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Posts Tagged ‘Livros’

A escolha de um nome é como um movimento interno que pretende determinar, numa súmula, os conteúdos emocionais sensíveis à razão. Fazendo parte também de uma expressão editorial, o nome Quarto de Jade encerra em si uma floresta de jade e um “crystal cabinet” segundo um poema de William Blake.

Se acabou sendo um quarto é um quarto com vista ampla, numa divisão que é também uma partilha. O jade define os seus contornos, de verdes leitosos e polidos, com seus veios gramaticais, representando os valores que se ligam a uma natureza primordial. Como a barra vertical do site, à esquerda do monitor, que é a raíz comum donde deriva a linguagem própria que define a individualidade de cada autor. Por isso existe, além deste blog e do site Quarto de Jade, uma página no facebook cujo princípio é o de partilhar os bastidores das nossas edições: https://www.facebook.com/quartodejade/

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Numa camioneta azul de caixa aberta cabe um livro (a publicar no início de 2018): «L’orso borotalco e la bambola nuda italiana» de Maria João Worm: «Serve esta nota para esclarecer que do armário onde se encontram o jarro de 1/2 litro e o copo de 2 decilitros se avista a prateleira onde o Orso e a Bambola costumam encontrar-se. E naturalmente da prateleira avista-se o armário (Informação cedida pela janela de fundo).»

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AS PLANTAS

 

 

«A Botânica é o estudo apropriado para um solitário ocioso e preguiçoso: um estilete e uma lupa constituem todo o equipamento de que precisa para as observar. Passeia, vagueia livremente de um objecto para outro, analisa cada flor com interesse e curiosidade e, logo que começa a aprender as leis da sua estrutura, saboreia, ao observá-las, um prazer sem esforço, tão intenso como se lhe tivesse custado muito. Há nessa ocupação um encanto que só se sente quando todas as paixões se acalmam, mas que basta para tornar a vida feliz e amena; porém, mal a ele se mistura o interesse ou a vaidade, quer seja para ocupar um lugar quer para fazer livros, mal se queira aprender só para ensinar, mal se começa a colher plantas para se passar a ser autor ou professor, todo esse doce encanto se desvanece, já não se vê nas plantas senão instrumentos das nossas paixões, já não se descobre nenhum prazer verdadeiro no seu estudo, já não se quer saber mas apenas mostrar que se sabe, e está-se nos bosques como se estaria no teatro do mundo, com a única preocupação de se ser admirado; ou então, limitando-nos, quando muito, à Botânica de gabinete e jardim, em vez de observarmos os vegetais na natureza, preocupamo-nos com sistemas e métodos, motivos eternos de discussão, que não dão a conhecer uma só planta a mais e não lançam qualquer luz verdadeira sobre a história natural e o reino vegetal. (…)

 

 

(…) Parece-me que, sob as sombras de uma floresta, sou esquecido, sinto-me livre e tranquilo, como se já não tivesse inimigos ou a folhagem me protegesse dos seus ataques, tal como os afasta da minha lembrança, e imagino, estultamente, que, não pensando neles, eles não pensarão em mim. É uma ilusão doce que a ela me entregaria inteiramente se a minha situação, a minha fraqueza e as minhas necessidades mo permitissem. Quanto mais profunda é a solidão em que vivo, mais necessito que algum objecto venha preencher o seu vazio, e aqueles que a minha imaginação recusa ou que a minha memória repele são substituídos pelas produções espontâneas que a terra, não forçada pelos homens, em toda a parte oferece aos meus olhos. O prazer de ir a um deserto procurar novas plantas ocultas, o prazer de escapar aos meus perseguidores, e quando chego a locais onde não vejo quaisquer vestígios de homens respiro, mais à vontade, como se estivesse num refúgio onde o ódio já não me perseguisse.»

 

Os devaneios do caminhante solitário. Jean-Jacques Rousseau.

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Um urso e uma boneca, um apito-comboio que anima um fio, uma casa que já passou imagens dentro dela para se espreitar. Um sabichão com memória de elefante. Fantasmas para habitar, lembrando como se conjugam os verbos. Ser, estar, no gerúndio de existir.

Breve, muito breve. Sopro. Vindo de longe. Agora.

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Sábado, dia 9 de Dezembro, no Bar do Teatro A Barraca, estaremos presentes na Grandiosa Quermesse do Homem do Saco. Nesse dia estarão disponíveis todas as edições deste colectivo que inclui 100 cabeças, Pianola, Momo, Edições do Tédio, Cronópio, além da presença de outros amigos em Douda Correria ou apresentando a sua Letra Livre. Para além das rifas, haverá o lançamento de livros, um disco que relembra Satie, cartazes, gravuras, originais de banda desenhada e ilustração; tudo isto num encontro em que as narrativas vão fluir ao sabor das inclinações. Por nós desejamos boas festas, sobretudo se não comerem as renas do Pai Natal.

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VER A PARTIR DE DENTRO

«E o escrever só, sem finalidade, sem projecto, porque sim, porque é assim, pode oferecer o carácter de uma acção transcendental, que só porque se trata de uma acção humaníssima é que não podemos chamar-lhe sagrada. Mas tem qualquer coisa de rito, de conjuro e, mais ainda, de oferenda, de aceitação do iniludível presente temporal, e de transitar no tempo, de ir ao seu encontro, como ele faz, pois não nos abandona. E como, por fim, o tempo se move, faz mover o ser humano; mover-se é fazer alguma coisa, fazer alguma coisa de verdade, apenas isso. Fazer uma verdade, ainda que seja a escrever.»

O homem e o divino. María Zambrano, Relógio D’Água, 1995.

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Página do Códice Fejérvary-Mayer e prancha de Dino Battaglia. Apesar de se identificarem alguns processos narrativos similares entre ambas as linguagens (como os eventos res gestae), os seus níveis cognitivos derivam de planos distintos.

Preconizando um quadro reflexivo, relacionado com o movimento natural para a identificação das suas raízes, não raras vezes são colocados os códices pictográficos, do México antigo, como antecedentes da moderna banda desenhada. Em casos mais extremos serão até assumidos como sendo já banda desenhada. Este pressuposto aponta já para a turbulência das imagens na era da informação global, assumindo aspectos reivindicativos de síntese, baseada na relação sensorial que o imediatismo das sociedades tecnológicas induzem como prática de vida. A linguagem, tal como a História, existe num fluxo de abertura permanente, no sentido que a sua interpretação está exposta às mutações do pensamento que as observa, no tempo e no espaço cada vez mais distante do objecto inicial. Podemos acumular todo um índice de referências, por exemplo, sobre a idade média. No entanto já não nos é inteiramente acessível saber o que sentiam, directamente, as pessoas que viveram nesse período, apenas restando as pistas de como o seu mundo podia – ou devia – ser precepcionado.

Página do Códice Zouche-Nuttal com indicação, no canto inferior direito, do sentido de leitura.

Nessa medida sabemos que no México central foi desenvolvida uma escrita pictográfica que incluía, simultaneamente, códigos fonéticos, topónimos, símbolos ideográficos, tanto descritivos como abstractos  com a capacidade de fixar um discurso tanto de homónimos como de sinónimos. No entanto, os conteúdos – e mesmo a ambiguidade – resultante dessa sobreposição não dependia da intenção de um “escritor” (no caso um tlacuilo, termo nahua que contém o duplo significado de escriba-pintor) sendo antes de mais o reflexo de um quadro cultural onde os símbolos partilháveis, apesar da sua flutuação, assumiam valores canónicos. No corpo social mesoamericano o conceito de estado centralizado não chegou a tomar uma expressão e, apesar da linearidade da contagem temporal, os seus ciclos tenderam para uma regulação circular do tempo. Desse modo, podemos observar que da época de Teotihuacan – cerca de 300 d.C. – até à cidade do México – 1520 d.C. – práticamente não se observam alterações tecnológicas de fundo.

Reconstituição de uma página do Códice Borgia por Gisele Díaz e Alan Rogers. Dover Publications, 1993.

Se de um ponto de vista aparente podemos estabelecer uma relação entre as imagens sintéticas e sua disposição num códice com as páginas de uma banda desenhada, ao nível superlativo tal comparação enferma de uma sustentabilidade estrutural. Como em qualquer outra parte do mundo, um habitante de uma cidade-estado mesoamericana teria presente a sua condição na hierarquia social. No entanto, aquilo a que chamamos “consciência de classe” estaria inteiramente arredado da sua percepção. Esta última formulação, como sabemos, deriva das transformações sentidas na Europa após a revolução industrial, sendo um conceito introduzido pela reflexão marxista no século XIX e que, entre outros aspectos, aponta para o controlo dos meios de produção sentidos em consequência do antropoceno. Estamos portanto muito longe dos códices e do seu contexto social cuja relação objectiva com a natureza dependia do inconsciente colectivo e não das escolhas permitidas pela individuação.

Ou se voit que les japonais ont aussi leur homme au long nez. Imagem de Épinal.

Caberia aqui mencionar que, do ponto de vista processual, palavra e imagem encontram-se fundidos nos códices pictográficos mexicanos, existindo uma consubstancialidade entre o signo e aquilo que designa. Por seu lado, na banda desenhada opera-se uma sincronia que advém da separação entre estas mesmas duas componentes. Enquanto os códices como linguagem são um registo arquétipo a banda desenhada é um sucedâneo da separação entre palavra e imagem – com a qual ainda se debate – sendo que a sua pré-história é identificável ao tempo dos Cris (estampas com legendas, vendidas na rua, entre o século XVI e XVII), na integração do texto em imagens dos cartazes durante o século XIX e nas imagens de Épinal. Narrativa e sequencialidade não são apanágio exclusivo da banda desenhada, estes podem ser reconhecidos antes e depois da sua formalização por Topffer, em vários campos de expressão linguística, plástica e mesmo audio-visual.

Duas páginas do Códice Florentino que incluem sequências narrativas. Outras páginas incluem apenas uma ou duas ilustrações, também inseridas em vinhetas.

Em termos de conceito e contextualização os códices pictográficos não devem ser vistos de uma forma empírica, correndo-se o risco de uma extrapolação política alheia ao objecto e seu significado primordial. Mencionando apenas um aspecto, as páginas em acordeão de um códice poderiam ser consultadas em simultâneo, permitindo facilmente a esta estrutura uma transgressão da leitura linear. Possivelmente as referências eram cruzadas e podiam ser lidas alternadamente. Como consequência da invasão do México, no século XVI, é introduzida na linguagem dos tlacuilos dois aspectos que estavam completamente ausentes: o desenho em perspectiva e a narrativa gráfica. Apesar de muitos códices pós-coloniais serem já elaborados com a primeira alteração, o exemplo mais significativo encontra-se na obra compilada por Sahagún, o Códice Florentino, com a participação de informantes indígenas. A par do texto alfabético, surgem pequenas sequências enquadradas por vinhetas que referem acontecimentos e que são independentes, por complementaridade, ao texto central. Da escrita pictográfica, os tlacuilos são agora solicitados a essa expressão, em pequenas narrativas, cujas ilustrações descrevem uma acção da qual eles próprios estão separados, assumindo-se como observadores de uma realidade da qual já não participam. Quanto aos códices pictográficos, no seu aspecto original, continuam a existir até ao século XVIII.

O mapa de Teozacoalco foi pintado por artistas indígenas em resposta ao questionário das Relações Geográficas do governo de Nova Espanha, no final do século XVI. Do lado esquerdo figura a lista de governantes Mixtecas.

De uma maneira geral haverá pouca gente que tenha presente o contexto que reafirma a clara diferenciação entre uma linguagem arquétipo – os códices – e uma linguagem híbrida – a banda desenhada. Como consequência do novo estatuto social, grande parte dos códices mesoamericanos foram destruídos. No entanto, a continuidade desta linguagem manteve-se mediante a necessidade imposta aos povos indígenas no sentido de provarem a propriedade de terras e as suas filiações políticas através de Lienzos, guardando conteúdos narrativos em tiras ou mapas territoriais. As genealogias também foram valorizadas, tendo em conta que o processo de transposição legal fez com que as instituições ocidentais – como os tribunais – recaissem sobre os antigos centros administrativos indígenas.

O Diário de Jules Renard lido por Fred. Bertrand Editora, 1989.

Actualmente já não existem códices pictográficos e, certamente, estes nunca fizeram parte integrante da história da banda desenhada. A sua realização situa-se no campo da semântica e, por extensão, da história da ilustração. Assim como os hieróglifos fazem parte do campo da escrita fonética, apesar da aparente facilidade com que se podem invocar as proximidades electivas. Podemos ver, de forma cada vez mais clara, que a linha identitária da narrativa gráfica ou banda desenhada se situa entre o século XVIII e XIX, resultando de várias mutações sociais, estéticas e tecnológicas mas que encontra uma clara matiz na intensa concorrência que caracterizou os jornais no início do século XX. Entretanto, as suas questões para o futuro prendem-se mais com a dicotomia latente entre poesia e literatura, no sentido das tensões permanentes entre a dessubjectivação da linguagem realizada no plano da expressão absoluta e o romance enquanto prioridade editorial.

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