndio. A consciência gráfica de que os blocos de texto provavelmente seriam demasiado extensos, para o leitor habitual, não impediu que eu mantivesse integral a clarividência das palavras, acabando por não optar por um resumo empobrecedor. Numa altura em que tinha já feito várias experiências, de bandas desenhadas baseadas na estrutura de temas musicais, incluí, agora com um tempo de realização mais alongado, duas pranchas sem texto. Pretendendo assim pontuar ambientalmente o reinício de um texto que, segundo o artigo no jornal, teria sido uma carta. Nas 4 pranchas finais, assumi a interpretação através de diversos materiais, que para mim melhor expressavam graficamente o conteúdo das frases.

No ano seguinte, iniciei uma colaboração com o fanzine Dossier Top Secret de Almada e, nessa altura, propus ao Victor Borges publicar uma versão a preto e branco dessa sequência, a que chamei simplesmente Seattle. Refiz então as 6 primeiras pranchas com uma técnica mista, para obter efeitos contrastantes a preto e branco quando estas pranchas fossem fotocopiadas; refazendo algumas vinhetas menos bem conseguidas, da primeira versão. São os originais dessa segunda versão que agora aparecem no site Quarto de Jade e, que depois de fotocopiadas, serviram como base para a publicação no fanzine referido anteriormente. À excepção da nona prancha, que teve alguma intervenção sobre a fotocópia, todas as pranchas seguintes foram reproduzidas directamente dos originais. Nessa edição, a inserção de texto foi realizada por mim de uma forma pouco cuidada e a qualidade final, das fotocópias do fanzine, era muito fraca. Por isso, foi com muita satisfação que em finais de 2008 surgiu a possibilidade de editar essa sequência agora a cores, na revista literária Letra en Ruta, publicada simultaneamente no México e nos Estados Unidos; apesar dos constrangimentos da paginação terem disperso a sequência gráfica, entre cortada por páginas de texto.

Ao incluir esta banda desenhada no Quarto de Jade, pareceu-me que poderia fazer alguma justiça, apresentando de forma unitária este trabalho, cujo texto mantém a acutilância de uma sabedoria intemporal; se não mesmo uma profunda reflexão, para muitos dos disparates causados pelo nosso pretenso mundo moderno e claramente contraditório.

De forma um tanto inesperada, quando procurei a versão em Inglês do eloquente discurso do “chefe” Seattle na internet, deparei com várias informações, inicialmente surpreendentes, mas que no entanto trouxeram a veracidade da história de um texto, que é considerado por muitos ambientalistas como uma carta de princípios universais. O facto é que em relação ao discurso proferido pelo “chefe” Seattle, em Janeiro de 1854, não existe qualquer transcrição literal; havendo sim quatro versões, em segunda mão, das quais a primeira aparece no Seattle Sunday Star, em 29 de Outubro de 1887, numa coluna da autoria do Dr. Henry A. Smith. Nesta, o autor torna muito claro que a sua versão não é uma cópia exacta, mas o melhor que ele conseguiu reunir, a partir das notas que terá tirado na altura. Existe uma indecisão, quanto ao argumento histórico, acerca de em qual dialecto nativo terá o “chefe” Seattle falado, Duwamish ou Suquamish. De qualquer forma, existe um consenso de que o discurso foi traduzido, já que o “chefe” Seattle nunca aprendeu a falar Inglês.

Esta versão está publicada em língua Portuguesa, num pequeno livro, pela Casa do Sul Editora, com o título: A Noite do Índio. Edição essa acompanhada de umas breves notas interessantes, sobre o contexto e outras versões do famoso discurso. No entanto, deva-se referir que esta tradução não faz justiça completa ao texto original, tanto na sua forma como inclusivamente no seu conteúdo. Faltando-lhe particularmente rigor na transcrição coloquial levando a algumas interpretações lacónicas ou acrescentos omissos no texto original. Sendo que a alteração mais relevante e confrangedora é a transformação radical do final do texto, subvertendo definitivamente o sentido do mesmo, num momento decisivo. Uma melhor tradução deste eloquente discurso, pode ser encontrada no livro O Sopro das Vozes, editado pela Assírio & Alvim. Só que aqui, infelizmente, trata-se de um resumo dos momentos que o tradutor elegeu como os mais significativos e não o texto na sua versão integral. A versão em inglês pode ser consultada com propriedade, no site da tribo Suquamish: http://www.suquamish.nsn.us

A tribo Duwamish faz parte da população Nativa Americana do oeste do Estado de Washington e são o povo indígena da Seattle metropolitana. Os Suquamish são um povo do sul da Salish Coast, etnicamente relacionados com os Duwamish. Os Suquamish falam um dialecto de Lushootseed, que pertence à família linguística Salishan. Como muitas das tribos da Costa Noroeste, os Suquamish dependem da pesca de rios locais e construíam longas casas de madeira para se protegerem, nos húmidos Invernos, a oeste das Montanhas Cascade. Estando por isso mais próximos, culturalmente, das tribos do Pacífico Norte, do que das etnias das planícies, tal como eu interpretei a partir do artigo que li no Diário de Notícias. Apesar dos povos de Puget Sound Salish não estarem organizados acima do nível de aldeias individuais, os Suquamish tinham uma localização central em Puget Sound e dois membros desta tribo vieram a ser reconhecidos, pela região, como grandes líderes. Um foi Kitsap, que liderou uma coligação de tribos de Puget Sound contra tribos Cowichan da Ilha de Vancouver por volta de 1825. Outro foi Seattle, filho de Schweabe, que foi um grande orador pacifista durante os tempos turbulentos do século XIX. Apesar de ambos serem referidos como “chefe”, esta é uma atribuição ocidental; tal designação não era usada pelos Índios de Puget Sound.

A segunda versão existente da oratória de Seattle foi escrita pelo poeta William Arrowsmith, em finais dos anos 60. Esta foi uma tentativa de colocar o texto segundo padrões de discurso corrente, em vez do estilo mais floreado e victoriano do Dr. Smith. Além desta modernização, esta é muito semelhante à primeira versão.

A terceira versão é talvez a mais amplamente conhecida de todas, sendo aquela a que eu tive acesso, através do artigo publicado no Diário de Notícias, e a partir da qual realizei a primeira versão da narrativa gráfica Seattle. Na realidade, esta versão foi escrita pelo professor Texano Ted Perry, como parte de um argumento cinematográfico. Os produtores do filme usaram de alguma liberdade literária, alterando o discurso (só 10% do texto “original” foi usado e algumas passagens foram proferidas com um sentido diametralmente oposto) e fazendo dele uma carta ao presidente Franklin Pierce, que tem sido reeditada com frequência. Nunca tal carta existiu ou foi alguma vez escrita pelo, ou a partir, do “chefe” Seattle.

A quarta versão apareceu numa exposição durante a Expo’74 em Spokane, Washington e é uma curta edição do argumento cinematográfico do Dr. Perry.

Segundo Jerry L. Clark, que integra a equipa dos Arquivos Nacionais Norte Americanos, não existe qualquer prova histórica do discurso, referindo inclusivamente com bases documentais, as sérias dúvidas acerca da precisão das reminiscências do Dr. Smith em 1887, trinta e dois anos após o alegado episódio, retirando-lhe pois qualquer força moral ou validade. Baseando-se nos pressupostos dos registos burocráticos da história, nomeadamente daquela que é determinada por funcionários administrativos, das nações que se impõem como vencedoras.

Civilização é sobretudo uma questão de imposição linguística e territorial, não sendo de surpreender que quem conta a história são os vencedores dos conflitos. A relevância dos factos não estará tanto se hoje em dia fará alguma diferença o discurso em questão ter sido originado pelo “chefe” Seattle em 1855, ou com o Dr. Smith em 1887. Talvez que o fundamental seja o reconhecimento de uma constatação profunda que não depende de indivíduos específicos, ou dos arquivos que registam os protocolos da civilização.

Mas de todas estas constatações não se diluiu o impulso que me fez realizar, inicialmente, esta banda desenhada. Matéria activa e transformadora, o potencial inerente deste discurso encontrou um novo eco ao despoletar um trabalho conjunto com a Maria João Worm, no sentido de trabalharmos a primeira versão do discurso de Seattle; agora numa sequência em que os meus desenhos a lápis serão posteriormente trabalhados pela João na técnica de linogravura, a preto e branco. Digamos que esta, é uma semente inicial que há muito germinava, numa procura de tornar expressão visual uma narrativa baseada em textos dos povos nativos da América do Norte. Trabalhamos assim, pensando num projecto maior que encerra, num livro de banda desenhada, uma Planície Pintada. Nesta, quatro histórias, delimitadas por um número de referência primordial no seio destas culturas ameríndias, que envolvem aspectos da sua mitologia, narrativa de vida comunitária; uma visão messiânica só possível de encontrar quando os espíritos comungam com a natureza e, finalmente, o discurso sábio e eloquente de um homem, face à barbárie da transformação imposta e não desejável. Planície Pintada é também uma espécie de narrativa semiótica, num estado muito próximo ao da tradição oral, que procura unir o sentido profundo que carrega, num tempo e espaço particular, tendendo para uma expressão de espírito universal. Talvez que essa seja a verdadeira História , aquela que percorre o tempo da memória e se recria continuadamente sem um rosto definido, expondo misteriosamente uma verdade na sua revelação.

Diniz Conefrey

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