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Archive for the ‘Postigo’ Category

CONTAGEM DO TEMPO

Ombú de Pedro Figari. Óleo sobre cartão. Uruguai.

E entramos no ano novo sem esquecer as muitas vidas queimadas, as árvores, a terra violentada durante o ano anterior pelas alterações impostas por uma inteligência produtiva, sem capacidade de sentir a riqueza da vida no seu interior mais profundo. Amâgo que as capacidades intelectuais não conseguem ver pois o deslumbre e a distracção são os vícios de uma tecnologia confortável. Ouvimos dizer: «isto podia ser tão bom para toda a gente.» No fundo trata-se de um enunciado egoísta que envolve o facto de quem o diz se sentir mal com o que tem. Os outros, sejam seres sencientes ou passivos, estão lá para justificarem as necessidades morais e materiais do indivíduo: «não tenho o que preciso, preciso do que não tenho e a que acho que tenho direito.» Indignado, o corpo social do meio, esquece os que não têm margem para se manifestar porque apenas sobrevivem. O “eu”, da vivência ou das ideologias, ainda não acordou para reconhecer que apenas é o que critica nos outros. A orquestra continua a entoar as suas notas flutuantes, no palco do salão de festas, enquanto o Titanic se afunda arrastando os múltiplos acontecimentos numa gesta em fragmentação.

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AS PLANTAS

 

 

«A Botânica é o estudo apropriado para um solitário ocioso e preguiçoso: um estilete e uma lupa constituem todo o equipamento de que precisa para as observar. Passeia, vagueia livremente de um objecto para outro, analisa cada flor com interesse e curiosidade e, logo que começa a aprender as leis da sua estrutura, saboreia, ao observá-las, um prazer sem esforço, tão intenso como se lhe tivesse custado muito. Há nessa ocupação um encanto que só se sente quando todas as paixões se acalmam, mas que basta para tornar a vida feliz e amena; porém, mal a ele se mistura o interesse ou a vaidade, quer seja para ocupar um lugar quer para fazer livros, mal se queira aprender só para ensinar, mal se começa a colher plantas para se passar a ser autor ou professor, todo esse doce encanto se desvanece, já não se vê nas plantas senão instrumentos das nossas paixões, já não se descobre nenhum prazer verdadeiro no seu estudo, já não se quer saber mas apenas mostrar que se sabe, e está-se nos bosques como se estaria no teatro do mundo, com a única preocupação de se ser admirado; ou então, limitando-nos, quando muito, à Botânica de gabinete e jardim, em vez de observarmos os vegetais na natureza, preocupamo-nos com sistemas e métodos, motivos eternos de discussão, que não dão a conhecer uma só planta a mais e não lançam qualquer luz verdadeira sobre a história natural e o reino vegetal. (…)

 

 

(…) Parece-me que, sob as sombras de uma floresta, sou esquecido, sinto-me livre e tranquilo, como se já não tivesse inimigos ou a folhagem me protegesse dos seus ataques, tal como os afasta da minha lembrança, e imagino, estultamente, que, não pensando neles, eles não pensarão em mim. É uma ilusão doce que a ela me entregaria inteiramente se a minha situação, a minha fraqueza e as minhas necessidades mo permitissem. Quanto mais profunda é a solidão em que vivo, mais necessito que algum objecto venha preencher o seu vazio, e aqueles que a minha imaginação recusa ou que a minha memória repele são substituídos pelas produções espontâneas que a terra, não forçada pelos homens, em toda a parte oferece aos meus olhos. O prazer de ir a um deserto procurar novas plantas ocultas, o prazer de escapar aos meus perseguidores, e quando chego a locais onde não vejo quaisquer vestígios de homens respiro, mais à vontade, como se estivesse num refúgio onde o ódio já não me perseguisse.»

 

Os devaneios do caminhante solitário. Jean-Jacques Rousseau.

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Sábado, dia 9 de Dezembro, no Bar do Teatro A Barraca, estaremos presentes na Grandiosa Quermesse do Homem do Saco. Nesse dia estarão disponíveis todas as edições deste colectivo que inclui 100 cabeças, Pianola, Momo, Edições do Tédio, Cronópio, além da presença de outros amigos em Douda Correria ou apresentando a sua Letra Livre. Para além das rifas, haverá o lançamento de livros, um disco que relembra Satie, cartazes, gravuras, originais de banda desenhada e ilustração; tudo isto num encontro em que as narrativas vão fluir ao sabor das inclinações. Por nós desejamos boas festas, sobretudo se não comerem as renas do Pai Natal.

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VER A PARTIR DE DENTRO

«E o escrever só, sem finalidade, sem projecto, porque sim, porque é assim, pode oferecer o carácter de uma acção transcendental, que só porque se trata de uma acção humaníssima é que não podemos chamar-lhe sagrada. Mas tem qualquer coisa de rito, de conjuro e, mais ainda, de oferenda, de aceitação do iniludível presente temporal, e de transitar no tempo, de ir ao seu encontro, como ele faz, pois não nos abandona. E como, por fim, o tempo se move, faz mover o ser humano; mover-se é fazer alguma coisa, fazer alguma coisa de verdade, apenas isso. Fazer uma verdade, ainda que seja a escrever.»

O homem e o divino. María Zambrano, Relógio D’Água, 1995.

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CEM ANOS COM JUAN RULFO

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SETEMBRO

 

“Outro dia”, que não este, pode ter sido ou vir a ser. Que liberdade boa há em “outro dia”. E também dá a justeza do lugar do tempo presente… só ele fica definido pelo outro. Tem em si o princípio narrativo do que pode ser exemplar, como “naquele tempo”. Embora “naquele tempo” se apresente o passado da história. “Noutro dia”, que não este, já me parece referir-se ao passado mas nada nele sugere isso, apenas se define como outro, num outro lugar?

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«Onde estará agora Tony Goodwin? A sua morte afirma que nunca mais poderá ter a presença em qualquer lugar: que cessou de existir. E, fisicamente, é verdade. Há duas semanas queimávamos folhas secas no pomar. Agora caminho sobre as cinzas quando vou até à aldeia. Cinzas são cinzas. A vida de Tony pertence historicamente ao passado. Fisicamente, o seu corpo, simplificado e reduzido ao carbono pelo fogo, reentra no processo físico do mundo. O carbono é pré-requisito de qualquer forma de vida, a fonte do orgânico. Digo a mim mesmo estas coisas, não para elaborar uma capciosa alquimia da imortalidade mas para não me esquecer de que é a minha concepção do tempo que está a ser interrogada impiedosamente pela morte. Não vale a pena usar a morte para simplificar as nossas vidas. Tony já não está dentro do nexo do tempo tal como é vivido pelos que, até há pouco tempo, eram seus contemporâneos. Mas estará sobre a circunferência desse nexo (circunferência de um círculo, não de uma esfera), tal como os diamantes e as amibas. E todavia também está do lado de dentro, como todos os mortos. Numa condição que é a de tudo-o-que-os-vivos-não-são. Os mortos são a imaginação dos vivos. E para os mortos, ao contrário dos vivos, a circunferência da esfera não constitui fronteira nem obstáculo.»

Do livro de John Berger E os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias. Tradução de Helder Moura Pereira. Revista «Construções Portuárias», Maio de 2002.

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