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Archive for the ‘Poesia’ Category

FEIRA DO LIVRO EM LISBOA

Sábado, dia cinco de Setembro, no Pavilhão da editora Livros de Bordo (D35) será livro do dia «Um fio atravessa a noite» de Diniz Conefrey. Editado pela Companhia das Ilhas, pouco antes das restrições que a pandemia obrigou, este livro viu canceladas várias apresentações públicas de leitura e conversa que se encontravam agendadas. Deste modo, durante a próxima Feira do Livro de Lisboa, de 27 de Agosto a 13 de Setembro, ficará disponível para um encontro mais próximo em torno das suas matizes poéticas.

 

Ao longe, uma nuvem arqueada

no topo de uma colina

enquanto, no sono cansado,

uma mulher em S deitada

emerge na sombra o seio pousado.

Manchas quentes

que aproximam o dia frio

onde esperam armados, nos montes,

os doadores de nomes.

Um deles,

fluindo languido pela vertente,

prostrado

de braço voltado e a mão fechada

deixando escorrer um líquido fio

retornando ao interior

da água fria.

 

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BROKEN MUSE

Entre as salas vazias, duas asas para a «Broken Muse», «Hell» e «Grief». Mas aqui a memória não é arqueologia.

Depois da edição do livro seminal «Biblioteca dos Rapazes» (Pianola Edições, 2012), os poemas visuais de Rui Pires Cabral transpareceram numa série de publicações onde o universo lírico deste autor se reinventa permanentemente. Ao descer fundo nas melodias secretas que escrutina, num sentir provocativo e reflexivo, de poemas que se complementam visualmente; as suas coreografias ambientais traduzem e aproximam o leitor de uma dimensão semiótica da intimidade que apenas raros poetas conseguem, mesmo através do uso exclusivo da palavra.

«Drawing Rooms», editado em Junho deste ano pela chancela da não (edições), organiza-se em quatro momentos assinalados: «Songs», «Ghots», «Heartaches» e «Mysteries» que desenvolvem um arco consistente cujo palco ecoava já em «Elsewhere/Alhures» (publicado pela mesma editora em 2015) encontrando agora toda uma margem sintética, sem a presença de qualquer poema nos quatro enunciados, onde cada imagem é simplesmente acompanhada por uma legenda, surgindo um «Afterword» no final das 53 páginas que compõem esta edição.

 

 

Livro inóspito, que formalmente adquire uma amplitude sequencial, ao congregar a claustrofobia de um palco encerrado no interior circunscrito de paredes. Individualismo retido nas veias das suas próprias evocações, abre, no entanto, ressonâncias plurais. Sobretudo quando flui por uma revigoração silenciosa, de que os modos apenas são emprestados; despindo e expondo, de forma súbtil, o encontro das harmonias que juntam o livro às visitas interrogativas dos seus atentos leitores.

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DA ESCRITA (FRAGMENTOS) 3

Time Lapse Growth. Bill Shut.

Dos mecanismos linguísticos, o melhor que identifico como próprio é, num sentido amplo, o da justaposição. É a relação entre o cinema e a vida: ela, os pássaros. A estranheza e o sentido procedem desse trabalho de montajem que a nossa percepção realiza de modo natural. A metáfora, pelo contrário, é algo que naquilo que escrevo me custa reconhecer. Neste sentido, considero a minha escrita realista, quero dizer literal. O brilho da fulguração sombria de uma metáfora passa em todo o caso por essa literariedade.

Escrever, 2

Os meus livros fazem-se um pouco às cegas, quero dizer que não há um projecto inicial que a escrita vá correspondendo. Cada poema nasce de modo independente, um a um escrevem-se ao longo dos anos. Depois, em algum momento, começo a trabalhar o livro como tal, o que significa ir fazendo-me com ele. O livro está aí, nas linhas que transitam, na rede de recorrências que se vão tecendo, nos fios que o envolve aos livros anteriores.

Pensar é pensar o corpo, pensarmos no mundo – o que significa: estamos, e não estamos. No mundo. O mundo de um poeta, de uma poeta é reduzido; o seu olhar focaliza aspectos limitados, obsessivos, doentes; manifestações ou sintomas de uma disposição de animo. Além disso esse mundo é lento; as transformações (condensações, novas dimensões, descobertas do mesmo – aqui, aquilo -) são lentas, anos para uma rotação, para outro matiz, para o caír na conta. Quem trabalha o poema é pássaro e caracol ao mesmo tempo, leve, e audaz e concentrado, reconcentrado em si, quieto, ensimesmado. A obra responde a qualidades muito precisas da sua percepção e da sua memória; a uma sensibilidade formada por dependências familiares carnudas e em mecanismos associativos irredutíveis. O modo como constroi o seu mundo é a sua contribuição à língua. Penso em Vallejo, em Rosalía, em Lezama, em Jaime Saenz… Para cada um deles a forma é a única possível; e essa forma é pensamento, uma maneira de relacionar-se com os mortos, de ir para a morte.

Olvido García Valdés (traduzido da revista el poeta y su trabajo. Inverno de 2009)

 

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FANTASMAS NAS CASAS NOVAS

Há algo de assustador nos fantasmas das casas novas:

Os fantasmas das casas velhas já são maus quanto baste:

Mas os fantasmas das casas novas são terríveis.

A grande novidade destas novas e desoladas casas

Já seria bem terrível sem os fantasmas.

Mas os fantasmas também são novos.

Raparigas tristes com blusas azuis

E pessoas nos seus assados de Domingo

Sob a grande luz do dia, dentro destas casas novas

Em ruas onde os homens varrem o vidro partido.

 

Malcolm Lowry

As cantinas e outros poemas do álcool e do mar.

Tradução de José Agostinho Baptista para Assírio & Alvim, 2008.

(Imagem: Maxfield Parrish, 1903)

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CENTELHA DO LIMBO

Disponível nas livrarias o novo livro de poesia de Diniz Conefrey, Um Fio Atravessa a Noite. No espanto, as mãos das vozes que transintam entre amplitudes de vida, transformando a respiração por dentro. E transforma em quê? A pergunta está deslocada, transforma-se porquê? Porque de súbito renasce a vontade do olhar. Sem aquela luz fugaz dos espectáculos, apenas uma estação inscrita que sente e que se altera pela combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação no veio cortante das palavras. Editado pela Companhia das Ilhas, este azulcobalto de 84 páginas inclui vários poemas por entre diversas inflorescências. Nesta página, apenas o verso final de Centelha do Limbo:

(…)

Mato grosso ondulante, corpos nus;

sentado Ailton pondera palavras

como fruta macia de silabas abertas

por sementes, rio doce sob o vale de aço,

mãos dadas com quem se quer longe

e perto de tudo que fala enrolado

esquinas de saber ou em guarda parada –

copo do corpo tatuagem do espaço

bolsa de tarja larga, fundo caíram os dedos

descendo sozinhos no sonho d’avó

pelo fundo do rio, da espera, tudo recomeçou –

acabou, acabando em nós de folhas virgens

dilaceradas por febres de vozes mansas,

jacarandás chovendo violetas soando –

soando de retorno ao fundo, o mesmo fundo

saindo, uma vez mais, por entre lavores

dos olhos talhados de gretas tremendo

no frio de um rosto suave

sorrindo nos gestos

brandos

que a esperteza calou.

 

 

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DA ESCRITA (FRAGMENTOS) 2

Segunda parte do texto, publicado na revista el poeta y su trabajo (Inverno de 2009), da autoria de Olvido García Valdés. Poeta, ensaísta e tradutora espanhola que nasceu em Santianes de Pravia (Asturias) em 1950.

Arshile Gorky. Good Hope Road II. Pastoral, 1945.

O poema, como paisagem, é um lugar onde nos é permitido falar com os mortos; também aí nos é permitido sentir a dor. Ambos se enredam de duração, o tempo ensimesmado na contemplação da coisa perdida. Assim caracterizava Benjamim em luto. (No que consiste a emoção, mostra-nos, por vezes, a falta de emoção. Quando ao ouvir ou ler uma frase sentimos que lhe falta emoção, percebemos que essa ausência tem que ver com algo relacionado com o tempo; a falta de emoção segue entrelaçada por alguma falha, ou claridade excessiva, no sentimento do tempo; como se a morte não tivesse impresso a sua marca.)

O poema não surge da mão da vontade ou da consciência, toma o seu tempo, espera, aparece ou não aparece, flui através da periferia, a periferia conforma aquilo que é central. Nessa fase, o trabalho é subterrâneo, algo de inconsciente ou pré-consciente coalhando, ocurrendo não quando se quer mas quando ele quer. Por exemplo, durante muito tempo soube que para a caça nocturna faltava-me um poema que respondesse ao que eu chamava de pastoral (Pastoral era também o título de um quadro de Arshile Gorky); esse poema tinha que ver com uma certa memória da minha infância, porém não soube escrevêlo até que se coagolou na forma de um sonho.

Numa entrevista, Garry Snyder referia-se à meditação com estas palavras: “De facto, como sabe, qualquer um que tenha praticado suficientemente a meditação, aquilo a que se aponta não é nunca o que se alcança. Aquilo a que se aponta não é, curiosamente, o que se obtém; a vontade consciente não pode alcançá-lo. Há que praticar uma espécie de distracção cuidadosa, no entanto relachada, que permite ao incosciente fazer o seu próprio trabalho de ascensão e manifestação. Porém, no momento em que alguém, alerta, se dispõe a apressálo, escapa-se, deslizando para o fundo. É algo muito semelhante ao que ocorre na caça estática: deténs-te nalgum lugar do bosque e permaneces imóvel até que as coisas começam a viver, começam a aparecer esquilos, pardais e coelhos que estavam aí desde o princípio, mas que mergulham nalgum lugar quando os observamos de perto. Também a meditação é assim”. Como a poesia.

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INFLORESCÊNCIA

Azuli

«Não sabíamos nada das cores. Respirávamos nas alcovas do desejo com um labor secreto por tudo aquilo que está para vir, amadurecendo na densidade do tempo, no interior do mundo que não fora feito pela humanidade. Calaram-se as vozes e ergueu-se o poema alterando-se na combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação do amor. Escutamos os pássaros nervosos que perseguem os dias, como se do último se tratasse.»

Na terceira semana de Fevereiro sairá, pela mão da editora Companhia das Ilhas, o livro de poesia Um fio atravessa a noite de Diniz Conefrey

Para mais informação acerca desta editora, a página em linha onde também se encontra a folha #015 com as novidades editoriais: http://companhiadasilhas.pt/

Diniz Conefrey é autor dos livros de poesia No coração de Agave (Douda Correria, 2017) e Afluentes de Adobe, com Alexandre Sarrazola e Maria João Worm (Quarto de Jade, 2018), além de manter uma presença assídua, sobretudo como ilustrador, na revista Cão Celeste.

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Começamos aqui a transcrever um texto, dividido em três partes, publicado na revista el poeta y su trabajo (Inverno de 2009) da autoria de Olvido García Valdés. Poeta, ensaísta e tradutora espanhola que nasceu em Santianes de Pravia (Asturias) em 1950. Coeditora da revista poética Los Infolios foi fundadora e membro do conselho editorial de El signo del gorrión. Entre vários dos seus livros poderíamos mencionar La poesía, ese cuerpo estraño (2005) e Y todos estában vivos (2006).

Escrever notas de poética apenas serve para assinalar em que direcção olhamos quando se fala de poesia. Não remete, pois, aos próprios textos – que, além do mais, em parte desconhecemos por excesso de proximidade –, apenas se pretende discernir nessas palavras que nos tenham assombrado ou comovido e que, em prosa ou em verso, chamamos poemas (assim, por exemplo, parecem-me poemas muitas das anotações do Diário de Katerine Mansfield, em especial as que correspondem ao último ano, 1922. São as necessidades dessa escrita e uma rara transparência que dão aos textos uma natureza cristalina e acutilante, onde apenas se chega por despojamento, por se ter de olhar cara a cara os dias que passaram; disfrutados, saboreados sabendo que esse pássaro, essa taça de chá, essa luz, deslizam para o derradeiro. Pois, quem sabe, distingue o poema uma certa atitude na escrita, talvez tenha menos que ver com o verso ou com o ritmo e imagens mas com uma certa atitude no que diz respeito à escrita que o origina; e ao efeito dessa atitude poderia chamar-se tom).

O poema é sempre retrospectivo, mas a dilatação lírica adere à respiração; o pensamento do poema não procede por análise mas por condensação, condensando-se em associações, em ritmos e montagem. Trata-se de um pensamento perceptivo, intuitivo e lacónico, sensorial. (…) A visão que cada poeta tem do mundo toma como base pulsões da infância; as imagens ou motivos que essas pulsões vão ocupando variam com o tempo; o ritmo dessa variação assemelha-se a uma espiral. A arte sabe tudo sobre o corpo do artista, por isso alguns poemas dizem coisas que talvez quem os escreveu não sabia.

O poema, como a paisagem, é um lugar onde nos é permitido falar com os mortos; também aí nos é permitido sentir a dor. Ambos se enredam de duração, o tempo ensimesmado na contemplação da coisa perdida. (…) (No que consiste à emoção, mostra-nos, por vezes, a falta de emoção. Quando ao ouvir ou ler uma frase sentimos que lhe falta emoção, percebemos que essa ausência tem que ver com algo relacionado com o tempo; a falta de emoção segue entrelaçada com alguma falha, ou claridade excessiva, no sentimento do tempo; como se a morte não tivesse impresso a sua marca).

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ROUPA EM SEGUNDA MÃO

Tinha-me dito que nunca mais deveria escrever sobre coisas tristes.

A tristeza sabemo-la todos. É um lugar que convida à permanência, uma casinha remendada, pronta a habitar, apta a não construir mais nada a não ser andares iguais, com vista amplamente dirigida para a única mancha de humidade na parede.

Embora cada vez mais sinta que ao não fazer, sendo a forma mais difícil, possa deste modo aceder ao que parece mais incorruptível.

Tinha-me dito que deveria só falar depois de reflectir. Depois de ter um modo claro, ou pelo menos mais esclarecido, para então agir segundo o para lá da escuridão.

E não havendo nada para dizer, manter-me simplesmente no silêncio, com a paciência de um apicultor, mas com a exposição do corpo de uma lesma.

Mas vi uma mancha de luz sentada nuns degraus, a descansar, embora não tenha a certeza se de facto não seria a sombra que a prendia.

No jardim vi rostos de mulheres nos troncos das árvores mais distantes enquanto o verde, varejeiro e natural, com uma breve verdade as respirava.

Troncos bulbosos com crescências, torções que se enforcavam a si próprias, como por vezes nos aparece descrito numa vinha.

Tentei lembrar-me de palavras onde, eu tal como a luz, pudesse descansar, mas a voz respondeu-me vinda dos veios do chão, directamente das lajes empedradas.

Chão humano, de pequenos túmulos justapostos, poços secos e porosos, tapando um fundo ainda vivo como as estrelas.

 

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RASTO FOTOGRÁFICO

Mosa, mulher Mojave fotografada por Edward S. Curtis.

Surgiu quando menos se esperava, atravessando o chão de terra húmida, repleta de folhas secas remexidas por movimentos quebrados à breve passagem dos insectos solenes. Na minúcia do silêncio subia da terra envolvendo os troncos, descaindo leve uma outra vez por sobre as miudezas na capa do chão. E não se sabe bem que hora do dia seria, tão pouco que caminhos levariam por entre empenas ou distâncias a essa clareira banhada por um feixe de luz bailando nos recantos um brilho de mercúrio.

Um mistério que oscila obscuramente, atravessado pelos ecos de luz que o feixe vibra delicado, incendiando de metal o corpo dos insectos circulando na terra macia e fria, revolvida por raízes enlaçadas descendo a rasgar o fundo das entranhas sob a presença daquele rosto suspenso.  Pendia suspenso, a olhar-se para dentro de si mesmo tocando ao de leve as águas nocturnas, deslizando naquele interior sombras que dançam por entre os canaviais. E nessa paisagem de água o rosto continha os sons diluídos, todos acordados uns nos outros suspirando pendentes que luziam nas cordas sustendo aquela presença. O vulto sabia-se na vigília de um sonho… Tomara as suas matizes para as entregar ao fundo escuro dos olhos, suspendendo os sentimentos quando passam os rastos de luz lançados pelo feixe deambulante, circundando a escuridão do dia.

Aquele dia, preso nas páginas de um livro, afastado por uma distância atroz enquanto tudo permanecia sereno; no ventre da clareira uma outra idade. O silêncio claro dos feixes movendo-se, irradiando por entre o matagal sacudido ruidosamente ao cair da tarde e surgir, indecisa, por detrás das folhas, uma corça turva de olhos negros despida de qualquer simbologia.

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