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Sou o colosso sentado que se esqueceu depois da chuva, da trovoada e das tonalidades cinzentas o tempo que se revolve compacto. Um monstro por estar fora da sua época, da humanidade a que pertence: inquilinos da indiferença por obras que realizam sem serem. Sou esse colosso que olha com suspeição a turba miraculosa de consciência ausente. Quero apenas ser um monstro sentado que escuta em silêncio os horrores, noite fora, expelidos pelas televisões.

DERAM-LHE UM NOME

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Os homens que construíram o navio sabem que ele é autónomo e dão-lhe um nome. Esperam dele o prodígio que, mesmo tendo sido a partir deles construído, consegue o que eles não conseguem por si: manter-se à tona, ficar seco sobre as águas. Feita a estrutura, corpo moldado pela madeira de árvores, o esqueleto do Judea existe porque flutua de forma autónoma. Os homens domesticaram-no, dando-lhe os músculos e um coração emprestado. O coração do navio é o capitão, tendo como músculos os membros da tripulação que o manejam, mantendo uma rota determinada.

Se o Judea não transportasse uma carga, se não se tivessem traçado rotas comerciais, contra correntes e ventos, teria chegado ao seu destino. Os ratos fogem do navio como as pulgas de um cão moribundo, à beira da morte. Os homens abandonam mais lentamente o corpo que embarcaram. Assistem ao desvanecer da capacidade, guardam a imagem-memória do naufrágio. Sobrevivem-lhe porque a memória vive disso. E se o conjunto que assistiu ao desaparecimento do Judea incorporava a unidade da tripulação, cada um deles, depois, seguiu a sua vida individualmente.

Nesta perspectiva o Judea é, de facto, a personagem. No final fica apenas uma narrativa que pode ser revisitada e revivida, quando se juntam os que entendem que o navio vive entre dois mundos e a ambos responde. Uma personagem livre e, simultaneamente, submetida. Um navio, depois de construído e enviado para os oceanos, cruza os mares assemelhando-se mais com as árvores do que com os homens.

Judea, Pianola Editores. Adaptação da novela «Mocidade» de Joseph Conrad. Lisboa, 2016.

Esta entrada surge, como um comentário alargado, em relação a algumas das questões levantadas durante um seminário, cuja terceira sessão foi apresentada na bedeteca dos Olivais sobre o tema Super-heróis – Ética e utopia.

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A próxima sessão deste seminário terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Anfiteatro III), no dia 15 de Fevereiro, com o tema Política e desencantamento.

Iniciava estes tópicos pegando na pergunta final de Helder Mendes que, ao terminar a sua dissertação, perguntava “o que teria acontecido se Adão e Eva nunca tivessem sido expulsos do paraíso?” No quadro do contexto metafórico que este evento nuclear implica, na narrativa bíblica, conviria clarificar que a proposição que leva a tal ocorrência se prende à manifestação do desejo nos seres humanos. E o desejo aqui reveste-se sobretudo de uma analogia com o conhecimento, enquanto consciência de domínio insatisfeito do espaço que habitam e que, se não fossem expulsos dele nunca teria existido a História nem todas as circunstâncias das suas deambulações. Se isso não tivesse acontecido, se o casal do Génesis permanece-se no paraíso, então, muito seguramente, viveríamos num eterno presente, sem a necessidade de confrontos e registos.

Seja como for, e ainda no campo que esta questão possa levantar, poderemos sair do plano estritamente metafórico do Génesis reformulando a pergunta, no contexto das relações da espécie humana, onde ainda existem povos indígenas com uma vivência pristina, ligada à natureza, que os agentes da nossa civilização tecnocrata não descansam antes de os empurrar para fora dessa condição – tanto pela “necessidade” da sua assimilação cultural como pela ocupação e apropriação dos bens naturais que fazem parte das suas áreas ecológicas. Recordo-me de ter assistido, na televisão, a uma entrevista (que se debruçava sobre o tema da utopia) e que o entrevistado (alguém docente, salvo erro, de uma universidade do Porto) apresentava a ideia de que, quando os indígenas do Brasil viram pela primeira vez caravelas, desconheciam o que eram… Pois não dispunham de um nível de pensamento que pudesse formular uma utopia. A armadilha desta formulação não reside apenas na continuidade de preconceitos de “leitura”, baseados na ausência de conhecimento factual, sistematicamente aplicados em relação ao contacto dos europeus com outros grupos culturais, nomeadamente os da América.

Nesse aspecto, a História, do ponto de vista social, tende a ser uma mentira inusitada que, repetida exaustivamente, se transforma numa verdade. Talvez fosse mais relevante mencionar que, tal como analisa Filipe Verde no livro «O homem livre» (Angelous Novos, Editora. Coimbra, 2008), o quadro mitológico dos Bororo do Brasil permitia-lhes um pensamento fora do quadro dos cânones psíquicos freudianos, nomeadamente com a superação do complexo de Édipo. Aqui caberia relembrar que a existência de vida no planeta Terra trata-se, de facto, de uma utopia em todo o universo conhecido – que não é pouco – onde não existe qualquer sinal de outro sistema solar que contenha um planeta com água e dependente dos ciclos da chuva para a fertilidade necessária à existência de vida. De resto, todas as utopias, enquanto formulações humanas, ideológicas ou sociais, encerram necessariamente um potencial de terror e violência como a História o tem demonstrado; pois baseiam-se em conceitos idílicos que prevêem resultados positivos, através da imaginação de um sistema unilateral, sem ter presente uma clara consciência da natureza humana. Dessa forma, podemos entender mais claramente, que todas as construções humanas sejam eutópicas, tentando resgatar-se na sua inquietude – e tensões latentes – através de utopias ou, justificando-se através de distopias.

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Watchmen, de Alan More e Dave Gibbons. Outro livro com enfoque nesta sessão foi Miraclemen, também escrito por Alan More, tendo com ele participado vários desenhadores.

Não vou aqui estender-me no género de narrativas que apresentam os super-heróis na banda desenhada. Nunca as achei, ou senti, como sendo relevantes dentro da linguagem da narrativa gráfica, sobretudo pelos pressupostos plásticos e os modos temáticos que veiculam; apesar de ter lido uma das obras que era mencionada na apresentação da bedeteca. De facto, tal como foi referido durante a sessão, depois de Watchmen todas as séries de super-heróis deixaram de fazer sentido e os tópicos que levantam, com mais ou menos consistência, levam à situação académica de permitir um discurso analítico e prolixo sobre algo tão vulgar como uma pastilha elástica. Citar a República de Platão (tal como a mitologia grega ou aspectos da filosofia de Nietzsche) enquadra-se reconhecivelmente nas premissas do universo imaginário criado através das narrativas de super-heróis. No entanto, num tempo de reflexão urgente seria de relembrar a oposição no mundo clássico entre Platão e os mobilistas. Estes últimos mais próximos a conceitos nucleares semelhantes a outras culturas e regiões do mundo, onde prevalece a sabedoria e a consciência da natureza impermanente do mundo. O sábio não é alguém que acumula informação, livros ou conceitos, como o conhecimento do mundo actual, herdado da parcialidade de um sector, inscrito no pensamento grego da antiguidade. Nesse sentido, Platão é como um super-herói obstinado, pois não reconhece a mais elementar das circunstâncias: a justiça não existe, tanto na natureza como na sociedade humana. E nesta, a principal causa de sofrimento baseia-se nos graus de intensidade, individuais ou colectivos, entre apego e a aversão.

Para ilustrar um pouco estes pontos, retornava a um exemplo de ética e justiça elementar que se passou numa comunidade indígena, no norte do México. Um jovem, durante uma rixa de maus fígados, assassinou um homem deixando viúva a sua mulher e órfão o seu filho menor. A deliberação do conselho comunitário foi a de impor ao jovem assassino uma pena que o obrigava a ter que trabalhar para sustentar a família do homem assassinado. Como no México vigoram, paralelamente, as leis comunitárias e as leis federais, esta última – por se tratar de um crime grave – lançou o assassino na prisão retirando-lhe qualquer possibilidade que não fosse o castigo “exemplar” que, além da sua inutilidade, como sabemos, acaba por permitir a corrupção integral, através da elevada concentração de indivíduos responsáveis por actos ou práticas ilegais.

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Desenho de Vincent Fortemps.

Voltando um pouco atrás, os homens que vinham nas caravelas que os índios do Brasil supostamente não reconheciam, eram movidos também pelos conceitos herdados da antiguidade clássica. Criadores da utopia global que, na sua prática, revelou-se um movimento economicista baseado na insatisfação e depradação dos recursos humanos e naturais. Todos sabemos quais foram os resultados. O que ainda não sabemos é como reverter este fluxo, encontrando novos paradigmas que passem transversalmente por todas as actividades humanas. A tendência de arrumar a informação acumulada em gavetas não ajuda a este pressuposto. A banda desenhada é uma linguagem e nesse sentido a questão dos géneros só interessa a uma industria que vive da estigmatização do público, confortavelmente assente numa “crítica” especializada. Julgo, porém, que esta tem dificuldade em dispor de uma abordagem metodológica conceptual assim como lhe falta a sintaxe necessária para explanar um discurso inequivoco sobre aquilo que à narrativa gráfica é fundamental. Um exemplo muito simples desta circunstância pode ser constatado através da utilização frequente do termo “realista” para designar uma certa forma de desenho. Realista porque vem da realeza? Realista porque é a realidade? A representação naturalista assumiu durante séculos o seu papel de aparência reconhecível, sendo que muitas das vezes não consegue uma reflexão profunda da “realidade”, projectada por outras formas semi-ópticas, como o expressionismo, a caricatura ou mesmo o abstraccionismo, entre outras.

Os géneros alimentam a parcialização idiossincrática do mercado, fomentando a competição e o reconhecimento institucional, do qual é criada a tipologia académica enquistada por valores cumulativos. Quanto a mim, um livro ou é bom ou é indiferente. Ou seja, ou nos apresenta aquilo que é matéria de reflexão da vida através da sua formulação plástica, ou então, mesmo que coloque equações susceptíveis de pensamento é inútil, inclusivamente na forma em que cristaliza o seu imaginário.

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Ilustração de Dave McKean.

A produção industrial excessiva, dependente do consumo de necessidades induzidas por um sistema de bem estar material, acaba por ser um reflexo de um sistema político democrático cuja ferramenta de gestão (e absorção) dos vários grupos de interesse está sempre dependente de uma mesma economia, criadora de excessos e desperdício. Todos somos conscientes que este sistema não é sustentável e que todos no mundo querem ter acesso a este nível de vida. Nesta era centrada numa espécie humana que deixou de dialogar com a natureza, para passar a dialogar com uma tecnologia que ela própria inventou, as questões de ética acabam por ser detalhes de circunstância que alimentam o poder normativo dos meios ou sistemas que fixam a informação. A ética, o bem e o mal, são mediadores permanentes que registamos e que tendemos a fixar nas múltiplas formas das nossas narrativas, pessoais ou colectivas. Talvez que a amoralidade fosse o único tópico a ter em consideração, no sentido de mitigar a tendência mais comum para o reconhecimento de uma vertente moral ou imoral, inscritas nas acções humanas. Neste ponto seria interessante realçar que a mecânica quântica rege-se por pacotes de energia, ou seja que esta se dá por saltos e não por aproximações. Que existe uma consciência primordial e que esta não decorre do cérebro humano e da sua consciência local. O que nos torna responsáveis, enquanto parte interdependente e interconectada, na realização de um equilíbrio reconhecível cujas premissas são, inegavelmente, opostas ao sistema sócio-económico que nos rege.

Longe das conceptualizações de um “eterno retorno”, muitas vezes identificado na identidade de várias expressões culturais humanas, seria interessante relembrar que, no que diz respeito ao mundo moderno o paradigma é sempre “viver melhor”, e que para os povos indígenas da América a posição sempre foi a de “viver bem”. Neste último ponto, a única questão com relevância é a de sabermos se vamos optar, no futuro, por encontrar um equilíbrio sustentável, assente no diálogo inter-cultural; implicando a recusa ou a reformulação de muitos dos nossos conceitos e sistemas. Ou se, enquanto super-espécie dominadora, vamos continuar resolutos na delapidação da única utopia que conhecemos, o planeta terra, para manter os vícios de uma civilização tecnocrata que apenas defende a liberdade da sua prisão económica.

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Não tivemos acesso a exame ecográfico anterior. A nível esplénico documenta-se de facto uma formação nodular hiperdensa do pólo superior sem captação valorizável de cromatismo endovenoso. Mancha discretamente irregular, aconselhando-se uma observação continuada sob os batimentos cardiacos do recém nascido. Tem características inespecíficas justificando controlo evolutivo para melhor caracterização da densificação congénita. Não se observam outras lesões focais esplénicas ou hepáticas, apresentando-se o artigo ilustrado com contornos regulares e tendências globalmente homogénias.

É completamente favorável a apreciação directiva do tubo expressivo opacificado, dentro das limitações desta abordagem.

ANATOMIA DA TARDE

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Pranchas de Diniz Conefrey.

Pequena imagem, em sequência mediana, de densidade metálica que poderá corresponder a um artefacto radiológico; sonhando sentado numa esplanada e fazendo o diagnóstico diferencial a partir dos corpos estranhos de partes moles. Ausência de sinais na rua aberta ás condutas, infligindo lesões nas raízes que gritam sem sofrer, ao longo da sua actividade suspensa. Seios cárdio e costofrénicos livres.

Silhueta cárdio-vascular dentro dos parâmetros habituais.

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«Imaginemos aquela cozinha comunal dentro de uns anos talvez. Todos a trote com malgas e marmitas para serem enchidas. Devorar os conteúdos na rua. John Howard Parnell por exemplo o reitor de Trinity todo o filho de sua mãe sem falar dos vossos reitores e do reitor de Trinity mulheres e filhos, cocheiros, padres, vigários, marechais-de-campo, arcebispos. De Ailesbury Road, Clyde Road, bairros operários, casa para pobres de Dublin Norte, lorde-maior no seu coche engalanado, velha rainha numa cadeira de rodas. O meu prato está vazio. Sirva-se primeiro com a nossa taça da corporação. Como a fonte de sir Philip Crampton. Retire os micróbios esfregando com o seu lenço. O tipo seguinte passará um novo lote com o seu. O padre O’Flynn punha-os todos a andar. Haveria brigas mesmo assim. Todos a quererem ser o primeiro. Crianças batendo-se para raspar a panela. Seria preciso uma panela de sopa do tamanho do Parque Phoenix. Arpoando postas e quartos traseiros de dentro dela. Um ódio às pessoas todas em volta. Table d’hôte do hotel City Arms chamava-lhe ela. Sopa, carne, doce. Nunca saber de quem são os pensamentos que mastigas. Depois quem é que lavaria todos os pratos e garfos? Talvez nos alimentemos todos de comprimidos nessa altura. Dentes a piorar cada vez mais.

Afinal há bastante nesse fino gosto vegetariano das coisas da terra, o alho, é claro, tresanda a tocadores de realejo italianos, fritura de cebolas, cogumelos, trufas. Sofrimento para o animal também. Depenar e estripar uma galinha. Bestas desgraçadas ali no mercado de gado à espera de que o machado lhes rache os crânios ao meio. Muu. Pobres bezerros a tremer. Mee. Bezerro aos tombos. Fritura de bife e couve. Baldes de carniceiros onde tremulam bofes. Dê cá aquele peito de gancho. Plop. Cabeça em carne viva e ossos sanguinelentos. Ovelhas esfoladas de olhos vidrados penduradas pelos quadris, focinhos de carneiros em papel ensaguentado a pingar nasogeleia em serradura. Tapas e coiros a sair. Não me estragues essas peças, miúdo.

Sangue fresco quente prescrevem para a tuberculose. Sangue é sempre necessário. Insidioso. Lambê-lo, quente a fumegar, espesso adocicado. Fantasmas esfaimados.

Ah, estou com fome.»

Ulisses, James Joyce. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho para a Relógio D’Água.

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Judea é uma adaptação livre da novela «Mocidade», de Joseph Conrad, para narrativa gráfica da autoria de Diniz Conefrey, recentemente editada por Pianola Editores. Este livro tem um formato de 19 x 27 cm, 84 páginas a preto e branco numa tiragem de 400 exemplares. Encontra-se disponível para venda na internet através deste link.

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«Do livro para esta novela gráfica, a matéria é a mesma, o fogo é o mesmo, mas nesta outra aproximação o mar engole a representação do indivíduo, embora ele seja também a vaga que permite a vida. A tonalidade central nesta leitura já não é a mocidade nem toda a sua energia, que confronta e supera os males do mundo. Toda a substância, neste outro olhar, volta-se para o imponderável através da descrição dos eventos abertos aos sentidos, pulsando a narrativa em contraponto entre a imagem de acção exterior e um sentido visual abstracto; como expressão subjectiva de uma realidade interior. O narrador já não é Marlow, descrevendo os seus dias de mocidade, mas uma voz omnisciente que acompanha o leitor através da trágica viagem de um velho navio, procurando alcançar o Oriente.»

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