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Posts Tagged ‘Texturas’

Este verão proporcionou-me voltar a comprar um livro de banda desenhada com o entusiasmado gosto pela descoberta, sentimento que usualmente já não nutro, pela maioria esmagadora dos livros publicados nesta área. Desde logo, a capa do Último dos Moicanos seria com certeza reflexo de uma interpretação que traria notas, de certo modo empolgantes, no sentido gráfico da luz e da plasticidade. Além de que o sentido das formas reflectiam, de uma forma densa, um rosto que traduz uma certa ideia do “outro” inimigo; naquilo que aparentava ser uma expressão de um antigo código sócio-cultural, violentamente distinto, em certos aspectos, do nosso. J. Fenimore Cooper não era propriamente um escritor. Da sua vasta experiência como marinheiro, iria acabar por escrever porque achava que o sabia fazer melhor do que outros, já publicados e, possivelmente, teria intensa experiência de vida naquilo que de mais dramático, as aventuras podem conter. Norte Americano de nascença, viveu entre 1789 e 1851, sendo a sua obra mais conhecida, precisamente, O Último dos Moicanos. A adaptação livre, e bem, para banda desenhada é da autoria da dupla francesa Catmalu e Cromwell, passando-se a acção, naturalmente, no mesmo enquadramento histórico que o livro original. De facto, esta história desenrola-se durante a guerra dos sete anos, geograficamente situada entre o actual Canadá e os Estados Unidos, no seio do conflito imperial dominante, da Europa do século XVIII, neste caso entre a França e a Inglaterra. Neste território, esta guerra é mais conhecida pela Guerra dos Franceses e dos Índios (1754 – 1760). O próprio nome encerra em si já as premissas de que se revestiu este conflito, realçando o aspecto praticamente inédito de uma tão estreita relação entre colonizadores e indígenas. Realmente, este relacionamento inédito advém tão-somente de uma questão de estratégia, face à perspectiva territorial. Ao contrário dos Ingleses, a França não se dedicou na ocupação de terras, para intensificar a produção agrícola. Pelo contrário, fixaram-se em vários pontos ao longo da costa ou perto dos rios interiores e daí, comerciavam com as nações nativas, sobretudo povos Algonkinos; desenvolvendo um lucrativo comércio de peles, provocando, possivelmente, uma das primeiras hecatombes ecológicas, nas densas florestas da América do Norte. Contudo, a relação com os Ameríndios não era só comercial. De facto, os franceses, também conhecidos como Correur du Bois, assimilaram a cultura Nativa, vestindo-se como eles, casando com as suas filhas, caçando e comendo com eles; no fundo adoptando o estilo de vida indígena. Seria, de certa forma, uma relação mais equilibrada do que a implantada pelos Ingleses, que pressupunha uma nítida apropriação territorial.

O Último dos Moicanos centra-se, portanto, durante o ano de 1757, ano em que o expoente máximo da preponderância militar francesa se faz sentir; numa guerra ganha inevitavelmente, pela coroa Inglesa. Mais precisamente, a acção remete-nos para o cerco ao forte britânico William Henry, junto ao lago George, no teatro de operações da região de Nova Yorque. Um dado inicial que gostaria de refutar, prende-se com o sistema de alianças vivido durante este conflito. De facto, tanto Fenimore como os autores da livre adaptação, referem os Iroqueses como aliados dos franceses. Curiosamente, da abrangente influência que a França dispunha entre as nações nativas, a única que nunca esteve a seu lado foi a Confederação Iroquesa. Aliados tradicionais dos Ingleses, tentaram contudo manter uma certa neutralidade, durante as sucessivas guerras que Ingleses e Franceses travaram, no sentido de controlar a América do Norte. Esta sua posição de estreitas relações com a coroa Britânica, ditou, poucos anos depois, um desfecho amargo; já que com a independência dos Estados Unidos, os colonos americanos foram extremamente duros e violentos com a Confederação Iroquesa, retirando-lhe o papel de preponderância, no plano das relações políticas e sócio-culturais da região dos grandes lagos.

A interpretação plástica de Cromwell, para captar o silêncio das paisagens, sussurrando intensamente a força letal e violenta que, dentro dos bosques se movimenta, é das mais acutilantes no dramatismo da sua expressão. Sempre fui de opinião que faltava textura, literalmente, nos trabalhos de banda desenhada; demasiado asséptico com a luz, na maioria esmagadora das vezes. Os ambientes gráficos traduzem tudo o que a acção literária de Filmore necessita, ao multiplicar a sucessão de acções. Nesta BD, o ambiente comprimido deixa o espaço de acontecimentos diversos para se centrar numa acção mais linear, mas toda ela envolta nas tramas centrais do livro original; encontrando mesmo uma excelente resposta telúrica para o final, quase esperado, deste livro. Esta obra só perde por ser um híbrido, em que tenta mesclar de forma assumida, várias vertentes como a literária, a cinematográfica e, finalmente, a gráfica. Os separadores são soberbos mas creio que prescindiriam da identificação dos autores das frases, aliás, referidos novamente (e bem) na fonte de citações. Os capítulos, com as suas formas de capa, resultam tão mal como os planos de página inteira, tendo uma relação cinética evidente. A princípio não gostei das legendas, mas é sempre difícil uma solução mecanográfica que tenha um desenho que se integre plenamente nas imagens. A solução apresentada só se torna demasiado desconfortável, quando o texto assume extensões mais literárias. Um dos grandes equívocos seria porventura achar que, mesmo numa adaptação livre, não se poderia prescindir dessa dicotomia de reafirmação entre texto e imagem. Mas, de facto, por vezes, esta complementaridade demasiado directa poderá tomar um aspecto quase redutor e não se chega a perceber, se neste caso, esta poderia ser uma forma narrativa desejável.

Como no caso das páginas que ilustram a perseguição final, em que à decoupage silenciosa e abrupta das acções, necessitasse verdadeiramente de ser acompanhado por tão longa extensão de texto; secundarizando a organicidade da própria acção, relatada tão completamente, através das imagens. De sublinhar, pelo contrário, toda a sequência que se passa na taberna, The Last Chance, talvez o exemplo mais acabado de toda a excelência desta obra, um pouco perdida na sua definição entre as várias pontes que, felizmente, consegue lançar. Este livro trouxe consigo uma leitura que me fez novamente acreditar que ainda há muitas boas razões para se fazer banda desenhada. Neste caso, esta surge com a chancela Noctambule, da editora francesa Soleil e está disponível, com um excelente formato, nas livrarias da Fnac.

Diniz Conefrey

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