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BROKEN MUSE

Entre as salas vazias, duas asas para a «Broken Muse», «Hell» e «Grief». Mas aqui a memória não é arqueologia.

Depois da edição do livro seminal «Biblioteca dos Rapazes» (Pianola Edições, 2012), os poemas visuais de Rui Pires Cabral transpareceram numa série de publicações onde o universo lírico deste autor se reinventa permanentemente. Ao descer fundo nas melodias secretas que escrutina, num sentir provocativo e reflexivo, de poemas que se complementam visualmente; as suas coreografias ambientais traduzem e aproximam o leitor de uma dimensão semiótica da intimidade que apenas raros poetas conseguem, mesmo através do uso exclusivo da palavra.

«Drawing Rooms», editado em Junho deste ano pela chancela da não (edições), organiza-se em quatro momentos assinalados: «Songs», «Ghots», «Heartaches» e «Mysteries» que desenvolvem um arco consistente cujo palco ecoava já em «Elsewhere/Alhures» (publicado pela mesma editora em 2015) encontrando agora toda uma margem sintética, sem a presença de qualquer poema nos quatro enunciados, onde cada imagem é simplesmente acompanhada por uma legenda, surgindo um «Afterword» no final das 53 páginas que compõem esta edição.

 

 

Livro inóspito, que formalmente adquire uma amplitude sequencial, ao congregar a claustrofobia de um palco encerrado no interior circunscrito de paredes. Individualismo retido nas veias das suas próprias evocações, abre, no entanto, ressonâncias plurais. Sobretudo quando flui por uma revigoração silenciosa, de que os modos apenas são emprestados; despindo e expondo, de forma súbtil, o encontro das harmonias que juntam o livro às visitas interrogativas dos seus atentos leitores.

COMICS POETRY

Keren Katz e Shahar Sarig.

Trata-se de uma forma criativa híbrida, que combina aspectos da narrativa gráfica e da poesia. A sua linha define-se a partir da sintaxe da banda desenhada – imagens, paineis, balões de texto e outros aspectos, no sentido de produzir uma expressão artística próxima da poesia tradicional.

Desde meados de 2000 que vários artistas poetas, como Matt Madden ou Julie Delporte, começaram a publicar, de forma independente de cada um, referindo-se expressamente ao trabalho que estavam a desenvolver como Comics Poetry. Este termo é aplicado a um campo crescente de trabalhos cujo teor se apresenta fora das definições tradicionais, tanto da banda desenhada como da poesia. Uma simbiose que encontra as suas origens nas iluminuras, romances gráficos, poesia concreta e poetas que combinaram imagens e textos, como Kenneth Patchen (https://en.wikipedia.org/wiki/Kenneth_Patchen).

Alexander Roth, editor da revista Ink Brick – A Journal of Comics Poetry (https://inkbrick.com/), acrescenta: «Eu chamo ao trabalho que realizo e publico “comics poetry”. (…) Ao fim do dia, mais do que qualquer outro praticante, um poeta está apenas a lidar com palavras… Palavras não são estritamente necessárias para uma banda desenhada, mas naturalmente também estão presentes para serem usadas. Vinhetas não são necessárias, mas também estão aí para serem usadas. Da mesma forma que o manancial do poeta contem cada arranjo imaginável, ou manipulação de palavras, o cartonista dispõe de analogias como elementos visuais da página.

À esquerda, August in Pasikuda de Deshan Tannekoon e Isuri Merenchi Hewage. À direita prancha abstract comics de Mark Laliberte (Ink Brick nº8).

Numa época em que as fronteiras estabelecidas pelas definições se vão alargando, diluindo e encontrando novas perspectivas, os modelos que parecem estabelecidos (como se pode verificar nos ensaios incluídos na edição da 5e Couche – Bande Dessinée et Abstraction) antecedem já as formas para variantes nas justaposições. Também neste Journal of Comics Poetry surgem afinidades, ou mesmo colaborações, de narrativas que se inserem no género de Abstract Comics. Uma forma de expressão que combina conceitos de abstracção visual com a sequencialidade inerente a uma banda desenhada.

Estamos no campo mais abrangente das narrativas gráficas do qual participam outras, mais específicas, como as narrativas visuais (se assim podemos incluir os “livros de artista”). Uma permuta de musicalidades na qual a fusão de géneros vai enriquecendo as linguagens, abrindo os debates permanentes em torno dos conceitos, muitas das vezes só em aparente oposição.

Para ler mais sobre Comics Poetry: https://en.wikipedia.org/wiki/Comics_poetry

CÓDIGOS

O mercado nacional de banda desenhada tem estado tão ativo, e o espaço disponível para falar dele é tão diminuto, que é sempre ingrato fazer escolhas. Por isso, escolhe-se aquilo que talvez menos gente fale.

Como o notável trabalho gráfico de Diniz Conefrey na sua mais recente coletânea de narrativas curtas “Floema dorsal” (Quarto de Jade). “Floema” é o tecido vascular das plantas no qual circula matéria orgânica produzida a partir da fotossíntese, a chamada “seiva elaborada”; por oposição, no “xilema” circulam água e sais minerais (“seiva bruta”). Já “dorsal” implica as costas, onde, nos vertebrados, se desenvolve o sistema nervoso. No trabalho sempre onírico e aqui maioritariamente a preto e branco de Conefrey há essa articulação comunicante entre formas abstratas que evoluem e se interpenetram de forma quase orgânica (“Nas rajadas de um sonho”), ou desequilibram a noção que o leitor tem de abstracto-real (“Impermanência”, “Onde estão as borboletas”).

Texto e cor são aqui elementos raros, o primeiro por vezes estranha-se na sua poética (como no visualmente deslumbrante “Cigarra”), ou surge enquanto contraponto absoluto essencial (“O lugar sem espera”, talvez a melhor sequência, enquanto BD). Já o uso de cor enquanto elemento gráfico é sempre superlativo (“Impermanência”, “Cigarra”), e, apesar da mestria do preto e branco, sentimos muitas vezes a sua falta. Seja como for, o trabalho de Diniz Conefrey transporta sempre para onde nunca sabíamos poder ir.

 João Ramalho Santos, Jornal de Letras de 15/1/2020 

Time Lapse Growth. Bill Shut.

Dos mecanismos linguísticos, o melhor que identifico como próprio é, num sentido amplo, o da justaposição. É a relação entre o cinema e a vida: ela, os pássaros. A estranheza e o sentido procedem desse trabalho de montajem que a nossa percepção realiza de modo natural. A metáfora, pelo contrário, é algo que naquilo que escrevo me custa reconhecer. Neste sentido, considero a minha escrita realista, quero dizer literal. O brilho da fulguração sombria de uma metáfora passa em todo o caso por essa literariedade.

Escrever, 2

Os meus livros fazem-se um pouco às cegas, quero dizer que não há um projecto inicial que a escrita vá correspondendo. Cada poema nasce de modo independente, um a um escrevem-se ao longo dos anos. Depois, em algum momento, começo a trabalhar o livro como tal, o que significa ir fazendo-me com ele. O livro está aí, nas linhas que transitam, na rede de recorrências que se vão tecendo, nos fios que o envolve aos livros anteriores.

Pensar é pensar o corpo, pensarmos no mundo – o que significa: estamos, e não estamos. No mundo. O mundo de um poeta, de uma poeta é reduzido; o seu olhar focaliza aspectos limitados, obsessivos, doentes; manifestações ou sintomas de uma disposição de animo. Além disso esse mundo é lento; as transformações (condensações, novas dimensões, descobertas do mesmo – aqui, aquilo -) são lentas, anos para uma rotação, para outro matiz, para o caír na conta. Quem trabalha o poema é pássaro e caracol ao mesmo tempo, leve, e audaz e concentrado, reconcentrado em si, quieto, ensimesmado. A obra responde a qualidades muito precisas da sua percepção e da sua memória; a uma sensibilidade formada por dependências familiares carnudas e em mecanismos associativos irredutíveis. O modo como constroi o seu mundo é a sua contribuição à língua. Penso em Vallejo, em Rosalía, em Lezama, em Jaime Saenz… Para cada um deles a forma é a única possível; e essa forma é pensamento, uma maneira de relacionar-se com os mortos, de ir para a morte.

Olvido García Valdés (traduzido da revista el poeta y su trabajo. Inverno de 2009)

 

Há algo de assustador nos fantasmas das casas novas:

Os fantasmas das casas velhas já são maus quanto baste:

Mas os fantasmas das casas novas são terríveis.

A grande novidade destas novas e desoladas casas

Já seria bem terrível sem os fantasmas.

Mas os fantasmas também são novos.

Raparigas tristes com blusas azuis

E pessoas nos seus assados de Domingo

Sob a grande luz do dia, dentro destas casas novas

Em ruas onde os homens varrem o vidro partido.

 

Malcolm Lowry

As cantinas e outros poemas do álcool e do mar.

Tradução de José Agostinho Baptista para Assírio & Alvim, 2008.

(Imagem: Maxfield Parrish, 1903)

CENTELHA DO LIMBO

Disponível nas livrarias o novo livro de poesia de Diniz Conefrey, Um Fio Atravessa a Noite. No espanto, as mãos das vozes que transintam entre amplitudes de vida, transformando a respiração por dentro. E transforma em quê? A pergunta está deslocada, transforma-se porquê? Porque de súbito renasce a vontade do olhar. Sem aquela luz fugaz dos espectáculos, apenas uma estação inscrita que sente e que se altera pela combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação no veio cortante das palavras. Editado pela Companhia das Ilhas, este azulcobalto de 84 páginas inclui vários poemas por entre diversas inflorescências. Nesta página, apenas o verso final de Centelha do Limbo:

(…)

Mato grosso ondulante, corpos nus;

sentado Ailton pondera palavras

como fruta macia de silabas abertas

por sementes, rio doce sob o vale de aço,

mãos dadas com quem se quer longe

e perto de tudo que fala enrolado

esquinas de saber ou em guarda parada –

copo do corpo tatuagem do espaço

bolsa de tarja larga, fundo caíram os dedos

descendo sozinhos no sonho d’avó

pelo fundo do rio, da espera, tudo recomeçou –

acabou, acabando em nós de folhas virgens

dilaceradas por febres de vozes mansas,

jacarandás chovendo violetas soando –

soando de retorno ao fundo, o mesmo fundo

saindo, uma vez mais, por entre lavores

dos olhos talhados de gretas tremendo

no frio de um rosto suave

sorrindo nos gestos

brandos

que a esperteza calou.

 

 

LIVRO DA COMUNIDADE

Ilustração dos irmãos gémeos por Luis Garay, na edição para os mais jovens escrita por Victor Montejo para as edições Groundwood Books, Canadá 2005.

O termo Popol Vuh do idioma quiché pode ser traduzido como o “livro da comunidade”. Trata-se de um registo documental da cultura maia, produzido no século XVI tendo como tema a criação do mundo deste povo. Popol é interpretado como “comunidade” ou “conselho”, refereindo-se à identidade comum; e Vuh ou Wuj, em quiché moderno, significa “livro”. Tudo indica que o manuscrito original do Popol Vuh tenha sido escrito por volta de 1554-1558, em alfabeto latino no idioma quiché. Traduzido para o castelhano pelo frade Francisco Ximénez, em 1701, o documento manuscrito encontra-se hoje em Chicago, na Biblioteca Newberry. Em 1861, Charles Étienne Brasseur de Bourboung baseou-se na tradução de Carl Scherzer e publicou em francês o texto com o nome de Popol Vuh.

 Este livro é talvez o mais forte exemplo da continuidade cultural maia desde o Período Clássico até ao século XVI. Investigações recentes indicam que muita da mitologia da criação do Popol Vuh quiché, particularmente a porção que concerne aos heróis gémeos Junajpu e Ixbalanke, era conhecida dos maias Clássicos. Além do mais, partes desta secção podem ser localizadas no sítio Proto–Clássico de Izapa. Actualmente, tendo em conta as cenas pintadas  durante o Proto–Clássico e Clássico referentes ao Popol Vuh, fazem desta narrativa a mais velha mitologia documentada do continente americano.

A primeira parte do Popol Vuh descreve a criação do mundo e os seus habitantes. De  acordo com o Popol Vuh, as pessoas são feitas como alimento dos deuses, sendo o povo do milho, produto de uma plantação cósmica que providencia sustento aos deuses numa clara analogia aos ciclos de sementeira dos campos de milho.

A segunda maior porção do Popol Vuh concerne ás actividades dos dois irmãos gémeos, Ixbalanke e Junajpu, os grandes heróis que vão derrotar  os deuses da morte e demónios de Xibalba, no receado mundo subterrâneo. Muita da Mitologia em redor do jogo de bola entre os maias, no Período Clássico, centra-se no simbolismo dos jogos efectuados pelos irmãos gémeos no submundo, assim como na movimentação dos astros terrestres.

A terceira parte do livro centra-se na genologia de diversas etnias maias que habitaram as terras altas do México e Guatemala.

Segunda parte do texto, publicado na revista el poeta y su trabajo (Inverno de 2009), da autoria de Olvido García Valdés. Poeta, ensaísta e tradutora espanhola que nasceu em Santianes de Pravia (Asturias) em 1950.

Arshile Gorky. Good Hope Road II. Pastoral, 1945.

O poema, como paisagem, é um lugar onde nos é permitido falar com os mortos; também aí nos é permitido sentir a dor. Ambos se enredam de duração, o tempo ensimesmado na contemplação da coisa perdida. Assim caracterizava Benjamim em luto. (No que consiste a emoção, mostra-nos, por vezes, a falta de emoção. Quando ao ouvir ou ler uma frase sentimos que lhe falta emoção, percebemos que essa ausência tem que ver com algo relacionado com o tempo; a falta de emoção segue entrelaçada por alguma falha, ou claridade excessiva, no sentimento do tempo; como se a morte não tivesse impresso a sua marca.)

O poema não surge da mão da vontade ou da consciência, toma o seu tempo, espera, aparece ou não aparece, flui através da periferia, a periferia conforma aquilo que é central. Nessa fase, o trabalho é subterrâneo, algo de inconsciente ou pré-consciente coalhando, ocurrendo não quando se quer mas quando ele quer. Por exemplo, durante muito tempo soube que para a caça nocturna faltava-me um poema que respondesse ao que eu chamava de pastoral (Pastoral era também o título de um quadro de Arshile Gorky); esse poema tinha que ver com uma certa memória da minha infância, porém não soube escrevêlo até que se coagolou na forma de um sonho.

Numa entrevista, Garry Snyder referia-se à meditação com estas palavras: “De facto, como sabe, qualquer um que tenha praticado suficientemente a meditação, aquilo a que se aponta não é nunca o que se alcança. Aquilo a que se aponta não é, curiosamente, o que se obtém; a vontade consciente não pode alcançá-lo. Há que praticar uma espécie de distracção cuidadosa, no entanto relachada, que permite ao incosciente fazer o seu próprio trabalho de ascensão e manifestação. Porém, no momento em que alguém, alerta, se dispõe a apressálo, escapa-se, deslizando para o fundo. É algo muito semelhante ao que ocorre na caça estática: deténs-te nalgum lugar do bosque e permaneces imóvel até que as coisas começam a viver, começam a aparecer esquilos, pardais e coelhos que estavam aí desde o princípio, mas que mergulham nalgum lugar quando os observamos de perto. Também a meditação é assim”. Como a poesia.

INFLORESCÊNCIA

Azuli

«Não sabíamos nada das cores. Respirávamos nas alcovas do desejo com um labor secreto por tudo aquilo que está para vir, amadurecendo na densidade do tempo, no interior do mundo que não fora feito pela humanidade. Calaram-se as vozes e ergueu-se o poema alterando-se na combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação do amor. Escutamos os pássaros nervosos que perseguem os dias, como se do último se tratasse.»

Na terceira semana de Fevereiro sairá, pela mão da editora Companhia das Ilhas, o livro de poesia Um fio atravessa a noite de Diniz Conefrey

Para mais informação acerca desta editora, a página em linha onde também se encontra a folha #015 com as novidades editoriais: http://companhiadasilhas.pt/

Diniz Conefrey é autor dos livros de poesia No coração de Agave (Douda Correria, 2017) e Afluentes de Adobe, com Alexandre Sarrazola e Maria João Worm (Quarto de Jade, 2018), além de manter uma presença assídua, sobretudo como ilustrador, na revista Cão Celeste.

KAMA SUTRA

«O Kama Sutra (aforismos do amor) foi escrito na Índia algures entre o século I e V d.C. Diz-se que o seu autor foi Mallanga Vatsyayana mas pouco se sabe ao certo sobre ele, além do texto do Kama Sutra em si, que afirma “tendo sido compilado de acordo com os perceitos das Escrituras, para benefício do mundo, por Vatsyayana enquanto este levava uma vida de estudante de religião, emerso na contemplação do Divino”.

As Escrituras em questão eram, claro, os livros sagrados do Hinduismo, a religião dominante na Índia, e isto explica como um livro utilitário sobre o amor profano poude ser compilado por um estudante de religião. Ao contrário da maioria das religiões, o Hinduismo não é exclusivamente omisso das aparências, vendo as actividades humanas direcccionadas para três fins: Dharma, a aquisição do mérito religioso; Artha, o alcance de objectivos sociais e políticos, incluindo a saúde pessoal; e Kama, que inclui o amor e o prazer dos sentidos do outro. Nos tempos de Vatsyayana, apesar do mérito religioso ser sem dúvida considerado como importante, Artha e Kama não eram apenas tidos como legítimos mas, seguidos com preceito, tinham a sua própria parte no esquema divino das coisas. Em Kama, por exemplo, e especialmente na união sexual, um homem e uma mulher reencenavam a própria criação do cosmos.

Dharma, Artha e Kama todos foram mencionados em textos clássicos que pretendiam ser de leitura geral. O Kama Sutra reclama que é, essencialmente, uma compilação de outros trabalhos muito anteriores mas, se assim for, a sua qualidade é tal que esses textos desapareceram sem deixar rasto. Na Índia o Kama Sutra tornou-se o guia definitivo para as relações humanas – de tal maneira que a literatura Hindu está repleta de referências directas a ele, enquanto a sua influência na escultura e pintura é evidente.»

Douglas Mannering para a edição inglesa de 1994, ©Parragon Book Service Limited.