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Posts Tagged ‘Viagens’

DA ESCRITA (FRAGMENTOS) 2

Segunda parte do texto, publicado na revista el poeta y su trabajo (Inverno de 2009), da autoria de Olvido García Valdés. Poeta, ensaísta e tradutora espanhola que nasceu em Santianes de Pravia (Asturias) em 1950.

Arshile Gorky. Good Hope Road II. Pastoral, 1945.

O poema, como paisagem, é um lugar onde nos é permitido falar com os mortos; também aí nos é permitido sentir a dor. Ambos se enredam de duração, o tempo ensimesmado na contemplação da coisa perdida. Assim caracterizava Benjamim em luto. (No que consiste a emoção, mostra-nos, por vezes, a falta de emoção. Quando ao ouvir ou ler uma frase sentimos que lhe falta emoção, percebemos que essa ausência tem que ver com algo relacionado com o tempo; a falta de emoção segue entrelaçada por alguma falha, ou claridade excessiva, no sentimento do tempo; como se a morte não tivesse impresso a sua marca.)

O poema não surge da mão da vontade ou da consciência, toma o seu tempo, espera, aparece ou não aparece, flui através da periferia, a periferia conforma aquilo que é central. Nessa fase, o trabalho é subterrâneo, algo de inconsciente ou pré-consciente coalhando, ocurrendo não quando se quer mas quando ele quer. Por exemplo, durante muito tempo soube que para a caça nocturna faltava-me um poema que respondesse ao que eu chamava de pastoral (Pastoral era também o título de um quadro de Arshile Gorky); esse poema tinha que ver com uma certa memória da minha infância, porém não soube escrevêlo até que se coagolou na forma de um sonho.

Numa entrevista, Garry Snyder referia-se à meditação com estas palavras: “De facto, como sabe, qualquer um que tenha praticado suficientemente a meditação, aquilo a que se aponta não é nunca o que se alcança. Aquilo a que se aponta não é, curiosamente, o que se obtém; a vontade consciente não pode alcançá-lo. Há que praticar uma espécie de distracção cuidadosa, no entanto relachada, que permite ao incosciente fazer o seu próprio trabalho de ascensão e manifestação. Porém, no momento em que alguém, alerta, se dispõe a apressálo, escapa-se, deslizando para o fundo. É algo muito semelhante ao que ocorre na caça estática: deténs-te nalgum lugar do bosque e permaneces imóvel até que as coisas começam a viver, começam a aparecer esquilos, pardais e coelhos que estavam aí desde o princípio, mas que mergulham nalgum lugar quando os observamos de perto. Também a meditação é assim”. Como a poesia.

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CAMINHOS DO INTERIOR

 

Festa de Santo Estêvão em Grijó de Parada. Bragança, 26 e 27 de Dezembro. Fotografia do Catálogo «Máscara Ibérica».

Umas breves linhas para dar conta da nossa passagem pela cidade de Bragança, que vale a pena conhecer. Cidade do interior já perto da fronteira, naturalmente pequena na sua dimensão física mas apresentando vários aliciantes que poderão ser invejáveis a outras localidades no país. A paisagem transmontana, só por si, seria suficiente para voltar a sentir uma identidade profunda, onde a intensidade das neblinas e nuvens carregadas tocam a densidade dos cumes, ao longo de largo espaço de campo sem a presença de vida humana. Longe, portanto, das grandes zonas urbanas e seus universos virtuais. No café Princípe Negro pode-se fumar e a amabilidade do atendimento providenciou um almoço que, para vegetarianos, é sempre complicado fora da faixa mais cosmopolita desta nossa nacionalidade. As pessoas do interior não têm uma simpatia estudada, são elas próprias nas suas características mais genuínas o que, aparentemente, poderá trazer algum desconforto que não é senão um reconhecimento de identidade. Um frio de rachar que, de noite, atravessa a roupa e os próprios ossos, mas esta é a melhor estação para viajar. As cores do Outono lembram como o lazer e a melancolia podem estar unidas no sopro que estas terras respiram.

Zadok Ben-David. Peopel I saw but never met 2015/2019 (detalhe da instalação no prospecto do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais).

Da seiva silvestre que a pintora Graça Morais catalisa ao devolver o sopro ao olhar dos visitantes do Centro de Arte Contemporânea, com o seu nome, instalado num edifício exemplar; tanto na sua arquitectura, preservação e espaço. Pinturas e desenhos fixando de modo penetrante a alma destes lugares ou as cenografias pintadas para peças teatrais, além do seu trabalho mais recente, Metamorfoses da Humanidade. Tivemos ainda oportunidade de visitar a exposição de Zadok Ben-David, People I saw but never met. Imagine-se pessoas de todo o mundo em esculturas que se formam através de linhas de desenho, «como se os traços se automatizassem da superfície ou tivessem saltado da folha de papel para o espaço arquitectónico.» Ao lado deste museu encontra-se o Centro de Fotografia Georges Dussaud (Brou, França, 1934) que apresenta inúmeras fotografias que este francês captou nesta região que conheceria, por mero acaso, na década de 1980. No ponto mais elevado da cidade encontra-se o castelo, incluindo várias habitações e alojamentos locais além do Museu Ibérico da Máscara e do Traje que remete para os Caretos. Uma sobreposição de tradições pagãs e cristãs celebrando vários eventos desde o Outono até à Páscoa ou, no caso de localidades espanholas, durante o mês de Agosto, no Verão. De Bragança a Zamorra, uma tradição Ibérica, sobretudo no período natalício, dia de Reis e Carnaval.  Última nota para o deslumbrante passeio pedonal que, do castelo, leva a percorrer o Rio Fervença, passando pelo Museu da Ciência antes de voltarmos a entrar na cidade pelo lado das sombras silenciosas e do marulhar das águas, descendo cascatas de pura canção.

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A chancela Quarto de Jade tem uma nova publicação em co-edição com a Mundo Fantasma e o Atelier 3/3. Trata-se de uma brochura de 36 páginas, impressa em risografia no Porto, com encadernação manual, numa tiragem de 93 exemplares numerados. A capa é impressa a azul, a página de rosto a burgundy e o miolo a preto e branco com ilustrações de Diniz Conefrey e texto com a colaboração de Maria João Worm.

Cardos Maduros expõe uma reflexão sem tempo. Uma viagem dentro de viagens, exposta em ilustrações. Momentos vividos entre a experiência pessoal e o universo literário de Juan Rulfo. Ecoando nessa multiplicidade, a constatação de vivências sobrepostas, atravessando a narrativa para se encontrarem numa elegia onde os afectos emergem entre a crueza de histórias perdidas.

Disponível na loja do site: http://www.quartodejade.com/shop_books.php

 

 

 

 

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VIAGENS INSULARES

A caneta já não tem tinta enquanto o dia é desenhado  pelo gesto na lentidão da rotina, acercando-se da distância das coisas envolventes através de fios em transfusão; dos tempos incertos que resvalam entre o respirar subtil debruçado sobre as varandas profundas onde se recolhe uma outra vida murmurando tudo o que acolhe no seu interior.

Seiva que de noite se foi transformando em rios de pensamento-imagem, revolvidos em movimentos angulosos sem que a gravidade permitisse a precipitação total dos corpos. Falava nesse lugar uma cabeça. Uma cabeça sobre um plano contorcendo-se ao som de ecos austeros que se propagavam por cores difusas vagueando, impalpáveis, insólitas, dentro de uma baga rolando no interior de uma noite escura.

Seria breve, este ofício das perguntas contornando os dedos que erguem planos de edifícios insurrectos para o corpo habitar um sonho fora do sonho que já lhe demora, acordando uma vez mais no rasto de uma fotografia velada enquanto a plenitude respira nas raízes de uma árvore erguendo-se de pé, surgindo da terra inerte recebendo a vida que pulsa na sua violenta imaginação.

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SOPRO

Ilustração de Maria João Worm, 2011.

Era branco. Sabes quando não se consegue dormir e a luz fica na parede, projectada? Podemos estragar a imagem que se constituiu por anos e anos de ignorância. Sim. É o respiro das palavras. Sabes, ficam assim. Tontas. Assim. Sabes como é. A parecer assim e vai não vai. Assim. Sandálias desatadas. Nunca. Assim mesmo nunca, para nenhum lugar. E vamos fazer delas sapatos de segunda que nunca souberam proteger os pés. Pois claro que não. Pois somos de bom fundo e sabemos ver a subtileza da dor. Não sabíamos nada das cores. Respirávamos nas alcovas do desejo com um amor secreto por tudo aquilo que está para vir, com o mistério e a pureza do mundo que não fora feito pela humanidade. Calaram-se as vozes e ergueu-se o poema. No espanto da solidão caminha-se de mãos dadas. Mãos trémulas, por vozes hesitantes mas que aspiram à finalização da vida que respirada por dentro se transforma. E transforma em quê? A pergunta está deslocada, transforma-se porquê? Porque de súbito renasce a vontade de sentir. Não é aquela luz caduca e fugaz dos espectáculos mas a permanência do verbo que sente e que se altera pela combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação do amor.

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AS PLANTAS

 

 

«A Botânica é o estudo apropriado para um solitário ocioso e preguiçoso: um estilete e uma lupa constituem todo o equipamento de que precisa para as observar. Passeia, vagueia livremente de um objecto para outro, analisa cada flor com interesse e curiosidade e, logo que começa a aprender as leis da sua estrutura, saboreia, ao observá-las, um prazer sem esforço, tão intenso como se lhe tivesse custado muito. Há nessa ocupação um encanto que só se sente quando todas as paixões se acalmam, mas que basta para tornar a vida feliz e amena; porém, mal a ele se mistura o interesse ou a vaidade, quer seja para ocupar um lugar quer para fazer livros, mal se queira aprender só para ensinar, mal se começa a colher plantas para se passar a ser autor ou professor, todo esse doce encanto se desvanece, já não se vê nas plantas senão instrumentos das nossas paixões, já não se descobre nenhum prazer verdadeiro no seu estudo, já não se quer saber mas apenas mostrar que se sabe, e está-se nos bosques como se estaria no teatro do mundo, com a única preocupação de se ser admirado; ou então, limitando-nos, quando muito, à Botânica de gabinete e jardim, em vez de observarmos os vegetais na natureza, preocupamo-nos com sistemas e métodos, motivos eternos de discussão, que não dão a conhecer uma só planta a mais e não lançam qualquer luz verdadeira sobre a história natural e o reino vegetal. (…)

 

 

(…) Parece-me que, sob as sombras de uma floresta, sou esquecido, sinto-me livre e tranquilo, como se já não tivesse inimigos ou a folhagem me protegesse dos seus ataques, tal como os afasta da minha lembrança, e imagino, estultamente, que, não pensando neles, eles não pensarão em mim. É uma ilusão doce que a ela me entregaria inteiramente se a minha situação, a minha fraqueza e as minhas necessidades mo permitissem. Quanto mais profunda é a solidão em que vivo, mais necessito que algum objecto venha preencher o seu vazio, e aqueles que a minha imaginação recusa ou que a minha memória repele são substituídos pelas produções espontâneas que a terra, não forçada pelos homens, em toda a parte oferece aos meus olhos. O prazer de ir a um deserto procurar novas plantas ocultas, o prazer de escapar aos meus perseguidores, e quando chego a locais onde não vejo quaisquer vestígios de homens respiro, mais à vontade, como se estivesse num refúgio onde o ódio já não me perseguisse.»

 

Os devaneios do caminhante solitário. Jean-Jacques Rousseau.

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O rio que nasce de uma árvore e entrou passarinho dentro do café. Delicadeza do gesto procurando repor no espaço aberto o pânico das asas a bater numa sucessão multicolor. Tudo vibra nesse momento, resgatando a monotonia dos gestos previsíveis. O rio voando em torno das cabeças enquanto estas olham pensando na melhor forma de devolver o fulgor à vida certa, sem barreiras, para longe do espaço encerrado onde habitam as palavras que nos prendem ao vago torpor. Enquanto isso, incendiada pela luz ofuscante, uma bola jaz quieta, perdida no meio do areal. Objecto facetado em azul transparente, reflectindo a luz vibrante, indiferente a qualquer cor. Porém, é a sombra que lhe devolve esse momento rasante de breve fulgor. Frágil o corpo, carregando a tensão em violência no centro de um medo ancestralmente venoso, entrou na água ofuscante de cristais cintilando enquanto os olhos deslizaram pelo horizonte em veludo de metal transparente.

 

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