Feeds:
Artigos
Comentários

Posts Tagged ‘Tibete’

TASHI DELEK

Entre os dias 12 e 13 de Fevereiro comemora-se na China o Ano Novo, do calendário lunar e solar asiático, tendo esta celebração na região do Tibete a denominação de Losar. Tashi Delek – Feliz Ano Novo, apesar da indiferença geral pela vaga de autoimolações que, desde 2009, têm ocorrido nos Himalaias como protesto face às políticas de descaracterização cultural promovidas pelo governo chinês.

Enquanto fora da China tem havido muita discussão, por parte de bloggers tibetanos sobre as autoimolações, alguns intelectuais chineses preocupam-se pela falta de comentários nos fóruns progressistas online sobre este facto na China. “É o elefante no quarto de que ninguém quer falar”, disse o proeminente escritor Wang Lixiong a Andrew Jacobs do New York Times.

O poema que aqui trazemos foi escrito por um blogger tibetano anónimo em dedicatória ao escritor Choepa Lugyal. Provavelmente foi censurado devido à referência a fogo e chamas ou talvez por causa das sensibilidades políticas recaindo sobre o escritor detido. A tradução deste poema foi realizada a partir da versão em inglês disponibilizada no site High Peaks Pure Heart.

 

A verdade das chamas no caminho difícil

 

Para Me Che que é ignorado

Cercado pelo frio e pelas sombras da escuridão

A chama da verdade arde na tenda de ferro

Mas a chama é tão humilde

Não existem janelas na pequena casa estreita

Não há escala para medir a realidade

Apesar de teres tanta esperança no que está de fora, pedinte!

Ninguém pode apagar a tua sede

Portanto, a única maneira de resolver o teu sofrimento de fome e sede

é de acreditar no karma sem-tolice

se tu meditares no karma da causa e efeito, tu obténs a realização

sem nunca voltar atrás

No entanto, existem sempre lágrimas nos olhos da velha mãe; a amada

mulher engole a tristeza no seu estômago e toca ternamente os cabelos

na cabeça da pequena criança

Consegues ver isso?

A vasta terra solitária

O puro céu azul

Parado num cruzamento

eu estou a beber chá ao lanche

Mas não consigo nem urinar nem defecar

Pensando em ir consultar um médico

Poesia dialética emerge na mente…

Read Full Post »

The West must unite to resist Chinese bullying against those who meet Tibet’s leaders

Edward Lucas is International Editor of The Economist. This article was originally published online by European Voice.

Dalai Lama

The Tibet season has opened again, with a dire warning to the British government that Prime Minister David Cameron’s temerity in meeting the Dalai Lama last year had blighted relations. Only an apology can mend matters. The communist authorities in Beijing like to think that they can boss other countries around on this score. When Nicolas Sarkozy, then French president, met the Tibetan leader in 2009, France was forced to issue a humble joint statement implying that it would do no such thing again. In 2007, after Germany’s Angela Merkel met the Dalai Lama, Germany did the same.

These are tough times for Tibetans, not just because of their despair at occupation of their homeland, but because of Western pusillanimity. Under the last Labour government, Britain (for no good reason) dropped its position of recognising only Chinese “suzerainty” over Tibet, not de jure rule. Now Cameron is being asked to kow-tow if he wants to restore Chinese trade and investment. Estonia, where President Toomas Hendrick Ilves commendably met the Dalai Lama in 2011, has had the same icy treatment.

Chinese bullying is working. It is ever-harder for Tibetan leaders to get meetings when they travel in Europe and the United States (though the country’s émigré political leader, Lobsang Sangay, did have a reasonably successful trip to Washington DC this month).

This is a test of European and transatlantic political will. If Europe and the US adopted a common position (something on the lines of ‘we will meet with anyone we choose to, regardless of diplomatic bluster’), then the Chinese protests would be fireworks not cannons. China can afford to pick off individual countries, punishing them with a ban on high-level meetings and visits, or even trade and investment sanctions. But it cannot do that to the entire West.

The burden of responsibility and solidarity lies particularly heavily on the countries that have living memories of communist rule and foreign occupation. The Tibetan flag is banned by the Chinese authorities, just as owning a flag in the colours of the pre-war republics guaranteed harsh punishment in the Soviet era. The Baltic states were wiped off the map by the Soviet Union, which criminalised any expression of national sentiment. Migration and russification countered Baltic “nationalist” tendencies; now Beijing is destroying Tibetan identity with huge Han Chinese settlement. The bogus rhetoric of communist ethnic harmony (be like us and we can all be happy) and modernisation are almost identical. The sense of near-hopelessness is similar too. Only 30 years ago the restoration of Baltic independence seemed an impossible dream.

A similar duty lies on Poles, Czechs, Slovaks, Hungarians and other former captive nations. Indeed, anyone who cared about freedom in Europe during the Cold War should care about Tibet now, for the same reasons. Members of the European Parliament, of the Parliamentary Assembly of the Council of Europe, of national legislatures and governments, and everywhere else in public life (universities, think tanks, even media outlets) should make a point of arranging meetings with Tibetan representatives and doing so publicly and proudly. It does not require great moral courage to schedule a meeting and publish a photo. But once everyone is doing so, the ability of the Chinese embassies to feign outrage, and to impose punishments, is greatly limited. Instead of letting timidity ratchet down towards defeat, collective action ratchets resistance upwards towards victory.

The importance of this goes far beyond Tibet. If Europe cannot stick up for principle and defend itself against bullying when the stakes are relatively low, what chance is there that it can do so when the stakes are higher?

View via European Voice

 

Read Full Post »

Apesar de considerar que Cosey não é um desenhador muito talentoso, sem dúvida que desenvolveu um estilo gráfico narrativo particularmente eficaz – de síntese – na qual o desenho, a cor e a paginação criam uma linguagem coerente e harmónica para que nos possa contar as histórias de sensibilidade humanista que caracterizam, sem dúvida, o seu rico universo. Naturalmente, este universo intimista – mesmo que dentro de códigos vincadamente comerciais da banda desenhada europeia – tem como as suas mais profundas raízes a proximidade com outro autor Suíço, conhecido como Derib que soube desenvolver uma série muito consistente das realidades humanas e culturais durante a colonização da América do Norte. Enquanto Buddy Longway trazia aos adolescentes a consciência de aspectos como a ecologia, a miscigenação e o respeito pelo outro, nesta entrada, Jonathan de Cosey é uma mera desculpa para actualizar um tema que também ele trouxe à consciência dos jovens leitores europeus: o Tibete.

Unificado pela primeira vez no século VII pelo rei Songtsän Gampo, de 1640 a 1950 o governo deste país foi, por diversas vezes, nominalmente encabeçado pelos Dalai Lamas – uma linhagem de líderes políticos espirituais tidos como emanações do buda da compaixão. Durante boa parte deste período a administração tibetana também esteve subordinada ao último império chinês, a dinastia Qing. Em 1913, com o advento da república chinesa, o 13º Dalai Lama expulsou os representantes chineses da região. Embora a expulsão tenha sido vista como uma afirmação da autonomia do Tibete, esta independência não foi aceite pelo governo da China nem tão pouco recebeu o reconhecimento diplomático internacional e, depois da segunda guerra mundial, a soberania da China sobre o Tibete não foi questionada pela Organização das Nações Unidas… Como em muitas outras histórias que assistimos, de genocídio cultural, Mao Tse Tung não teve problemas em, na década de 50, trazer o “progresso” e o mundo moderno ao tecto do mundo, com a já habitual carga de extrema violência e arrogância, própria das grandes potências mundiais.

Em 1959, conjuntamente com um grupo de líderes tibetanos e seus seguidores, o 14º Dalai Lama fugiu para a Índia onde instalou o Governo do Tibete no Exílio, em Dharamsala. Estaríamos a falar apenas sobre mais um dos muitos episódios negros dos labirintos da história, não fora, neste caso, o de se evidenciar uma das mais profundas questões da nefasta representação da humanidade no palco da Terra. Na realidade, o Tibete fora no seu passado uma região de povos violentos e brutais que foi pacificado de forma única e original através do budismo; o que só por si lhe conferia uma autoridade que nenhuma outra nação do mundo conseguira, até essa altura. Nós, os portugueses, ficamos muito orgulhosos da nossa história, ao termos introduzido a espingarda num Japão completamente dilacerado pelas guerras civis. Um dos primeiros embaixadores ocidentais a chegar aos Himalaias, levou consigo um revólver para com isso afirmar o notável êxito da tecnologia europeia. Ao contrário dos japoneses, sempre muito sérios, o Dalai Lama riu-se abertamente, diante um instrumento tão ridículo como inútil, que só servia para tirar vidas, fossem elas humanas ou outras. Naturalmente, o Tibete pagou bem caro o compreensível desprezo de sua santidade quando se deu a invasão chinesa em 1950. No entanto, a coerência e a integridade espiritual prevaleceram – e prevalecem – com o testemunho dado pelo actual Dalai Lama que recusou inteiramente a oposição armada a um dos regimes mais autoritários à escala global e com a qual todas as grandes potencias pactuam como um invejado parceiro económico… Ficam, obviamente, muitas questões e contradições por responder: Porque é que os Estados Unidos da América e Israel insistem num embargo desumano a Cuba, enquanto todos pactuamos com um regime que bem pode apresentar uma bandeira tingida de sangue?

A fronteira do Tibete a laranja, com as zonas actualmente inseridas em provincias chinesas. Os pontos a vermelho indicam onde ocorreram as auto-imulações de 2009 a 2012

A diplomacia continua a debitar discursos moralistas sobre a democracia e os direitos humanos, enquanto desde Fevereiro de 2009, até ao corrente ano, 17 tibetanos se auto-imolaram pelo fogo num protesto gritante contra a opressão brutal de que são alvo, tendo 12 destas pessoas morrido. Não apareceu no telejornal mas é verdade, tão verdade como as imagens que todos se devem recordar, aquando da guerra do Vietnam e do monge budista que nessa altura tomou a mesma iniciativa, como protesto claro contra os jogos de xadrez da guerra fria. Assim, nesta perspectiva civilizacional, o nosso ex-primeiro ministro declinou encontrar-se com o Dalai Lama, após protestos claros do embaixador chinês e, apesar de outros apoios mais ou menos claros à causa tibetana, sabemos quem no fim irá pagar a factura. É que sofremos de um problema endémico do qual o budismo  já teve consciência há muito tempo, encerrados que estamos no primitivismo espiritual, sociológico e político que é o dualismo – a esquerda e a direita na política; o bem e o mal com as respectivas recompensas de céu ou inferno; as compensações sociais e psicológicas para fomentar o sucesso ou o anonimato – podia até não ser muito grave, se toda esta dicotomia civilizacional não resultasse num  manto subtil que vela uma certa hipocrisia e cinismo. Afinal, como repetidamente as grandes nações, democráticas ou não, nos têm ensinado, o problema não é infringir os princípios éticos, o problema é ser apanhado.

O espaço azul entre as nuvens é o quadro de Claude Monet mais acarinhado pelo coronel Stampford Westmacott, de quem Cosey nos conta, sobre a bizarra mansão inglesa que este lorde construiu numa zona remota do Tibete, com a mão de obra amiga e disciplinada dos seus velhos companheiros do Regimento 12. Estes não voltarão a rever a sua Inglaterra, pois o barco que tomaram em Bombaim nunca chegará ao seu destino. Tão pouco ficará habitado o palácio do coronel, cuja ultima visão será precisamente aquela que coroa a sua colecção particular de pintura… mas agora real. A banda desenhada pode ser tão virtual como a Internet, na carne somos o resultado de uma globalização que o ocidente iniciou no século VI; cada vez mais presas da esquizofrenia abstracta da economia e dos mercados, enquanto nos damos ao luxo de perder uma firme oportunidade de olhar para dentro de nós próprios, como indivíduos – e da nossa historiografia, como colectivo. Amanhã, talvez também não te recebam… pelo menos não podes dizer que não sabias porquê…

Read Full Post »