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SETEMBRO

 

“Outro dia”, que não este, pode ter sido ou vir a ser. Que liberdade boa há em “outro dia”. E também dá a justeza do lugar do tempo presente… só ele fica definido pelo outro. Tem em si o princípio narrativo do que pode ser exemplar, como “naquele tempo”. Embora “naquele tempo” se apresente o passado da história. “Noutro dia”, que não este, já me parece referir-se ao passado mas nada nele sugere isso, apenas se define como outro, num outro lugar?

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Um beijo, um destino que se abre lento enquanto cada passo assegura a perda que se acende dos nódulos de um corpo em livro que se desdobra e encerra tudo sem nada ter escrito.

As ruas são muito largas, como folhas caducas. Estendo então os dedos e guardo em mim essa condição vagarosa de passo incerto, constante na sua alocução interior. Como companheiro apenas um copo transparente.

A mesa roda enquanto o poema se desfaz e então acendo mais um cigarro. Uma prática tão banal como a diluição no centro deste ritmo percussivo. A língua toca o céu da boca procurando as imagens no seu interior. São estrelas que se desfazem dentro da noite.

Recuo na minha fragilidade e a bebida de cana inunda um coração descoberto na palidez do amanhecer. Enquanto as rosas abrem em tranquilidade demorada, sem espaço para crescer a fome que vem do interior dos dias gastos como cigarros que se acendem num lume de paixão.

Encerrada na brevidade desta sorte, um arcanjo solitário observa, ao fundo de um corredor de veios sombrios, esperando até chegar o tempo em que se lhe ilumine o rosto. Fogo laranja de vida que se consumiu arrastando toda esta pulsação.

OS NOSSOS ROSTOS

«Onde estará agora Tony Goodwin? A sua morte afirma que nunca mais poderá ter a presença em qualquer lugar: que cessou de existir. E, fisicamente, é verdade. Há duas semanas queimávamos folhas secas no pomar. Agora caminho sobre as cinzas quando vou até à aldeia. Cinzas são cinzas. A vida de Tony pertence historicamente ao passado. Fisicamente, o seu corpo, simplificado e reduzido ao carbono pelo fogo, reentra no processo físico do mundo. O carbono é pré-requisito de qualquer forma de vida, a fonte do orgânico. Digo a mim mesmo estas coisas, não para elaborar uma capciosa alquimia da imortalidade mas para não me esquecer de que é a minha concepção do tempo que está a ser interrogada impiedosamente pela morte. Não vale a pena usar a morte para simplificar as nossas vidas. Tony já não está dentro do nexo do tempo tal como é vivido pelos que, até há pouco tempo, eram seus contemporâneos. Mas estará sobre a circunferência desse nexo (circunferência de um círculo, não de uma esfera), tal como os diamantes e as amibas. E todavia também está do lado de dentro, como todos os mortos. Numa condição que é a de tudo-o-que-os-vivos-não-são. Os mortos são a imaginação dos vivos. E para os mortos, ao contrário dos vivos, a circunferência da esfera não constitui fronteira nem obstáculo.»

Do livro de John Berger E os nossos rostos, meu amor, fugazes como fotografias. Tradução de Helder Moura Pereira. Revista «Construções Portuárias», Maio de 2002.

AS MOSCAS DE ÁGUA

Só há um carvalho no meio do prado e os bois ocupam toda a sombra das suas folhas.
Cabisbaixos, fazem cornos ao sol.
Estariam bem se não fossem as moscas.
Mas hoje, na verdade, elas devoram.
Agrestes e em grande número, as negras colam-se como placas de fuligem aos olhos, às narinas, inclusive às comissuras dos lábios, enquanto as verdes preferem sorver uma escoriação mais recente.
Quando um boi sacode o seu avental de couro ou bate com o casco na terra seca, a nuvem de moscas desloca-se, murmurante. Dir-se-ia que fermentam.
Faz tanto calor que as velhas, às portas, farejam a trovoada e põem-se a gracejar:
– Vamos ter fogo-de-artifício! – exclamam elas.
Ao fundo, uma primeira lança luminosa rasga o céu, sem ruído. Cai uma gota de chuva.
Os bois, precavidos, erguem a cabeça, deslocam-se até à beira do carvalho e sopram pacientemente.
Sabem que estão a chegar as moscas boas que vêm expulsar as más.
A princípio escassas, uma a uma, depois em magote, todas juntas, precipitam-se do céu destroçado sobre o inimigo que vai cedendo aos poucos, abrindo clareiras e bate em retirada.
Daí a pouco os bois, todos a escorrer desde focinho achatado até à cauda infatigável, bamboleiam-se de satisfação sob o enxame vitorioso das moscas de água.

Jules Renard, Histórias Naturais. Ilustração de Maria João Worm, tradução de Carlos Pombo. Edições Quarto de Jade, 2015.

O TEATRO DO TEMPO

«Registos, marcas, relatos. Rastos, memórias, vestígios. Subitamente, caminha-se sobre os mortos, num espaço tecido de tempos que se sobrepõem e combinam: esse espaço temporaliza-se, estratifica-se, e o que está à vista evoca uma outra rede de imagens, apenas lembradas de cor, nas quais se foi fixando uma relação com o tempo que Walter Benjamin resumiu lapidarmente em «Sobre o conceito da História» (1942), ao afirmar que «fomos esperados sobre esta Terra» (Benjamin 2010: 10). Mas saber que é assim, e que nos foi dada «como a todas as gerações que nos precederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito» (ibid.), é certamente menos forte do que ver que é assim. Porque então é como se o tempo nos olhasse nos olhos e nos interpelasse, de tal modo nos sentimos sob um efeito de vertigem: literalmente, o espaço desdobra-se — e o tempo amplia-se à nossa volta.»

O Cinema da Poesia. Rosa Maria Martelo, 2012.

 

Screenshot da loja de livros, site Quarto de Jade.

Mantendo uma acessibilidade permanente, a loja do site Quarto de Jade divide-se em seis secções diferentes cujos trabalhos visuais têm por raiz ou simbiose uma estreita ligação com as palavras; nomeadas ou escritas. Pintura, gravura, ilustração, pranchas originais de banda desenhada, livros e serigrafias complementam um conjunto de trabalhos disponíveis para usufruto directo, além de acrescentarem às secções não comerciais deste site uma outra visualidade da expressão desenvolvida por Maria João Worm e Diniz Conefrey.

Nesta loja destacamos de forma particular a secção de Livros, sobretudo por aí se encontrarem os títulos das edições Quarto de Jade, cuja primeira edição remonta ao ano de 2007 com Electrodomésticos classificados. Todos os títulos que foram publicados até esta data encontram-se acessíveis para encomenda no site, sem custo de portes. Clicando sobre o quadrado da imagem, será apresentada a capa assim como uma breve descrição dos conteúdos, além das características mais específicas do objecto. Por debaixo desse quadrado, clicando na indicação de PDF, poderá ter acesso a duas páginas interiores referente à publicação que queira consultar.

Capa do primeiro livro publicado pelas edições Quarto de Jade e o título mais recente, Nagual, de 2017.

Os pagamentos podem ser efectuados por Paypal ou por transferência bancária, neste último caso através do email suporte@quartodejade.com. Das vendas entretanto efectuadas estima-se a entrega por correio normal, em embalagem de acondicionamento apropriado, num prazo de três dias úteis; no caso de Portugal continental. Deixamos pois este convite a conhecer e partilhar livros, em que o cuidado posto não lhes permitem estar acessíveis em qualquer livraria: http://www.quartodejade.com/shop_books.php

Os Gigantes de Pedra, 2017.

Este é um trabalho que foi iniciado em 2010, tendo vindo a ser completado entre outros projectos para livro das edições Quarto de Jade. Partindo inicialmente de uma versão mais próxima ao discurso original de Seattle – o representante da tribo Duwamish na questão da compra de terras – cedo, este livro projectou-se como uma súmula de quatro narrativas com o intuito de reflectir, na sua abordagem, aspectos da vida dos indígenas norte americanos. Os textos escolhidos dão primazia às narrativas que expressam a vivência das etnias contempladas, desde a narrativa mítica – no caso de Os gigantes de pedra, dos Iroqueses. Uma adaptação livre de A grande visão de Black Elk ou uma história quotidiana como A sabedoria do simplório – ambas registos dos índios Sioux. Culminando com o discurso emblemático de Seattle, cuja evocação imagética assenta nos artefactos das culturas ameríndias, da costa Noroeste dos Estados Unidos da América.

Desenhos para Alce Negro Sonha, 2017.

Planície Pintada baseia-se no arrojo de dar voz aos povos que foram manietados pelo imaginário ocidental, tanto através do cinema como da banda desenhada, num gesto de liberdade criativa que pretende questionar os estériotipos de uma assimilação cultural, forçada e ainda presente. Este novo livro encontra-se na última fase de concretização, com desenhos de Diniz Conefrey finalizados em linogravura por Maria João Worm. Ambos os autores escolheram os textos e trabalharam na planificação de cada sequência para as pranchas finais.

A Sabedoria do Simplório, 2011.

Alguns destes trabalhos estiveram patentes na exposição das edições Quarto de Jade, incluida no XII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja (2016) e a narrativa Seattle viu a sua pré-publicação na revista Venham + 5 número 8 (2011) e na revista Cão Celeste, número 3 e 4 (2013). Da bibliografia para este novo livro salientamos O sopro das vozes, com organização e tradução de Miguel Castro Henriques (Assírio & Alvim, 1997). The mammoth book of Native Americans, editado por Jon E. Lewis (Constable & Robinson, 2004). A noite do índio – discurso do chefe Seattle, tradução e apresentação de Joaquim Palma (Casa do Sul Editora, 2007) e Alce Negro fala de John G. Neihardt, com tradução de Fernando Gonçalves e Júlio Henriques (Edições Antígona, 2000).

Seattle. Revista Venham + 5, 2011.