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Archive for the ‘Poesia’ Category

RASTO FOTOGRÁFICO

Mosa, mulher Mojave fotografada por Edward S. Curtis.

Surgiu quando menos se esperava, atravessando o chão de terra húmida, repleta de folhas secas remexidas por movimentos quebrados à breve passagem dos insectos solenes. Na minúcia do silêncio subia da terra envolvendo os troncos, descaindo leve uma outra vez por sobre as miudezas na capa do chão. E não se sabe bem que hora do dia seria, tão pouco que caminhos levariam por entre empenas ou distâncias a essa clareira banhada por um feixe de luz bailando nos recantos um brilho de mercúrio.

Um mistério que oscila obscuramente, atravessado pelos ecos de luz que o feixe vibra delicado, incendiando de metal o corpo dos insectos circulando na terra macia e fria, revolvida por raízes enlaçadas descendo a rasgar o fundo das entranhas sob a presença daquele rosto suspenso.  Pendia suspenso, a olhar-se para dentro de si mesmo tocando ao de leve as águas nocturnas, deslizando naquele interior sombras que dançam por entre os canaviais. E nessa paisagem de água o rosto continha os sons diluídos, todos acordados uns nos outros suspirando pendentes que luziam nas cordas sustendo aquela presença. O vulto sabia-se na vigília de um sonho… Tomara as suas matizes para as entregar ao fundo escuro dos olhos, suspendendo os sentimentos quando passam os rastos de luz lançados pelo feixe deambulante, circundando a escuridão do dia.

Aquele dia, preso nas páginas de um livro, afastado por uma distância atroz enquanto tudo permanecia sereno, no ventre da clareira uma outra idade. O silêncio claro dos feixes movendo-se, irradiando por entre o matagal sacudido ruidosamente ao cair da tarde e surgir, indecisa, por detrás das folhas, uma corça turva de olhos negros despida de qualquer simbologia.

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VIAGENS INSULARES

A caneta já não tem tinta enquanto o dia é desenhado  pelo gesto na lentidão da rotina, acercando-se da distância das coisas envolventes através de fios em transfusão; dos tempos incertos que resvalam entre o respirar subtil debruçado sobre as varandas profundas onde se recolhe uma outra vida murmurando tudo o que acolhe no seu interior.

Seiva que de noite se foi transformando em rios de pensamento-imagem, revolvidos em movimentos angulosos sem que a gravidade permitisse a precipitação total dos corpos. Falava nesse lugar uma cabeça. Uma cabeça sobre um plano contorcendo-se ao som de ecos austeros que se propagavam por cores difusas vagueando, impalpáveis, insólitas, dentro de uma baga rolando no interior de uma noite escura.

Seria breve, este ofício das perguntas contornando os dedos que erguem planos de edifícios insurrectos para o corpo habitar um sonho fora do sonho que já lhe demora, acordando uma vez mais no rasto de uma fotografia velada enquanto a plenitude respira nas raízes de uma árvore erguendo-se de pé, surgindo da terra inerte recebendo a vida que pulsa na sua violenta imaginação.

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A nossa mais recente edição apresenta um livro de imagens e vários poemas que foram escritos a partir delas, tendo sido estas realizadas sobre a pauta de antigas ilustrações. Imagens e poemas ficam assim interligados numa reflexão que espelha o sentir cromático dos autores convidados a participar, neste diálogo entre formas. Uma breve introdução enquadra o gesto que se visualiza em 12 imagens e poemas de Diniz Conefrey, acompanhados pela escrita de Maria João Worm e Alexandre Sarrazola. Tendo um formato de 21 x 15,4 cm, 56 páginas e capa mole,  numa tiragem de 150 exemplares dos quais os 40 que temos disponíveis apresentam, no frontespício, uma ilustração original – distinta em cada exemplar – seguida de uma legenda manuscrita. Esta vinheta original  é uma alusão ás imagens de chladni, consistindo num processo em que areia disposta numa placa de metal responde, criando formas geométricas, mediante a vibração provocada por um arco de um instrumento musical.

 

 

 

Neste livro de poesia ilustrada «a interpretação tornou-se, através da composição abstracta e afectiva, num movimento poético convocando uma complementariedade através da escrita. Imagem e poemas estão assim vinculados, sem saber se um poderia existir sem o outro, ou que impulso inicial, de forma etérea, poderá ter constituído a música para esta expressão…»

Disponível para venda em: http://www.quartodejade.com/shop_books.php

 

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A PONTE AFUNDA-SE NO RIO

«Dito de outro modo, sem justificação ou explicação alguma, há, eu sei, um avanço da imagem na linguagem. Entre uma e outra, nesse avanço, um salto, um vazio (mas não um salto no vazio). Há um pensar por imagens ao qual as palavras chegam com atraso, quase como se delas ficasse só a música lançada para diante. É ainda a linguagem, mas já não são palavras, são imagens, livres, que as palavras falham ao circundar Há um azul que excede a palavra azul, há esse azul, e quando a sua mancha alastra, atrasa-se qualquer palavra acerca disso. Se A. L. diz «pára-me de repente o pensamento», posso imaginá-lo precisamente aí. O que então escreve e não escreve envolve uma pausa fulminante. Mas nunca poderei dizer isto, a ponte afunda-se no rio.»

Siringe. Rosa Maria Martelo.

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Ilustração original para o poema «A verdade das chamas no caminho difícil».

Já se encontra disponível o número 12 da revista Cão Celeste, dirigida por Inês Dias e Manuel de Freitas, contando também com a coordenação gráfica de Luís Henriques. Sobre a capa verde uma ilustração de Bruno Borges dando rosto a uma continuidade literária, versando por múltiplos caminhos. Pontos altos são, para nós, as colagens de Miguel de Carvalho, os poemas de Pablo Fidalgo Lareo em «Lições das trevas», o desenho de Débora Figueiredo e «Canções sem palavras», três poemas de Antonia Pozzi. Como sempre, este novo número conta também com a publicação de artigos de análise ou reflexão, abrangendo um espectro tão distinto como as cantigas medievais Galego-Portuguesas, a poesia brasileira e os golpes de estado, além de outras notas e textos que se vão entrecortando por poemas e ilustrações. Dos sentidos da escrita para o mundo global, colaboramos neste número com uma pequena nota fazendo referência à situação de auto-imolações e censura que têm vindo a acontecer, exponencialmente, na província chinesa do Tibete; sobretudo desde 2009 até hoje. «A verdade das chamas no caminho difícil» dá nome ao poema, de um blogger anónimo tibetano, dedicado ao escritor detido Meycheh. Para tomar contacto numa revista cujas coordenadas serão tão mais distintas quanto o mundo em nosso redor se vai empobrecendo de conteúdos.

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CORPO LUNAR

Um poema não é um lugar qualquer. Irradiação sentida que vibra em nervo descendo pela mão, desatando a cristalizar sentidos na ponta dos dedos, através do corpo das letras; vogando inertes na casca branca de uma folha de papel. Suavidade vegetal, incrustada de picos e seiva que da alquimia daremos voz a propósito do livro No coração de agave (Douda Correria, 2017) além de outros inéditos resgatados ao silêncio na livraria Paralelo W, mesmo ali na baixa…

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O rio que nasce de uma árvore e entrou passarinho dentro do café. Delicadeza do gesto procurando repor no espaço aberto o pânico das asas a bater numa sucessão multicolor. Tudo vibra nesse momento, resgatando a monotonia dos gestos previsíveis. O rio voando em torno das cabeças enquanto estas olham pensando na melhor forma de devolver o fulgor à vida certa, sem barreiras, para longe do espaço encerrado onde habitam as palavras que nos prendem ao vago torpor. Enquanto isso, incendiada pela luz ofuscante, uma bola jaz quieta, perdida no meio do areal. Objecto facetado em azul transparente, reflectindo a luz vibrante, indiferente a qualquer cor. Porém, é a sombra que lhe devolve esse momento rasante de breve fulgor. Frágil o corpo, carregando a tensão em violência no centro de um medo ancestralmente venoso, entrou na água ofuscante de cristais cintilando enquanto os olhos deslizaram pelo horizonte em veludo de metal transparente.

 

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