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Judea é uma adaptação livre da novela «Mocidade», de Joseph Conrad, para narrativa gráfica da autoria de Diniz Conefrey, recentemente editada por Pianola Editores. Este livro tem um formato de 19 x 27 cm, 84 páginas a preto e branco numa tiragem de 400 exemplares. Encontra-se disponível para venda na internet através deste link.

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«Do livro para esta novela gráfica, a matéria é a mesma, o fogo é o mesmo, mas nesta outra aproximação o mar engole a representação do indivíduo, embora ele seja também a vaga que permite a vida. A tonalidade central nesta leitura já não é a mocidade nem toda a sua energia, que confronta e supera os males do mundo. Toda a substância, neste outro olhar, volta-se para o imponderável através da descrição dos eventos abertos aos sentidos, pulsando a narrativa em contraponto entre a imagem de acção exterior e um sentido visual abstracto; como expressão subjectiva de uma realidade interior. O narrador já não é Marlow, descrevendo os seus dias de mocidade, mas uma voz omnisciente que acompanha o leitor através da trágica viagem de um velho navio, procurando alcançar o Oriente.»

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O CORPO DE UM GRILO

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O pincel tocou levemente a superfície da água e logo uma mancha de cores, em espirais transparentes, se espalhou em fluídos improváveis, transbordando o olhar da criança. Sentiu uma grande comoção envolvendo-a, como naquela tarde fixada na memória, em que no céu matizado pelas nuvens planavam cromatismos de luz etérea, adensando o sentir de uma existência penetrando o corpo como um eco imemorável. Agora, a água turva pelas cores esfumadas, estagnava lentamente em círculos oleosos; do fundo da sua imaginação vinha ainda aquele movimento inicial. Um toque electrizante tal qual a aspereza do vento a vaguear por dentro da tarde enquanto o dia se inclinava sob o caminho. Parte então a criança para casa, com olhos lacrimejantes de cores, pressentindo que a aurora circula no seu sangue enquanto as habitações humanas parecem consumir o que da memória restou.

CONFIDENCIAS

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«Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.

Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de acordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por hoje. Depois veio o sono. E o sono chegou a horas. Antes do sono ainda houve uma imagem-um leão a dormir!»

 Almada Negreiros, A invenção do dia claro.

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«Por razões que se prendem com a salvaguarda da minha saúde, vou dar por terminada, durante o próximo mês de outubro, a atividade livreira da Culsete, cessando assim a intervenção de uma casa de leitura e para a leitura, cuja ação cultural teve uma dimensão local e nacional.

Apesar das inúmeras diligências por mim efetuadas, não foi possível encontrar até ao momento ninguém que queira prosseguir com este projeto. Mantenho, porém, essa hipótese em aberto até ao último dia.

A cidade de Setúbal vai mais cedo ou mais tarde ressentir-se da falta de um centro de animação cultural tão importante como tem sido esta livraria. Chegam, assim, ao fim quarenta e seis anos de mediação livreira, primeiro em nome da Culdex e, desde 1973, em nome da Culsete.

Aproveito para informá-lo de que de 23 de setembro a 2 de outubro farei uma liquidação total do fundo da Culsete, com livros desde € 0,50 cêntimos até € 10,00, estes os exemplares cujo preço de capa seja superior a € 40,00. Espero que apareça e a divulgue junto dos seus contactos porque vai valer a pena aproveitar as nossas preciosidades a preços tão convidativos. Horário: Dias úteis e sábados: 10/13 h – 15/19 h; domingos: 14/20 h.»

Fátima Ribeiro de Medeiros

O BRILHO DO VISÍVEL

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«Estamos de tal forma fascinados pela ideia clássica da adequação intelectual que este «pensamento» mudo da pintura nos deixa, por vezes, a impressão de um vão remoinho de significações, de uma palavra paralisada e abortada. E se respondermos que nunhum pensamento se desliga completamente de um suporte, que o único privilégio do pensamento falante é de tornar o seu manobrável, que, tal como as figuras da pintura, as figuras da literatura e da filosofia não estão verdadeiramente adquiridas, não se cumulam num estável tesouro, que mesmo a ciência aprende a reconhecer uma zona do «fundamental» povoada de seres espessos, abertos, rasgados, os quais de maneira nenhuma podem ser tratados exaustivamente, como a «informação estética» dos cibernéticos ou «os grupos de operações matemático-físicas», e que, enfim, nós não estamos em nenhum lado em estado de fazer um balanço objectivo, nem de pensar num progresso em si, que é toda a história humana que num certo sentido é estacionária, o quê, diz o entendimento como Lamiel, é só isso? O ponto mais alto da razão é confirmar este escorregar do solo sob os nossos passos, chamar pomposamente interrogação a um estado de estupor continuado, procura de um caminhar em círculo, Ser que nunca é completamente?

Mas esta decepção é a do falso imaginário, que reclama uma positividade que preencha exactamente o seu vazio. É o lamento de não ser tudo. Lamento que não é completamente fundado. Pois se nem a pintura, nem mesmo noutro campo, podemos estabelecer uma hierarquia das civilizações ou falar de progresso, não é que qualquer destino nos retenha para trás, é acima de tudo que, num certo sentido, a primeira das pinturas ia até ao fundo do futuro. Se nenhuma pintura conclui a pintura, se mesmo nenhuma obra está absolutamente concluída, cada criação muda, altera, esclarece, confirma, exalta, recria ou cria de antemão todas as outras. Se as criações não são algo adquirido, não é apenas porque, como todas as coisas, passam, é também porque têm quase toda a vida à sua frente.»

O olho e o espírito. Merleu-Ponty. Tradução de Luís Manuel Bernardo para a Vega, 1992.

CEGA-REGA

Ilustração

«Nenhuma palavra de apreço pela dureza do caminho andado. Paciência. O teatro do mundo tem palco e bastidores. As palmas da plateia festejam somente os dramas encenados. Que remédio, pois, senão a gente resignar-se e aceitar as sínteses levianas. Nascia do tempo. Muito bem. Ninguém mais ficaria a conhecer a fundura dos abismos em que se debatera. Protoplasma, lagarta, ninfa… Quase que sentia ainda no corpo as fases da transfiguração. Mas pronto, chegara! Agora era receber o calor do presente, e cantar. Cantar o milagre da anodina e conseguida ascensão.»

Miguel Torga, Bichos.

Vaga nocturna

Nas vagas horas nocturnas desfiam-se conversas em tom intimista, sulcando a voz distante uma procura em ritmos circunspectos, abertos ao destino que as palavras podem abrir no tempo da auscultação. Brilham as imagens em movimentos musculares tépidos e crónicos; procurando soltar as teias dos sentidos, das percepções guardadas nas longas horas de reflexão. Do outro lado o mesmo movimento responde, aturdido pelas ideias imperceptíveis que se tentam conjugar no fundo lacado da voz; uma chama, uma ponta de uma vela que invoca as vivências na sua urgência para se encontrarem. As vozes adormecem de noite, nos fios de telefone que alastram os ecos de batimentos cardíacos em sílabas e vogais. Emerge toda a perplexidade da ausência do corpo, dos gestos, do olhar perdido numa janela aberta por onde entram paisagens avassaladoras, como o batimento das ondas na praia aberta aos ventos do inverno.