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OS HOMENS SEM ROSTO

Ilustração de Diniz Conefrey para a Revista do Jornal Expresso, 1992.

Montagem de oito minutos a partir do filme «Samsara», de Ron Fricke (2012) com o tema dos Underworld «I Exhale».

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TANGANHOS

“Chamam-se assim os ramos que secam nas árvores e se cortam, para que elas possam crescer melhor e dar mais fruto. Ou então, quando não se podam, aos que vão caindo ao chão e por ali ficam até serem apanhados por quem anda à cata de lenha. São muito bons para atear o fogo.”

Tanganhos, de Mariana Pinto dos Santos e ilustrado por Maria João Worm, é o primeiro livro publicado pelas Edições do Saguão, em Novembro de 2017. Formada em Agosto do mesmo ano, esta chancela propõe trazer aos leitores, em edições cuidadas, literatura e ensaio de autores nacionais e estrangeiros.

Este título, de 76 páginas, apresenta pequenos contos introspectivos com desenho gráfico de Rui Miguel Ribeiro.

Para ver mais em: Edições do Saguão – facebook ou Site da editora.

CORPO LUNAR

Um poema não é um lugar qualquer. Irradiação sentida que vibra em nervo descendo pela mão, desatando a cristalizar sentidos na ponta dos dedos, através do corpo das letras; vogando inertes na casca branca de uma folha de papel. Suavidade vegetal, incrustada de picos e seiva que da alquimia daremos voz a propósito do livro No coração de agave (Douda Correria, 2017) além de outros inéditos resgatados ao silêncio na livraria Paralelo W, mesmo ali na baixa…

SOPRO

Ilustração de Maria João Worm, 2011.

Era branco. Sabes quando não se consegue dormir e a luz fica na parede, projectada? Podemos estragar a imagem que se constituiu por anos e anos de ignorância. Sim. É o respiro das palavras. Sabes, ficam assim. Tontas. Assim. Sabes como é. A parecer assim e vai não vai. Assim. Sandálias desatadas. Nunca. Assim mesmo nunca, para nenhum lugar. E vamos fazer delas sapatos de segunda que nunca souberam proteger os pés. Pois claro que não. Pois somos de bom fundo e sabemos ver a subtileza da dor. Não sabíamos nada das cores. Respirávamos nas alcovas do desejo com um amor secreto por tudo aquilo que está para vir, com o mistério e a pureza do mundo que não fora feito pela humanidade. Calaram-se as vozes e ergueu-se o poema. No espanto da solidão caminha-se de mãos dadas. Mãos trémulas, por vozes hesitantes mas que aspiram à finalização da vida que respirada por dentro se transforma. E transforma em quê? A pergunta está deslocada, transforma-se porquê? Porque de súbito renasce a vontade de sentir. Não é aquela luz caduca e fugaz dos espectáculos mas a permanência do verbo que sente e que se altera pela combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação do amor.

A um mês da publicação do novo livro das Edições Quarto de Jade, partilhamos uma entrevista exclusiva, concedida ao Sabichão.

Sabichão – Depois da situação de viverem na prateleira ou dentro da gaveta, querem falar um pouco da vossa experiência de participarem neste livro?

Bambola – Ao princípio achei que provavelmente não me deveria expor, não sei se percebe…

Orso – Hum, hum. Quando nos contactaram pareceu-me que não sabiam muito bem o que pretendiam de nós…

Sabichão –  E já se conheciam?

Bambola – O Orso já tinha saído da gaveta… E eu queria muito sair da prateleira!

Orso – Lembro-me bem do dia, a Bambola perguntou-me, com um sotaque italiano delicioso, se eu lhe podia ensinar a falar correctamente português. Hum, hum!

Sabichão – E houve então um tempo de explicações?

Orso – De tal modo que a querida Bambola me re-nomeou, de Urso passei a Orso… Hum, hum!

Bambola – (risos) – Sim! Mas foi ele quem assim escolheu.

Sabichão – A ideia de passar para um livro, momentos da vossa vida, partiu de um desafio da Maria João Worm ?

Orso – Hum, sim… Ela explicou-nos que queria muito dar a conhecer a nossa voz, ela apenas registaria o que se fosse passando.

Bambola – Sim, a maior parte do tempo nem sequer tivemos presente o facto de estarmos a ser alvo de uma atenção e de uma intenção.

Sabichão – E quanto ao produtor da Quarto de Jade?

Orso – Hum, hum. Ele é responsável por uma certa tensão, sempre a querer ver as próximas cenas e a criticar pequenos detalhes.

Bambola – Então, quando apareceu o Pinóquio sem nariz o produtor pôs todo o livro em causa… Afinal nem estamos perante um registo documental, nem ficcionado. Decerto uma tendência contemporânea…

Orso – Sim, sim! Só no fim quando percebemos que todos conhecíamos a lebre da lua e que  podíamos partilhar essa graça encantadora, é que respirámos fundo…

– É inacreditável,  ninguém quer saber de nós,   nem  uma pergunta…- desabafou o jarro de 1/2 litro.

– Eu até prefiro assim- disse o copo de 2 decilitros.

A janela deixou entrar um vento que dava ares de trazer conversas de flores silvestres e passou tudo para outro plano. É mesmo bom quando se fica a sentir o sol, assim por dentro da cor que se mantém, mesmo com as pálpebras fechadas. – Acho que não são só as lagartixas que sabem isto.- murmurou o velho muro do pátio para a janela da sala que, ora abria, ora fechava.

 

A escolha de um nome é como um movimento interno que pretende determinar, numa súmula, os conteúdos emocionais sensíveis à razão. Fazendo parte também de uma expressão editorial, o nome Quarto de Jade encerra em si uma floresta de jade e um “crystal cabinet” segundo um poema de William Blake.

Se acabou sendo um quarto é um quarto com vista ampla, numa divisão que é também uma partilha. O jade define os seus contornos, de verdes leitosos e polidos, com seus veios gramaticais, representando os valores que se ligam a uma natureza primordial. Como a barra vertical do site, à esquerda do monitor, que é a raíz comum donde deriva a linguagem própria que define a individualidade de cada autor. Por isso existe, além deste blog e do site Quarto de Jade, uma página no facebook cujo princípio é o de partilhar os bastidores das nossas edições: https://www.facebook.com/quartodejade/

CONTAGEM DO TEMPO

Ombú de Pedro Figari. Óleo sobre cartão. Uruguai.

E entramos no ano novo sem esquecer as muitas vidas queimadas, as árvores, a terra violentada durante o ano anterior pelas alterações impostas por uma inteligência produtiva, sem capacidade de sentir a riqueza da vida no seu interior mais profundo. Amâgo que as capacidades intelectuais não conseguem ver pois o deslumbre e a distracção são os vícios de uma tecnologia confortável. Ouvimos dizer: «isto podia ser tão bom para toda a gente.» No fundo trata-se de um enunciado egoísta que envolve o facto de quem o diz se sentir mal com o que tem. Os outros, sejam seres sencientes ou passivos, estão lá para justificarem as necessidades morais e materiais do indivíduo: «não tenho o que preciso, preciso do que não tenho e a que acho que tenho direito.» Indignado, o corpo social do meio, esquece os que não têm margem para se manifestar porque apenas sobrevivem. O “eu”, da vivência ou das ideologias, ainda não acordou para reconhecer que apenas é o que critica nos outros. A orquestra continua a entoar as suas notas flutuantes, no palco do salão de festas, enquanto o Titanic se afunda arrastando os múltiplos acontecimentos numa gesta em fragmentação.