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LIVRO DA COMUNIDADE

Ilustração dos irmãos gémeos por Luis Garay, na edição para os mais jovens escrita por Victor Montejo para as edições Groundwood Books, Canadá 2005.

O termo Popol Vuh do idioma quiché pode ser traduzido como o “livro da comunidade”. Trata-se de um registo documental da cultura maia, produzido no século XVI tendo como tema a criação do mundo deste povo. Popol é interpretado como “comunidade” ou “conselho”, refereindo-se à identidade comum; e Vuh ou Wuj, em quiché moderno, significa “livro”. Tudo indica que o manuscrito original do Popol Vuh tenha sido escrito por volta de 1554-1558, em alfabeto latino no idioma quiché. Traduzido para o castelhano pelo frade Francisco Ximénez, em 1701, o documento manuscrito encontra-se hoje em Chicago, na Biblioteca Newberry. Em 1861, Charles Étienne Brasseur de Bourboung baseou-se na tradução de Carl Scherzer e publicou em francês o texto com o nome de Popol Vuh.

 Este livro é talvez o mais forte exemplo da continuidade cultural maia desde o Período Clássico até ao século XVI. Investigações recentes indicam que muita da mitologia da criação do Popol Vuh quiché, particularmente a porção que concerne aos heróis gémeos Junajpu e Ixbalanke, era conhecida dos maias Clássicos. Além do mais, partes desta secção podem ser localizadas no sítio Proto–Clássico de Izapa. Actualmente, tendo em conta as cenas pintadas  durante o Proto–Clássico e Clássico referentes ao Popol Vuh, fazem desta narrativa a mais velha mitologia documentada do continente americano.

A primeira parte do Popol Vuh descreve a criação do mundo e os seus habitantes. De  acordo com o Popol Vuh, as pessoas são feitas como alimento dos deuses, sendo o povo do milho, produto de uma plantação cósmica que providencia sustento aos deuses numa clara analogia aos ciclos de sementeira dos campos de milho.

A segunda maior porção do Popol Vuh concerne ás actividades dos dois irmãos gémeos, Ixbalanke e Junajpu, os grandes heróis que vão derrotar  os deuses da morte e demónios de Xibalba, no receado mundo subterrâneo. Muita da Mitologia em redor do jogo de bola entre os maias, no Período Clássico, centra-se no simbolismo dos jogos efectuados pelos irmãos gémeos no submundo, assim como na movimentação dos astros terrestres.

A terceira parte do livro centra-se na genologia de diversas etnias maias que habitaram as terras altas do México e Guatemala.

Segunda parte do texto, publicado na revista el poeta y su trabajo (Inverno de 2009), da autoria de Olvido García Valdés. Poeta, ensaísta e tradutora espanhola que nasceu em Santianes de Pravia (Asturias) em 1950.

Arshile Gorky. Good Hope Road II. Pastoral, 1945.

O poema, como paisagem, é um lugar onde nos é permitido falar com os mortos; também aí nos é permitido sentir a dor. Ambos se enredam de duração, o tempo ensimesmado na contemplação da coisa perdida. Assim caracterizava Benjamim em luto. (No que consiste a emoção, mostra-nos, por vezes, a falta de emoção. Quando ao ouvir ou ler uma frase sentimos que lhe falta emoção, percebemos que essa ausência tem que ver com algo relacionado com o tempo; a falta de emoção segue entrelaçada por alguma falha, ou claridade excessiva, no sentimento do tempo; como se a morte não tivesse impresso a sua marca.)

O poema não surge da mão da vontade ou da consciência, toma o seu tempo, espera, aparece ou não aparece, flui através da periferia, a periferia conforma aquilo que é central. Nessa fase, o trabalho é subterrâneo, algo de inconsciente ou pré-consciente coalhando, ocurrendo não quando se quer mas quando ele quer. Por exemplo, durante muito tempo soube que para a caça nocturna faltava-me um poema que respondesse ao que eu chamava de pastoral (Pastoral era também o título de um quadro de Arshile Gorky); esse poema tinha que ver com uma certa memória da minha infância, porém não soube escrevêlo até que se coagolou na forma de um sonho.

Numa entrevista, Garry Snyder referia-se à meditação com estas palavras: “De facto, como sabe, qualquer um que tenha praticado suficientemente a meditação, aquilo a que se aponta não é nunca o que se alcança. Aquilo a que se aponta não é, curiosamente, o que se obtém; a vontade consciente não pode alcançá-lo. Há que praticar uma espécie de distracção cuidadosa, no entanto relachada, que permite ao incosciente fazer o seu próprio trabalho de ascensão e manifestação. Porém, no momento em que alguém, alerta, se dispõe a apressálo, escapa-se, deslizando para o fundo. É algo muito semelhante ao que ocorre na caça estática: deténs-te nalgum lugar do bosque e permaneces imóvel até que as coisas começam a viver, começam a aparecer esquilos, pardais e coelhos que estavam aí desde o princípio, mas que mergulham nalgum lugar quando os observamos de perto. Também a meditação é assim”. Como a poesia.

INFLORESCÊNCIA

Azuli

«Não sabíamos nada das cores. Respirávamos nas alcovas do desejo com um labor secreto por tudo aquilo que está para vir, amadurecendo na densidade do tempo, no interior do mundo que não fora feito pela humanidade. Calaram-se as vozes e ergueu-se o poema alterando-se na combustão das cicatrizes de tudo o que, por intocável, aspira à libertação do amor. Escutamos os pássaros nervosos que perseguem os dias, como se do último se tratasse.»

Na terceira semana de Fevereiro sairá, pela mão da editora Companhia das Ilhas, o livro de poesia Um fio atravessa a noite de Diniz Conefrey

Para mais informação acerca desta editora, a página em linha onde também se encontra a folha #015 com as novidades editoriais: http://companhiadasilhas.pt/

Diniz Conefrey é autor dos livros de poesia No coração de Agave (Douda Correria, 2017) e Afluentes de Adobe, com Alexandre Sarrazola e Maria João Worm (Quarto de Jade, 2018), além de manter uma presença assídua, sobretudo como ilustrador, na revista Cão Celeste.

KAMA SUTRA

«O Kama Sutra (aforismos do amor) foi escrito na Índia algures entre o século I e V d.C. Diz-se que o seu autor foi Mallanga Vatsyayana mas pouco se sabe ao certo sobre ele, além do texto do Kama Sutra em si, que afirma “tendo sido compilado de acordo com os perceitos das Escrituras, para benefício do mundo, por Vatsyayana enquanto este levava uma vida de estudante de religião, emerso na contemplação do Divino”.

As Escrituras em questão eram, claro, os livros sagrados do Hinduismo, a religião dominante na Índia, e isto explica como um livro utilitário sobre o amor profano poude ser compilado por um estudante de religião. Ao contrário da maioria das religiões, o Hinduismo não é exclusivamente omisso das aparências, vendo as actividades humanas direcccionadas para três fins: Dharma, a aquisição do mérito religioso; Artha, o alcance de objectivos sociais e políticos, incluindo a saúde pessoal; e Kama, que inclui o amor e o prazer dos sentidos do outro. Nos tempos de Vatsyayana, apesar do mérito religioso ser sem dúvida considerado como importante, Artha e Kama não eram apenas tidos como legítimos mas, seguidos com preceito, tinham a sua própria parte no esquema divino das coisas. Em Kama, por exemplo, e especialmente na união sexual, um homem e uma mulher reencenavam a própria criação do cosmos.

Dharma, Artha e Kama todos foram mencionados em textos clássicos que pretendiam ser de leitura geral. O Kama Sutra reclama que é, essencialmente, uma compilação de outros trabalhos muito anteriores mas, se assim for, a sua qualidade é tal que esses textos desapareceram sem deixar rasto. Na Índia o Kama Sutra tornou-se o guia definitivo para as relações humanas – de tal maneira que a literatura Hindu está repleta de referências directas a ele, enquanto a sua influência na escultura e pintura é evidente.»

Douglas Mannering para a edição inglesa de 1994, ©Parragon Book Service Limited.

TINTA NOS NERVOS

No próximo sábado, dia 25 de Janeiro, pelas 16H30, faremos a apresentação do livro Floema Dorsal, de Diniz Conefrey, na livraria Tinta nos Nervos – Rua da Esperança 39, em Santos.

Um convite a todos para participarem numa conversa em redor de um livro que ensaia diversas abordagens de justaposição entre banda desenhada abstracta e figurativa. A sequencialidade pode não estar dependente de uma intriga, ou mesmo da presença humana, como já havia sido proposto no livro Meteorologias em 2016. Ao contrário deste último, a tónica, neste novo livro, assenta na abordagem rítmica de fluxos temporais representados, maioritariamente, por formas volumétricas. Recordaremos as origens que levaram ao desenvolvimento destas narrativas, que se desenvolvem como temas musicais, na sua relação formal e intuitiva, realçando o “sentir” como condição cognitiva através de uma expressão não planeada de acontecimentos visuais em progressão, modelando uma escala de tempo. O que poderá emergir se, de manhã, abrirmos a janela e um outro olhar convocar aquilo que habitualmente não estamos atentos a ver?

A conversa contará com a presença do autor, de Maria João Worm, co-editora da Quarto de Jade e artista colaboradora em Floema Dorsal, além de Mariana Pinto dos Santos, historiadora de arte e editora.

 

 

Começamos aqui a transcrever um texto, dividido em três partes, publicado na revista el poeta y su trabajo (Inverno de 2009) da autoria de Olvido García Valdés. Poeta, ensaísta e tradutora espanhola que nasceu em Santianes de Pravia (Asturias) em 1950. Coeditora da revista poética Los Infolios foi fundadora e membro do conselho editorial de El signo del gorrión. Entre vários dos seus livros poderíamos mencionar La poesía, ese cuerpo estraño (2005) e Y todos estában vivos (2006).

Escrever notas de poética apenas serve para assinalar em que direcção olhamos quando se fala de poesia. Não remete, pois, aos próprios textos – que, além do mais, em parte desconhecemos por excesso de proximidade –, apenas se pretende discernir nessas palavras que nos tenham assombrado ou comovido e que, em prosa ou em verso, chamamos poemas (assim, por exemplo, parecem-me poemas muitas das anotações do Diário de Katerine Mansfield, em especial as que correspondem ao último ano, 1922. São as necessidades dessa escrita e uma rara transparência que dão aos textos uma natureza cristalina e acutilante, onde apenas se chega por despojamento, por se ter de olhar cara a cara os dias que passaram; disfrutados, saboreados sabendo que esse pássaro, essa taça de chá, essa luz, deslizam para o derradeiro. Pois, quem sabe, distingue o poema uma certa atitude na escrita, talvez tenha menos que ver com o verso ou com o ritmo e imagens mas com uma certa atitude no que diz respeito à escrita que o origina; e ao efeito dessa atitude poderia chamar-se tom).

O poema é sempre retrospectivo, mas a dilatação lírica adere à respiração; o pensamento do poema não procede por análise mas por condensação, condensando-se em associações, em ritmos e montagem. Trata-se de um pensamento perceptivo, intuitivo e lacónico, sensorial. (…) A visão que cada poeta tem do mundo toma como base pulsões da infância; as imagens ou motivos que essas pulsões vão ocupando variam com o tempo; o ritmo dessa variação assemelha-se a uma espiral. A arte sabe tudo sobre o corpo do artista, por isso alguns poemas dizem coisas que talvez quem os escreveu não sabia.

O poema, como a paisagem, é um lugar onde nos é permitido falar com os mortos; também aí nos é permitido sentir a dor. Ambos se enredam de duração, o tempo ensimesmado na contemplação da coisa perdida. (…) (No que consiste à emoção, mostra-nos, por vezes, a falta de emoção. Quando ao ouvir ou ler uma frase sentimos que lhe falta emoção, percebemos que essa ausência tem que ver com algo relacionado com o tempo; a falta de emoção segue entrelaçada com alguma falha, ou claridade excessiva, no sentimento do tempo; como se a morte não tivesse impresso a sua marca).

FILAMENTOS

No final de um ciclo, histórias para o bom presente, celebrando o novo ano que se aproxima. Da prateleira um fiozinho sai de um livro, lembra-nos uma planta verde que vimos crescer de uma fechadura, na porta de uma casa desabitada. Desta imagem que parecia um cadeado sem intenção, sustem-se outra, que vem do gesto. Breve passagem, uma marca entre as folhas que aguarda o reencontro com a frase em aberto.

 

 

CAMINHOS DO INTERIOR

 

Festa de Santo Estêvão em Grijó de Parada. Bragança, 26 e 27 de Dezembro. Fotografia do Catálogo «Máscara Ibérica».

Umas breves linhas para dar conta da nossa passagem pela cidade de Bragança, que vale a pena conhecer. Cidade do interior já perto da fronteira, naturalmente pequena na sua dimensão física mas apresentando vários aliciantes que poderão ser invejáveis a outras localidades no país. A paisagem transmontana, só por si, seria suficiente para voltar a sentir uma identidade profunda, onde a intensidade das neblinas e nuvens carregadas tocam a densidade dos cumes, ao longo de largo espaço de campo sem a presença de vida humana. Longe, portanto, das grandes zonas urbanas e seus universos virtuais. No café Princípe Negro pode-se fumar e a amabilidade do atendimento providenciou um almoço que, para vegetarianos, é sempre complicado fora da faixa mais cosmopolita desta nossa nacionalidade. As pessoas do interior não têm uma simpatia estudada, são elas próprias nas suas características mais genuínas o que, aparentemente, poderá trazer algum desconforto que não é senão um reconhecimento de identidade. Um frio de rachar que, de noite, atravessa a roupa e os próprios ossos, mas esta é a melhor estação para viajar. As cores do Outono lembram como o lazer e a melancolia podem estar unidas no sopro que estas terras respiram.

Zadok Ben-David. Peopel I saw but never met 2015/2019 (detalhe da instalação no prospecto do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais).

Da seiva silvestre que a pintora Graça Morais catalisa ao devolver o sopro ao olhar dos visitantes do Centro de Arte Contemporânea, com o seu nome, instalado num edifício exemplar; tanto na sua arquitectura, preservação e espaço. Pinturas e desenhos fixando de modo penetrante a alma destes lugares ou as cenografias pintadas para peças teatrais, além do seu trabalho mais recente, Metamorfoses da Humanidade. Tivemos ainda oportunidade de visitar a exposição de Zadok Ben-David, People I saw but never met. Imagine-se pessoas de todo o mundo em esculturas que se formam através de linhas de desenho, «como se os traços se automatizassem da superfície ou tivessem saltado da folha de papel para o espaço arquitectónico.» Ao lado deste museu encontra-se o Centro de Fotografia Georges Dussaud (Brou, França, 1934) que apresenta inúmeras fotografias que este francês captou nesta região que conheceria, por mero acaso, na década de 1980. No ponto mais elevado da cidade encontra-se o castelo, incluindo várias habitações e alojamentos locais além do Museu Ibérico da Máscara e do Traje que remete para os Caretos. Uma sobreposição de tradições pagãs e cristãs celebrando vários eventos desde o Outono até à Páscoa ou, no caso de localidades espanholas, durante o mês de Agosto, no Verão. De Bragança a Zamorra, uma tradição Ibérica, sobretudo no período natalício, dia de Reis e Carnaval.  Última nota para o deslumbrante passeio pedonal que, do castelo, leva a percorrer o Rio Fervença, passando pelo Museu da Ciência antes de voltarmos a entrar na cidade pelo lado das sombras silenciosas e do marulhar das águas, descendo cascatas de pura canção.

ROUPA EM SEGUNDA MÃO

Tinha-me dito que nunca mais deveria escrever sobre coisas tristes.

A tristeza sabemo-la todos. É um lugar que convida à permanência, uma casinha remendada, pronta a habitar, apta a não construir mais nada a não ser andares iguais, com vista amplamente dirigida para a única mancha de humidade na parede.

Embora cada vez mais sinta que ao não fazer, sendo a forma mais difícil, possa deste modo aceder ao que parece mais incorruptível.

Tinha-me dito que deveria só falar depois de reflectir. Depois de ter um modo claro, ou pelo menos mais esclarecido, para então agir segundo o para lá da escuridão.

E não havendo nada para dizer, manter-me simplesmente no silêncio, com a paciência de um apicultor, mas com a exposição do corpo de uma lesma.

Mas vi uma mancha de luz sentada nuns degraus, a descansar, embora não tenha a certeza se de facto não seria a sombra que a prendia.

No jardim vi rostos de mulheres nos troncos das árvores mais distantes enquanto o verde, varejeiro e natural, com uma breve verdade as respirava.

Troncos bulbosos com crescências, torções que se enforcavam a si próprias, como por vezes nos aparece descrito numa vinha.

Tentei lembrar-me de palavras onde, eu tal como a luz, pudesse descansar, mas a voz respondeu-me vinda dos veios do chão, directamente das lajes empedradas.

Chão humano, de pequenos túmulos justapostos, poços secos e porosos, tapando um fundo ainda vivo como as estrelas.

 

A decorrer desde o dia 24 de Outubro, o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora continua a marcar presença no Fórum Luís de Camões. Deixamos aqui o link para o programa das exposições deste ano: http://amadorabd.com/amabd2019/index.php/programa/exposicoes.

Como já vem acontecendo durante este evento, vários títulos das edições Quarto de Jade estão disponíveis no espaço da livraria Dr Kartoon. Editados durante este ano podem encontrar os livros Planície Pintada, Cardos Maduros ou Floema Dorsal. Além de edições anteriores como L’Orso Borotalco e la Bambola Nuda Italiana, de Maria João Worm ou Nagual, Meteorologias, O livro dos Dias e Os Labirintos da Água de Diniz Conefrey.

Os autores estarão presentes, no fim-de-semana de encerramento do Festival, nos dias 1, 2 e 3 de Novembro, das 15h00 ás 18h00, durante a sessão de autógrafos, para assim contactarem directamente com os leitores interessados nas narrativas gráficas que temos vindo a publicar. Citando Thierry Groensteen, tudo o que dura contém música – da mesma forma que tudo o que é visível contém desenho e tudo o que se move contém dança. Ritmos, sejam eles breves ou extensos, definem a “música” que os nossos livros propõem ao converter o espaço em tempo, com ou sem palavras.