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CAMINHOS DO INTERIOR

 

Festa de Santo Estêvão em Grijó de Parada. Bragança, 26 e 27 de Dezembro. Fotografia do Catálogo «Máscara Ibérica».

Umas breves linhas para dar conta da nossa passagem pela cidade de Bragança, que vale a pena conhecer. Cidade do interior já perto da fronteira, naturalmente pequena na sua dimensão física mas apresentando vários aliciantes que poderão ser invejáveis a outras localidades no país. A paisagem transmontana, só por si, seria suficiente para voltar a sentir uma identidade profunda, onde a intensidade das neblinas e nuvens carregadas tocam a densidade dos cumes, ao longo de largo espaço de campo sem a presença de vida humana. Longe, portanto, das grandes zonas urbanas e seus universos virtuais. No café Princípe Negro pode-se fumar e a amabilidade do atendimento providenciou um almoço que, para vegetarianos, é sempre complicado fora da faixa mais cosmopolita desta nossa nacionalidade. As pessoas do interior não têm uma simpatia estudada, são elas próprias nas suas características mais genuínas o que, aparentemente, poderá trazer algum desconforto que não é senão um reconhecimento de identidade. Um frio de rachar que, de noite, atravessa a roupa e os próprios ossos, mas esta é a melhor estação para viajar. As cores do Outono lembram como a festa e a melancolia podem estar unidas no sopro que estas terras respiram.

Zadok Ben-David. Peopel I saw but never met 2015/2019 (detalhe da instalação no prospecto do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais).

Da seiva silvestre que a pintora Graça Morais catalisa ao devolver o sopro ao olhar dos visitantes do Centro de Arte Contemporânea, com o seu nome, instalado num edifício exemplar; tanto na sua arquitectura, preservação e espaço. Pinturas e desenhos fixando de modo penetrante a alma destes lugares ou as cenografias pintadas para peças teatrais, além do seu trabalho mais recente, Metamorfoses da Humanidade. Tivemos ainda oportunidade de visitar a exposição de Zadok Ben-David, People I saw but never met. Imagine-se pessoas de todo o mundo em esculturas que se formam através de linhas de desenho, «como se os traços se automatizassem da superfície ou tivessem saltado da folha de papel para o espaço arquitectónico. Ao lado deste museu encontra-se o Centro de Fotografia Georges Dussaud (Brou, França, 1934) que apresenta inúmeras fotografias que este francês captou nesta região que conheceria, por mero acaso, na década de 1980. No ponto mais elevado da cidade encontra-se o castelo, incluindo várias habitações e alojamentos locais além do Museu Ibérico da Máscara e do Traje que remete para os Caretos. Uma sobreposição de tradições pagãs e cristãs celebrando vários eventos desde o Outono até à Páscoa ou, no caso de localidades espanholas, durante o mês de Agosto, no Verão. De Bragança a Zamorra, uma tradição Ibérica, sobretudo no período natalício, dia de Reis e Carnaval.  Última nota para o deslumbrante passeio pedonal que, do castelo, leva a percorrer o Rio Fervença, passando pelo Museu da Ciência antes de voltarmos a entrar na cidade pelo lado das sombras silenciosas e do marulhar das águas, descendo cascatas de pura canção.

ROUPA EM SEGUNDA MÃO

Tinha-me dito que nunca mais deveria escrever sobre coisas tristes.

A tristeza sabemo-la todos. É um lugar que convida à permanência, uma casinha remendada, pronta a habitar, apta a não construir mais nada a não ser andares iguais, com vista amplamente dirigida para a única mancha de humidade na parede.

Embora cada vez mais sinta que ao não fazer, sendo a forma mais difícil, possa deste modo aceder ao que parece mais incorruptível.

Tinha-me dito que deveria só falar depois de reflectir. Depois de ter um modo claro, ou pelo menos mais esclarecido, para então agir segundo o para lá da escuridão.

E não havendo nada para dizer, manter-me simplesmente no silêncio, com a paciência de um apicultor, mas com a exposição do corpo de uma lesma.

Mas vi uma mancha de luz sentada nuns degraus, a descansar, embora não tenha a certeza se de facto não seria a sombra que a prendia.

No jardim vi rostos de mulheres nos troncos das árvores mais distantes enquanto o verde, varejeiro e natural, com uma breve verdade as respirava.

Troncos bulbosos com crescências, torções que se enforcavam a si próprias, como por vezes nos aparece descrito numa vinha.

Tentei lembrar-me de palavras onde, eu tal como a luz, pudesse descansar, mas a voz respondeu-me vinda dos veios do chão, directamente das lajes empedradas.

Chão humano, de pequenos túmulos justapostos, poços secos e porosos, tapando um fundo ainda vivo como as estrelas.

 

A decorrer desde o dia 24 de Outubro, o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora continua a marcar presença no Fórum Luís de Camões. Deixamos aqui o link para o programa das exposições deste ano: http://amadorabd.com/amabd2019/index.php/programa/exposicoes.

Como já vem acontecendo durante este evento, vários títulos das edições Quarto de Jade estão disponíveis no espaço da livraria Dr Kartoon. Editados durante este ano podem encontrar os livros Planície Pintada, Cardos Maduros ou Floema Dorsal. Além de edições anteriores como L’Orso Borotalco e la Bambola Nuda Italiana, de Maria João Worm ou Nagual, Meteorologias, O livro dos Dias e Os Labirintos da Água de Diniz Conefrey.

Os autores estarão presentes, no fim-de-semana de encerramento do Festival, nos dias 1, 2 e 3 de Novembro, das 15h00 ás 18h00, durante a sessão de autógrafos, para assim contactarem directamente com os leitores interessados nas narrativas gráficas que temos vindo a publicar. Citando Thierry Groensteen, tudo o que dura contém música – da mesma forma que tudo o que é visível contém desenho e tudo o que se move contém dança. Ritmos, sejam eles breves ou extensos, definem a “música” que os nossos livros propõem ao converter o espaço em tempo, com ou sem palavras.

Uma vez mais as edições Quarto de Jade vão estar presentes na Feira Gráfica em Lisboa. Este ano o evento realiza-se no fim-de-semana de 26 e 27 de Outubro, novamente no Mercado de Santa Clara, entre as 11h00 e as 19h30.

Com produção da Câmara Municípal de Lisboa e curadoria de Emanuel Cameira, Filipa Valladares, Gonçalo Duarte e Xavier Almeida, assume-se como um importante evento na capital virado para a promoção da cultura escrita e artística difundida no contexto de uma diversidade de iniciativas micro-editoriais, de diferentes pontos do país, ora ligadas ao universo do livro (de artista, fotografia, literatura, ilustração), ora a outros que também compõem a tão vibrante intervenção criativa contemporânea (revistas e jornais culturais, fanzines, impressões serigráficas, etc.).

Além da venda de publicações, e da participação, pela primeira vez, de editoras estrangeiras, a Feira Gráfica contará, em paralelo, com um programa de lançamentos e workshops: https://www.facebook.com/feiragraficalisboa/?epa=SEARCH_BOX

FLOEMA DORSAL

Em Abril de 2011 as edições Quarto de Jade publicaram o seu primeiro título, Os Animais Domésticos da autoria de Maria João Worm. Oito anos volvidos apresentamos um novo livro, Floema Dorsal de Diniz Conefrey, um ensaio de 236 páginas que conjuga banda desenhada abstracta e figurativa, no qual se incluem três narrativas a preto e branco e duas a cores: Nas rajadas de um sono, Impermanência, Onde estão as borboletas, Cigarra, O lugar sem espera. As três primeiras sequências são inteiramente visuais, terminando com duas histórias complementadas por narração escrita. O tema Cigarra foi escrito e desenhado conjuntamente com Maria João Worm. Esta edição encontra-se disponível para venda no nosso site: http://www.quartodejade.com/shop_books.php

Na rajadas de um sono

O autor deste livro é um lisboeta que tem na Cidade do México uma morada sentimental. Adicionou à formação autodidacta o curso de desenho, na Sociedade Nacional de Belas Artes. Durante vários anos participa, como ilustrador e autor de narrativas gráficas, em jornais, revistas e editoras a par de ter efectuado alguns cursos de formação.  Além das exposições que incluíram os seus originais, tanto em Portugal como na Bélgica, França e Brasil, foi bolseiro do Estado mexicano em 2005, 2007 e 2015. Criou, com Maria João Worm, a chancela Quarto de Jade onde publica alguns livros da sua autoria, assim como na Pianola Editores, Douda Correria e revista Cão Celeste.

Impermanência

Onde estão as borboletas

Cigarra

O lugar sem espera

Well, we didn’t received, yet, a copy of this colossal compilation edited by Aarnoud Rommens and with the collaboration of Benoît Crucifix, Björn-Olav Dozo, Erwin Dejasse & Pablo Turnes. But we share the photo and the text that Paul Gravett mention in is facebook page, just for general information. From our little corner, this book have the participation of Cátia Serrão, Pedro Moura and myself, with the abstract sequence O arco da noite branca donne in Mexico City some years ago.

«From Alberto Breccia’s Lovecraftian nightmares and Jack Kirby’s cosmic ‘Krackle’ to Yokoyama Yuichi’s geometric intensities, this madly interesting, thought-provoking and challenging collection arrived today. ABSTRACTION AND COMICS comes in a slipcase containing two volumes of over 440-pages each, 888 in all, brimming with essays and artworks by 52 contributors, including aetens, Erwin Dejasse, Hugo Frey, SimJan Bon Grennan, Gene Kannenberg Jr, Pascal Lefèvre, Ilan Manouach, Gert Meesters, Pedro Moura and Barbara Postema, all enquiring into what abstraction can offer to comics. Writings and images are published in their original languages, the majority in English (nine of the essays are in French). It’s just been published by Belgian mavericks La 5e Couche (5c) and Presses Universitaires de Liège, co-ordinated by ACME Comics Research Group in Liège. The cunning Op-Art, eye-test covers are by Martin Vitaliti (the sources look to me like John Buscema 1970s romance comic books?). The 9th Art in all its forms always hides surprises in its past and still offers so many more to come…»

O arco da noite branca

This is not a book about abstract comics. Instead, it combines original, new comics and multiple texts to explore what abstraction can offer to comics, and what comics can do for abstraction. By doing so, Comics and Abstraction occasions a critical engagement with issues such as ‘high’ versus ‘low’ art; art history and comics studies; literature, poetry, drawing and writing; highbrow, lowbrow, nobrow, and so on. “Comics and Abstraction” generates a space of contradiction where the essays and images stand in a relation of tension. Some of the included texts are more historically-oriented, some take a decidedly semiotic approach, while others are more concerned with formal features. This multiplicity is echoed by the markedly different aesthetics of the comics, which do not necessarily ‘illustrate’ the theoretical frames of the essays. It is ultimately up to the reader to create the meaningful paths that connect abstraction and comics.’ 36 euros, available from https://5c.be/5c_catalogue.html and http://www.presses.uliege.be/jcms/c_21487/acme-4

A consciência do tempo levou-me ao cinema de animação na Escola António Arroio, um gosto  pela sequencialidade, a rima, ouvir e contar histórias,tendência para me encantar com frisos de iluminuras ou letras capitulares.
Depois fiz um curso técnico/profissional de cerâmica: um reencontro com a consequência táctil do gesto e subsequente afinidade com unhas sujas. De escultura no Porto transferi-me para pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa: a questão da luz e a conversa das cores.
Colaborei em revistas, livros e jornais, publicando ilustrações e narrativas gráficas. Tenho usado a técnica da linogravura, para mim é um encontro feliz entre escultura e pintura, nela se acresce o reflexo enquanto poesia aplicada. Das exposições de pintura e gravura destaco A colecção particular  “A” em 2006 na galeria Monumental e a A Fonte das Palavras em 2013 na Casa das Histórias Paula Rego. Em 2011 recebi o Prémio Nacional de Ilustração, com o livro Os Animais Domésticos, edições Quarto de Jade. Foi muito importante para mim ter dado aulas, pela reciprocidade que um espaço de ensaio permite quando se procura a afinação de cada um consigo próprio, para comunicar com os outros.