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O rio que nasce de uma árvore e entrou passarinho dentro do café. Delicadeza do gesto procurando repor no espaço aberto o pânico das asas a bater numa sucessão multicolor. Tudo vibra nesse momento, resgatando a monotonia dos gestos previsíveis. O rio voando em torno das cabeças enquanto estas olham pensando na melhor forma de devolver o fulgor à vida certa, sem barreiras, para longe do espaço encerrado onde habitam as palavras que nos prendem ao vago torpor. Enquanto isso, incendiada pela luz ofuscante, uma bola jaz quieta, perdida no meio do areal. Objecto facetado em azul transparente, reflectindo a luz vibrante, indiferente a qualquer cor. Porém, é a sombra que lhe devolve esse momento rasante de breve fulgor. Frágil o corpo, carregando a tensão em violência no centro de um medo ancestralmente venoso, entrou na água ofuscante de cristais cintilando enquanto os olhos deslizaram pelo horizonte em veludo de metal transparente.

 

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Ilustração de Maria João Worm para a Raia, 2017.

«Estas imagens (século XVIII) destinavam-se a um público pouco letrado e podemos vê-las como um fenómeno parente da banda desenhada onde a imagem «faz passar» o texto; no entanto pode ser que se tratasse de um fenómeno inverso. A imagem não sendo ainda de leitura fácil para esse público que se amparava a um texto. Por outro lado, parece certo que o papel do texto não seria somente o de trazer uma precisão, sendo também uma caução ainda necessária para que a imagem fosse de alguma forma autenticada e aceite.»

L’illustration – Histoire d’un Art. Michel Melot. Skira, 1984.

 

Página do Códice Fejérvary-Mayer e prancha de Dino Battaglia. Apesar de se identificarem alguns processos narrativos similares entre ambas as linguagens (como os eventos res gestae), os seus níveis cognitivos derivam de planos distintos.

Preconizando um quadro reflexivo, relacionado com o movimento natural para a identificação das suas raízes, não raras vezes são colocados os códices pictográficos, do México antigo, como antecedentes da moderna banda desenhada. Em casos mais extremos serão até assumidos como sendo já banda desenhada. Este pressuposto aponta já para a turbulência das imagens na era da informação global, assumindo aspectos reivindicativos de síntese, baseada na relação sensorial que o imediatismo das sociedades tecnológicas induzem como prática de vida. A linguagem, tal como a História, existe num fluxo de abertura permanente, no sentido que a sua interpretação está exposta às mutações do pensamento que as observa, no tempo e no espaço cada vez mais distante do objecto inicial. Podemos acumular todo um índice de referências, por exemplo, sobre a idade média. No entanto já não nos é inteiramente acessível saber o que sentiam, directamente, as pessoas que viveram nesse período, apenas restando as pistas de como o seu mundo podia – ou devia – ser precepcionado.

Página do Códice Zouche-Nuttal com indicação, no canto inferior direito, do sentido de leitura.

Nessa medida sabemos que no México central foi desenvolvida uma escrita pictográfica que incluía, simultaneamente, códigos fonéticos, topónimos, símbolos ideográficos, tanto descritivos como abstractos  com a capacidade de fixar um discurso tanto de homónimos como de sinónimos. No entanto, os conteúdos – e mesmo a ambiguidade – resultante dessa sobreposição não dependia da intenção de um “escritor” (no caso um tlacuilo, termo nahua que contém o duplo significado de escriba-pintor) sendo antes de mais o reflexo de um quadro cultural onde os símbolos partilháveis, apesar da sua flutuação, assumiam valores canónicos. No corpo social mesoamericano o conceito de estado centralizado não chegou a tomar uma expressão e, apesar da linearidade da contagem temporal, os seus ciclos tenderam para uma regulação circular do tempo. Desse modo, podemos observar que da época de Teotihuacan – cerca de 300 d.C. – até à cidade do México – 1520 d.C. – práticamente não se observam alterações tecnológicas de fundo.

Reconstituição de uma página do Códice Borgia por Gisele Díaz e Alan Rogers. Dover Publications, 1993.

Se de um ponto de vista aparente podemos estabelecer uma relação entre as imagens sintéticas e sua disposição num códice com as páginas de uma banda desenhada, ao nível superlativo tal comparação enferma de uma sustentabilidade estrutural. Como em qualquer outra parte do mundo, um habitante de uma cidade-estado mesoamericana teria presente a sua condição na hierarquia social. No entanto, aquilo a que chamamos “consciência de classe” estaria inteiramente arredado da sua percepção. Esta última formulação, como sabemos, deriva das transformações sentidas na Europa após a revolução industrial, sendo um conceito introduzido pela reflexão marxista no século XIX e que, entre outros aspectos, aponta para o controlo dos meios de produção sentidos em consequência do antropoceno. Estamos portanto muito longe dos códices e do seu contexto social cuja relação objectiva com a natureza dependia do inconsciente colectivo e não das escolhas permitidas pela individuação.

Ou se voit que les japonais ont aussi leur homme au long nez. Imagem de Épinal.

Caberia aqui mencionar que, do ponto de vista processual, palavra e imagem encontram-se fundidos nos códices pictográficos mexicanos, existindo uma consubstancialidade entre o signo e aquilo que designa. Por seu lado, na banda desenhada opera-se uma sincronia que advém da separação entre estas mesmas duas componentes. Enquanto os códices como linguagem são um registo arquétipo a banda desenhada é um sucedâneo da separação entre palavra e imagem – com a qual ainda se debate – sendo que a sua pré-história é identificável ao tempo dos Cris (estampas com legendas, vendidas na rua, entre o século XVI e XVII), na integração do texto em imagens dos cartazes durante o século XIX e nas imagens de Épinal. Narrativa e sequencialidade não são apanágio exclusivo da banda desenhada, estes podem ser reconhecidos antes e depois da sua formalização por Topffer, em vários campos de expressão linguística, plástica e mesmo audio-visual.

Duas páginas do Códice Florentino que incluem sequências narrativas. Outras páginas incluem apenas uma ou duas ilustrações, também inseridas em vinhetas.

Em termos de conceito e contextualização os códices pictográficos não devem ser vistos de uma forma empírica, correndo-se o risco de uma extrapolação política alheia ao objecto e seu significado primordial. Mencionando apenas um aspecto, as páginas em acordeão de um códice poderiam ser consultadas em simultâneo, permitindo facilmente a esta estrutura uma transgressão da leitura linear. Possivelmente as referências eram cruzadas e podiam ser lidas alternadamente. Como consequência da invasão do México, no século XVI, é introduzida na linguagem dos tlacuilos dois aspectos que estavam completamente ausentes: o desenho em perspectiva e a narrativa gráfica. Apesar de muitos códices pós-coloniais serem já elaborados com a primeira alteração, o exemplo mais significativo encontra-se na obra compilada por Sahagún, o Códice Florentino, com a participação de informantes indígenas. A par do texto alfabético, surgem pequenas sequências enquadradas por vinhetas que referem acontecimentos e que são independentes, por complementaridade, ao texto central. Da escrita pictográfica, os tlacuilos são agora solicitados a essa expressão, em pequenas narrativas, cujas ilustrações descrevem uma acção da qual eles próprios estão separados, assumindo-se como observadores de uma realidade da qual já não participam. Quanto aos códices pictográficos, no seu aspecto original, continuam a existir até ao século XVIII.

O mapa de Teozacoalco foi pintado por artistas indígenas em resposta ao questionário das Relações Geográficas do governo de Nova Espanha, no final do século XVI. Do lado direito figura a lista de governantes Mixtecas.

De uma maneira geral haverá pouca gente que tenha presente o contexto que reafirma a clara diferenciação entre uma linguagem arquétipo – os códices – e uma linguagem híbrida – a banda desenhada. Como consequência do novo estatuto social, grande parte dos códices mesoamericanos foram destruídos. No entanto, a continuidade desta linguagem manteve-se mediante a necessidade imposta aos povos indígenas no sentido de provarem a propriedade de terras e as suas filiações políticas através de Lienzos, guardando conteúdos narrativos em tiras ou mapas territoriais. As genealogias também foram valorizadas, tendo em conta que o processo de transposição legal fez com que as instituições ocidentais – como os tribunais – recaissem sobre os antigos centros administrativos indígenas.

O Diário de Jules Renard lido por Fred. Bertrand Editora, 1989.

Actualmente já não existem códices pictográficos e, certamente, estes nunca fizeram parte integrante da história da banda desenhada. A sua realização situa-se no campo da semântica e, por extensão, da história da ilustração. Assim como os hieróglifos fazem parte do campo da escrita fonética, apesar da aparente facilidade com que se podem invocar as proximidades electivas. Podemos ver, de forma cada vez mais clara, que a linha identitária da narrativa gráfica ou banda desenhada se situa entre o século XVIII e XIX, resultando de várias mutações sociais, estéticas e tecnológicas mas que encontra uma clara matiz na intensa concorrência que caracterizou os jornais no início do século XX. Entretanto, as suas questões para o futuro prendem-se mais com a dicotomia latente entre poesia e literatura, no sentido das tensões permanentes entre a dessubjectivação da linguagem realizada no plano da expressão absoluta e o romance enquanto prioridade editorial.

Here de Mcguire. Revista Raw, volume 2 número 1. Pela sobreposição de tempos afectivos e históricos, em narrativa paralela, transcendendo o espaço da acção através de um ritmo minimal.

Num meio excessivamente permeável aos populismos, fluindo em correntes de margens apertadas, seguimos aqui uma proposta de contra-ponto às sucessivas listagens caracterizantes de uma linguagem que, à bem pouco tempo, saiu das páginas dos periódicos para encontrar uma nova relação através do livro. A primeira constatação seria por demais óbvia, até porque nos enunciados que apresentam “as melhores bandas desenhadas de sempre” quase não incluem inflexões na sua tipologia. Num olhar breve, poderíamos dizer que prevalecem critérios de secundarização da linguagem em favor de estigmas estilísticos assentes numa espécie de vocação institucional.

Nick abre la puerta de Keko. Revista Medius Revueltos, número 3. Dicotomia cromática salientando uma realidade interior em oposição a uma realidade exterior.

Duas vertentes estão em linha de conta. A primeira, e não menos óbvia, seria a distinção entre linguagem e indústria. A linguagem da narrativa gráfica coloca os seus intervenientes numa relação directa com abordagens de  espaço-tempo numa folha de papel, na qual tomam forma códigos expressivos de imagem-sentido-texto como elementos de sintaxe; revelando-se estes numa ou várias páginas de permutas sequenciais.

Enfer I e II de Silvestre. Relations, Editions Amok, Collection Feu! número 5. Estas páginas são apenas um exemplo. Todo o livro explora a encenação de variações gramaticais cuja semióptica é interdependente aos diálogos mencionados.

Quanto à indústria, esta explora os valores canónicos  extrapoláveis da linguagem, tornando-os dogmáticos dentro de um quadro de reconhecimento sócio-cultural que, por norma, tende a sistematizar a valorização do “reconhecível” dentro de um modelo-padrão. Absorvendo, sempre que economicamente viável, qualquer pauta ideográfica possível de replicar com “sucesso”.

Anita de Stefano Ricci e Gabriella Giandelli. Fréon Édition. Pelo valor matérico do cromatismo enquanto elemento dramatúrgico da narrativa, sublinhando um enunciado que vive dos sentimentos numa montagem que exclui a acção linear.

A segunda vertente, em linha de conta, traduz-se pela enunciação de autores cujo nome adquiriu um valor superlativo, para além de qualquer análise crítica – séria – da sua obra, apresentando um estatuto  à priori imune a qualquer recensão que não seja a sua marca de difusão, inscrevendo-se como alter-ego da própria linguagem. Não há nada pior do que uma obra que não levante questões…

Fenêtres sur L’Occident de H. Cava e Raúl. Editions Amok. Subjectividade da narrativa, num evento histórico, organizada entre a sequência de série e decomposição. A ressonância de conteúdos é estabelecida de forma indirecta.

Por uma razão de constrangimento deste segundo ponto e tendo em linha de conta o anterior, nesta lista das dez melhores bandas desenhadas foram excluídos nomes sonantes, estando somente mencionadas pranchas recentes que a nível da linguagem julgamos poderem ser, modestamente (ou não), significativas. Realçando-se  que, de facto, ainda não existem as “melhores” narrativas, dado que a curta história desta arte só confirma que ainda está longe de ter adquirido a sua maior idade. Apenas cintilam algumas propostas que continuamos a nomear.

Mutterhuchen de Anke Feuchtenberger. Jochen Enterprises. Expressão de um universo feminino onírico em que se valoriza, simultaneamente, uma linguagem gráfica sem modelos de referência editorial.

 

Dans ma Maison de Papier de Pierre Duba (adaptação da peça de teatro de Dorin Philippe). 6 Pieds Sous Terre. Duba inscreve neste livro quase tudo o que é possível à narrativa gráfica, até este momento, no plano da transposição dos códigos formais enquanto discurso intertextual; apontando para diversas planificações de página como elo narrativo e não somente ritmico.

 

Le Dernier des Mohicans de Cromwell e Catmalou adaptando livremente o romance de James Fenimore Cooper. Editions Soleil. Um autor formal que com este livro abre um outro caminho no qual se reafirma a cor enquanto elemento narrativo, com as imagens a extenderem-se ao limite da página. Só a má escolha no tipo de letra e um excessivo enfoque nas cenas de acção impedem esta obra de uma primazia raras vezes reconhecivel em banda desenhada.

 

Barques de Vincent Fortemps (página 13 e 18) Editions Frémok. Um documentário em imagens silenciosas e agrestes que prolonga um espectáculo multi-média criado em 2007. Este é um trabalho de grande maturidade narrativa, um diamante em que o movimento coexiste no tempo e não na acção.

 

Hearts de John Hankiewicz. Fantagraphics Books. Pois a linguagem da banda desenhada está para lá das histórias de aventuras, super heróis ou outros imaginários afins. Tão pouco se fica apenas por novelas gráficas, com mais ou menos sucesso. Quatro módulos narrativos sequenciados em quatro momentos, entre luz e sombra que fazem pulsar um instante de emoção contida. A interpretação sim, faz parte da comunicação…

SETEMBRO

 

“Outro dia”, que não este, pode ter sido ou vir a ser. Que liberdade boa há em “outro dia”. E também dá a justeza do lugar do tempo presente… só ele fica definido pelo outro. Tem em si o princípio narrativo do que pode ser exemplar, como “naquele tempo”. Embora “naquele tempo” se apresente o passado da história. “Noutro dia”, que não este, já me parece referir-se ao passado mas nada nele sugere isso, apenas se define como outro, num outro lugar?

Um beijo, um destino que se abre lento enquanto cada passo assegura a perda que se acende dos nódulos de um corpo em livro que se desdobra e encerra tudo sem nada ter escrito.

As ruas são muito largas, como folhas caducas. Estendo então os dedos e guardo em mim essa condição vagarosa de passo incerto, constante na sua alocução interior. Como companheiro apenas um copo transparente.

A mesa roda enquanto o poema se desfaz e então acendo mais um cigarro. Uma prática tão banal como a diluição no centro deste ritmo percussivo. A língua toca o céu da boca procurando as imagens no seu interior. São estrelas que se desfazem dentro da noite.

Recuo na minha fragilidade e a bebida de cana inunda um coração descoberto na palidez do amanhecer. Enquanto as rosas abrem em tranquilidade demorada, sem espaço para crescer a fome que vem do interior dos dias gastos como cigarros que se acendem num lume de paixão.

Encerrada na brevidade desta sorte, um arcanjo solitário observa, ao fundo de um corredor de veios sombrios, esperando até chegar o tempo em que se lhe ilumine o rosto. Fogo laranja de vida que se consumiu arrastando toda esta pulsação.