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Posts Tagged ‘Viagens’

O sulco que, na anatomia da tarde, rasgou por Coyacán para desaguar em San Angel.

 

Altar alegórico para o dia dos mortos. As cores magmáticas saindo directamente dos tubos de guache.

Choveu esta tarde? Em frente, na casa amarela, já a noite das palavras tinha iniciado a espiral que atravessa as grades. Rio Chico, Tizapán.

A artéria das palavras atravessa, tombando como luz, pelas telhas vítreas inundando a casa etérea.

 

Dedicatória a Luis Verdejo e aos seus poemas da mão esquerda. Ceramista, escultor, pintor imprivisível dos espaços partilhados.

 

 

 

 

 

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Um livro pode sempre ter outro nome, outra capa. Outra mão que o conduza, fundo, para dentro do mistério de que se resolve o mundo. No coração de agave reune-se um ciclo de poemas aludindo ao corpo transgressor vivenciando um México inflectido. Através da raíz da sua forma, expirando os conteúdos em verso num livrinho fixando esses mundos que, do olhar, encontram uma expressão no interior vago e inquieto da poesia. São nove poemas em caligrama pendular, editados pela Douda Correria, convidando, desde já, para a sua apresentação – no dia 25 de Maio pelas 22 horas no bar A Barraca – com a presença dos poetas oficiantes (Nuno Moura, Diniz Conefrey, Maria João Worm); falando e lendo das janelas que se abrem neste outro tempo, neste outro espaço a aurora memorial.

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Os homens que construíram o navio sabem que ele é autónomo e dão-lhe um nome. Esperam dele o prodígio que, mesmo tendo sido a partir deles construído, consegue o que eles não conseguem por si: manter-se à tona, ficar seco sobre as águas. Feita a estrutura, corpo moldado pela madeira de árvores, o esqueleto do Judea existe porque flutua de forma autónoma. Os homens domesticaram-no, dando-lhe os músculos e um coração emprestado. O coração do navio é o capitão, tendo como músculos os membros da tripulação que o manejam, mantendo uma rota determinada.

Se o Judea não transportasse uma carga, se não se tivessem traçado rotas comerciais, contra correntes e ventos, teria chegado ao seu destino. Os ratos fogem do navio como as pulgas de um cão moribundo, à beira da morte. Os homens abandonam mais lentamente o corpo que embarcaram. Assistem ao desvanecer da capacidade, guardam a imagem-memória do naufrágio. Sobrevivem-lhe porque a memória vive disso. E se o conjunto que assistiu ao desaparecimento do Judea incorporava a unidade da tripulação, cada um deles, depois, seguiu a sua vida individualmente.

Nesta perspectiva o Judea é, de facto, a personagem. No final fica apenas uma narrativa que pode ser revisitada e revivida, quando se juntam os que entendem que o navio vive entre dois mundos e a ambos responde. Uma personagem livre e, simultaneamente, submetida. Um navio, depois de construído e enviado para os oceanos, cruza os mares assemelhando-se mais com as árvores do que com os homens.

Judea, Pianola Editores. Adaptação da novela «Mocidade» de Joseph Conrad. Lisboa, 2016.

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CONFIDENCIAS

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«Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.

Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem-um leão a dormir!»

 Almada Negreiros, A invenção do dia claro.

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EVOCAÇÃO SEM ESPLENDOR

Ericeira

Lembro-me das arribas vertiginosas, num tempo em que o som do mar bastava nas praias abandonadas e selvagens. Onde podia caber inteiro num orifício redondo, nas rochas reluzentes e amargas de sal liberto pelas tardes de vento batidas pelo sol, ainda filtrado. Permanente, sentia-se o corpo desses dias vagamente perdidos sem que a invasão dos atropelos se sentisse na hora da popularização hoteleira ou dos surfistas galgando as ondas domesticadas criando poros de alfinetes, ao longo das praias banalizadas. O dia tomba e já não é misterioso no abandono esse lugar suspenso pelo sentido vagaroso da existência. As cores densas de aromas cristalinos esvaziaram-se num clique de fotografia, relembrando a abrupta passagem antropomórfica numa recordação que tem o mundo apenas como cenário para os turistas distraídos.

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medicin

Edição Douda Correria com desenho da capa e composição de Joana Fervença. Lisboa 2015.

Encontrar no movimento o desenho sonoro da palavra. Palavra que não repete o som das constelações, mas recria um lugar tão próximo que define o universo como o vento ao passar pelos corpos. Ossos ocos, como flautas. Entoações que encantatórias enxameiam a água primeira, a do leite transmutado em sangue, de cada vez, como na dança da respiração.

Oração de colagens, onde o corpo é visitado para poder viver. Gesto que une pontos de luz, dentro da própria luz para regressar como o voo das andorinhas em ovais que abraçam, que nos abraçam ao tecer no ar o momento. Linhas que modulam o tom reconhecível. No ir e vir do desenho à vista da abstracção. Consciência dos pedaços em órbita, gravação, levitação, orgânica que une o pó ao mesmo tempo que o sopra. Cata-vento, eixo, nervura onde se ouve a única palavra inscrita: amor.

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enigma 1

Surge inóspito o poema, com seus olhos turvos, pálidos. A rede da noite trás consigo memórias arqueadas na mão; pendem os tentáculos que se unem à terra, cega, na sua limpidez voraz e maternal. Na sua luz permanente uma gravidez, uma metáfora oscilante. Perdem-se os contornos e os corpos surgem numa escuridão interior. Os lábios puxam o sangue até se coagular a cabeça, um mar cortante de corpos transpirados pelas alamedas. Os homens erguem-se na sua docilidade perene, adormecida nos braços de um vácuo fundo, violento. Cabelos viscosos circundam o centro desta matéria implausível, como se carrega-se uma fera ociosa; entranhas inimagináveis.

enigma 2

Os homens seguiam desatentos e as ruas nunca estavam desertas. Rompia sobre os carros essa estranha luz astral, pela manhã; Vénus desfeita ao sabor de uns breves acordes insinuados. O mar subia pela estrada e os corvos iam morrer perto da praia, das rochas cinzentas por dentro com o mar a vibrar. E as pegadas perdiam-se, como um homem dentro da feira. O passeio, a rua transbordante de sombras e a cidade, vagueiam numa órbita cega, numa qualquer constelação. Pulsos que ardem e se entregam à quietude da noite que transpira a sua suave planura evocativa. Milhares de crianças enlouqueceram, correm dentro das imagens corruptíveis, erguidas, sequestradas e devolvidas ao lixo da razão.

enigma 3

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