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Não tivemos acesso a exame ecográfico anterior. A nível esplénico documenta-se de facto uma formação nodular hiperdensa do pólo superior sem captação valorizável de cromatismo endovenoso. Mancha discretamente irregular, aconselhando-se uma observação continuada sob os batimentos cardiacos do recém nascido. Tem características inespecíficas justificando controlo evolutivo para melhor caracterização da densificação congénita. Não se observam outras lesões focais esplénicas ou hepáticas, apresentando-se o artigo ilustrado com contornos regulares e tendências globalmente homogénias.

É completamente favorável a apreciação directiva do tubo expressivo opacificado, dentro das limitações desta abordagem.

ANATOMIA DA TARDE

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Pranchas de Diniz Conefrey.

Pequena imagem, em sequência mediana, de densidade metálica que poderá corresponder a um artefacto radiológico; sonhando sentado numa esplanada e fazendo o diagnóstico diferencial a partir dos corpos estranhos de partes moles. Ausência de sinais na rua aberta ás condutas, infligindo lesões nas raízes que gritam sem sofrer, ao longo da sua actividade suspensa. Seios cárdio e costofrénicos livres.

Silhueta cárdio-vascular dentro dos parâmetros habituais.

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«Imaginemos aquela cozinha comunal dentro de uns anos talvez. Todos a trote com malgas e marmitas para serem enchidas. Devorar os conteúdos na rua. John Howard Parnell por exemplo o reitor de Trinity todo o filho de sua mãe sem falar dos vossos reitores e do reitor de Trinity mulheres e filhos, cocheiros, padres, vigários, marechais-de-campo, arcebispos. De Ailesbury Road, Clyde Road, bairros operários, casa para pobres de Dublin Norte, lorde-maior no seu coche engalanado, velha rainha numa cadeira de rodas. O meu prato está vazio. Sirva-se primeiro com a nossa taça da corporação. Como a fonte de sir Philip Crampton. Retire os micróbios esfregando com o seu lenço. O tipo seguinte passará um novo lote com o seu. O padre O’Flynn punha-os todos a andar. Haveria brigas mesmo assim. Todos a quererem ser o primeiro. Crianças batendo-se para raspar a panela. Seria preciso uma panela de sopa do tamanho do Parque Phoenix. Arpoando postas e quartos traseiros de dentro dela. Um ódio às pessoas todas em volta. Table d’hôte do hotel City Arms chamava-lhe ela. Sopa, carne, doce. Nunca saber de quem são os pensamentos que mastigas. Depois quem é que lavaria todos os pratos e garfos? Talvez nos alimentemos todos de comprimidos nessa altura. Dentes a piorar cada vez mais.

Afinal há bastante nesse fino gosto vegetariano das coisas da terra, o alho, é claro, tresanda a tocadores de realejo italianos, fritura de cebolas, cogumelos, trufas. Sofrimento para o animal também. Depenar e estripar uma galinha. Bestas desgraçadas ali no mercado de gado à espera de que o machado lhes rache os crânios ao meio. Muu. Pobres bezerros a tremer. Mee. Bezerro aos tombos. Fritura de bife e couve. Baldes de carniceiros onde tremulam bofes. Dê cá aquele peito de gancho. Plop. Cabeça em carne viva e ossos sanguinelentos. Ovelhas esfoladas de olhos vidrados penduradas pelos quadris, focinhos de carneiros em papel ensaguentado a pingar nasogeleia em serradura. Tapas e coiros a sair. Não me estragues essas peças, miúdo.

Sangue fresco quente prescrevem para a tuberculose. Sangue é sempre necessário. Insidioso. Lambê-lo, quente a fumegar, espesso adocicado. Fantasmas esfaimados.

Ah, estou com fome.»

Ulisses, James Joyce. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho para a Relógio D’Água.

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Judea é uma adaptação livre da novela «Mocidade», de Joseph Conrad, para narrativa gráfica da autoria de Diniz Conefrey, recentemente editada por Pianola Editores. Este livro tem um formato de 19 x 27 cm, 84 páginas a preto e branco numa tiragem de 400 exemplares. Encontra-se disponível para venda na internet através deste link.

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«Do livro para esta novela gráfica, a matéria é a mesma, o fogo é o mesmo, mas nesta outra aproximação o mar engole a representação do indivíduo, embora ele seja também a vaga que permite a vida. A tonalidade central nesta leitura já não é a mocidade nem toda a sua energia, que confronta e supera os males do mundo. Toda a substância, neste outro olhar, volta-se para o imponderável através da descrição dos eventos abertos aos sentidos, pulsando a narrativa em contraponto entre a imagem de acção exterior e um sentido visual abstracto; como expressão subjectiva de uma realidade interior. O narrador já não é Marlow, descrevendo os seus dias de mocidade, mas uma voz omnisciente que acompanha o leitor através da trágica viagem de um velho navio, procurando alcançar o Oriente.»

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O CORPO DE UM GRILO

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O pincel tocou levemente a superfície da água e logo uma mancha de cores, em espirais transparentes, se espalhou em fluídos improváveis, transbordando o olhar da criança. Sentiu uma grande comoção envolvendo-a, como naquela tarde fixada na memória, em que no céu matizado pelas nuvens planavam cromatismos de luz etérea, adensando o sentir de uma existência penetrando o corpo como um eco imemorável. Agora, a água turva pelas cores esfumadas, estagnava lentamente em círculos oleosos; do fundo da sua imaginação vinha ainda aquele movimento inicial. Um toque electrizante tal qual a aspereza do vento a vaguear por dentro da tarde enquanto o dia se inclinava sob o caminho. Parte então a criança para casa, com olhos lacrimejantes de cores, pressentindo que a aurora circula no seu sangue enquanto as habitações humanas parecem consumir o que da memória restou.

CONFIDENCIAS

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«Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.

Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem-um leão a dormir!»

 Almada Negreiros, A invenção do dia claro.

culsete

«Por razões que se prendem com a salvaguarda da minha saúde, vou dar por terminada, durante o próximo mês de outubro, a atividade livreira da Culsete, cessando assim a intervenção de uma casa de leitura e para a leitura, cuja ação cultural teve uma dimensão local e nacional.

Apesar das inúmeras diligências por mim efetuadas, não foi possível encontrar até ao momento ninguém que queira prosseguir com este projeto. Mantenho, porém, essa hipótese em aberto até ao último dia.

A cidade de Setúbal vai mais cedo ou mais tarde ressentir-se da falta de um centro de animação cultural tão importante como tem sido esta livraria. Chegam, assim, ao fim quarenta e seis anos de mediação livreira, primeiro em nome da Culdex e, desde 1973, em nome da Culsete.

Aproveito para informá-lo de que de 23 de setembro a 2 de outubro farei uma liquidação total do fundo da Culsete, com livros desde € 0,50 cêntimos até € 10,00, estes os exemplares cujo preço de capa seja superior a € 40,00. Espero que apareça e a divulgue junto dos seus contactos porque vai valer a pena aproveitar as nossas preciosidades a preços tão convidativos. Horário: Dias úteis e sábados: 10/13 h – 15/19 h; domingos: 14/20 h.»

Fátima Ribeiro de Medeiros