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Posts Tagged ‘Viagens’

judea-0

Os homens que construíram o navio sabem que ele é autónomo e dão-lhe um nome. Esperam dele o prodígio que, mesmo tendo sido a partir deles construído, consegue o que eles não conseguem por si: manter-se à tona, ficar seco sobre as águas. Feita a estrutura, corpo moldado pela madeira de árvores, o esqueleto do Judea existe porque flutua de forma autónoma. Os homens domesticaram-no, dando-lhe os músculos e um coração emprestado. O coração do navio é o capitão, tendo como músculos os membros da tripulação que o manejam, mantendo uma rota determinada.

Se o Judea não transportasse uma carga, se não se tivessem traçado rotas comerciais, contra correntes e ventos, teria chegado ao seu destino. Os ratos fogem do navio como as pulgas de um cão moribundo, à beira da morte. Os homens abandonam mais lentamente o corpo que embarcaram. Assistem ao desvanecer da capacidade, guardam a imagem-memória do naufrágio. Sobrevivem-lhe porque a memória vive disso. E se o conjunto que assistiu ao desaparecimento do Judea incorporava a unidade da tripulação, cada um deles, depois, seguiu a sua vida individualmente.

Nesta perspectiva o Judea é, de facto, a personagem. No final fica apenas uma narrativa que pode ser revisitada e revivida, quando se juntam os que entendem que o navio vive entre dois mundos e a ambos responde. Uma personagem livre e, simultaneamente, submetida. Um navio, depois de construído e enviado para os oceanos, cruza os mares assemelhando-se mais com as árvores do que com os homens.

Judea, Pianola Editores. Adaptação da novela «Mocidade» de Joseph Conrad. Lisboa, 2016.

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CONFIDENCIAS

reading

«Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.

Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem-um leão a dormir!»

 Almada Negreiros, A invenção do dia claro.

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EVOCAÇÃO SEM ESPLENDOR

Ericeira

Lembro-me das arribas vertiginosas, num tempo em que o som do mar bastava nas praias abandonadas e selvagens. Onde podia caber inteiro num orifício redondo, nas rochas reluzentes e amargas de sal liberto pelas tardes de vento batidas pelo sol, ainda filtrado. Permanente, sentia-se o corpo desses dias vagamente perdidos sem que a invasão dos atropelos se sentisse na hora da popularização hoteleira ou dos surfistas galgando as ondas domesticadas criando poros de alfinetes, ao longo das praias banalizadas. O dia tomba e já não é misterioso no abandono esse lugar suspenso pelo sentido vagaroso da existência. As cores densas de aromas cristalinos esvaziaram-se num clique de fotografia, relembrando a abrupta passagem antropomórfica numa recordação que tem o mundo apenas como cenário para os turistas distraídos.

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medicin

Edição Douda Correria com desenho da capa e composição de Joana Fervença. Lisboa 2015.

Encontrar no movimento o desenho sonoro da palavra. Palavra que não repete o som das constelações, mas recria um lugar tão próximo que define o universo como o vento ao passar pelos corpos. Ossos ocos, como flautas. Entoações que encantatórias enxameiam a água primeira, a do leite transmutado em sangue, de cada vez, como na dança da respiração.

Oração de colagens, onde o corpo é visitado para poder viver. Gesto que une pontos de luz, dentro da própria luz para regressar como o voo das andorinhas em ovais que abraçam, que nos abraçam ao tecer no ar o momento. Linhas que modulam o tom reconhecível. No ir e vir do desenho à vista da abstracção. Consciência dos pedaços em órbita, gravação, levitação, orgânica que une o pó ao mesmo tempo que o sopra. Cata-vento, eixo, nervura onde se ouve a única palavra inscrita: amor.

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enigma 1

Surge inóspito o poema, com seus olhos turvos, pálidos. A rede da noite trás consigo memórias arqueadas na mão; pendem os tentáculos que se unem à terra, cega, na sua limpidez voraz e maternal. Na sua luz permanente uma gravidez, uma metáfora oscilante. Perdem-se os contornos e os corpos surgem numa escuridão interior. Os lábios puxam o sangue até se coagular a cabeça, um mar cortante de corpos transpirados pelas alamedas. Os homens erguem-se na sua docilidade perene, adormecida nos braços de um vácuo fundo, violento. Cabelos viscosos circundam o centro desta matéria implausível, como se carrega-se uma fera ociosa; entranhas inimagináveis.

enigma 2

Os homens seguiam desatentos e as ruas nunca estavam desertas. Rompia sobre os carros essa estranha luz astral, pela manhã; Vénus desfeita ao sabor de uns breves acordes insinuados. O mar subia pela estrada e os corvos iam morrer perto da praia, das rochas cinzentas por dentro com o mar a vibrar. E as pegadas perdiam-se, como um homem dentro da feira. O passeio, a rua transbordante de sombras e a cidade, vagueiam numa órbita cega, numa qualquer constelação. Pulsos que ardem e se entregam à quietude da noite que transpira a sua suave planura evocativa. Milhares de crianças enlouqueceram, correm dentro das imagens corruptíveis, erguidas, sequestradas e devolvidas ao lixo da razão.

enigma 3

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Marina 1

A narrativa gráfica O Mundo Circular de Marina teve a sua primeira expressão no decorrer do ano de 2007, quando estive na Cidade do México. Nessa altura conheci a escritora mexicana Cristina Guillermo que me apresentou vários dos seus textos para ver se podíamos coincidir numa colaboração. De regresso a Portugal senti uma grande empatia e afinidade temática pelo texto que dá título ao trabalho que desenvolvi, entre 2014 e o inicio deste ano, no quadro de uma bolsa de Estâncias de Criação Artística. No centro de interesse que o texto da escritora apresenta, encontra-se uma lúcida alusão poética relativa ao movimento de permanência-impermanência da vida, em todos os seus aspectos essenciais, através da visão de uma menina.

Marina 2

A riqueza informal deste olhar que, simultaneamente questiona e constata, fora dos parâmetros convencionais de aparência linear, acaba por traduzir-se num texto repleto de ritmos e harmonias que estão em sincronia com os conteúdos de movimento e sentimento que expõe. O trabalho visual que realizei tenta dar forma ilustrada, complementando este sentido expresso através da escrita. Desta maneira, este projecto para livro, mais do que repetir abordagens pedagógicas pré-concebidas, situações de humor do quotidiano ou fábulas, com um sentido moral ou sociológico para entreter o leitor, remete para uma experiência intimista de uma visão mais sensível do mundo; reconhecendo este como um organismo vivo. Desde as suas pequenas particularidades aos grandes sistemas, o movimento em espiral – contendo um ritmo musical – é a orgânicidade que Marina reconhece ao longo desta narrativa.

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DE PASSAGEM

México 1

Tizapan, San Angel. México D. F.

Construção sobreposta no mesmo lugar da raiz comum. Construção antiga debaixo do chão; raízes que se debruçam sobre os passeios. O visível é agora se o olhar tiver em conta as árvores e as suas ramagens, os troncos. Corpos orgânicos para pendurar tudo o que se desprende dos transeuntes.

México 2

“Aqui o céu parece-me mais alto”. Linogravura sobre papel. Maria João Worm.

De resto imagens, imagens que se fixam. Tanto em muros como em papel são um corpo para escrita. Cor na superfície do suporte que cedo se vai desvanecendo, uma presença que vive da sua continua recriação; como os dias, a noite, o tempo. As pirâmides são exemplo disso, a cor é a primeira a desaparecer. A cor é a sua pele.

México 3

Teotihuacan, México.

 

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