Feeds:
Artigos
Comentários

 

E se as palavras forem desenhos inscritos dentro das formas do que designam?

Uma vez reconhecida esta possibilidade, pode-se assistir à conversa das letras. E são múltiplas as conjugações com a matéria perecível. Perante a sobreposição opaca fica a opção de escolher, reenquadrar com o sentido do gesto que a cada ser pertence.

Corpo, astro, molusco, ínfima parte, rotação de letras. Pensamento.

Em silêncio, o corpo deitado imóvel, tem a delimitação do barco e a carnação de uma ilha que avista ao largo a passagem de frases feitas construídas em estaleiros.

E de onde vêm estas imagens que se constroem por si? Eficazes como o arpão, as redes e o anzol. Mas o mar tem o horizonte e é indiferente às linhas rectas com que as quilhas dos barcos cortam o espaço.

Falta uma palavra, escondeu-se debaixo da língua. No palco escuro do quarto revestido a ardósia deixa de chiar o giz, separa-se o objecto do manipulador. Falha a memória do nome, mas não o que se sabe dele.

E a cabeça compete consigo própria, como nos ensinaram na escola para reproduzir na Vida.

E é assim tão importante a rapidez da resposta?

Estando a palavra debaixo da língua não poderá encontrar-se no lugar que permite a passagem para outro significado?

Acordámos as palavras e elas despertam-nos.

Enquanto os livros no escuro, de costas voltadas para o mundo, afirmam as lombadas duras e carreiros de letras em linha recta para evitar que nos percamos tão facilmente.

De volta ao desenho, à chave, ao reconhecimento, ao que esteve sempre lá, antes de o sabermos nomear.

Se me falha a palavra, como te digo o que penso?

Conto uma história acerca dela e no centro do espaço vazio, a sua ausência toma forma ao se deixar revestir pelo esforço que a faz alumiar-se. Aí está a palavra, a que procuro, a que me faz girar em torno dela, como um planeta à volta de uma estrela.

Um outro tempo, uma flutuação, o que para a ostra é uma vida inteira, e com ela tudo o que existe partilhamos. No ínfimo, a dança dos átomos.

 

Do catálogo «O barqueiro com a palavra debaixo da língua». Maria João Worm, 2016.

 

ENTRE MUNDOS

Por ocasião do 10º aniversário da existência do Quarto de Jade, selo editorial dos autores Maria João Worm e Diniz Conefrey, a Livraria/Galeria Tinta nos Nervos apresenta a exposição «Entre Mundos», de dia 25 de Maio a 6 de Junho, em cooperação com o Museu Bordalo Pinheiro/EGEAC.
Esta será uma selecção judiciosa de trabalhos éditos e inéditos de ambos os autores, que se têm desdobrado nas áreas das artes visuais, banda desenhada, ilustração, e as artes dos múltiplos, por vezes  em colaboração directa, ainda que as afinidades se façam sentir através das obras mono-autorais da sua chancela editorial. Encontraremos um conjunto de quase duas dezenas de imagens nas mais díspares valências, empregando técnicas mistas onde se cruzam materiais  e suportes, alguns usuais, outros incomuns; intervenções e colagens além de originais em gravura. Oscilando entre o figurativo e o abstracto, o icónico e o poético, o narrativo e o ambíguo, há aqui uma verdadeira constelação cujos extremos poderão dar a ideia de mundos distintos, mas que se ligam por elos subtis.
A cooperação com o Museu Bordalo Pinheiro/EGEAC consubstanciar-se-á numa segunda exposição naquela instituição, com trabalhos diferentes, dos autores, em data a anunciar.

Enfant au Cerf-Volant. Arpad Szenes, 1932. Fundação Arpad Szenes e Vieira da Silva.

Apesar da mundivivência humana definir, cada vez mais, o seu campo de identidade através das tensões políticas geradas no seio de uma urbanidade em expansão – alimentando um macro-sistema de valores económicos e sociais, disputados por várias tradições e canais de comunicação – não deixa de ser observável, num plano abrangente, a interdependência que nos constitui de cariz orgânico defendido, inclusivamente, por vários campos da ciência. Poucos terão presente a continuidade do caminho iniciado pelo cubismo, ao fragmentar as formas e permitir os recursos formais de um abstraccionismo puro, reflectindo também no seu processo inovações da ciência como, por exemplo, as teorias atómicas da matéria e novos conceitos de espaço, tempo e energia dasafiando as teorias aceites desde o tempo de Newton. Seria relevante salientar a Teoria da Relatividade de Einstein – de 1905 – desmontando a crença, mantida por muito tempo, na qual quantidades básicas de medida seriam absolutas e invariáveis, ao demonstrar que estas dependiam da posição relativa do observador. Além disso, ele também indicou que os objectos são constituídos por energia, onde “a massa de um corpo é medida pela energia que contém.” Como todas as propostas renovadoras, estas abordagens tiveram reflexos óbvios no campo das artes, sentindo-se a sua repercursão, só muito mais tarde, na sociedade em geral.

Nesse sentido o abstraccionismo trouxe um movimento de investigação para o centro da obra criada, enquanto visão intimista de relação interdisciplinar, propondo resgatar a autonomia das formas e das cores em relação a um processo descritivo e literário subjacente a um referencial de aparências – fosse ele baseado nos efeitos contemplativos da luminosidade ou dos sentimentos valorizados pela interpretação expressionista. Nessa correlação poética, na qual a representação pura se expande num sentido metalinguístico, ascende uma profusão de vertentes que vão reflectir-se tanto no campo dos ideais sociais, na reconfiguração da ressonância plástica e gráfica (ao sobrepôr várias disciplinas, até então separadas), a intermediação dos espaços e o pensamento crítico para além da descentralização cultural, sobretudo após a segunda guerra mundial. Evitando um mero enunciado temporal, em que as suas fases mais consistentes se alicerçaram numa estrutura de pensamento para além da obra em si – numa similitude orgânica com a arte abstracta dita primitiva – o abstaccionismo mantém, actualmente, uma virtude informal na ordem da apreensão mais vasta dos sentidos, através de um diálogo que não é da ordem do espectável. Sentir é mais relevante do que representar, mesmo no âmbito da fragmentação suscitada pelos princípios niilistas de uma “cultura social”, onde a sobreposição de valores acrescentou há fluição de ideias, através de expressões estabelecidas desafiando as categorias anteriores. Exemplo disso são as instalações, a land-art, os abstract comics ou o lançar problemas verbais ou matemáticos através da arte conceptual.

Construção Linear nº4. Naum Gabo, 1962. Detroit Institute of Arts.

Tendemos a assumir que a narrativa é de ordem literária, histórica ou filosófica, mas de facto encontramo-nos num campo cuja semântica provém de uma semióptica poética, cuja sintaxe se encontra espartilhada pelos valores políticos e sociais vigentes de uma determinada época. Ou seja, habitualmente a sociedade está sempre atrasada em relação ao que é determinante e – paradoxalmente – o que é determinante já foi experienciado. Einstein e a sua teoria são um ícone da ciência moderna, no entanto durante décadas, a sua abordagem não encontrou uma conformidade unificadora com a sua contraparte académica, descrevendo os elementos mais pequenos do universo, a física quântica. David Bohm (1917-1992), um dos físicos norte-americanos mais proeminente do século XX demonstrou como as duas teorias podem estar unificadas e como o tempo linear, associado às sensações derivadas do espaço tridimensional, constituem um obstáculo para entender a realidade. Para isso, Bohm percebeu que à medida cartesiana da nossa realidade manifesta falta a indagação transdisciplinar. Para esse processo de entendimento de um todo, no qual estamos inseridos, concorre um diálogo íntimo entre a ciência, a espiritualidade e a arte. A ordem explícita do nosso mundo depende da ordem ímplicita na qual, qualquer ponto do universo contém o universo inteiro. No potencial quântico a unificação advém da “Não Localidade”, observando-se entre duas partículas relacionadas entre si, mesmo estando muito afastadas, uma reacção em simultâneo quando uma delas sofre alterações. Esta circunstância refuta o princípio de Einstein, no qual nada é mais rápido do que a velocidade da luz. O simples acto de observar um electrão muda o seu comportamento, desta forma colocam-se não só questões no patamar da experimentação do foro científico como acresce a indagação, de âmbito mais lato, sobre o que é a consciência.

O que a Teoria da Relatividade e a Física Quântica têm em comum é o Todo Indivizível, noção que tanto as tradições espírituais como a ciência conseguem debater, aproximando-se quando não se encontram sujeitas aos dogmas e preconceitos. Para ambas tudo está relacionado pelo processo de movimento constante, dobrando-se e, simultâneamente, desdobrando-se nas várias dimensões onde, os seres humanos apenas têm a percepção limitada de uma delas. A consciência, ou os seus níveis de reflexão, participam também, naturalmente, do campo da criação artística, onde não raras vezes a intuição e a subjectividade se mostram mais reveladoras do que as tendências temporais. Sobretudo quando a indagação interior se modela pela ressonância de um diálogo transversal, escapando ao campo da gravidade dos géneros e dos princípios políticos. O observador é o observado, nesse sentido a arte abstracta mantém a pertinência de uma linguagem que fala, para além do autor, através de um código implícito ao qual não é estranho o princípio da consciência não ser da ordem local mas universal. Um desdobramento em que o gesto é ele próprio “pensamento” e cujas matizes já se encontravam inscritas numa relação de foro numinoso, antes de se tornar processual. Todos os dispositivos tecnológicos actuais, com os quais lidamos quotidianamente, têm como princípio de funcionamento a física quântica. A teoria quântica foi estabelecida em 1900. Por volta de 1925 Heisenberg cria a mecânica quântica, seguido pela interpretação de Niels Bohr ao fazer prevalecer a Teoria do Campo Quântico. Einstein e a Conferência de Copenhaga relegaram ao descrédito o paper de David Bohm, «Hidden Variables» (Brasil, 1952), no qual emerge a noção de unidade entre as duas teorias separadas, propostas pela ortodoxia da ciência. Numa reunião de físicos proeminentes, Oppenheimer (responsável pelo projecto “Manhattan”) terá afirmado: -«Se não podemos refutar a proposta de Bohm, o melhor é não falar dela.»

Shuster in Madrid. Mark Staff Brandl. Abstract Comics. Fantagraphics Books, 2009.

Quantos anos de debate serão necessários até que surjam processos de legitimação impessoal, permitindo que se tornem correntes os princípios, sobretudo aqueles que são cientificamente comprovados – além de outros aspectos – propostos por David Bohm? A fragmentação parece ser uma eventualidade própria na relação do ser humano perante um dimensão tão abstracta como o Tempo. Já que o nosso perfil psicológico reconhece formas, sensações, percepções e volições apenas como estados transitórios de consciência. No imaginário popular que Steve Ditko criou para a narrativa gráfica «Strange Tales» (1965) as viagens efectuadas, através de várias dimensões imateriais, apresentam um vocabulário visual em que elementos gráficos surgem como tendo uma vida própria, levando esta sequência a lembrar as aventuras dos dois quadrados de El Lissitzky. Renunciando a qualquer estranheza, os Abstract Comics lidam com a estrutura fundamental que caracteriza a linguagem da banda desenhada: composição do dinamismo gráfico e ressonância estética através da interacção entre sequencialidade e o lay-out da página. Por debaixo de qualquer composição naturalista existem formas, geométricas ou abstractas, que determinam a sua qualidade semântica. Também poderiamos constatar que, nas últimas décadas, as distinções entre arte abstracta e representação têm vindo a dissolver-se. Em relação a todos estes aspectos, mantendo-se uma corrente de abertura de espírito, poderemos estar próximos de um tempo em que a distinção entre estas duas formas de arte cesse em ser um assunto por si.

PANORAMA

A ideia estava instalada, desde alguns anos atrás. No entanto, foram necessários vários segmentos temporais até se tornar mais claro qual seria o tom, a têmpera da qual as linhas escritas vão delinear uma forma, partindo da substância poética electiva. O terreiro desfiando a singularidade das pequenas narrativas, aparentemente circunscritas ao seu modo particular. Em simultâneo, poderia entender-se o alcance contido nesses fragmentos, no sentido da recriação permanente de um espectro no qual se insere todo um destino comum.

Uma extensão fictícia de tempo, contida por um sulco no qual se ligam sucedâneos de articulações incertas. Talvez um modo em que matéria e pensamento despoletem sensibilidades, segundo uma narrativa circunscrita a um encontro – uma memória que se insinua por fragmentos. Delta de linhas, rasto de sons, pequenos gestos vibrando, meticulosamente, as reminiscências ao ritmo das palavras diluindo-se, no interior do seu sentido visual.

Ainda assim, para além deste trabalho, um novo livro a publicar brevemente.

TASHI DELEK

Entre os dias 12 e 13 de Fevereiro comemora-se na China o Ano Novo, do calendário lunar e solar asiático, tendo esta celebração na região do Tibete a denominação de Losar. Tashi Delek – Feliz Ano Novo, apesar da indiferença geral pela vaga de autoimolações que, desde 2009, têm ocorrido nos Himalaias como protesto face às políticas de descaracterização cultural promovidas pelo governo chinês.

Enquanto fora da China tem havido muita discussão, por parte de bloggers tibetanos sobre as autoimolações, alguns intelectuais chineses preocupam-se pela falta de comentários nos fóruns progressistas online sobre este facto na China. “É o elefante no quarto de que ninguém quer falar”, disse o proeminente escritor Wang Lixiong a Andrew Jacobs do New York Times.

O poema que aqui trazemos foi escrito por um blogger tibetano anónimo em dedicatória ao escritor Choepa Lugyal. Provavelmente foi censurado devido à referência a fogo e chamas ou talvez por causa das sensibilidades políticas recaindo sobre o escritor detido. A tradução deste poema foi realizada a partir da versão em inglês disponibilizada no site High Peaks Pure Heart.

 

A verdade das chamas no caminho difícil

 

Para Me Che que é ignorado

Cercado pelo frio e pelas sombras da escuridão

A chama da verdade arde na tenda de ferro

Mas a chama é tão humilde

Não existem janelas na pequena casa estreita

Não há escala para medir a realidade

Apesar de teres tanta esperança no que está de fora, pedinte!

Ninguém pode apagar a tua sede

Portanto, a única maneira de resolver o teu sofrimento de fome e sede

é de acreditar no karma sem-tolice

se tu meditares no karma da causa e efeito, tu obténs a realização

sem nunca voltar atrás

No entanto, existem sempre lágrimas nos olhos da velha mãe; a amada

mulher engole a tristeza no seu estômago e toca ternamente os cabelos

na cabeça da pequena criança

Consegues ver isso?

A vasta terra solitária

O puro céu azul

Parado num cruzamento

eu estou a beber chá ao lanche

Mas não consigo nem urinar nem defecar

Pensando em ir consultar um médico

Poesia dialética emerge na mente…

LIVROS QUARTO DE JADE

Em cada livro aberto

respira-se o presente

http://www.quartodejade.com/shop_books.php

Podemos aqui citar o comentário espirituoso de Italo Calvino, a quem uma mulher perguntou: «Desejaria que eu lesse nos seus livros somente aquilo de que você está convencido?»

«Respondi: “Não é isso. Dos leitores eu espero que leiam nos meus livros qualquer coisa que eu não soubesse; mas só posso esperar isto daqueles que esperam ler qualquer coisa que eles, por sua vez, não soubessem.”»

A ARTE DE ESCUTAR

Pedro Burgos e João Paulo Cotrim. Revista Le Cheval sans Tête, volume 5. Editions Amok, 1998.

Uma breve reflexão sobre a narrativa leva-nos ao ponto inicial, de uma certa clarificação, no sentido de estabelecer uma diferença entre a possibilidade, em aberto, que apresenta uma folha em branco e as características de fruição, perante os modelos demarcados por um mercado e sua relação com os géneros e a indústria. O suporte, neste caso a narrativa gráfica, conjura as possibilidades de uma linguagem onde se incluem vários níveis de segmentos em permuta, oscilando permanentemente entre o particular e o referencial.

Da virtude que podemos reconhecer, no seio das narrativas mitológicas, será a de um corpo social interligado, existencialmente, através do imaginário; da fabulação complementada pelo entorno geográfico e sem a necessidade de constatação porque, entre outros factores, não depende da individuação. Poderá dizer-se que, o mito, enquanto verdade absoluta, trata de uma narrativa que se reflecte, posteriormente, em todas as formas de arte características de cada cultura. Apesar desta constatação de um saber pré-conceptual ser muito distinto do nosso consciente actual, já fragmentado e, simultaneamente, dependente de todas as graduações – evolutivas ou involutivas – que contém a deriva civilizacional; é a expressão dessa natureza profundamente criativa – e o simulacro pelo qual se consegue visualizar aquilo que é da ordem do não dizível ou subliminar – que nos aproxima em torno de um conhecimento reconhecível.

Diria que, em relação à narrativa gráfica, estamos perante uma circunscrição de margens poéticas na qual a subjectividade interroga e, paralelamente, se exprime objectivamente através de uma necessidade interior visando reconhecer o essencial. Este essencial, no entanto, não depende apenas da determinação imposta pelos processos conjunturais, sendo, no seu amâgo, um reflexo de capacidades semânticas pela qual a polifonia dos sentidos poderá encontrar a sua tonalidade exterior. Nesse sentido, uma cultura inter-disciplinar introduz uma perspectiva relevante, tanto ao fazer eclodir o potencial sintáctico cristalizado nas abordagens de variações formais, como no reconhecimento da riqueza expressiva, subjacente a um suporte essencialmente sequencial. Uma narrativa pode ser independente de uma história – esta enquanto dramatização de uma conjectura. Ou seja, pode existir numa grelha de percepções sem estas estarem dependentes de uma formulação literária que, sendo lícita, não é exclusiva; podendo a sua matiz ser sintetizada por uma formulação de três momentos:

1-O Cenário, onde as personagens se apresentam no espaço/tempo, introduzindo a tensão narrativa na qual vão actuar a partir de um incidente que perturba a ideia de um “equilíbrio” inícial.

2-O Acto, como expressão de um confronto, criando a sucessão mais longa da narrativa, ao desenvolver uma dinâmica conflituosa entre forças antagónicas – cujo desfecho encerra o momento final:

3- A Resolução, cujo contraste marca a memória, podendo haver uma epifania – seguramente o retomar de um equilíbrio distinto do inicial.

Susa Monteiro. Revista Venham +5, número 5. Bedeteca de Beja, 2008.

Apesar desta realização, o plano existe antes da forma, ou seja, a matriz sequencial pode existir autónoma dos aspectos de casualidade, no sentido em que a consciência também se encontra abrangida por leis de probabilidades na qual as aproximações se dão por saltos e não por aproximação. Na poesia a dramaturgia flui ao longo de uma espiral rítmica, e os actos estruturados diluem-se para dar lugar a uma meta-linguagem cuja sintaxe perscruta o essencial das formas e dos sentidos, sem ter que os definir de forma esquemática. Continuamos no plano da linguagem, da sequencialidade, mas, deste modo, a permuta narrativa encadeia-se através de momentos em série – onde as imagens (visuais ou escritas) se articulam em torno de sinapses evocativas, sem serem subservientes à lógica da intriga ou da acção – menos ainda de um final conclusivo. O espectável é suspenso por uma formulação indirecta, onde o silêncio das contemplações interiores concorre – com o sujeito ou tema – para tornar audível uma ressonância de conteúdos que, naturalmente, podem ser diversos – dependendo mais do tom do que das circunstâncias.

De certa maneira existe uma proximidade narrativa nestas abordagens, porém sem serem idênticas, ao concorrerem no sentido de um vislumbre comum. Na arte moderna, o abstraccionismo permitiu ultrapassar a fronteira plástica da descrição, impressão e expressão, ao emancipar as formas das suas possíveis contenções líricas. Nomeadamente a escultura, antes circunscrita a uma relação de volumes sempre dependentes de uma expressão compacta, abrindo, através do abstracto, para dinâmicas que permitiram leveza e novos registos de composição (a linha passa a ter uma dimensão escultórica – a escultura deixa de representar a forma natural), algo completamente impossível no patamar anterior. A simbiose de uma consciência imaterial tornou, assim, plásticamente possível uma percepção de volumetrias musicais, do mesmo modo que poderíamos considerar a música como sendo uma arquitectura líquida. Estas correspondências, mesmo que num plano aparentemente exterior à banda desenhada, debruçam-se sobre um mesmo carácter de transposições, envolvendo várias dimensões de relacionamento entre tempo e espaço que podem concorrer, também, no plano de uma expressão sequencial.

Cátia Serrão. Bande Dessinée et Abstraction, volume 2. Presses Universitaires de Liège/Collection ACME, 2019.

A banda desenhada abstracta não é fruto de um experimentalismo, sendo apenas a constatação de uma interdependência na qual todas as linguagens se encontram para além das especificidades de cada época e, simultaneamente, como resultado delas. Dentro do campo particular da narrativa gráfica, o abstracto não deixa de corresponder ao princípio da solidariedade icónica, tal como é identificada por Thierry Groensteen no seu livro «Systéme de la bande dessinée» (Paris, Presses Universitaires de France, col. Formas semióticas, 2011) – a montagem, a paginação e o traçado. No entanto, a sua dinâmica sequencial solicita a participação do leitor a um nível semântico de extrema subtileza. O plano axiomático das formas traduzem sensações, através de uma leitura semiótica, que tanto se podem relacionar por sequências, séries ou infra-narrativas. Neste aspecto, parece-nos que o referencial do leitor é subtraído, nas suas características mais correntes (e literárias) – como a identificação ou a modelação dos sentidos vinculados ao texto – para um grau de silenciamento onde a interpretação reverbera num plano íntimo, no qual tempo e espaço operam uma fusão, emancipando-se a uma descodificação cognitiva. Apenas uma musicalidade de silêncios, ou, formalmente, como um trecho musical onde apenas o som participa. Sem a necessidade de uma voz narrativa, emprestando sentidos à canção; assumindo os instrumentos nuances para lá do âmbito da esfera harmónica e lírica – evitando, para mais, o reconhecimento através do género, que pouco acrescenta à composição fluindo.

Mesmo nos casos mais comuns pouco transparece que a sequencialidade, característica da banda desenhada, possa ou deva fixar-se num modelo único. Será, contudo, um processo de relacionamentos narrativos onde podem concorrer vários aspectos, interiores e exteriores à sua prática corrente. Uma folha em branco apresenta um vazio, um oceano de possibilidades com as suas marés fazendo levantar ondas amenas ou grandes tempestades. Todas essas disposições têm a sua expressão, ao tornarem visível, através de uma diferenciação o que parecia estar ausente – mas mantendo livre e aberto o ritmo de uma arte que navega para reconhecer o mais profundo daquilo que é.

HERANÇAS

Uma série de ilustrações que sugerem uma síntese do que poderão ser as heranças culturais (anteriores ao antropocénico) que se salientam dos seis continentes terrestres. Quanto à modernidade, ela apenas é contemplada através da Antártida, já que a sua colonização ocorre num período mais recente. As escolhas geográficas não tiveram em conta a possibilidade de subdivisões, evitando assim desdobramentos, possíveis mas que aqui não foram contemplados. Também a tónica saliente para cada uma destas proposições é discutível, como seria natural, dependendo de uma apreciação que tenta colocar o foco numa identidade humana pré-tecnológica.

EUROPA – Luta greco-romana

Uma recriação vinda da antiguidade e, ao que parece, também os soldados de Napoleão praticavam esta modalidade olímpica; já sem estarem nus, barrados de azeite e cobertos de areia. Um wrestling, talvez um “pas de deux”, para imobilizar os ombros do adversário e aceder à sua pronta rendição.

ÁSIA – Meditação

Segundo uma perspectiva terapêutica, a exposição de Quatro Nobres Verdades: 1- Reconhecimento de que todas as experiências condicionadas implicam apego e aversão, causa do sofrimento. 2 – A causa consiste no desconhecimento da natureza da mente e do seu entorno, que leva à separação e dualidade entre o suposto eu e o mundo. 3 – O remédio consiste no nirvana, ou cessação do sofrimento por abolição das suas causas. 4 – A aplicação consiste numa ética em não prejudicar nenhum ser senciente, meditação e sabedoria no conhecimento directo da vacuidade e sacralidade de todos os fenómenos da vida.

ÁFRICA – Ritmo e tradição oral

Cores vivas e grandes contrastes reluzindo os corpos em movimento de músicas, nostálgicas ou felizes, que do continente saíram para o resto do mundo. Um sentir enraizado no coração do povo, nas mentes sem fundador a crença de um ser supremo apenas vivendo do calor que a terra abraçou.

AMÉRICA – Reciprocidade e ecologia

Das sociedades simples ás mais complexas, o valor dos excedentes como forma de manutenção dos equilíbrios sociais e um diálogo com a natureza antes de qualquer outro pensamento. Uma postura que se mantém numa vivência integra, da memória persistindo aos apelos da modernidade.

OCEANIA – Terra dos sonhos e navegação

Ao escutarem as mãos ouviram da montanha dizer um tempo maior que sonha dentro do breve quotidiano: tatuagens ferozes. Navegadores do maior oceano da terra, apenas usando o mapa das estrelas, diagramas de madeira e fibra de coco, chegaram a todas as ilhas, sabendo da suavidade ao deslizar pelas ondas nas enseadas limpas.

ANTÁRTIDA

Das roupagens brancas de um clima extremado onde pulsam anémonas, estrelas-do-mar. Aqui sentem os pinguins, as baleias e as focas tocadas pelo frio intenso; amplo vôo dos albatrozes a circundar o litoral. Ao contrário do que dizem não é um continente desabitado, apenas não tem nenhum governo, não pertence a nenhum país. Continente politicamente neutro, apenas a liberdade de uma comunidade científica, impondo os ventos glaciares uma estreita cooperação internacional.

JADE VOLTOU AO QUARTO

Duas voltas no campo demarcado, os sinais cruzados no chão das ruas sem esperarem. Os transeuntes é que esperam. Esperam chegar a um destino para esse dia, numa hora agendada com antecedência. Quem se perde já nas ruas? Enquanto vamos ali e já voltamos, a máscara continua a proteger o mimo de si próprio que, durante estes últimos tempos, desencadeou uma espécie de furor para salvar o corpo daqueles seres microscópicos que andam à solta. Parece a guerra dos mundos, de um tal Wells, mas não é… E o poema continua a sua fluição. Uma vaga desse sentir plasmado nas imagens, emergindo sentidos nas palavras, abrindo as nossas próximas criações de ajuntamento editorial.

Memória – Planície Pintada

Durante o ano passado partilhámos um livro no qual nos diluímos, ao escolher conjuntamente os textos, desencontrados e reencontrados por entre desenhos e goivas esculpindo no seio de uma planície pintada. Não muito longe do lugar do sonho, ou da visão, seguiu-se um aprofundar da relação que já outros livros prometiam, desafiando também o leitor a expor-se à única equação válida que uma narrativa gráfica contém. As páginas são pautas respirando floema dorsal, através da musicalidade permanente gerada no tempo/espaço silencioso a oferecer, e a receber, todas as expressões que a mão inteligente respira, depois de adormecida a voragem da percepção.

Esboço para um novo livro

Se nos tem acompanhado perceberá que o nosso ranking é baixo. No entanto, preparamos dois novos títulos que sairão em breve, continuamente inspirados por esta passagem momentânea sem descurar a criação de outros autores, como os ambientes musicais de Brian Eno ou as paisagens de longa duração de Jon Hassel. Para não falar dos Inuit e da postura dos animais recriados pelo olhar do coração, vivendo nas pregas de uma luva, um cachimbo, canivetes que cortam o espaço à procura do tempo brilhando nas estrelas vastas.

Zoeiro Bambu

Neste intervalo surgiu uma nova sequência a partir do livro Meteorologias. Está disponível na nossa página do facebook e chama-se Zoeiro Bambu. Não publicámos em 2020 mas os livros estão vivos na impermanência da qual participam, recriando-se, por vezes, ao habitar os próximos que estamos a fazer. Capas são montras e a exposição das caixinhas de luz aguardam por dias menos mascarados. Do floema cresceu um pequeno tronco. Um vagar de criação esculpindo formas em papel de cujo plano surgiu uma série de anotações, dando conta em imagens das heranças intuídas através da memória dos seis continentes que constituem este vertiginoso planeta. No final, voltamos sempre ao espaço que nos viu nascer.

Por convite da organização da Festa de Banda Desenhada – Bruxelas, e com o apoio da Embaixada de Portugal nesse país, Paulo Monteiro, director do Festival de BD de Beja, reuniu 15 autoras de narrativa gráfica para representarem esta expressão, no feminino, durante este evento. Maria João Worm é uma dessas criadoras, cujo trabalho estará patente, abrindo janelas para um outro horizonte.

Maria João Worm was born in Lisbon. The awareness of time took her to the animation cinema at Escola António Arroio. Later, she took a technical-professional course in ceramics. From Sculpture in Porto she transferred to Painting at the Faculty of Fine Arts of Lisbon. She collaborated in magazines, books and newspapers, publishing illustrations and graphic narratives. She has used the technique of linogravure, which considers a happy encounter between sculpture and painting.

From the painting and engraving exhibitions, she  highlight the exhibition “A colecção particular de A”(The private collection of A) at Monumental gallery in 2006,  and “A Fonte das Palavras” (The Source of the Words) at Casa das Histórias Paula Rego in 2013. She received the National Illustration Award in 2011, with the book “Os Animais Domésticos” (The Domestic Animals) published by Quarto de Jade editions. Last year she published the book “Planície Pintada” (Painted Plain), also by Quarto de Jade, with Diniz Conefrey. Her work can be found at www.quartodejade.com

Para mais informações, podem aceder a este link: http://fetedelabd-portugal.com/