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ÁREA

Seguindo uma modulação através de uma história que se passa no futuro, este livro toma como corpo a possibilidade de se abrir através de uma linguagem narrativa cuja montagem se baseia, essencialmente, na convergência de outros livros, de autorias diversas, recriando um espectro no qual a sucessão flui como um pensamento, despoletando memórias.

Em simultâneo, as memórias anteriores fazem parte desta nova respiração: raízes e sinapses convergem num ritmo onde a fixação das palavras se faz no interior do seu sentido visual.

Da autoria de Diniz Conefrey e publicado em Julho de 2022, com uma tiragem de sessenta exemplares, encontra-se disponível para venda através do site Quarto de Jade:

http://www.quartodejade.com/shop_books.php

URANO

naquela placa sidérica, azul e inclinada de adrego para a delida vara do anteparo liberta já da onomástica de todas as cores da atonal verborreia de Scriabin – ou de sua tastiera per luce – e daquela obstinada voragem dos sais dos negativos sobre vidro – daqueloutros que sobreviveram entre o abismo dos suicidários marinheiros de Gosport e do mecânico avanço dos ferries para Wightlink: espalhada sobre o zinco numa vaga ideia de mar enferma da dor fantasma do coto do antebraço amputado em Indocuche:

 

muito vale adentro, para nordeste, na nonagésima carga de napalm antes da GBU-43 agora num tempo só nosso – o da Arte da Fuga de um canadiano demente – súbdito ainda da Imperatriz da Índia e debruçado numa partitura eivada de laivos sanguíneos furtados dos olhos raiados sobre o plasma vitrificado (e sua tão acerada opacidade) pela destreza de mãos de Julia Margaret Cameron iluminando Sir John Herschel depois de baptizar 4 luas de Urânio e 7 de Saturno no Cabo da Boa Esperança antes de 1847; no atlas, sob nuca, já uma dor persistente – Margaret aguando o cabelo de prata – anunciando do seu canapé que talvez estivesse (mais uma vez) para acabar o Mundo

 

Alexandre Sarrazola.

Afluentes de Adobe, edições Quarto de Jade, 2018.

 

TENSE DRILLS

Esta série de poesia-colagem teve como ponto de partida o livro epónimo de gramática inglesa de L. W. Giggins e D. J. Shoebridge (Londres/Hong Kong, Longman, 1970). Algumas frases procedem (mais ou menos textualmente) dos exemplos dados nesse volume, já que o plano primitivo era fazer uma espécie de pseudo-manual ilustrado sobre tempos verbais. A certa altura, presente, pretérito e futuro enovelaram-se e perderam boa parte da função estrutural que tinham no início; a série tomou outro(s) rumo(s), e as imagens e ideias que foram aparecendo pediram-me outras palavras. Forma e espaço foram, desde o começo, considerações importantes – e ritmo e rima (por enviesada que seja em muitos casos) surgiram de modo espontâneo, para complicar estes «exercícios» cujo único interesse prático foi o de me manterem ocupado durante os períodos de confinamento de 2020 a 2021.

A maioria das figuras provém de números avulsos das revistas Paris Match e Life en Español, e o texto foi dactilografado na minha velha Antares 20T Efficiency. Esta ligação física com o passado tornou-se importante para a série e uma parte significativa do prazer de a construir.

Rui Pires Cabral

Tense Drills. Edições do Saguão, 2021

THE READING GAZE

“It was February 24, 2004, 08:27 AM, on the Comics journal Messboard.” This is the first phrase of my blog, The Crib Sheet. What happened at that particular day and particular hour was that I, fed up with the accusation of not liking comics, decided to write a list of my favorite ones. With that list my answer was: I like comics, I just don’t like the same comics you like. This is the genesis and explanation of this book’s subtitle, “My Comics”. On the other hand, if you insist that I don’t like comics because what’s in this book are not precisely cartoonists, don’t worry, I like them too, they’re just not here yet because I divided the comics corpus in two: The Extended Field and The Restrict Field. This book is, then, an anti-essentialist stance, a cry of freedom from India Ink on board, if you like…

Domingos Isabelinho was born in Lisbon in 1960. He contributed to several magazines, catalogs of comics conventions in Portugal and other international comic art editions. He was invited, also, to the seminar Aesthetics of Contemporary Comics in Oslo, Norway, 2012.

Published by Chili com Carne and Thisco. Lisbon, 2022.

REVISITAÇÃO

 

Transcrevemos aqui, parcialmente, uma entrada de João Ramalho-Santos sobre o livro Nagual, editado pela Quarto de Jade, em 2017. O post original pode ser consultado no blog Sequências Rebeldes, com data de 5 de Agosto de 2017.

Numa cultura obcecada com quem é quem e fez o quê quando, as questões de autoria são prementes, sobretudo quando se trata de algo visto como positivo. Em arte esse reconhecimento parece óbvio e necessário, fora exceções como Banksy, e deixando de lado criações colectivas. Pelo menos até nos lembrarmos que muitos trabalhos clássicos (da arquitetura, à poesia e textos místico-religiosos) são colectivos, com uma ligação a nomes (a existir) muitas vezes ténue, feita para nos “proteger” de ter de considerar obras fundadoras como anónimas, órfãs de autor. As histórias entrelaçadas que compõem Nagual jogam com esta ideia.

Nagual inspira-se nas pinturas murais de Teotihuacan, a grande cidade-estado multiétnica do México pré-colombiano, que teve grande pujança em meados do primeiro milénio, entrando posteriormente em declínio. Utilizando um preto e branco de contraste vibrante e com poucas zonas de sombra (dadas pelo texto), nas seis narrativas que compõem Nagual assistimos aos vários passos da criação de um mundo, até desembocar nas criaturas que o tentam interpretar, com lendas e gravuras. Usando uma mescla hipnótica de formas geométricas e representações estilizadas de elementos mitológicos (serpentes emplumadas, jaguares, aves, árvores, coiotes, humanos) directamente inspiradas na arte pré-colombiana, glosa-se o nascimento de céu, estrelas, montanhas, rios, canções, violências, medos. Que levam a reflexões clássicas, das tentativas de interpretar os mistérios da existência, à fúria quanto às suas limitações e inevitável fim. E com o conceito de nagual enquanto transmutação (física ou psicológica) de ser humano em animal pairando sobre cada ser que se introduz na narrativa.

Nagual prolonga uma linha de exploração gráfica e conceptual que vem do notável Livro dos dias (também sobre o México pré-colombiano) mas também, num certo sentido, do abstrato Meteorologias (em que “anónima” era a temática). Mas quem encontrar o livro sem esse contexto (e/ou num futuro distante, quiçá pós-apocalíptico…) pode não ter acesso a esta informação. Encarará Nagual como hoje se admiram tapeçarias, cerâmicas, esculturas e pinturas nos mais variados contextos, cujas autorias se foram sumindo no tempo. Terá de construir em volta a sua própria mitologia.

TEORIA DO PLASMA

Ao desenhar uma imagem figurativa o autor reproduz uma ideia subjectiva e abstracta, partindo daquilo que observa, enquanto uma imagem não-figurativa é uma impressão concreta da mundivivência criativa do autor. Seja qual for o estilo de representação cuja forma seja reconhecível, o autor não reproduz senão um fragmento do mundo em que vive: nenhuma imagem pode representar o Universo real, pois está sempre dependente da subjectividade (plástica e social) imanente da ordem explícita – a aparência (ou a aparência num dado momento da época).

Paralelamente, a imagem não-figurativa convoca uma completude para além do que é fragmentário, um sentimento ou uma noção concreta e objectiva de ordem implícita – o indivizível (ou uma aproximação ao absoluto). Tudo está relacionado pelo processo de movimento constante – «Folding and Unfolding» – no qual a ordem explícita advem da ordem implícita. Por isso a «Não Localidade», na representação de uma imagem concreta, assume níveis abrangentes de ressonância constitutiva que, no caso de uma imagem figurativa (no fundo abstracta e subjectiva) as valências são necessáriamente fragmentárias.

No final de três anos um novo livro de narrativa gráfica, da autoria de Diniz Conefrey, encontra-se pronto e em fase de pós-produção. Durante esta fase, na qual ainda decorre o trabalho de edição, quisemos partilhar com os nossos leitores uma conversa com o autor, além de divulgar algumas das imagens que farão parte desta nova publicação. O argumento foi escrito, inicialmente, no verão de 2017. Dois anos depois, com os ambientes e personagens definidos gráficamente, começaram a ser concretizadas as pranchas para o livro. Área de apontamentos é o título para esta entrevista, acompanhada por várias imagens que, painel a painel, servem de introdução a este novo trabalho.

Para ver no site Quarto de Jade, através deste link: http://www.quartodejade.com/gallery_exhibitions.php?id_authors=1

AUTOFAGIA

Capa desta primeira edição e, à direita, página da sequência The box (do poema Tones), Sarah Frágil e S. K. Camilo

Publicado pelo Selo Risco Impresso, em Novembro de 2021, este primeiro volume da colecção Autofagia inclui cerca de 390 páginas abrindo-se a mais uma possibilidade de diálogo entre «quadrinhos e abstração». Desde a apresentação de Poemas/Processo, do final dos anos 60, onde vários códigos da banda desenhada foram integrados, por autores brasileiros de Poesia Visual, no sentido de valorizar a superação de estruturas fixas no contexto das suas propostas criativas, passando pela colaboração de vários autores de diversos países, no campo da banda desenhada abstracta, esta edição apresenta ainda, no seu final, vários ensaios sobre abstracção e sequencialidade.

Stereotipiae. Antoine-Toussaint Casanova.

Se enunciados de leitura, como este, são relevantes no debate de preposições em torno das possibilidades da narrativa gráfica abstracta, enquanto género, parece-nos plausível manter em aberto um horizonte de ressonâncias no leitor, tanto como espaço de concretização sem formas descritivas ou, porque não, em contraponto, no sentido de fusão e hibridez, com estas. De Portugal participam, neste volume, Bruno Borges, Diniz Conefrey, João Sequeira e Pedro Moura além de Cátia Serrão.

Contacto para os editores Vizette Priscila Seidel e Guilherme E. Silveira: seloriscoimpresso@gmail.com

IMPRESSÕES

O vôo da cigarra. Maria João Worm 2021.

Em plena época de desmaterialização das imagens e do livro, a Prado e o CPS – Centro Português de Serigrafia – convidaram escritores a reflectir, em parceria com ilustradores, sobre a relação entre a arte e o artesão, sobre técnicas e tecnologias,  querendo tocar em aspectos que passam pelo acesso democrático à arte ou esta no seu âmbito mais convencional. Nesta edição, com o título de Impressões, os editores tiveram como objectivo central olhar e repensar diversas técnicas artísticas de impressão utilizadas no século XXI, algumas das quais seculares e com grande expressão histórica na produção artística. Nomeadamente a serigrafia, a litografia, a gravura em relevo – com uma linogravura de Maria João Worm acompanhando um texto de Mário de Carvalho – a gravura em profundidade e a impressão digital. Depois da anterior parceria para o livro Guia Ler e Ver Lisboa, o CPS e a Prado juntaram-se, uma vez mais, para apresentarem em conjunto uma nova edição, desta feita, no contexto da celebração dos trinta e cinco anos do CPS.

CADÊNCIA SAZONAL

Boas festas. Subimos a única Lua. Esta é recortada em papel, um aparo preso a um fio de prumo de palavras que se acertam. Pulsar de recriação recebendo os gestos atentos de leitores improváveis.

Os olhos tocam as folhas temperadas pelas cores e os livros imaginados tomam a sua forma para habitar a casa dos outros.

Tempo sem pregas, sentir o caminho no canto possível de um novo ano: suspensa manhã sobreposta, a respiração nas voltas listradas de uma casca de caracol.