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ECOS

Suspensão. O sentimento da criança que na praia deserta recebia a memória de outras eras, através da luminosidade diáfana e do som ritmado das águas evanescentes. A fragilidade do corpo em aromas de sal, no ventre anguloso as ardósias desfeitas pelo ar embriagado, evocando um passado tangível de histórias recorrentes. Nostalgia aberta, planando com os elementos, evocativa de uma voz multicolor disposta à emoção. Na terra, as raízes da existência em canto soltando a planura agreste. A voz emergindo em voo de ave afastando-se da sombra, antes de regressar. Um manto liquído aberto pelo mar penteando nervuras. Um dia marcado, em final de estação.

Na zona escondiamo-nos entre corridas sem que soubessemos olhar para além das intuições, rasgando, na bruma matinal, a frescura da água na planta dos pés. Nas arribas permaneciam os veios de sulcos em paisagens minusculas, antes de se sonharem apartamentos sobre a quietude do mar. A quietude desse rumor, suspenso, na vibração da voz que a criança lança para o espaço sem limite, vogando em acordes de flauta sensitiva. Declamação interdependente que retorna do vazio, inspirando uma consciência primordial.

O sulco que, na anatomia da tarde, rasgou por Coyacán para desaguar em San Angel.

 

Altar alegórico para o dia dos mortos. As cores magmáticas saindo directamente dos tubos de guache.

Choveu esta tarde? Em frente, na casa amarela, já a noite das palavras tinha iniciado a espiral que atravessa as grades. Rio Chico, Tizapán.

A artéria das palavras atravessa, tombando como luz, pelas telhas vítreas inundando a casa etérea.

 

Dedicatória a Luis Verdejo e aos seus poemas da mão esquerda. Ceramista, escultor, pintor imprivisível dos espaços partilhados.

 

 

 

 

 

Maria João Worm no Festival Internacional de Beja, 2012.

No próximo dia 4 de Junho – Domingo – estaremos na Feira do Livro para uma sessão de autógrafos, entre as 16.00h e as 19.00h, junto ao pavilhão B09/B11 da Europress que terá disponível os livros que fazem parte da nossa chancela editorial. Neste dia terá particular destaque a edição Os Animais Domésticos, de Maria João Worm, apresentando-se como o livro do dia. Paralelamente, Diniz Conefrey receberá todos os interessados que tenham gosto de ver o livro Meteorologias assinado com um desenho pelo autor. Livros objecto, livros de ilustração transversal a todas as idades assim como narrativas gráficas publicadas pela edições Quarto de Jade, estarão disponíveis ao longo da próxima Feira do Livro de Lisboa com as vantajens inerentes às características deste evento.

 

Um livro pode sempre ter outro nome, outra capa. Outra mão que o conduza, fundo, para dentro do mistério de que se resolve o mundo. No coração de agave reune-se um ciclo de poemas aludindo ao corpo transgressor vivenciando um México inflectido. Através da raíz da sua forma, expirando os conteúdos em verso num livrinho fixando esses mundos que, do olhar, encontram uma expressão no interior vago e inquieto da poesia. São nove poemas em caligrama pendular, editados pela Douda Correria, convidando, desde já, para a sua apresentação – no dia 25 de Maio pelas 22 horas no bar A Barraca – com a presença dos poetas oficiantes (Nuno Moura, Diniz Conefrey, Maria João Worm); falando e lendo das janelas que se abrem neste outro tempo, neste outro espaço a aurora memorial.

O compositor e trompetista Jon Hassel é um criador visionário de um estilo de musica à qual chamou Quarto Mundo, descrevendo-o como “clássico café-colorido” – um híbrido de musica misteriosa que se desdobra entre a polaridade do antigo e do digital; compondo e improvisando o Oriente e o Ocidente. Nas duas últimas décadas os seus registos construíram um estilo único de trompete vocal (desenvolvido através de estudos com o mestre Indiano de canto Pandit Pran Nath) inspirando uma geração de colaboradores como Brian Eno, Peter Gabriel, Kronos Quartet e Ry Cooder.

Jon Hassel colaborou em gravações de músicos reconhecidos, bandas sonoras, teatro-dança e programas de televisão. O seu disco Fascionoma, de 1999, produzido por Ry Cooder com o mestre de flauta bansi Ronu Majumdar e o pianista de jazz Jacky Terrasson, inspirou uma nova geração de musicos europeus, especialmente trompetistas como Arve Henriksen, Erik Truffaz, Paolo Fresu e Nils Petter Molvaer; todos reconhecendo a influência de Hassel, liderando para lá do centro gravitacional de Miles Davis.

Em 2005, Jon Hassel iniciou uma tournée com a sua nova banda, os Maarifa Street, tocando para novas audiências europeias da Noruega a Madrid, tendo passado em 2013 por Lisboa, onde actuou no Teatro Maria Matos sob o tema Sketches of the Mediterranean: Celebrating Gil Evans. Em paralelo com novos concertos e gravações, mais recentemente, Hassel intensificou o seu trabalho através da publicação do livro The North and South of You. Parte desse trabalho foi realizado numa série de conversas públicas com o seu colaborador musical de à 25 anos, Brian Eno. Ambos têm inspirado profundamente todo o sentido narrativo, cromático e temático das imagens que tenho tido oportunidade de concretizar. Com especial relevo para o livro Meteorologias (Edições Quarto de Jade, 2016), criado directamente dos fluxos musicais que Jon Hassel me tem suscitado; acompanhando os gestos que tomam forma em folhas de papel debruçadas sobre a planura do estirador.

A mais recente publicação das edições Quarto de Jade é uma narrativa gráfica, a preto e branco, baseada nas pinturas murais da cidade arqueológica de Teotihuacan, no México central. Este livro tem como origem um fluxo musical, erguendo-se através das imagens remotas de uma cultura-autor, expressão de uma natureza colectiva. Por isso a sua assinatura é impessoal.

O livro, de 136 páginas, está dividido em seis capítulos: Árvore-canção, O segredo, Serpente emplumada, A procissão dos jaguares, O umbigo da terra e Zacuala. Apresenta-se com capa dura tendo as seguintes dimensões: 25 x 19 x 1,4 cm. O PVP é de 21.00€ e encontra-se disponível para venda on-line através deste link. Design gráfico Quarto de Jade.

Árvore-Canção.

O Segredo.

Serpente Emplumada.

A Procissão dos Jaguares.

O Umbigo da Terra.

Zacuala.

ESSA COISA DA BD

Março, de Miguel Rocha e Alex Gozblau.

Seria relevante constatar o facto de, ao contrário de outras denominações mais inclusivas para os diversos campos da arte – como o cinema, pintura, fotografia, etc – a banda desenhada tenha uma margem tão vasta de apelidos. Estes têm dependido, em primeiro lugar, de expressões fortemente vinculadas ao quadro sociocultural de uma determinada geografia, se não mesmo resultante de um género para definir o todo. São poucos os exemplos de um termo que se refira a esta linguagem de forma consubstancial. Inicialmente foi denominada de comics (ou funnys), não pelo suporte em si mas porque era essa a sua expressão, de uma maneira geral. Apesar do termo comics poder ser utilizado fora do espaço anglo-saxónico, ele remete inquestionavelmente para essa área, além de ser, também, caracterizador de um género apresentado nas revistas de super-heróis. Outros termos de relação sociocultural geográfica podem ser constatados; no Brasil «histórias em quadrinhos», em muitos países de língua castelhana define-se como «historieta»; podendo ainda referir-se os «fumetti» italianos ou a «bande dessinée» para o mundo francófono.

Entre nós foi o Vasco Granja que trouxe este último termo para a língua portuguesa, pois estas narrativas que articulam texto e ilustrações definiam-se como «histórias em quadradinhos». Aqui valeria a pena fazer uma referência sucinta, retirada do livro de Thierry Smolderen: The Origin of Comics – From William Hogarth to Windsor McCay (The University Press of Mississippi, 2014): «A publicação em 1732 de uma série narrativa composta de 6 gravuras (baseadas nos seus próprios quadros originais) estabeleceram a reputação de Hogarth em Inglaterra e pela Europa. Apesar da sua brevidade, A Harlot’s Progress deve ser considerado como um romance genuíno em imagens. (…) Se ficarmos com as definições mais genéricas, não há duvida que as séries de Hogarth pertencem à categoria de arte sequencial». Atrevo-me aqui a acrescentar uma passagem de Michel Melot  do livro L’Illustration – Histoire d’un Art: «A imagem não é mais um rival do texto nem o que o faz valer, nem mesmo um ajudante para a sua compreensão, é uma escrita alternativa».

William Hogarth, A Harlot´s Progress, 1732, primeira ilustração. Desenho em gravura.

Apesar de todo o debate, mais ou menos sério, sobre os antecedentes desta arte, hoje podemos caracterizar por uma linguagem que conecta, sequencialmente, imagens e texto (ou apenas imagens) de forma impressa. As paginações apresentam muitas variantes, daí acharmos que o termo «banda desenhada» – que parece não remeter para a presença de texto – perpétua uma definição através de um género: a tira ou a paginação típica dos anos 60, com bandas fixas de 4 x 4 vinhetas. Além de uma proximidade compreensível à cultura franco-belga, onde esta arte tem uma ampla difusão. Dos muitos termos possíveis, parece-nos que «narrativa gráfica» será o mais apropriado, tanto pela etimologia como pela abrangência de expressões plásticas e semanticas que pode conter; inclusive pela sua utilização em outras línguas como, aliás, já acontece. Uma busca rápida de imagens, através de um servidor na internet, entre «narrativa gráfica» e «banda desenhada» poderá, só por si, mostrar as diferenças.

No entanto, a questão do ou dos termos definidores não passa somente pela relutância sociológica em relação a certos géneros – para não falar dos estilos, também – que, de alguma forma, abriram um campo alargado para preconceitos multidireccionais. Nesse sentido vale a pena alguma reflexão para que o termo definidor não seja cristalizado pela evocação de um imaginário mas pelo sentido sintáctico que poderá ter. Neste ponto realçava o termo «graphic novel» que Will Eisner aplicava a uma narrativa de maior extensão e não a uma história mais curta, como convencionalmente se apresentam os livros (ou narrativas) de banda desenhada. Entretanto, esta definição tem sido mais generalizada, por razões sociológicas e editoriais, tendo inclusive suscitado algum equivoco na sua tradução para português, já que de facto se trata de «romance gráfico» e não da tradução fonética, «novela gráfica», pela qual se tem optado.

Sergio Toppi, Sharaz-De. Um exemplo formal onde a sequenciação de imagens não tem que estar subordinada a uma grelha de vinhetas fixa.

Mas aqui entramos num campo mais complexo, já que se uma ponte com a literatura poderá fazer sentido, concorrem em paralelo, na arte sequencial, aspectos do cinema, artes plásticas, semióptica, poesia, e isto apenas para falar de alguns… Recentemente trabalhei um texto de Joseph Conrad em imagens, assumindo que o livro original, Youth, se trata de uma novela segundo a tradução do termo storie para português. Digamos que o que define uma novela, em relação a um romance, é a compressão da caracterização de personagens, do tempo e do espaço. Nesse sentido julguei licito falar de uma «novela gráfica» se bem que, quem não esteja próximo à caracterização da literatura inglesa, também poderá dizer que a obra original se trata de um romance… Curiosamente, os livros de Conrad são tão difíceis de definir como os de Camilo Castelo Branco, por exemplo.

Constatando que mesmo dentro da literatura as questões não são lineares nem consensuais, ainda mais difícil será com a narrativa gráfica, cuja gramática essencial é uma síntese híbrida de várias outras linguagens; isto para não falar das suas auto-referências, definidas pela indústria ou por tendências mais ou menos esclarecidas. Nesse aspecto, por exemplo, o termo «narrativa visual» parece mais apropriado à sequenciação expressa através dos livros de artista, sendo que a flutuação existente dos termos definidores não seja má por si. Mas enquanto estes flutuam, podemos ir tirando algum tempo para pensar e problematizar esta questão de uma linguagem, da qual a história é tão recente e tem tantos epítetos para a sua nomeação.