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Posts Tagged ‘Conferências’

Esta entrada surge, como um comentário alargado, em relação a algumas das questões levantadas durante um seminário, cuja terceira sessão foi apresentada na bedeteca dos Olivais sobre o tema Super-heróis – Ética e utopia.

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A próxima sessão deste seminário terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Anfiteatro III), no dia 15 de Fevereiro, com o tema Política e desencantamento.

Iniciava estes tópicos pegando na pergunta final de Helder Mendes que, ao terminar a sua dissertação, perguntava “o que teria acontecido se Adão e Eva nunca tivessem sido expulsos do paraíso?” No quadro do contexto metafórico que este evento nuclear implica, na narrativa bíblica, conviria clarificar que a proposição que leva a tal ocorrência se prende à manifestação do desejo nos seres humanos. E o desejo aqui reveste-se sobretudo de uma analogia com o conhecimento, enquanto consciência de domínio insatisfeito do espaço que habitam e que, se não fossem expulsos dele nunca teria existido a História nem todas as circunstâncias das suas deambulações. Se isso não tivesse acontecido, se o casal do Génesis permanece-se no paraíso, então, muito seguramente, viveríamos num eterno presente, sem a necessidade de confrontos e registos.

Seja como for, e ainda no campo que esta questão possa levantar, poderemos sair do plano estritamente metafórico do Génesis reformulando a pergunta, no contexto das relações da espécie humana, onde ainda existem povos indígenas com uma vivência pristina, ligada à natureza, que os agentes da nossa civilização tecnocrata não descansam antes de os empurrar para fora dessa condição – tanto pela “necessidade” da sua assimilação cultural como pela ocupação e apropriação dos bens naturais que fazem parte das suas áreas ecológicas. Recordo-me de ter assistido, na televisão, a uma entrevista (que se debruçava sobre o tema da utopia) e que o entrevistado (alguém docente, salvo erro, de uma universidade do Porto) apresentava a ideia de que, quando os indígenas do Brasil viram pela primeira vez caravelas, desconheciam o que eram… Pois não dispunham de um nível de pensamento que pudesse formular uma utopia. A armadilha desta formulação não reside apenas na continuidade de preconceitos de “leitura”, baseados na ausência de conhecimento factual, sistematicamente aplicados em relação ao contacto dos europeus com outros grupos culturais, nomeadamente os da América.

Nesse aspecto, a História, do ponto de vista social, tende a ser uma mentira inusitada que, repetida exaustivamente, se transforma numa verdade. Talvez fosse mais relevante mencionar que, tal como analisa Filipe Verde no livro «O homem livre» (Angelous Novos, Editora. Coimbra, 2008), o quadro mitológico dos Bororo do Brasil permitia-lhes um pensamento fora do quadro dos cânones psíquicos freudianos, nomeadamente com a superação do complexo de Édipo. Aqui caberia relembrar que a existência de vida no planeta Terra trata-se, de facto, de uma utopia em todo o universo conhecido – que não é pouco – onde não existe qualquer sinal de outro sistema solar que contenha um planeta com água e dependente dos ciclos da chuva para a fertilidade necessária à existência de vida. De resto, todas as utopias, enquanto formulações humanas, ideológicas ou sociais, encerram necessariamente um potencial de terror e violência como a História o tem demonstrado; pois baseiam-se em conceitos idílicos que prevêem resultados positivos, através da imaginação de um sistema unilateral, sem ter presente uma clara consciência da natureza humana. Dessa forma, podemos entender mais claramente, que todas as construções humanas sejam eutópicas, tentando resgatar-se na sua inquietude – e tensões latentes – através de utopias ou, justificando-se através de distopias.

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Watchmen, de Alan More e Dave Gibbons. Outro livro com enfoque nesta sessão foi Miraclemen, também escrito por Alan More, tendo com ele participado vários desenhadores.

Não vou aqui estender-me no género de narrativas que apresentam os super-heróis na banda desenhada. Nunca as achei, ou senti, como sendo relevantes dentro da linguagem da narrativa gráfica, sobretudo pelos pressupostos plásticos e os modos temáticos que veiculam; apesar de ter lido uma das obras que era mencionada na apresentação da bedeteca. De facto, tal como foi referido durante a sessão, depois de Watchmen todas as séries de super-heróis deixaram de fazer sentido e os tópicos que levantam, com mais ou menos consistência, levam à situação académica de permitir um discurso analítico e prolixo sobre algo tão vulgar como uma pastilha elástica. Citar a República de Platão (tal como a mitologia grega ou aspectos da filosofia de Nietzsche) enquadra-se reconhecivelmente nas premissas do universo imaginário criado através das narrativas de super-heróis. No entanto, num tempo de reflexão urgente seria de relembrar a oposição no mundo clássico entre Platão e os mobilistas. Estes últimos mais próximos a conceitos nucleares semelhantes a outras culturas e regiões do mundo, onde prevalece a sabedoria e a consciência da natureza impermanente do mundo. O sábio não é alguém que acumula informação, livros ou conceitos, como o conhecimento do mundo actual, herdado da parcialidade de um sector, inscrito no pensamento grego da antiguidade. Nesse sentido, Platão é como um super-herói obstinado, pois não reconhece a mais elementar das circunstâncias: a justiça não existe, tanto na natureza como na sociedade humana. E nesta, a principal causa de sofrimento baseia-se nos graus de intensidade, individuais ou colectivos, entre apego e a aversão.

Para ilustrar um pouco estes pontos, retornava a um exemplo de ética e justiça elementar que se passou numa comunidade indígena, no norte do México. Um jovem, durante uma rixa de maus fígados, assassinou um homem deixando viúva a sua mulher e órfão o seu filho menor. A deliberação do conselho comunitário foi a de impor ao jovem assassino uma pena que o obrigava a ter que trabalhar para sustentar a família do homem assassinado. Como no México vigoram, paralelamente, as leis comunitárias e as leis federais, esta última – por se tratar de um crime grave – lançou o assassino na prisão retirando-lhe qualquer possibilidade que não fosse o castigo “exemplar” que, além da sua inutilidade, como sabemos, acaba por permitir a corrupção integral, através da elevada concentração de indivíduos responsáveis por actos ou práticas ilegais.

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Desenho de Vincent Fortemps.

Voltando um pouco atrás, os homens que vinham nas caravelas que os índios do Brasil supostamente não reconheciam, eram movidos também pelos conceitos herdados da antiguidade clássica. Criadores da utopia global que, na sua prática, revelou-se um movimento economicista baseado na insatisfação e depradação dos recursos humanos e naturais. Todos sabemos quais foram os resultados. O que ainda não sabemos é como reverter este fluxo, encontrando novos paradigmas que passem transversalmente por todas as actividades humanas. A tendência de arrumar a informação acumulada em gavetas não ajuda a este pressuposto. A banda desenhada é uma linguagem e nesse sentido a questão dos géneros só interessa a uma industria que vive da estigmatização do público, confortavelmente assente numa “crítica” especializada. Julgo, porém, que esta tem dificuldade em dispor de uma abordagem metodológica conceptual assim como lhe falta a sintaxe necessária para explanar um discurso inequivoco sobre aquilo que à narrativa gráfica é fundamental. Um exemplo muito simples desta circunstância pode ser constatado através da utilização frequente do termo “realista” para designar uma certa forma de desenho. Realista porque vem da realeza? Realista porque é a realidade? A representação naturalista assumiu durante séculos o seu papel de aparência reconhecível, sendo que muitas das vezes não consegue uma reflexão profunda da “realidade”, projectada por outras formas semi-ópticas, como o expressionismo, a caricatura ou mesmo o abstraccionismo, entre outras.

Os géneros alimentam a parcialização idiossincrática do mercado, fomentando a competição e o reconhecimento institucional, do qual é criada a tipologia académica enquistada por valores cumulativos. Quanto a mim, um livro ou é bom ou é indiferente. Ou seja, ou nos apresenta aquilo que é matéria de reflexão da vida através da sua formulação plástica, ou então, mesmo que coloque equações susceptíveis de pensamento é inútil, inclusivamente na forma em que cristaliza o seu imaginário.

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Ilustração de Dave McKean.

A produção industrial excessiva, dependente do consumo de necessidades induzidas por um sistema de bem estar material, acaba por ser um reflexo de um sistema político democrático cuja ferramenta de gestão (e absorção) dos vários grupos de interesse está sempre dependente de uma mesma economia, criadora de excessos e desperdício. Todos somos conscientes que este sistema não é sustentável e que todos no mundo querem ter acesso a este nível de vida. Nesta era centrada numa espécie humana que deixou de dialogar com a natureza, para passar a dialogar com uma tecnologia que ela própria inventou, as questões de ética acabam por ser detalhes de circunstância que alimentam o poder normativo dos meios ou sistemas que fixam a informação. A ética, o bem e o mal, são mediadores permanentes que registamos e que tendemos a fixar nas múltiplas formas das nossas narrativas, pessoais ou colectivas. Talvez que a amoralidade fosse o único tópico a ter em consideração, no sentido de mitigar a tendência mais comum para o reconhecimento de uma vertente moral ou imoral, inscritas nas acções humanas. Neste ponto seria interessante realçar que a mecânica quântica rege-se por pacotes de energia, ou seja que esta se dá por saltos e não por aproximações. Que existe uma consciência primordial e que esta não decorre do cérebro humano e da sua consciência local. O que nos torna responsáveis, enquanto parte interdependente e interconectada, na realização de um equilíbrio reconhecível cujas premissas são, inegavelmente, opostas ao sistema sócio-económico que nos rege.

Longe das conceptualizações de um “eterno retorno”, muitas vezes identificado na identidade de várias expressões culturais humanas, seria interessante relembrar que, no que diz respeito ao mundo moderno o paradigma é sempre “viver melhor”, e que para os povos indígenas da América a posição sempre foi a de “viver bem”. Neste último ponto, a única questão com relevância é a de sabermos se vamos optar, no futuro, por encontrar um equilíbrio sustentável, assente no diálogo inter-cultural; implicando a recusa ou a reformulação de muitos dos nossos conceitos e sistemas. Ou se, enquanto super-espécie dominadora, vamos continuar resolutos na delapidação da única utopia que conhecemos, o planeta terra, para manter os vícios de uma civilização tecnocrata que apenas defende a liberdade da sua prisão económica.

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marta-monteiro-cartaz-cbdpt-2013

Programa provisório.

Tendo em conta as propostas apresentadas e aceites, temos o prazer de apresentar uma programação provisória, ainda dependente de algumas confirmações.
9h00 – Sessão de Abertura
Keynote address da convidada internacional Ann Miller (em inglês)
Keynote address de Renaud Chavanne (em francês)
10h50 Sessão 1 – Contextos e desterritorializações
Apresentações de Maria Clara Carneiro e Domingos Isabelinho
12h00 Sessão 2 – Forma, figura, sentidos
Apresentações de Hugo Almeida, Ana Matilde Sousa e Pedro Moura
14h30 Sessão 3 – Indisciplinando a história
Apresentações de Sofia Leal Rodrigues e João Paulo Duque Löbe Guimarães
15h10 Sessão 4 – No interior do meio
Apresentações de Pedro Cruz e  Rafael Ferraz
15h40 Sessão 6 – Para além do meio
Apresentações de Conceição Pereira, Maria Clara Carneiro e Renatta Pascoal
Nota: todas as sessões terão intervalos de 10 minutos, pausa para almoço entre 13h10 e 14h30.

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Marta Monteiro - Cartaz 3CBDPT

Cartaz de Marta Monteiro.

Depois dos dois primeiros encontros das CBDPT em 2011 e 2012, cuja participação foi muito variada em termos de temas e metodologias, a sua organização no seio da Faculdade de Letras, através do Centro de Estudos Comparatistas, vem trazer um novo fôlego e presença a este evento.
Contamos também, mais uma vez, com o patrocínio da Nouvelle Librairie Française, e os apoios do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora e da Oficina do Cego.
No desejo da continuidade e aprofundamento da investigação multidisciplinar em torno da banda desenhada e de outras áreas que lhe estão intrinsecamente associadas (a ilustração, a caricatura, o cartoon editorial, ou mesmo a animação), o objectivo das CBDPT continua a ser tornar-se o fórum de referência no estudo académico desta mesma área em Portugal.
A banda desenhada, independentemente do seu papel no concerto das artes ou do prestígio cultural angariado, pode ser entendida enquanto arte e disciplina artística, meio e modo de expressão, mas também uma rede específica de relações sociais e uma tecnologia, um conjunto de instituições e uma relação económica. Isso permite que possa, a um só tempo, ser estudada por disciplinas tão variadas quanto a estética, a teoria da cultura, a economia, a sociologia, a semiologia, a narratologia, a análise do discurso, a mediologia, a psicanálise, os estudos pós-coloniais, os estudos feministas, a queer theory, a história da arte, a história do livro, assim como estruturações muito específicas dos discursos desenvolvidos no interior da área dos já chamados Estudos de Banda Desenhada (Comics Studies) como do cruzamento interdisciplinar entre as disciplinas indicadas ou além delas.

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Racines. Pierre Duba. 6 Pieds Sous Terre Éditions, 2010.

Existindo desde pelo menos o final dos anos 1970 uma bibliografia especializada que se tem complementado e construído internamente nesta área de estudos (para não mencionarmos vários trabalhos percursores, que poderiam recuar até 1845 com o Essai de physiognomonie, de Rodolphe Töpffer), os últimos dez anos têm testemunhado um crescimento acelerado não só no número de livros monográficos, colecções de ensaios, colóquios e conferências, e traduções (que permitem um cada vez mais intenso diálogo internacional), como também de blogs, fórums e listservs na internet, de natureza académica, os quais respondem de uma forma especial e necessária a uma forma de construir o seu saber, em larga medida ainda à margem da academia mais convencional. O escopo de todos estes trabalhos tem também crescido exponencialmente, o que se alia igualmente à cada vez maior disponibilidade dos textos primários, uma vez que os processos de recuperação da memória histórica da banda desenhada têm sido desfasados dos de outras artes. Mas verifica-se, paulatinamente. Por todas estas razões, importa responder a esta tradição em particular no seio dos estudos já tecidos sobre a banda desenhada, e não imaginá-la desprovida de discursos específicos.
É nesse contexto que um dos desejos principais das CBDPT é dar a conhecer ao público português algumas das personalidades mais influentes da investigação internacional da banda desenhada, pelo que se tentará sempre contar com a presença de um ou dois convidados de referência. O ano de 2011 contou com David Kunzle, um dos primeiros grandes proponentes do estudo específico da banda desenhada, mormente numa perspectiva histórica marxista, e Thierry Groensteen, autor de Système de la bande dessinée, incorporação da abordagem semiológica a esta disciplina artística, bem como de muitos outros volumes, e que proporcionou alguns princípios de análise rapidamente adoptados ou criticados no campo. Se em 2012 não conseguimos assegurar um convidado, este ano temos já confirmada uma presença internacional, e aguardamos a hipótese de uma segunda. Anunciaremos estes nomes assim que possível.

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Tratado de Umbrografia. Desenhos de Luís Henriques sobre textos de José Carlos Fernandes. Edições Devir, 2006.

Estão abertas as inscrições a todos aqueles que desejem apresentar uma comunicação em torno destes objectos artísticos. Não há quaisquer restrições de tipo académico, sendo possível a qualquer pessoa, independentemente do seu grau académico, apresentar a sua proposta, assim como de qualquer área disciplinar. Os temas são totalmente livres, não se fazendo qualquer restrição, ainda que seja desejável procurar uma maior incidência em matérias relacionadas com a produção portuguesa ou de expressão portuguesa.
Apenas a título de exemplo, apresentamos alguns temas que poderão ser abordados:

  • Contextualização histórica-crítica de autores nacionais
  • Levantamento bibliográfico e tratamento crítico de obras desconhecidas, secundarizadas ou marginais
  • Representações coloniais e/ou pós-coloniais, do colonizador e do colonizado, do Outro na banda desenhada portuguesa
  • Políticas de representação sexual, étnica, e social
  • Tendências estéticas, literárias e temáticas
  • Estratégias de representação e de comunicação na banda desenhada
  • Respostas, elaborações ou críticas às teorias formalistas de banda desenhada (Th. Groensteen, B. Peeters, R. Chavanne, S. McCloud, N. Cohn, M. Saraceni, D. Barbieri, ou outros)
  • Novas abordagens da visualidade e plasticidade da banda desenhada
  • Práticas editoriais históricas e contemporâneas
  • Integração sócio-económica da banda  desenhada nos seus vários contextos históricos ou contemporâneos
  • A materialidade da obra dos autores portugueses (ou outros)
  • Transmedialidade e/ou Intertextualidades literárias e visuais
  • Teorias da recepção ou mediológicas próprias à área
  • A resposta das artes plásticas à banda desenhada (dos modernistas a R. Bértholo, dos Homeostéticos à contemporaneidade)
  • A porosidade entre a prática da banda desenhada e outras actividades (ilustração, animação, cartoon) em termos criativos, sociais e económicos.

A organização das CBDPT está totalmente disponível para o aconselhamento, acompanhamento e/ou uma primeira abordagem crítica das propostas, caso o ou a proponente julgar necessário.
Todas as propostas serão lidas por uma Comissão de Apreciação; esta Comissão reserva-se ao direito de declinar propostas, no caso de estas não cumprirem regras mínimas de clareza, pertinência e metodologia na abordagem dos temas propostos, à semelhança do procedimento habitual na selecção de comunicações para qualquer congresso ou conferência. Existe já hoje em dia uma bibliografia consolidada em torno de variadíssimos temas, autores, contextos editoriais, momentos históricos, tendências artísticas e tratamentos disciplinares, e a Comissão poderá aconselhar a leitura ou consulta de bibliografia especializada caso não esteja essa mesma referência indicada pelas propostas. No caso das propostas aceites, os autores deverão fazer a sua inscrição completa, submetendo alguns dados biográficos complementares. Para mais informações aceder a este link.

Pedro Moura

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Recepção de Propostas de Comunicações

João Maio Pinto

Biblioteca Orlando Ribeiro, 28 e 29 de Setembro de 2012

Coordenação: Pedro Vieira de Moura, do Laboratório de Estudos de Banda Desenhada (LEBD)

Patrocínio Institucional: Rede Municipal de Bibliotecas de Lisboa/CML, CNBDI/FIBDA, Nouvelle Librairie Française (convidado internacional a confirmar)

Depois do primeiro encontro das CBDPT em 2011, cuja participação foi variada em termos de temas e metodologias, queremos dar continuidade e aprofundar a investigação multidisciplinar possível no estudo da banda desenhada e de outras áreas que lhe estão intrinsecamente associadas (a ilustração, a caricatura, o cartoon editorial, ou mesmo a animação). O fito deste encontro é tornar-se fórum de referência no estudo balizado e sério desta mesma área.

A banda desenhada pode ser entendida enquanto arte e disciplina artística, meio e modo de expressão, mas também uma rede específica de relações sociais e uma tecnologia, um conjunto de instituições e uma relação económica. Isso permite que possa, a um só tempo, ser estudada por disciplinas tão variadas quanto a estética, a teoria da cultura, a economia, a sociologia, a semiologia, a narratologia, a mediologia, a psicanálise, os estudos pós-coloniais, os estudos feministas, a queer theory, a história da arte, a história do livro, assim como estruturações muito específicas dos discursos desenvolvidos no interior da área dos já chamados Estudos de Banda Desenhada (Comics Studies) como do cruzamento interdisciplinar entre as disciplinas indicadas ou além delas.

É também desejo das CBDPT dar a conhecer ao público português algumas das personalidades mais influentes da investigação internacional da banda desenhada, pelo que se tentará sempre contar com a presença de um ou dois convidados de referência. O ano de 2011 contou com David Kunzle, um dos primeiros grandes proponentes do estudo específico da banda desenhada, mormente numa perspectiva histórica marxista, e Thierry Groensteen, autor de Système de la bande dessinée, incorporação da abordagem semiológica a esta disciplina artística, bem como de muitos outros volumes, e que proporcionou alguns princípios de análise rapidamente adoptados ou criticados no campo. O ano de 2012 também tentará garantir a presença de pelo menos um keynote speaker internacional.

Estão abertas as inscrições a todos aqueles que desejem apresentar uma comunicação em torno destes objectos artísticos. Não há quaisquer restrições de tipo académico, sendo possível a qualquer pessoa, independentemente do seu grau académico, apresentar a sua proposta,assim como de qualquer área disciplinar. Os temas são totalmente livres, não se fazendo qualquer restrição, ainda que seja desejável procurar uma maior incidência em matérias relacionadas com a produção portuguesa ou de expressão portuguesa.

Apenas a título de identificação, porém, eis alguns temas que julgamos ser necessário abordar no contexto nacional:

Contextualização histórica-crítica de autores nacionais.

Levantamento bibliográfico e tratamento crítico de obras desconhecidas, secundarizadas ou marginais.

Representações coloniais e pós-coloniais, do colonizador e do colonizado, do Outro na banda desenhada portuguesa.

Políticas de representação sexual, étnica, e social.

Tendências estéticas, literárias e temáticas.

Práticas editoriais históricas e contemporâneas.

A materialidade da obra dos autores portugueses.

Transmedialidade e/ou Intertextualidades literárias e visuais.

A resposta das artes plásticas à banda desenhada (dos modernistas a R. Bértholo, dos Homeostéticos à contemporaneidade).

A porosidade entre a prática da banda desenhada e outras actividades (ilustração, animação, cartoon) em termos criativos, sociais e económicos.

 A organização das CBDPT, através do seu coordenador, está totalmente disponível para o aconselhamento, acompanhamento e/ou uma primeira abordagem crítica das propostas, caso o ou a proponente julgar necessário.

Todas as propostas serão lidas por uma Comissão de Apreciação, cuja constituição e conduta é indicada abaixo. A Comissão reserva-se ao direito de declinar propostas, no caso de estas não cumprirem regras mínimas de clareza, pertinência e metodologia na abordagem dos temas propostos, à semelhança do procedimento habitual na selecção de comunicações para qualquer congresso ou conferência. Existe já hoje em dia uma bibliografia consolidada em torno de variadíssimos temas, autores, contextos editoriais, momentos históricos, tendências artísticas e tratamentos disciplinares, e a Comissão poderá aconselhar a leitura ou consulta de bibliografia especializada caso não esteja essa mesma referência indicada pelas propostas. No caso das propostas aceites, os autores deverão fazer a sua inscrição completa, submetendo alguns dados biográficos complementares.

Regras de participação:

1. As propostas devem ser apresentadas num documento Word (extensão .doc 97-2003), de uma página, com um breve resumo do tema e/ou investigação a apresentar (num máximo de 1000 palavras), assim como da bibliografia quer primária quer secundária. Não serão aceites candidaturas que não em língua portuguesa.

2. Todas as propostas deverão ser enviadas até 1 de Julho de 2012 para os seguintes endereços electrónicos: pedrovmoura@gmail.com. Na medida do possível, o processo de selecção será feito no espaço de duas semanas.

3. Após o processo de apreciação e publicitação dos resultados (com aviso aos participantes), as comunicações aprovadas deverão ser enviadas numa versão completa e publicável (para publicação das Actas), até dia 1 de Setembro de 2012. Este deve ser um documento Word (extensão .doc 97-2003), em letra Garamond ou Times New Roman corpo 12, com uma linha de espaçamento. A utilização de notas de rodapé ou notas finais é opcional, mas devem seguir critérios coerentes. O mesmo é dito do aparato crítico, bibliografia, etc. A utilização das imagens é opcional, mas os autores dos textos devem integrá-las no texto conforme desejam, identificando através das legendas o nome do(s) autor(es) (texto e imagem, nos casos pertinentes), proveniência original e data, e qual a publicação de onde foi retirada. Apesar da CBDPT poder alegar o “fair use académico”, os autores devem procurar garantir a autorização das editoras e/ou autores para o seu uso, assim como procurarem um número comedido das

mesmas imagens. Podem ser utilizadas imagens a cores.

Atenção: a não-entrega destes textos poderá implicar a eliminação do painel de apresentações públicas.

4. Todas as comunicações devem ser elaboradas num quadro de apresentação pública de 15 a 20 minutos, não sendo necessário que a apresentação se cinja à leitura da comunicação escrita. As versões escritas podem conter anexos textuais e/ou de imagem adicionais à apresentação pública, devendo os participantes comunicar à organização quaisquer necessidades técnicas especiais com antecedência (contemplar-se-á equipamento para projecção de imagens, PowerPoints, DVDs, ficheiros sonoros, entre outros).

5. As sessões de apresentação e discussão públicas terão lugar durante a CBDPT 2012, no Auditório da Biblioteca Municipal de Lisboa Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa, nos dias 28 e 29 de Setembro. Outros pormenores da sua organização serão divulgados atempadamente, para já através do blog www.cbdpt.blogspot.com

6. Após as sessões de apresentação e discussão públicas, os autores terão até dia 30 de Novembro de 2012 para proceder a quaisquer alterações que desejem nas suas versões a publicar nas actas (caso contrário, será publicada a versão entregue anteriormente).

7. Prevê-se a edição de todas as comunicações nas Actas da CBDPT até início de 2013 no site (ainda em construção) http://www.reirubro.org. Não havendo qualquer fito comercial ou lucrativo das CBDPT, a publicação destas actas é exclusiva da organização num prazo de dois anos. No entanto, os autores são livres de apresentar versões alternativas e/ou traduções, agradecendo a comunicação disso à organização das CBDPT, de forma a divulgar através do site.

Comissão de Apreciação

Professora Doutora Maria Cristina Álvares, docente na Universidade do Minho, investigadora de Literatura Francesa.

Doutora Conceição Pereira, investigadora integrada do CLEPUL (Universidade de Lisboa), na área de Literatura e Cultura Portuguesas.

Mestre Sara Figueiredo Costa, de Estudos Filológicos, crítica literária e de banda desenhada, e investigadora de banda desenhada e ilustração.

Mestre Alexandra Dias, Doutoranda em Literaturas e culturas românicas – variante de Estética Literária, com uma tese sobre a transposição intersemiótica em banda desenhada e docente na Universidade do Porto.

Pedro Vieira de Moura, doutorando do CEC/FLUL, crítico, professor e investigador de banda desenhada, com vários projectos em torno dessa arte.

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O Laboratório de Estudos de Banda Desenhada (LEBD) foi criado na necessidade de coordenar toda uma série de gestos, saberes e contactos em torno do interesse pelo estudo da banda desenhada. É um nome “oficial” de um ponto de encontro informal, proporcionado por Pedro Vieira de Moura.
Neste momento, trata-se de um pequeno escritório em Lisboa, com uma pequena biblioteca com volumes especializados (monografias, colectâneas de ensaios, livros de história, sociologia, e estudos culturais sobre esta área, já para não falar de banda desenhada propriamente dita). Está preparado para receber pessoas interessadas em estudar esta área, ou que necessitem de um acompanhamento especializado de trabalhos académicos (inclusive teses de mestrado e doutoramento), ou simplesmente de um apoio pontual para uma qualquer questão. As pessoas poderão – em circunstâncias a combinar – visitar o local e consultar as publicações, elaborarem os seus trabalhos no local ou serem apoiadas por alguém. Prevê-se que, em conjunção com o plano de formações da Oficina do Cego, se venha a oferecer formação (um curso de História da Banda Desenhada será anunciado em breve).
Procurar-se-á criar uma pequena rede de investigadores em Portugal, que possam ajudar a exponenciar os saberes em torno da banda desenhada.
A primeira acção pública do LEBD é a organização das Conferências de Banda Desenhada em Portugal, que este ano irão decorrer, entre 22 e 23 de Setembro, no Instituto Francês em Portugal, Lisboa. A próxima será a publicação da Rei Rubro no. 1, um livro-fanzine de ensaios académicos de banda desenhada, ilustração e animação (Montesinos: 2011).
Nesta primeira fase, existe já uma página do Facebook. Esperamos que em breve tenhamos um site operacional. Contacto: pedrovmoura + @ + gmail.com

Programa das 1as Conferências de Banda Desenhada em Portugal

Dia 22 de Setembro, Quinta-Feira

9h30
Apresentação das Conferências e Convidados
Discursos dos convidados internacionais
David Kunzle, “Rodolphe Töpffer, Diletante” (em língua inglesa)
Thierry Groensteen, “Patchwork de estilos: o fim do dogma da homogeneidade gráfica” (em língua francesa)

11h30
Intervalo

11h50
1ª Parte das apresentações: O Artefacto Literário
Maria Cristina Álvares, “A figura do herói na bd franco-belga clássica”
Daniel Seabra Lopes, “Na margem da aventura: Pratt”
Alexandra Dias, “O Diário de K. e a Intertextualidade”

13h15
Pausa para almoço

15h00
2ª Parte das apresentações: Disciplina e Indisciplina
Cláudia Pinto, “Marvels e Kingdom Come: A Re-Mitificação da América”
José Marmeleira, “Vãs epifanias: rock e banda desenhada”
Helena Berardo, “Uma leitura feminista de O Vagabundo dos Limbos

16h00
Intervalo

16h10
Mesa-redonda: Grupo de Investigação de Banda Desenhada

Dia 23 de Setembro, Sexta-Feira
10h30
3ª Parte das apresentações: Lógicas de Território
Sara Figueiredo Costa, “Castelao e o galeguismo”
Nuno Marques, “In The Shadow of No Towers e M-11 La Novela Grafica como momentos de silêncio entre o ruído da tragédia”
João Miguel Lameiras, “Era uma vez na Argentina: entre o esquecimento e a memória”

11h50
Intervalo

12h00
4ª Parte das apresentações: Ciência e Banda Desenhada
João Ramalho Santos, “Ciência e Banda Desenhada”
João Mascarenhas, “Tintin, a aventura na Lua, o conhecimento científico e a bd”

13h15
Pausa para almoço

15h00
5ª Parte das apresentações: Autores Portugueses
João Caetano, “Lugares de Fronteira: Carlos Alberto Santos”
Conceição Pereira, “Arte fragmentada (José Carlos Fernandes)”
Álvaro Matos, “Política e bd na I República”

16h20
Intervalo

16h30
6ª Parte das apresentações: Limites e Experimentação
Pedro Moura, “Elementos estéticos em The Cage, de Martin Vaughn-James”
Diniz Conefrey, “Percepção narrativa no advento da bd abstracta”
Domingos Isabelinho, “A banda desenhada portuguesa no campo alargado: do O Escritor a A História Dramática de um Ovo

17h40
Encerramento das Conferências

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